quarta-feira, 28 de maio de 2008

País regride em meta educacional para ODM

Proporção de alunos que permanecem na escola até concluir o ensino fundamental recua no Brasil, na contramão dos Objetivos do Milênio

O Brasil tem regredido na tarefa de garantir que todas as crianças completem um ciclo básico de ensino — uma das metas previstas nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM, um conjunto de avanços socioeconômicos que os países da ONU se comprometeram a alcançar até 2015). Os dados mais recentes do Ministério da Educação mostram que, se a situação não se alterar, apenas 53,8% dos alunos que em 2005 ingressaram na primeira série do ensino fundamental concluirão a oitava série.

O indicador, chamado de taxa esperada de conclusão — que estima a porcentagem de alunos que devem completar um ciclo de ensino —, é um dos usados no segundo Objetivo do Milênio, que prevê universalizar o ensino básico. A ONU sugere que o indicador se refira aos cinco primeiros anos de ensino (que seria equivalente no Brasil à primeira fase do ensino fundamental), mas não há informações sobre esse período no banco de dados do MEC, o Edudatabrasil, desenvolvido com apoio do PNUD. No entanto, o próprio governo brasileiro se auto-impôs uma meta mais ambiciosa: a de garantir que até 2015 100% das crianças concluam o ensino fundamental.

A taxa de conclusão do ensino fundamental estava em 51,9% em 1995, melhorou nos anos seguintes e chegou a 65,8% em 1997, mas desde então tem predominado uma tendência de queda. A proporção de alunos da primeira série que concluiriam a oitava era de 62,3% em 2001, caiu nos três anos seguintes (57,1% em 2002, 54,0% em 2003 e 53,5% em 2004) e subiu um pouco em 2005, para os 53,8%.

Todas as regiões brasileiras já estiveram melhores do que estavam em 2005. O Nordeste é o que tem a pior taxa (a cada dez estudantes que ingressam no fundamental, menos de quatro o concluem) e é o único em que o indicador de 2005 é inferior ao de 1995 (38,7% e 41,0%, respectivamente). No Sudeste, a taxa cai ininterruptamente desde 2002, de modo que a região, que tradicionalmente tinha os melhores números do Brasil, foi superada pelo Sul em 2005 (69,1%, contra 66,6% no Sudeste). A porcentagem é de 40,5% no Norte e 54,2% no Centro-Oeste.

Analistas apontam que esse fenômeno é parcialmente explicado pelo fato de que, nos últimos anos, as séries iniciais receberam um número maior de crianças, sobretudo de famílias mais pobres. Como enfrentam dificuldades de diversos tipos (transporte, saúde, necessidade de trabalhar para complementar a renda da família), elas freqüentemente abandonam os estudos antes de completarem a oitava série, o que reduz a taxa de conclusão.

"Em que pesem os limites desse indicador, o que vem à mente como primeira explicação é que nesse período de dez anos houve uma inclusão muito grande no acesso ao ensino fundamental, que significou incluir crianças que estavam nas piores condições sociais no país", afirma Paulo Corbucci, doutor em educação e técnico em planejamento e pesquisa do IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas).

Parte do problema também está dentro da escola, avalia Tatiana Filgueiras, especialista em administração do terceiro setor e coordenadora de avaliação e desenvolvimento do Instituto Ayrton Senna. "A família dessas crianças não tem como custear a permanência em um lugar em que não estão aprendendo nada, e elas acabam deixando a escola. Quando você analisa os números de abandono por faixa econômica, os que estão mais prejudicados são os 20% mais pobres da população. A escola pública não está funcionando para eles, justamente para quem deveria funcionar." Tatiana destaca que "o aspecto da desigualdade na educação é imenso e um obstáculo para atingir quaisquer metas de qualidade e de fluxo que se estipule para o Brasil".

A taxa esperada de conclusão é baseada num cálculo matemático, conhecido como modelo de fluxo, que considera entrada e saída de estudantes no sistema de ensino, permeado por índices de aprovação, reprovação e abandono. "A partir do ano que vem, vamos ter o censo por aluno, e esse modelo vai ficar obsoleto. Assim, vamos saber, exatamente, quando o aluno entrou na primeira série, quando entrou na oitava ou quando abandonou a escola", afirma a especialista do Instituto Ayrton Senna.

Soluções
Para o Brasil cumprir essa meta dos Objetivos do Milênio, será necessária uma “intervenção muito séria” nos processos de dentro e de fora da escola, defende Corbucci, do IPEA. "O que o Ministério da Educação está defendendo agora, o aumento do percentual do PIB investido em educação, de 4% para 6%, é fundamental, principalmente para corrigir as desigualdades regionais. Essas desigualdades regionais estão fundamentalmente vinculadas à questão da renda. Não só, mas principalmente", afirma.

O aumento da verba para educação possibilitaria melhorar instalações, infra-estrutura, currículo, livro didático, alimentação escolar e a informatização das escolas. "Mas se tivesse de eleger uma entre as principais ações seria a questão do professor. Valorização, formação continuada e aquilo que está incluído no compromisso de metas Todos Pela Educação, a responsabilização. Não só do professor, mas de todos aqueles vinculados ao processo educacional", afirma.

A questão da responsabilização também é apontada como essencial por Tatiana Filgueiras. "Os profissionais têm de ser apoiados, em primeiro lugar, e responsabilizados por resultados. É preciso trazer um pouquinho do que se aprende com empresa para o universo de administração pública", propõe. "A escola pública perdeu o foco gerencial, que é o que os Objetivos do Milênio fizeram. Tem de estabelecer meta para o Brasil, para cada rede, para cada escola, para cada sala de aula e para cada aluno. As pessoas que trabalham nesse sistema integrado de educação têm de se responsabilizar pelo seu pedacinho. O professor na sala de aula tem de alcançar a meta dele, para que a sala alcance a meta dela, e depois a escola, para esse sistema subir novamente em conjunto", argumenta.

Corbucci ainda considera possível que o Brasil consiga atingir a meta dos Objetivos do Milênio, embora seja difícil. "Acho que o que importa não é a gente chegar aos 100% em 2015. O que importa é a gente estar caminhando em direção a isso. Mas estamos regredindo. Isso não pode."

O segundo ODM
Com o segundo Objetivo de Desenvolvimento do Milênio, sobre a universalização do ensino básico, os países da ONU se comprometem a garantir que "todas as crianças, de ambos os sexos, terminem um ciclo completo de ensino básico", que seria o equivalente aos cinco primeiros anos. O Brasil assumiu para si metas mais rígidas: todas as crianças devem concluir o ensino fundamental (1ª a 8ª série; com a incorporação do antigo pré-primário ao ensino fundamental, será da 1ª à 9ª série).

Na prática, isso significa que o número de 53,8%, de 2005, terá de ser de algo próximo de 100% em 2015.



Osmar Soares de Campos, do Pnud

Envolverde, 28/05/08
© Copyleft - É livre a reprodução exclusivamente para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam citados e esta nota seja incluída.

Mais...

Brasileiros estão na lista dos 100 mais influentes

Alfredo Assumpção, CEO da Fesa Global Recruiters, descobriu a vocação para "hunting" no RH do Chase Manhattan
Foto Sergio Zacchi / Valor

Dois brasileiros foram incluídos na lista dos 100 headhunters mais influentes do mundo da revista "BusinessWeek". São eles: Alfredo Assumpção, CEO da Fesa Global Recruiters e Jacques Sarfatti, "managing director" da Russell Reynolds Associates.

A seleta lista reúne profissionais das mais diversas nacionalidades. A escolha, segundo a revista, levou em conta a reputação individual, os anos de experiência na área, o olhar global de suas práticas de recrutamento, sua visibilidade entre os clientes do mercado no qual atuam e o reconhecimento que possuem entre as firmas e a comunidade de "executive search" mundial.

O mercado de "executive search" movimenta atualmente U$ 10 bilhões no mundo. Nele, atuam hoje headhunters com perfis diversificados. São consultores, executivos de recursos humanos, autores, conselheiros, graduados em escolas de negócios de primeira linha, empreendedores ou conselheiros de confiança dos líderes mais poderosos do planeta.

Os brasileiros escolhidos pela revista têm backgrounds bem diferentes entre si. Assumpção, 57 anos, é economista. Sarfatti, 46 anos, é engenheiro. Mas ambos tornaram-se hedhunters depois de uma longa experiência profissional na indústria.

Assumpção, CEO da Fesa Global Recruiters, começou a carreira na Kibon como apontador de cartões de ponto, na área de recursos humanos. Aos poucos, foi galgando postos em outras companhias até chegar à direção de RH do banco Chase Manhattan. "O banco estava mudando seu perfil, de comercial para investimentos, e eu precisei buscar as pessoas certas para essa transição", conta. Foi nessa busca, que ele descobriu uma brecha no mercado e sua vocação para o "hunting".

Ele conta que era muito difícil encontrar profissionais com o perfil certo para os bancos de investimento. Decidiu então montar uma empresa que atendesse essa demanda por especialidades na área financeira, a Fesa. O negócio que começou pequeno há 12 anos, firmou uma parceria internacional com a IIC Partners em 2005. Hoje, atende os diversos setores da economia. "Só no primeiro trimestre deste ano nossa demanda aumentou 88% em relação ao mesmo período do ano passado", comemora. Em quatro anos, ele contabiliza um crescimento de 641%. Com a boa performance, o CEO da Fesa ganhou assento no "board" da IIC Partners como representante da região das Américas.

O "managing director" da Russell Reynolds Associates no Brasil, Jacques Sarfatti, começou a atuar na seleção de executivos em 1999. Ele havia iniciado a carreira como consultor na extinta Arthur Andersen (atual Accenture). Depois, ingressou no setor industrial. Seu primeiro grande desafio foi assumir a diretoria operacional da Rheem, fabricante de latas. "Comandei 1,2 mil pessoas, de quatro fábricas, durante três anos", lembra. Depois disso, foi diretor operacional da Alcoa.

Na Russell Reynolds, Safartti é responsável pelo recrutamento de executivos na área industrial. Há três anos, responde mundialmente pelo setor de commodities, que inclui metalurgia, siderurgia, papel e celulose e agribusiness. O headhunter acredita que o perfil de quem segue carreira como "caça-talentos" mudou radicalmente nos últimos anos. "Muitos vêm da indústria e não mais da área de recursos humanos", diz. O processo de seleção hoje é muito mais complexo, segundo ele. "É preciso entender do negócio e não apenas preencher uma vaga", diz.

As empresas estão mais exigentes em suas demandas por executivos e cobram resultados mais precisos dos headhunters. "Antes um executivo com inglês fluente era suficiente, hoje não é mais. Um MBA era o bastante, hoje não é mais. Conhecer a Europa e os Estados Unidos era importante, hoje eles precisam conhecer a Ásia", explica.

Safartti diz que a habilidade para encontrar bons técnicos é vital, mas agora existem outras exigências. As empresas querem executivos que se adaptem rapidamente a novas culturas e cabe aos recrutadores encontrar quem reúna as duas competências. "Nossa procura também é muito mais global", diz. Há nove anos, ele conta que costumava viajar esporadicamente para os Estados Unidos e Europa. "Hoje de 10 viagens por ano, duas pelo menos são para a Ásia".


Stela Campos, de São Paulo
Valor Online, 26/05/08

Mais...

Sindicatos negociam acordos para evitar multas


As dificuldades das empresas em cumprir as exigências da Lei nº 8.213, de 1991, a Lei de Cotas, têm levado a Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de São Paulo a fechar acordos com sindicatos de empregadores paulistas, que prorrogam por dois anos o período para a contratação de portadores de deficiências. Ao negociar estes prazos, as empresas conseguem ainda evitar multas por descumprimento da legislação, mas ficam obrigadas a cumprir determinadas metas. Ao todo, o órgão já firmou pactos com 14 sindicatos de diversos setores.

A Lei de Cotas estipula que o quadro de funcionários das empresas deve ser preenchido, num percentual de 2% a 5%, com a contratação de portadores de deficiência, sob o risco de pesadas multas - fator que nos últimos anos tem sido observado com rigor pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). No Estado de São Paulo, por exemplo, entre 2001 e 2008, a superintendência aplicou 400 multas anuais, em média. Neste mesmo período, 85 mil deficientes foram contratados em função da fiscalização no Estado.

Segundo José Carlos do Carmo, fiscal da superintendência, os pactos objetivam garantir que as inclusões sejam realizadas com qualidade. Isto representa o cumprimento por parte das empresas de uma série de requisitos: programas de capacitação dos profissionais portadores de deficiência, adaptações arquitetônicas no ambiente de trabalho, criação de um banco de dados e a ampla divulgação das vagas existentes.

O primeiro acordo desta natureza foi fechado em 2006 com o Sindicato da Indústria Farmacêutica do Estado de São Paulo (Sindusfarma), representando 45 indústrias. Deste então, as empresas contrataram 906 deficientes, número inferior aos 1.300 a que se dispuseram a empregar no período. Do total de empresas participantes, apenas 5% conseguiu cumprir a cota integralmente.

Uma das dificuldades apontadas pelo setor é o fato de a maioria dos funcionários ser representante de vendas, o que exige dispendiosas adaptações nos veículos utilizados. Segundo Gabriela Tierno, diretora de recursos humanos da farmacêutica Astrazeneca, apesar das dificuldades, a companhia conseguiu cumprir a sua cota de 4% em 2007, o que significou a contratação de 40 portadores - todos para a área administrativa. Este ano, a empresa contratou mais 150 funcionários. "Tivemos que reduzir a exigência de conhecimentos dos contratados", diz Gabriela, referindo-se a outro problema enfrentado: a baixa escolaridade dos candidatos.

Na Companhia de Concessões Rodoviárias (CCR), que congrega cerca de dez empresas, o programa de capacitação para deficientes teve de incluir matérias escolares como matemática e português. Até agora, nenhuma das empresas da CCR - que juntas têm 4,5 mil funcionários - conseguiu cumprir a cota. Foram contratados apenas 55 portadores de deficiências. Por isso, a CCR está prestes a firmar um pacto com a Superintendência Regional do Trabalho.

Segundo a advogada Kátia Bicudo, coordenadora do programa de inclusão na CCR, a companhia não foi multada porque a superintendência percebeu o alto risco de portadores de deficiência cruzarem as rodovias. Cerca de 80% dos funcionários da CCR estão nos pedágios. "Queremos portadores não só na parte operacional, mas em áreas como direito e engenharia", diz Kátia.

Este mês, o setor de construção pesada, representado pelo Sindicato da Indústria da Construção Pesada do Estado de São Paulo (Sinicesp), firmou um pacto para estender o cumprimento da Lei de Cotas por dois anos. Segundo César Augusto Del Sasso, supervisor jurídico do Sinicesp, que possui 800 empresas associadas, nenhuma delas atingiu o percentual exigido e algumas já foram autuadas. De acordo com Sasso, a dificuldade em incluir portadores no setor é que o trabalho da maioria dos funcionários é de risco. Há uma empresa do setor petrolífero, por exemplo, que precisa contratar 200 deficientes e, até agora, só conseguiu inserir oito, pois há 40 funcionários na área administrativa e dois mil nos dutos de escavação.

Até agora, o único pacto renovado foi o da indústria farmacêutica, mas, em setembro, há outro com chance de ser revalidado: o do Sindicato das Empresas de Prestação de Serviços a Terceiros de São Paulo (Sindeprestem), que reúne cerca de mil empresas fornecedoras de mão-de-obra em setores variados. De acordo com Joelma de Matos Dantas, supervisora jurídica do Sindeprestem, a maioria das empresas não aderiu ao pacto por receio de não cumpri-lo. Apesar disto, 60% das que aderiram conseguiram atingir a cota.

Apesar de não ter fechado nenhum acordo oficialmente, o setor bancário tem conseguido evitar as multas. Um exemplo é o HSBC, que possui 27 mil funcionários no país. O banco conseguiu contratar 560 deficientes desde 2005 - cerca de metade da cota. O banco possui um curso remunerado de capacitação, com duração de oito meses e, ao fim do mesmo, os portadores podem ser contratados. "Estamos cumprindo tudo o que prometemos à fiscalização, desde 2005", diz Luis Moura, gerente de recursos humanos do HSBC.


Luiza Carvalho, de São Paulo
Valor Online, 26/05/08

Mais...

Inclusão social no PNPB

Em janeiro de 2005, por meio da Lei 11.097, foi criado o Programa Brasileiro de Produção e Uso de Biodiesel - PNPB. O programa prevê, entre outras vantagens, a redução de tributos federais sobre a produção de biodiesel, desde que as empresas produtoras incluam, em seus projetos, a agricultura familiar, obtendo, assim, o Selo Combustível Social, um instrumento de incentivo ao setor produtivo e que tem contribuído para o desenvolvimento do programa. O resultado, após três anos, é que, praticamente inexistem no mercado projetos que não tenham a participação dos agricultores familiares.

Para analisar o alcance do programa na geração de ocupação e renda entre os agricultores familiares, realizamos recentemente uma pesquisa, pelo Programa de Pós-Graduação em Administração de Organizações da FEA-RP/USP, junto aos produtores de Goiás, estado em que o PNPB tem avançado em função das condições oferecidas pelo programa para a região Centro-Oeste como um todo. Buscou-se medir qual o nível de variação na renda e na ocupação dos produtores inseridos no PNPB. O critério adotado foi a renda informada pelos produtores, com suas atividades no contrato que firmaram para o fornecimento de matéria-prima para o biodiesel, além da renda das demais atividades que continuaram a desenvolver.

Constatamos, na pesquisa, que a composição da renda familiar era constituída, principalmente, da produção de soja, algodão, milho, feijão e leite. Observamos também que os produtores utilizavam em média 68 hectares para o desenvolvimento de suas atividades e diminuíram para 39 hectares, após a entrada no programa, uma redução, portanto, de 77,11% em relação ao tamanho anterior. A área média encontrada nos contratos para a produção de biodiesel foi de 42 ha, uma área considerada grande para agricultores familiares. Não é difícil entender que a cultura da soja exige áreas maiores, para ser economicamente viável, do que culturas como a mamona.


A área média da cultura voltada para o biodiesel, 42 ha, somada com a área destinada a outras atividades, 39 ha, totaliza uma área de 81,21 hectares em uso. Isto significa que os produtores que entraram no PNPB aumentaram, em média, de 68 para 81 hectares, o que representa uma variação de 19,44%. Podemos perceber, assim, que existe uma divisão, ao meio, da área contratada para produzir matéria-prima destinada ao biodiesel e aquela das demais culturas. Essa decisão indica uma opção dos produtores familiares pela diversificação.

No gráfico a seguir, podemos visualizar a presença dos produtores em cada atividade e a renda média que cada uma delas proporciona.

Percebemos, pelo gráfico, que a soja, o milho, o leite e o arroz são as atividades mais importantes, tanto do ponto de vista da renda quanto da presença dos produtores familiares. Observamos, também, que os contratos pelo PNPB, por enquanto, têm provocado pequena mudança, pois a soja já era uma cultura que compunha parte das atividades desses produtores, e a mamona ainda é insignificante. Por outro lado, entende-se que isso pode ser considerado bom para os produtores, pois continuam produzindo a cultura com a qual já têm experiência, ou seja, a soja.

-----------------------------------------
O PNPB têm provocado pouca mudança de cultura, pois a soja já era utilizada e a mamona ainda é insignificante
-----------------------------------------

Isso pode significar também que grande parte dos produtores não está mudando de negócio, a não ser aqueles que estão produzindo mamona, mesmo que em pequenas áreas. A mudança total das culturas com as quais estão acostumados poderia representar um grande risco para esses produtores e para as empresas contratantes - daí, talvez a decisão de produzir soja e, no máximo, mamona em pequenas áreas. Essa é uma constatação de que os produtores familiares que estão sendo contratados, dentro do PNPB são produtores familiares tradicionais.

Em uma análise da renda dos produtores, o resultado encontrado foi de R$ 35.350,00, ou R$ 2.945, 33 mensais. Numa comparação por área, encontramos o valor de R$ 435,29/ha, uma variação positiva de 20,16% em relação ao valor anterior de R$ 362,26/ha.

Realizou-se, ainda, uma análise separada da renda total dos produtores, relacionada aos dois grupos pesquisados: soja e mamona. Encontrou-se uma diferença significativa entre esses dois grupos de produtores. Os produtores de mamona já apresentavam baixo nível de renda antes, situação que permaneceu depois de assinarem contratos com as empresas de biodiesel. Esse grupo representou na pesquisa cerca de 30% dos participantes.

Na tabela ao lado, podemos observar a renda dos produtores familiares com a produção de matéria-prima para a indústria do biodiesel.

Observa-se que, para 15,6% dos produtores, a renda líquida foi quase nula, enquanto para 6,2% foi de R$ 58.715,00, o que demonstra a distância entre os que ganharam mais e aqueles que ganharam menos. Em todas as análises constatamos, portanto, que existem dois grupos distintos de produtores familiares no PNPB: um bem estruturado do ponto de vista econômico, produzindo soja e, outro, mais fragilizado economicamente, produzindo mamona.

Essa grande distinção entre os produtores familiares que estão ingressando no PNPB pode contribuir para distorcer um dos principais objetivos do programa, que é produzir biodiesel de forma sustentável técnica e economicamente, promovendo a inclusão social, através da geração de ocupação e renda para grande parte da agricultura familiar. O desafio do governo e dos demais atores envolvidos com o programa, portanto, é estabelecer novas medidas que possam favorecer a participação desses produtores familiares que mais necessitam dos incentivos do programa, para que possam produzir e gerar sua própria renda.


Vicente da Rocha Soares Ferreira e Cláudia Souza Passador

Professor, mestre em administração pela FEA-RP/USP e membro do Instituto Volta ao Campo e do GPublic.
Socióloga, jornalista, professora do Departamento de Administração da FEA-RP/USP e Coordenadora do GPublic.

Valor Online, 26/05/08

Mais...

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Tupperware resgata modelo de reuniões e cresce 50%

Paola Kiwi, da Tupperware: reajuste de preço ajudou a recuperar rentabilidade
Foto Ana Paula Paiva / Valor

A Tupperware está voltando às origens para recuperar vendas no mercado brasileiro. As "reuniões de Tupperware", como ficaram conhecidos os encontros regados a chá da época das nossas mães e avós, são novamente a principal arma de marketing da marca, que virou sinônimo de recipiente plástico para guardar alimentos. Hoje, a empresa vende o equivalente a 20% do volume que comercializava em 1996, seu melhor ano no Brasil. "Há 10 anos a operação brasileira era tão grande e forte como a do México ou da Alemanha", diz Paola Kiwi, diretora geral da Tupperware no país, citando dois dos maiores mercados mundiais da companhia. "Perdemos espaço porque tiramos o foco do motor do negócio: nossa força de vendas e o modelo de reuniões", diz.

Paola não entra em detalhes sobre os equívocos da estratégia anterior, mas diz que houve uma tentativa de aproximação com o sistema de venda de cosméticos porta-a-porta, sem levar em conta as peculiaridades do produto. "O cosmético acaba, posso vender várias vezes para a mesma pessoa, então a delimitação geográfica da atuação das revendedoras funciona bem. Com Tupperware isso é mais difícil", afirma. Além disso, no caso dos potinhos, não basta deixar o catálogo na mão da consumidora. Segundo ela, a demonstração dos diferenciais e funcionalidades do produto é essencial.

É também por esse motivo que a venda no varejo é descartada. "Se colocássemos nosso produto com outros em uma gôndola, o consumidor poderia acabar escolhendo pelo preço. Preciso de uma revendedora que mostre que nosso produto é único, que tem garantia de dez anos, que a matéria-prima é selecionada." Embora a executiva minimize o peso da concorrência com os potes vendidos no varejo - "não vendo apenas plásticos", diz -, o fato é que esse mercado cresceu com a consolidação de grandes empresas nacionais , como Plasvale, Plasútil e Sanremo e a entrada de inúmeros pequenos fabricantes sem marca que abastecem lojas de R$ 1,99 (ver texto ao lado).

A matriz, nos Estados Unidos, ressalta a importância das chamadas "Tupperware parties", mas em seu relatório anual de 2007 informa que também estão sendo explorados outros canais, como internet e televisão. No Brasil, essas experiências não têm prazo para chegar. "Começamos a usar internet apenas para as revendedoras fazerem seus pedidos e a TV é um projeto", diz Paola.

Mas será que hoje alguém tem tempo para participar das reuniões? "As pessoas sentem falta de se encontrar, as mulheres querem ter um momento só delas", responde a executiva. Ela cita exemplos de que os eventos ganharam ares mais modernos: "Tem a ´tarde da caipirinha´, aulas de receitas de microondas... Cada vendedora dá o seu toque pessoal".

Além da ênfase nos encontros, o plano de recuperação das vendas incluiu um aumento de quase 100% nos investimentos em eventos e incentivos para o time de 60 mil revendedoras brasileiras nos últimos dois anos. Foram feitas ainda ações de marketing institucional, como a contratação do apresentador de TV Edu Guedes como "padrinho" da marca. E como o foco não é apenas elevar o faturamento, mas crescer com rentabilidade, os preços dobraram de 2004 para 2005. "Realinhamos os valores sem medo. E isso permitiu que a empresa pudesse voltar a investir", conta.

As medidas surtiram efeito. Em 2007 a empresa faturou R$ 105 milhões, 52% mais do que no ano anterior e quer crescer mais 50% em 2008. Após perdas consecutivas, em 2006 a companhia atingiu o equilíbrio financeiro e em 2007 voltou a lucrar. "Antes jogávamos para não perder, agora jogamos para ganhar", comenta ela, uma chilena de 36 anos, de fala entusiasmada, que chegou à filial brasileira em 2001, como gerente contábil da fábrica da marca no Rio. De lá para cá, foi diretora financeira, de vendas, e em agosto de 2007 assumiu o comando das operações.

Cerca de 80% dos produtos vendidos no Brasil são produzidos aqui e há planos de aumentar esse índice em 2009. A fábrica brasileira, que existe há 32 anos, abastece ainda os mercados argentino, boliviano, uruguaio e chileno. Desde 2006, o grupo passou a vender também cosméticos no país, sob a marca Fuller, que conta com uma diretoria separada e que deverá ter uma fábrica própria em 2009, no mesmo terreno em que funciona a unidade de utilidades domésticas.

O grupo americano, que faturou US$ 1,98 bilhão em 2007, tem outras seis marcas na área de beleza. O primeiro movimento nessa direção ocorreu em 2001, com a compra da BeautiControl. Em 2005, a companhia passou a se chamar Tupperware Brands, para reforçar a imagem de uma empresa de vendas diretas de múltiplas marcas e categorias.

Mundialmente o grupo também enfrentou queda nas vendas nos anos 1990. Como reação, além da entrada no segmento de beleza - que já representa 35% das vendas líquidas totais -, procurou renovar seu negócio principal com o lançamento de novas linhas de potes para microondas e freezer, por exemplo, além de jarras, copos e xícaras feitos de plástico duro - o policarbonato, a mesma matéria-prima usada na fabricação das janelas dos aviões.


Luciana Marinelli, de São Paulo

Valor Online, 26/05/08

Mais...

domingo, 25 de maio de 2008

Projeto de lei regula créditos de carbono

Incentivo para o uso de energias alternativas

Proposta que tramita na Câmara dos Deputados disciplina o comércio de créditos de carbono resultantes de programas contratados pelo Governo para incentivar o uso de energia elétrica gerada por fontes alternativas no país. De acordo com o Projeto de Lei 2027/07, do deputado Antonio Carlos Mendes Thame (PSDB-SP), os empreendedores passam a se apropriar exclusivamente dos direitos ou benefícios financeiros de comercialização desses certificados de redução de emissões - que atualmente ficam em poder da Eletrobrás.

A proposta, que tramita em caráter conclusivo, já recebeu aval da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável. Agora segue para as comissões de Minas e Energia; de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania.

O documento também autoriza que órgãos ou agentes financiadores de projetos e de empreendimentos de energia renovável recebam ou vinculem os créditos de carbono como garantia (total ou parcial) das operações de crédito. As fontes alternativas de energia consideradas são a solar, a eólica, a térmica, a das marés e a das pequenas centrais hidrelétricas (com capacidade entre 0,5 e 30 megawatts).

O projeto revoga regra interna adotada pela Eletrobrás, em 2004, pela qual a empresa reserva-se o usufruto dos direitos e benefícios financeiros derivados dos Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (MDL). Thame acredita que para fortalecer o mercado de créditos de carbono provenientes dos MDL é necessário garantir o direito exclusivo do empreendedor habilitado para dispor, apropriar-se e comercializar os créditos de carbono.

O relator, deputado Gervásio Silva (PSDB-SC), defendeu a aprovação. Na avaliação do parlamentar, o projeto contribui para diversificar a matriz energética, reduzindo os riscos e os impactos ambientais negativos dos empreendimentos hidrelétricos. "No momento atual, em que se delineiam com mais certeza as conseqüências das mudanças climáticas, fica mais evidente a necessidade de ampliar as fontes renováveis", diz o relator.

Outros projetos ambientais que fazem parte da pauta do Congresso e devem ser aprovados este ano. Um deles é o do Imposto de Renda Ecológico (PL 5974/05), que prevê a concessão de incentivos fiscais às pessoas físicas e jurídicas que doarem recursos a projetos ambientais ou ao Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA). Leia matéria da CarbonoBrasil sobre o IR Ecológico.
O valor das multas aplicadas contra o desmatamento ilegal também está em discussão na Câmara. O texto substitutivo ao Projeto de Lei 2466/07 estabelece quatro fatores para calcular esse valor: a gravidade da infração, a condição econômica do infrator, o valor da terra nua e o princípio da razoabilidade. A nova redação também elimina o teto para o valor da multa, estabelecido no projeto original e ampliado por um decreto de 2005.


Pauta Social, 23/05/08
* Com informações da Agência Câmara e da Frente Parlamentar Ambientalista.

Mais...

Sharon Stone arrecada US$ 10 milhões para luta contra Aids

A atriz americana Sharon Stone arrecadou US$ 10 milhões (6,4 milhões de euros), nesta quinta-feira à noite, em Mougins (sudeste da França), no tradicional evento de gala beneficente organizado durante o Festival de Cannes pela amfAR, uma fundação americana contra a Aids, no qual a cantora Madonna foi a convidada de honra.

Várias personalidades do mundo do cinema, da música, da moda e da mídia atenderam ao chamado da amfAR (Fundação Americana para a Pesquisa da Aids) para a 15ª Gala "Cinema contra a Aids", um dos principais eventos de caridade da Europa.

Membros do júri do Festival de Cannes, entre eles Natalie Portman e Jeanne Balibar, os cantores Puff Diddy e Mary J. Blige, os estilistas Donatella Versace, Roberto Cavalli e Valentino, os atores e atrizes Elizabeth Hurley, Dennis Hopper, Michelle Yeoh, Diane Kruger, Milla Jovovitch e Christian Slater, o produtor Harvey Weinstein e o ex-diretor esportivo da Ferrari Jean Todt compareceram.

O escritor brasileiro Paulo Coelho também foi à festa.

Sharon Stone organizou um leilão, após mobilizar seus 720 convidados, lembrando que "a cada minuto uma criança morre de Aids".

A atriz também anunciou a criação de uma ala pediátrica da amfAR, fundação lançada pela também atriz americana Elizabeth Taylor.

A estrela Madonna leiloou uma de suas guitarras e a interpretação privada de duas canções. Conseguiu 650.000 euros. Decepcionou, porém, quem esperava por uma apresentação sua no evento.

Sharon Stone vendeu seu Porsche 911 por 500.000 euros.

Uma lote com uma bolsa Chanel, especialmente desenhada por Karl Lagerfeld, um lenço com a marca dos lábios de Madonna e tampões para ouvido foi adquirido por 300.000 euros.

Compradas por personalidades e grandes "maisons", como Dior, Yves Saint Laurent e Ralph Lauren, as mesas do jantar custaram, este ano, entre 40.000 e 150.000 dólares.

Em 2007, o evento arrecadou 7 milhões de dólares.


AFP, 23/05/08

Mais...

Global Forum América Latina - Negócios, Universidades e Sociedade num Mundo Sustentável (GFAL)

O evento tem como objetivo:
. contribuir para o fortalecimento das relações entre o mundo empresarial e o acadêmico, de modo a torná-los parceiros permanentes na produção, utilização e divulgação do conhecimento;
. compartilhar conhecimentos empresariais e os mais recentes estudos científicos sobre o desenvolvimento sustentável e as decorrentes exigências de educação frente às mudanças e ao desenvolvimento; e
. identificar as boas práticas empresariais e gerar propostas para a inovação e mudanças na educação.

A iniciativa é da FIEP - Federação das Indústrias do Estado do Paraná sob a liderança de seu Presidente Rodrigo Costa da Rocha Loures, tem a parceria da Case Western Reserve University (Cleveland/Ohio - EUA), do Centro de Estudos em Sustentabilidade da EAESP/FGV e do Global Compact da ONU.

Mais informações sobre esse evento...

Mais...

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Os colarinhos-verdes

Operário de fábrica com certificação ambiental nos EUA: Bush liberou US$ 125 milhões para o treinamento de trabalhadores que queiram se especializar na área
Foto H. Scott Hoffmann / News-Record


Eles aparecem em todos os programas dos candidatos à Casa Branca e são considerados estratégicos pelos democratas. São os trabalhadores de colarinho-verde - variante do colarinho-branco dos empresários e do colarinho-azul dos operários -, encontrados nas indústrias de energia renovável, combustíveis alternativos e na construção de prédios ecologicamente corretos. Em dezembro, George W. Bush sancionou o Green Jobs Act, autorizando investimento de US$ 125 milhões para treinamento de trabalhadores interessados em se especializar na área. O alvo dos candidatos é a massa de operários-eleitores que perderam emprego por causa da mão-de-obra mais barata na China e na Índia. Mas a tentativa de ligar o movimento verde à solução de um dos maiores entraves socioeconômicos dos EUA também está mexendo de forma intensa com a inteligência progressista da zona norte do mundo.

Coordenador-geral da Oakland Apollo Alliance, coalizão de ambientalistas, trabalhadores e ativistas políticos voltada para a criação de empregos verdes na área de Oakland (subúrbio operário da Califórnia), Ian Kim participou do lobby que levou Washington a reconhecer a necessidade de investir em especialização para uma área que cresce a olhos vistos, em trabalhos como a instalação de painéis solares, a jardinagem orgânica e a construção verde. "Foi um investimento modesto. Nosso setor precisa de bilhões de recursos para começarmos a combater a pobreza por meio da ampliação do universo do colarinho-verde. Hoje gastamos US$ 1,4 bilhão/ano no Iraque. Parte desse dinheiro poderia estar sendo investida na reorganização de nossa economia", diz Kim, professor de estudos urbanos da Universidade de São Francisco.

Ele sublinha que a importância simbólica do Green Jobs Act, no entanto, é inegável. De acordo com estimativas da Sociedade de Energia Solar Americana (Ases), a atual força de trabalho de 8,5 milhões de colarinhos-verdes deve chegar a 40 milhões em 2030. Um estudo da Cleantech Network, especializada em investimento verde, mostra que para cada US$ 100 milhões investidos, criam-se hoje 250 mil novos postos de trabalho nos EUA. Em 2007, apenas na Califórnia, corporações privadas investiram US$ 654 milhões na criação de 33 painéis solares (ante US$ 253 milhões em 2006). Não por acaso, uma nova função aparece no mercado: a dos headhunters especializados em empregos de colarinho-verde, como a Green Careers. O Instituto de Tecnologia do Oregon (OIT), por sua vez, acaba de formar o primeiro grupo de 50 estudantes superiores especializados em energias renováveis. Outros cursos semelhantes pipocam país afora, para entusiasmo dos candidatos à Casa Branca, que não querem ver esses postos de trabalho rumarem para a Ásia.

Liderada pelo advogado Van Jones, a Oakland Apollo Alliance foi criada por ativistas sociais e ambientalistas de uma das áreas mais afetadas pela crise da pós-industrialização. Enquanto o Vale do Silício multiplicava fortunas, Oakland amargava índices recordes de desemprego e crime. O mote de Jones é marxista: "Ofereça o trabalho de que mais precisamos para as pessoas que mais precisam de trabalho." Parece simples, mas a união de ecologistas com operários em torno da idéia de que os EUA deveriam acelerar o passo na direção de uma economia limpa, com a criação de milhares de empregos no meio do caminho, levou a discussão da ética verde para além da eco-elite e encontrou surpreendente abrigo nas centrais sindicais mais poderosas do país. "Nosso maior orgulho foi estabelecer essa ligação com os trabalhadores. Se o movimento verde ficar preso aos aspectos comportamentais, estaremos fadados à desimportância", diz Kim.

Ao lado do Sustainable South Bronx, de Nova York, a Apollo Alliance criou a campanha Verde para Todos, que defende o investimento imediato de US$ 1 bilhão do governo federal para deslanchar uma revolução verde-e-vermelha no país, com a capacitação de pelo menos 250 mil trabalhadores no que já é conhecido como o Plano Marshall do século XXI.

A mobilização já começou. Oakland é a primeira cidade dos EUA a contar com um Green Jobs Corps (GJC), voltado para a capacitação de profissionais nas áreas de manufaturas de biocombustíveis e instalação de painéis solares. A prefeitura decidiu investir US$ 250 mil para dar o gatilho no GJC. Na cidade, 13% dos menores de idade vivem abaixo da linha de pobreza. Ao mesmo tempo, o governo local anunciou incentivos fiscais para atrair empresas como a Grid Alternatives, que, desde 2004, já habilitou 1.700 profissionais na prática de instalação de painéis solares. De acordo com a Apollo Alliance, em 2006 foram investidos US$ 2,9 bi no setor, aumento de 80% em relação ao ano anterior.

Uma das figuras políticas mais importantes do país, a democrata Nancy Pelosi, é uma entusiasta da criação de um Green Job Corps nacional. Durante anos a fio compreendido nos EUA como uma subcultura fechada em si mesma, o pensamento ecológico tem conquistado novos espaços desde a exposição dos perigos do aquecimento global e da transformação do ex-vice-presidente Al Gore em apóstolo do crescimento sustentável.

------------------------------------------
Estimativa mostra que atual força de trabalho de 8,5 milhões de trabalhadores dessa área deve chegar a 40 milhões em 2030
------------------------------------------

Agora, verdes ligados a movimentos sociais, como Jones e Kim, começam a dizer sem medo que os trabalhadores precisam ver o verde, também, no bolso. E recebem mais interesse da opinião pública dos verdes mais tradicionais, como o eterno candidato à Presidência pelo Partido Verde, Ralph Nader.

No Brasil, Beto Mesquita, diretor do Instituto BioAtlântica, pensa que a excitação por causa dos empregos de colarinho-verde nos EUA tem tudo para ser repetida no país. "Um dos maiores desafios para a recuperação da Mata Atlântica, por exemplo, é a conciliação da necessidade de ações de restauração florestal com a geração de novas oportunidades de trabalho e renda. A cadeia produtiva da restauração florestal - que inclui atividades como coleta de sementes de espécies nativas, produção de mudas, plantio e manutenção de áreas - apresenta um tremendo potencial de expansão e de profissionalização."

Mesquita lembra que regiões economicamente deprimidas no Brasil, com baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), distantes dos grandes parques industriais e com reduzida cobertura florestal nativa, podem se beneficiar de oportunidades relacionadas à recuperação e à preservação dos serviços ambientais das florestas nativas. Ele cita como exemplos a produção e o armazenamento de água, o seqüestro de carbono da atmosfera e a proteção de paisagens naturais, fundamentais para o ecoturismo, segmento da indústria de viagens que mais cresceu no mundo na última década.

Mas nem tudo é consenso. Nos EUA, ambientalistas têm criticado a ligação entre criação de postos de trabalho na área do meio ambiente e diminuição da pobreza e da desigualdade. Acabar com a poluição e com a pobreza da maior economia do globo parece tarefa complexa demais para ser abordada de forma simplista. Gente como Rich Sweeney, da organização Ressources for the Future, pondera que a relação de causa e efeito, quando estabelecida, enfraquece o discurso verde e desvia o foco de um problema completamente diverso das mazelas sociais enfrentadas em países com sociedades desiguais, como os Estados Unidos, ou, em um caso extremo, o Brasil.

Qual seria, afinal, a relação possível entre a adoção de uma política ambiental responsável e o combate à pobreza? "Quem mais sofre com a degradação ambiental são as camadas mais pobres. Também é possível perceber uma tendência de certos setores em relacionar preservação ambiental com pobreza a partir da idéia de que os impactos ambientais graves - e muitos deles perfeitamente evitáveis, com a adoção de tecnologias limpas e sustentáveis - seriam apenas um aspecto inevitável do crescimento econômico", comenta Mesquita.

O diretor do BioAtlântica lembra o estudo feito pelo professor José Augusto Pádua, da Universidade Rural do Rio de Janeiro, apresentando correlação entre altas taxas de desemprego e desmatamento das florestas nativas. "Não é justo atribuir à criação de um parque nacional ou de uma reserva extrativista a função de, além de proteger a natureza, gerar renda e combater a pobreza. Essa combinação de fatores só será possível em situações muito peculiares. Seria a mesma coisa que exigir, como contrapartida e de maneira genérica, que o Bolsa Família fosse também um programa de preservação ambiental."

Ian Kim diz que a experiência vitoriosa de Oakland tem tudo para se repetir em outras cidades economicamente deprimidas, como Detroit. Em todo o Estado de Michigan, um dos berços da hoje enfraquecida indústria automobilística americana, os investimentos têm se concentrado na energia eólica e na construção de turbinas utilizando a mão-de-obra especializada oriunda dos muitos desempregados do parque industrial tradicional, cada vez mais diminuto. Beto Mesquita concorda. E lembra que no Brasil, também, a nova fronteira dos serviços ambientais, especialmente a proteção e a recuperação dos mananciais hídricos e as ações de redução da concentração dos gases de efeito estufa na atmosfera, aponta claramente para esse novo paradigma. Uma parceria verde-e-vermelha que parece ter chegado para ficar.


Eduardo Graça, para o Valor, de Nova York

Valor Online, 23/05/08

Mais...

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Empresa corrupta pode perder crédito

Chega a oito o número de casos em exame no Grupo Anticorrupção da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) envolvendo empresas estrangeiras que teriam pago propinas a funcionários públicos no Brasil.

Além disso, como o Valor revelou na sexta-feira, o grupo investiga cinco casos de empresas brasileiras que supostamente subornaram funcionários estrangeiro para obter contratos em seus países.

Um dos emergentes em vista na economia global, o Brasil sofre pressão crescente pela sua presença numa lista de 150 casos que a OCDE monitora globalmente. O presidente do grupo na OCDE, o professor suíço Mark Pieth, considera que o mais grave envolvendo o Brasil é mesmo a corrupção interna.

"O país tem problemas graves (de corrupção), mas estamos empenhados em usar todo o rigor contra isso", afirmou Luiz Navarro, secretário-executivo da Controladoria Geral da União (CGU), órgão que representa o país nas reuniões da OCDE e a implementação dos compromissos antisuborno assumidos pelo país.

Navarro revelou que a CGU propôs ao governo incluir uma cláusula nos contratos de financiamento de instituições oficiais, prevendo o cancelamento da operação se a empresa se envolver em corrupção de modo geral.

A sugestão, disse ele, está sendo examinada num grupo de trabalho do BNDES, principal instituição de financiamento.

"A corrupção gera competição desigual numa transação comercial, e as regras internacionais estabelecem até desativação da empresa corruptora", alertou.

A CGU enviou cartilhas anti-corrupção para 20 mil empresas exportadoras brasileiras em 2007, explicando a convenção da OCDE e os riscos de propinas.

O Itamaraty foi orientado a fazer todos seus postos no exterior procurarem as empresas brasileiras instaladas em cada país, também para alertá-las das conseqüências de corromper funcionários públicos para obter contratos.

"Em principio, os empresários reagiram bem em reuniões realizadas em federações estaduais, há mais preocupação com isso, porque um caso desses estraga a reputação", afirmou Navarro.

O secretário-executivo da CGU disse que em todas as reuniões do grupo anticorrupção da OCDE, o Brasil é obrigado a reportar o que está fazendo em relação a empresas brasileiras acusadas de corrupção, e também sobre funcionários públicos que teriam cobrado pagamentos de empresas estrangeiras.

Com relação às empresas brasileiras, quatro inquéritos estão em andamento no país, mas nenhum caso chegou até a ação judicial.

Quanto a funcionários, a CGU pede colaboração dos governos dos países de origem das empresas corruptoras, para poder acionar a justiça.

"A dificuldade é grande para iniciar processos no país, porque a rigor todas as provas tem que ser colhidas lá fora, mas esse grupo de trabalho na OCDE pode ajudar", comentou.

A Convenção sobre o Combate da Corrupção de Funcionários Públicos Estrangeiros em Transações Comerciais Internacionais (Convenção da OCDE) define as obrigações dos governos, das empresas, dos contadores públicos, dos advogados e da sociedade civil das nações signatárias do Tratado.

A CGU já se prepara para a reunião de junho do Grupo Anticorrupção da OCDE, para discutir o caso Alstom, envolvendo suposto pagamento de propinas a funcionários brasileiros. "Certamente vamos ser demandados sobre esse caso, como também vamos demandar a Suíça e França mais informações sobre suas investigações", afirmou.

Como nota o jornal "Financial Times", a lista de de grandes empresas enfrentando alegações de corrupção está aumentando. A acusação contra Alstom segue-se a investigações atualmente envolvendo Siemens da Alemanha e BAE Systems da Grã-Bretanha. Enquanto países como os EUA abrem mais processos, outros, como a Grã-Bretanha, ganham reputações de recidivistas.


Assis Moreira, de Genebra

Valor Online, 12/05/08

Mais...

Isolada na "Sibéria" pela Net

Desde o último dia 6, venho lutando com a Net para que a empresa estabilize minha conexão à Internet. Desde essa data não consigo sequer responder a um email; tenho sorte quando consigo ler.

Após horas e horas pendurada ao telefone com atendentes que seguramente entendem muito menos do problema do que eu que sou apenas usuária; de repetir testes idiotas que dão sempre o mesmo resultado inútil; de ser ignorada pelos mesmos atendentes quando digo qualquer coisa que fuja dos "scripts" de atendimento que recebem, finalmente a Net se dignou a mandar um técnico à minha casa.

Depois de 3 horas de trabalho e 3 trocas de modem, finalmente o serviço funcionou - apenas o tempo suficiente para que o técnico fosse embora. Conclusão: claro que o problema não era do modem... Menos ainda de 3 modens! Como eu vinha afirmando desde o início, baseada em claras evidências (um vizinho tem uma rede sem fio que pode ser acessada com meu portátil - o coitado também é assinante Vírtua - e a rede dele se comporta como a minha nesse período), o problema é da rede externa!!
Ontem de manhã, um segundo técnico apareceu e levou menos de 10 minutos para constatar o que eu vinha afirmando há 5 dias.

Neste meio tempo, fiz uma reclamação à Anatel, embora saiba que a Agência já não funciona como funcionava. Saudades do tempo que ela era um órgão técnico e não político e que um chamado era respondido em 24 horas... Confesso que a resposta pouco me interessa, uma vez que quando finalmente chegar, das duas, uma: a Net já terá solucionado o problema ou eu já terei trocado de fornecedor. Mas minha esperança é que a Net sofra algum tipo de sanção pelo tamanho do prejuízo que vem me acarretando.

Bem, tudo isso para explicar a razão pela qual não venho me comunicando bem ou publicando nos últimos dias. Obviamente, também não tem sido possível pesquisar e guardar as notícias para publicar mais tarde.

E, claro, exponho minha indignação também para exercer meu direito (ou dever?) de cidadã e consumidora, denunciando o desserviço de uma empresa que se comporta de maneira superficial no fornecimento de um serviço que já se tornou vital para muitos de nó. E, de quebra, lembrar o quanto as agências reguladoras são importantes para que permitamos que se tornem aparelho político.

Mais...

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Wal-Mart Brasil lança prêmio para estudantes

Iniciativa inédita no varejo brasileiro premiará anualmente estudantes

Já estão abertas as inscrições para a primeira edição do Prêmio Varejo Sustentável Wal-Mart Brasil. A premiação é direcionada a estudantes de nível técnico e universitário de qualquer área de formação que tenham interesse em buscar novas práticas para o desenvolvimento sustentável e vai reconhecer os autores dos melhores trabalhos.

O concurso é uma iniciativa pioneira da rede e pretende disseminar a discussão sobre como satisfazer as necessidades do consumidor sem comprometer os recursos para gerações futuras. “Com este prêmio, o Wal-Mart quer contribuir para a formação destes futuros profissionais tornando-os agentes na preservação do meio ambiente a partir da formulação de novos projetos, práticas, idéias ou aplicações com potencial de desenvolvimento do setor varejista”, explica Daniela de Fiori, Vice-Presidente de Sustentabilidade da empresa.

O Prêmio Varejo Sustentável Wal-Mart Brasil será um concurso nacional, aberto a todos os estudantes dos níveis técnico e superior, sem distinção no nível de formação – seqüencial, tecnologia ou graduação - que poderão participar com projetos variados de sustentabilidade - ações, métodos, equipamentos, sistemas operacionais e soluções inovadoras que atinjam qualquer etapa da cadeia produtiva do varejo, garantam menor impacto ao meio ambiente e que possam ser aplicados pelo segmento varejista supermercadista.

Os trabalhos inscritos devem ser inéditos – ainda não aplicados no setor varejista – e estruturados de maneira que demonstrem todo o seu potencial para ser desenvolvido e aplicado pelo Wal-Mart. As propostas devem contemplar pelo menos uma das seguintes áreas: ecoeficiência; redução e reciclagem de resíduos; produtos e embalagens sustentáveis; processos e métodos de avaliação, medição, minimização e mitigação dos impactos ambientais dos produtos comercializados pelo setor. Projetos desenvolvidos para testes ou em caráter experimental poderão participar deste concurso.

Serão eleitos os três melhores trabalhos por uma comissão julgadora composta por uma equipe técnica com profissionais da rede e especialistas externos. Cada projeto será premiado com um Notebook DELL de última geração, bolsa de estudos no valor de até R$ 5.000,00 e realização de visita técnica de cinco dias ao Departamento de Sustentabilidade do Wal-Mart Brasil, em São Paulo. Caso o Wal-Mart decida implementar um ou mais projetos vencedores, os escolhidos receberão prêmio adicional de R$ 15.000,00. Como os projetos podem ser orientados por professores da mesma instituição de ensino dos estudantes inscritos, o professor dos projetos selecionados ganhará um SmartPhone desbloqueado.

As inscrições poderão ser realizadas apenas pelo site: www.premiovarejosustentavel.com.br e os trabalhos devem ser enviados até o dia 19 de setembro de 2008. Mais informações e o regulamento completo também estão disponíveis no site.

Mais...

Sustentabilidade na carne: a responsabilidade social e ambiental bate à porta das empresas

O site Clima e Consumo, lançado pelas ONGs Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) e Vitae Civilis, mostra como os hábitos cotidianos influenciam nas mudanças climáticas. Dos combustíveis fósseis (como gasolina, diesel e gás) que são queimados em motores ou em fogões domésticos ao avanço da pecuária e da soja derrubando as árvores da Amazônia, vários são os motivos que explicam como nosso modo de vida está relacionado ao aumento das emissões de gases de efeito estufa, o que provoca o aquecimento global e as conseqüentes mudanças climáticas.

Para que o consumidor seja parte da solução e não do problema, o site convida-o a colocar a mão na massa e lista 21 atitudes que deveria tomar, como economizar energia, usar menos o automóvel etc. Dessa lista, porém, sete itens estão ligados diretamente ao consumo de produtos ou à pressão que o consumidor deveria fazer sobre as empresas. Em relação ao fato de a pecuária estar crescendo na Amazônia, sendo um dos fatores responsáveis pelo aumento do desmatamento, o site apresenta duas sugestões bem diretas: ou o consumidor reduz o consumo de carne, ou exige dos supermercados que garantam não ser aquele bife o pedaço de um boi criado sobre áreas desflorestadas.

Para não ficar apenas no discurso, o site produziu um cartão postal que pode ser baixado, impresso pelo consumidor e entregue ao supermercado do qual é cliente. De um lado, sobre uma foto da floresta em chamas, a frase "não quero ser cúmplice do desmatamento da Amazônia". Do outro, um espaço para ser preenchido com o nome e o endereço do supermercado, além do recado impresso: "Como consumidor desse supermercado, solicito que o senhor exija dos seus fornecedores um sistema de rastreamento da carne bovina comercializada que me garanta não estar contribuindo para o desmatamento da Amazônia Legal ao comprar esse produto no seu estabelecimento. Essa informação precisa estar visível para os consumidores".

Pelas mãos do consumidor, a responsabilidade social e ambiental bate à porta das empresas ligadas à produção e ao comércio da carne - com uma ajudazinha da sociedade civil organizada, é claro. "O Idec quer conscientizar o consumidor sobre a relação direta entre seu consumo de carne e os problemas do desmatamento e das queimadas na Amazônia e, também, dar uma ferramenta concreta para que ele possa agir", conta Lisa Gunn, gerente de Informação do Idec. "A idéia é que haja uma pressão em cadeia: o consumidor pressiona o supermercado, que pressiona o frigorífico, que pressiona o produtor. Dessa forma, esperamos que a demanda do consumidor contribua para que tanto os supermercados quanto os frigoríficos assumam sua responsabilidade socioambiental e desenvolvam ferramentas eficazes que garantam a rastreabilidade da carne e a informação clara e adequada aos consumidores".

Pressão com nome e endereço
Alguns dos cartões postais do site já vêm com destinatário, pois têm impressos o nome e o endereço de algum supermercado. Um deles é endereçado ao Carrefour, que deve recebê-los de portas abertas, caso os postais apareçam mesmo por lá. "Apoiamos iniciativas que tenham, entre outros objetivos, o consumo consciente e a aproximação dos consumidores com as empresas", afirma Rodrigo Lacerda, diretor de Marketing Corporativo do Carrefour. "Conhecer e entender a percepção dos consumidores em relação à responsabilidade social empresarial nos ajuda a estabelecer um campo fértil em prol de um consumo digno e consciente". Em fevereiro deste ano, o Carrefour lançou o projeto Cuca, que une um grupo de consumidores transformados em uma espécie de consultores sobre os produtos vendidos, atendimento, ambiente das lojas e até questões ligadas a responsabilidade social e ambiental. Foi montado um blog do projeto que, para o diretor de Marketing Corporativo do Carrefour, representa "uma postura mais próxima e transparente de ouvir, aprender e evoluir junto com o consumidor".

Em relação à origem da carne vendida nas lojas, Lacerda conta que o Carrefour tem um contrato com os fornecedores que, entre outras cláusulas, "prevê a obrigatoriedade do respeito às leis sanitárias, ambientais, à legislação trabalhista e à dignidade humana, sob pena de rescisão, nos casos de descumprimento". De toda a carne bovina comercializada pelo Carrefour, 40% estão dentro do selo Garantia de Origem, um programa desenvolvido desde 1999 que estabelece padrões de exigências aos fornecedores acima do que estabelece a legislação. "Os produtos com este selo, sejam carnes, peixes, frutas ou legumes, são aqueles que, em todas as etapas, do campo à gôndola, foram preparados dentro de conceitos rigorosos de qualidade, responsabilidade ambiental e social", destaca Rodrigo Lacerda, explicando ainda que os fornecedores desses produtos são constantemente visitados para monitoramento de suas atividades.

Outro destinatário já pronto dos cartões postais é a rede de supermercados Extra, que pertence ao Grupo Pão de Açúcar. Para o consumidor que exigir não comprar um bife responsável pela destruição da Amazônia, o Grupo atesta que, "antenado com as demandas urgentes de responsabilidade socioambiental, tomou a iniciativa de realizar um programa de carne de qualidade com princípios de sustentabilidade", segundo informou sua assessoria de imprensa. "Nesse programa, temos uma parceria com pecuaristas, dos quais somos co-responsáveis pela proteção ambiental e desenvolvimento social".

Essa iniciativa é parte do Programa Tear - Tecendo Redes Sustentáveis, promovido pelo Instituto Ethos e pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O Programa Tear tem o objetivo de estender práticas de responsabilidade social e ambiental a pequenas e médias empresas que atuam na cadeia de valor de grandes empresas estratégicas de sete setores da economia: açúcar e álcool; construção civil; energia elétrica; mineração; petróleo e gás; siderurgia; varejo. No setor varejo, a empresa estratégica (âncora) é o Grupo Pão de Açúcar, que conta com nove fazendas no Tear.

As fazendas participantes do programa conseguem rastrear sua produção desde o momento de fecundação dos bois até a chegada da carne às gôndolas dos supermercados e hipermercados do Grupo. De acordo com a assessoria de imprensa, a rastreabilidade da carne é só uma parte do processo, pois "as fazendas parceiras passaram a incorporar o conceito de responsabilidade social empresarial nas suas práticas de gestão, com um modelo mais participativo e o desenvolvimento de produtos e serviços que atendem a critérios sociombientais".

Rastreabilidade é a chave
O consumidor bate à porta que enxerga - a carne à venda no varejo - e é lá que vai exigir produtos socialmente e ambientalmente responsáveis à sua disposição. Os produtores, que ficam alguns passos atrás nessa cadeia, não são atingidos diretamente pela pressão do consumidor, mas sofrem as conseqüências dela. E não é a única. De acordo com Leslie Cohen, assessora internacional da Associação Brasileira de Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), entidade que reúne os maiores frigoríficos do Brasil, a demanda por práticas socialmente e ambientalmente corretas está vindo de todos os lados. "Os grandes frigoríficos são empresas de capital aberto, têm ações na Bolsa de Valores. Há pressão dos acionistas, dos clientes, dos bancos que financiam essas empresas. Por isso, há uma grande preocupação no setor com as questões sociais e ambientais", explica Leslie.

Como os grandes frigoríficos processam a carne mas normalmente não criam bois, a solução é atuar junto aos fazendeiros. "Os frigoríficos fazem acordos com seus fornecedores. Pagam mais se eles fornecerem animais não só dentro dos padrões sanitários exigidos, mas que atendam critérios de responsabilidade social e ambiental", conta Leslie. "Os frigoríficos não têm poder de fiscalização, mas são clientes dos pecuaristas e escolhem de quem comprar. Visitam as fazendas e às vezes até financiam os pecuaristas para que façam os investimentos necessários para fornecer animais dentro dos padrões exigidos".

Para que o consumidor saiba se os fazendeiros, os frigoríficos e os supermercados estão lhe oferecendo um pedaço de bife que não ajudou a derrubar a floresta, a palavra-chave é rastreabilidade. "É possível pegar um pedaço de carne e saber de onde ela veio e quem é o fornecedor, mesmo que essa informação não esteja no rótulo do produto, pois todo animal é identificado desde o nascimento até o abatimento", afirma Leslie Cohen. Esse processo, exigido na carne para exportação, acaba sendo estendido também no mercado interno.

O passo além seria a certificação, ou seja, a criação de um sistema confiável de verificação da origem da carne, garantindo que aquele boi não pastou sobre a Amazônia devastada. Essa informação seria dada ao consumidor por meio de um selo estampado na embalagem. Seria um sistema semelhante ao selo FSC para produtos de madeira, uma certificação que garante que o produto é originário de florestas com manejo sustentável, e não do desmatamento ilegal. "Talvez a certificação seja o caminho, mas isso traria um custo adicional a toda a cadeia produtiva. Como o preço ainda tem um peso muito grande para o consumidor, pode ser um processo que leve algum tempo", opina Leslie.

Mesmo que a certificação ainda esteja longe, todas essas empresas estão começando a sentir na carne o que é sustentabilidade.


Fátima Cardoso, para o Instituto Ethos

Envolverde, 07/05/08
© Copyleft - É livre a reprodução exclusivamente para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam citados e esta nota seja incluída.

Mais...

Impressão responsável no ambiente corporativo

Por que imprimimos documentos? Qual é a real necessidade de se imprimir um documento? Responder a essas perguntas pode ser a chave para uma redução significativa nos custos de impressão, especialmente no ambiente corporativo, em que os volumes de informações, relatórios e documentos que precisam ser distribuídos costumam ser elevados.

Imprimir um documento é a simples transferência de uma informação digital para uma mídia física. Esse conceito é muito útil para definirmos o que é necessário ser impresso.

Controlar a maneira como os colaboradores se comportam quanto à impressão é fundamental para que uma corporação imprima com eficácia. Mas doutrinar os colaboradores não é suficiente, pois o ato de imprimir já é algo incorporado à cultura das corporações. Afinal, o colaborador, na maioria das vezes, não sente o peso que uma impressão pode ter no bolso da corporação. E as atitudes ambientalistas ainda são só um discurso bonito que gerentes de marketing gostam de usar para cativar clientes e ganhar pontos nas Bolsas. Para todos os efeitos, apertar o botão de “print” ainda é bem mais fácil para todo mundo.

Os modelos de outsourcing de impressão utilizados no Brasil apenas controlam o quanto se imprime, afinal eles têm quemandar a fatura para alguém, mas não controlam de maneira alguma como é utilizado o parque de impressoras e como a corporação pode dotar de inteligência sua impressão. As empresas que oferecem esse tipo de serviço fornecem equipamentos de alta tecnologia que facilitam ainda mais o uso do botão “print”. Resultado: o funcionário prefere imprimir a enviar este documento por e-mail e, no final das contas, a empresa acaba imprimindo mais do que precisa sem saber o que está imprimindo.

É preciso que exista algum controle sobre o que os usuários imprimem, sem tirar dele a capacidade de transferência de mídia e armazenamento destes documentos. Ou seja, é necessário definir como cada usuário pode ter acesso a cada tipo de mídia. Essa não é uma tarefa fácil, exige planejamento, esforço e investimento para que se colham os frutos em um tempo razoável. É necessário então uma solução para gerenciamento e distribuição de documentos para diferentes mídias disponíveis na corporação, administrando como cada tipo de documento deve ser transportado ou armazenado.

Possuir uma solução capaz de gerenciar e distribuir documentos de forma “inteligente” significa disponibilizar a informação exata, na hora certa e da maneira mais conveniente. Significa ainda acesso fácil, rápido e seguro aos dados, além da troca de informações eletrônicas com clientes e fornecedores de forma integrada. A entrega controlada e garantida de documentos para qualquer dispositivo - não só impressoras e aparelhos de fax, mas também e-mail, SMS ou Web sites – é também outro benefício relevante.

Já existem hoje no mercado ferramentas voltadas ao gerenciamento inteligente de documentos, que, entre outras coisas, resultam em redução dos custos com impressão. Há que se transpor, contudo, a barreira cultural que ainda existe nas corporações. Será que todas as pessoas na empresa realmente precisam imprimir tudo para ter um “documento válido”?

Quando se trata de documentos oficiais, é certo que ainda confiamos mais no papel que nas mídias digitais. Mas, nessas horas, devemos nos lembrar dos bancos. Nosso dinheiro está lá, de maneira 100% digital, e nós confiamos nisso, não deixamos mais o papel moeda debaixo dos colchões. Ou seja, por que confiamos lá, mas não confiamos quando precisamos apenas mostrar um relatório para colegas ou superiores?

Quando falamos em impressão em nossas casas, sabemos o quanto isso custa. Não é só o preço do cartucho e do papel, mas também o espaço que isso ocupa em nossas gavetas e, principalmente, quanto tempo perdemos organizando, limpando e eliminando papéis desnecessários. As empresas também têm que pensar nisso. É trabalhoso mas, sem dúvida alguma, vale à pena para conquistar mais produtividade, eficiência, economia e responsabilidade sócio-ambiental.


André Balparda, Product Manager da Eccox

Envolverde, 07/05/08
© Copyleft - É livre a reprodução exclusivamente para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam citados e esta nota seja incluída.

Mais...

Michael Conroy anuncia a revolução pela certificação de produtos

O economista e consultor americano Michael Conroy vê uma revolução no horizonte. Ela está surgindo por meio da certificação de produtos que estejam adequados a práticas socialmente e ambientalmente responsáveis. Um sistema de certificação com credibilidade é, segundo ele, a melhor forma de as grandes empresas garantirem que estão fazendo negócios respeitando a sociedade e o meio ambiente, e não o contrário. E é uma resposta à pressão social exercida principalmente por campanhas lideradas pelas ONGs.

De Austin, no Texas, onde fica a sede da Colibri Consulting, empresa que ele dirige e que atua em certificação e desenvolvimento sustentável, Conroy falou sobre como as ONGs podem mudar o comportamento das grandes corporações. Essa história ele conta em detalhes no livro "Certificado! - A Certificação de Produtos Transformando as Corporações Globais", que será lançado no Brasil em junho, pela WGB Editora.

Instituto Ethos: Você diz no seu livro que as ONGs têm afetado os mercados corporativos. De onde vem esse poder? Como elas conseguem fazer com que as grandes empresas transformem suas práticas em socialmente responsáveis?
Michael Conroy: Neste mundo que se globaliza rapidamente, o mais importante ativo das grandes companhias é sua marca, isto é, seu nome e sua reputação. As ONGs descobriram novos e poderosos meios de desafiar essas companhias comunicando aos clientes das empresas e aos consumidores finais sobre qualquer problema que exista na cadeia de valor. Evidências de que um varejista está comprando carne da região amazônica, onde essa carne pode ser ligada diretamente à devastação da floresta, proporcionam uma base muito fácil - e muito dramática - para atacar a marca da companhia, diminuindo sua participação no mercado e prejudicando o valor das ações da empresa nos mercados financeiros. Uma campanha parecida contra o McDonald's, alguns anos atrás, o forçou a parar de comprar carne de áreas onde as florestas estavam sendo devastadas e a começar a criar fazendas de gado para obter carne.

IE: Por que as grandes empresas respondem a essas pressões? É a única maneira de continuar no mercado?
MC: As empresas que se recusam a reconhecer que a sociedade civil, tanto no Brasil como em outras partes do mundo, está cada vez mais consciente da conexão entre a destruição das florestas e as mudanças climáticas, e se recusam a mudar suas práticas, estão sob grande risco de perder seus mercados e o valor das suas ações, quando elas forem relacionadas à destruição das florestas. Não é preciso que os consumidores sejam completamente educados ambientalmente; basta que as empresas mais inteligentes reconheçam que elas arriscam suas marcas se forem associadas com práticas ambientalmente irresponsáveis.

IE: No seu livro, você menciona que a Nestlé e a Starbucks começaram a pagar mais pelo café que compram de seus fornecedores. Por que fizeram isso?
MC: Eles concordaram em pagar mais pelo café que tinha uma nova qualidade, uma "qualidade ética", que assegurava a seus consumidores que um preço justo tinha sido pago pelo café, e que um sistema válido de certificação estava em vigor para assegurá-los de que a reivindicação "ética" era válida. Esse sistema de certificação é o Fair Trade Certified (Certificado de Comércio Justo), e ele garante aos consumidores que os fazendeiros receberam não apenas um preço mais alto pelo café do que é pago pelos "coiotes" locais, mas também um "prêmio social" que contribui para o desenvolvimento econômico das suas comunidades. A resposta dos consumidores foi tão grande que o Fair Trade Certified é o segmento que mais cresce na indústria de café em todo o mundo.

IE: Uma grande empresa pode ser lucrativa se tiver de pagar mais a seus fornecedores?
MC: Sim, pode, se ela estiver pagando por produtos certificados com credibilidade para carregar essa nova "qualidade ética", e se os consumidores estiverem dispostos a pagar um preço levemente mais alto como uma forma de contribuir para uma globalização mais equânime, por meio da criação de um sistema mais igualitário de comércio por todo o mundo. Desde que meu livro foi publicado nos Estados Unidos, o Wal-Mart pode ser acrescentado à lista das empresas que estão importando grandes quantidades de café, a maior parte do Brasil, que é Fair Trade Certified. Processando e embalando o café no Brasil, o Wal-Mart descobriu uma maneira de colocá-lo nas lojas dos Estados Unidos a um preço competitivo. Isso gerou respostas muito positivas dos consumidores do Wal-Mart, que são muito sensíveis a preço. Mesmo os consumidores do Wal-Mart gostam de ter a satisfação de contribuir para um mundo melhor.

IE: O subtítulo do seu livro em inglês é "como a revolução da certificação está transformando as corporações globais". Por que a certificação é uma revolução? Que tipo de mudança a certificação pode trazer aos negócios, ao comportamento das empresas e à sociedade?
MC: No ultimo século, as grandes corporações, especialmente as transnacionais, cresceram de uma maneira que é quase impossível para a sociedade civil exercer algum controle sobre suas práticas sociais e ambientais. Elas são mais poderosas do que muitos governos! Nenhuma nação pode controlar as atividades delas fora de suas fronteiras. E a Organização Mundial do Comércio proíbe os países de banir a importação de produtos com base no fato de eles serem produzidos de maneira responsável ou irresponsável. Esta parece ter sido a era em que as corporações dominavam o mundo. Mas, nos últimos quinze anos, a sociedade civil aprendeu que a combinação de "campanhas de marketing" duras, claras e precisas, que movem as corporações na direção de melhorar suas práticas, além de sistemas de certificação que validam com independência se as companhias estão cumprindo essas melhores práticas, pode devolver às sociedade civil a influência sobre as práticas das grandes corporações. E parece não haver fim para o número de indústrias sobre as quais isto pode ser aplicado. Isso é revolucionário!

IE: No Brasil, há uma campanha contra comer carne que venha de gado criado na Amazônia. É possível salvar a floresta se recusando a comer esse tipo de carne? Os produtores de carne e os varejistas responderão a isso, ou essas campanhas são uma pregação no deserto?
MC: Isso não vai acontecer imediatamente, essas campanhas levam tempo para se desenvolver. Mas estamos descobrindo que o reconhecimento por parte das empresas do dano que essas campanhas de marketing podem fazer está levando-as a responder muito mais rapidamente. E, mais importante, as empresas estão começando a perceber que há um mercado importante para produtos socialmente e ambientalmente responsáveis. Por isso, as empresas estão pedindo às ONGs que as ajudem a desenvolver novos sistemas de certificação para uma variedade completa de novos produtos. Isso é o que está acontecendo, por exemplo, na indústria de mineração. Veja o site www.responsiblemining.net para ter um exemplo da Iniciativa para Garantia de Mineração Responsável (IRMA, na sigla em inglês), que está surgindo como um sistema de certificação para a mineração.


Fátima Cardoso, para o Instituto Ethos

Envolverde, 06/05/08
© Copyleft - É livre a reprodução exclusivamente para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam citados e esta nota seja incluída.

Mais...

Governos no Brasil usam software da ONU

Presidência da República, prefeitura de São Paulo e governo do Amazonas utilizam sistema que interliga dados de gestão pública

Um sistema de gestão baseado num software desenvolvido pelo PNUD, aplicado em pelo menos 17 países da América Latina e do Caribe, na Europa Oriental (Geórgia) e na Ásia (Timor Leste), já foi implantado, no Brasil, em três órgãos do governo federal (incluindo a Presidência da República), na prefeitura do município mais populoso (São Paulo) e no governo do maior Estado (Amazonas). Outras unidades da Federação estudam adotá-lo.

Chamada Sigob (Sistema de Informação e Gestão para a Governabilidade), a ferramenta dispõe de 15 sistemas de trabalhos e de informática e tem entre seus pilares a transparência dos processos internos de gestão pública, através de uma espécie de mapeamento eletrônico das ações.

As informações do programa são interligadas — de modo que os funcionários que lidam com o software podem alimentá-lo e ter acesso às informações acrescentadas pelos outros usuários. "Os usuários recebem treinamento de uma equipe de consultores internacionais multidisciplinar", afirma o técnico em informática Rodolfo Otalora, consultor para o projeto regional do Sigob no Brasil. Além de consultores de informática, a equipe é composta por sociólogos e especialistas em políticas públicas. “São módulos que requerem uma forte capacitação dentro dos gabinetes", afirma Otalora.

Na prática, esse treinamento — que pode durar de quatro meses a cerca de um ano — implica uma mudança da cultura de trabalho nos gabinetes, que precisam se organizar dentro da filosofia que o Sigob propõe.

Na Presidência da República, por exemplo, primeira instância do poder público brasileiro em que o sistema foi implantado, em 2003, a ferramenta facilitou a interação entre ministros ou secretários e a agenda do presidente. "Antes do Sigob, era muito uma questão reativa. O sistema permite, por exemplo, que o ministro da Saúde veja que o presidente vai viajar daqui a 15 dias para um Estado e então proponha atividades para a agenda do presidente lá", explica a diretora de Gestão Interna do Gabinete Pessoal do Presidente, Fanie Miranda. "A agenda do presidente da República envolve vários setores, como segurança, logística, comunicação, uma série de equipes. Em vez de você ter um papel que ordena os acontecimentos, você tem um sistema que faz essa organização e, ao mesmo tempo, em que todos que participam têm acesso às informações."

"Em termos de sistema, o Sigob não é nada muito complexo. O que existe de mais importante é a forma de arranjo do trabalho", afirma Érica Mássimo, oficial de projeto da Unidade de Políticas Sociais e Cidadania do PNUD.

Não é necessário implantar todos os 15 módulos — a instituição escolhe o que melhor se adequar às suas necessidades. No caso do gabinete do presidente Lula, onde a aplicação começou em janeiro de 2004, são três as aplicações: o Centro de Gestão do Presidente; Sistema de Gestão de Correspondência Oficial; e Arquivos e Metas Prioritárias.

Além de ser um instrumento básico de trabalho do gabinete presidencial, o Sigob está em outras áreas do governo federal — a Casa Civil usa um dos módulos, assim como o Ministério do Planejamento, onde foi recém-implantado. O sistema também está presente na Prefeitura de São Paulo e no Governo do Amazonas.

Outros governos estaduais, como os de Alagoas, Distrito Federal, Fortaleza, Rio Grande do Sul, Sergipe, Pará e Paraíba, além da Advocacia Geral a União e a Prefeitura da Bahia, estudam ou estudaram a implementação do Sigob. O custo para implementação do sistema varia, em média, de US$ 40 mil a US$ 90 mil — envolvem as viagens dos consultores para treinamento dos usuários e a instalação do programa.

"São custos unicamente de implementação. O software do Sigob, a metodologia e a documentação têm custo zero para a organização", diz o paraguaio Miguel Cereceda, coordenador-regional para América Latina do Sigob.

Saiba mais sobre o Sigob
O sistema Sigob nasceu de uma iniciativa do governo peruano, há cerca de 20 anos. O então presidente do país, Alan Garcia — hoje novamente no cargo —, ao assumir o posto avaliou que o Peru estava precisando de ferramentas para a gestão pública. "Para isso, ele pediu apoio ao escritório do PNUD no Peru, que ajudou com algumas experiências na área", conta Rodolfo Otalora, consultor para o projeto regional do Sigob no Brasil.

Foi iniciado um projeto nacional para a criação dessas ferramentas de trabalho. "Os conceitos eram relativamente novos, tanto em relação à computação quanto o conceito de gestão para governabilidade", diz Otalora.

A partir dessa experiência, o PNUD ofereceu o sistema a outros países da América Latina.

"A intenção do PNUD com o Sigob é constituir uma metodologia de trabalho que propicie transparência, interatividade e contato com o cidadão", afirma Miguel Cereceda, responsável pelo Sigob. "O sistema tem métodos de trabalho, procedimentos operacionais para diferentes módulos de trabalho, softwares e uma técnica de implementação."

Além do Brasil, o Sigob está hoje em países como Argentina, Chile, Colômbia, Equador, Guatemala, Honduras, México, Paraguai, Panamá, Peru, República Dominicana, Timor Leste e Uruguai.

Osmar Soares de Campos, do Pnud
Envolverde, 06/05/08
© Copyleft - É livre a reprodução exclusivamente para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam citados e esta nota seja incluída.

Mais...

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Prêmio de responsabilidade social e sustentabilidade no varejo

O Centro de Excelência em Varejo (GVcev) da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP), por meio de seu Programa de Responsabilidade Social e Sustentabilidade no Varejo, acaba de abrir as inscrições para o 4º Prêmio de Responsabilidade Social e Sustentabilidade no Varejo. O Prêmio visa reconhecer e incentivar iniciativas de responsabilidade social e sustentabilidade desenvolvidas por empresas e entidades varejistas de todo o Brasil. As inscrições devem ser realizadas até o dia 11 de julho de 2008 pelo site www.fgv.br/cev/premio ou pelo Correio.

Podem participar empresas e entidades varejistas de todo território nacional, de qualquer porte ou natureza, que estejam desenvolvendo iniciativas de responsabilidade social e sustentabilidade iniciadas antes de 31 de dezembro de 2007.

O Prêmio é dividido em seis categorias: Microempresa (até 20 funcionários), Pequena Empresa (de 21 a 100 funcionários), Média Empresa (de 101 a 500 funcionários), Grande Empresa (acima de 501 funcionários), Shopping Center e Entidade Varejista.

Um comitê técnico, formado por instituições de reconhecida atuação nas áreas de responsabilidade social e sustentabilidade, ficará responsável pela escolha de três finalistas, um em cada categoria, e uma comissão de premiação, com personalidades da área, avaliará as iniciativas e escolherá um vencedor para cada categoria. Os finalistas receberão certificados, exemplares do livro “Varejo Socialmente Responsável” (Editora Bookman, 2007) e terão sua iniciativa publicada no Banco de Práticas de Responsabilidade Social e Sustentabilidade no Varejo (www.fgv.br/cev/rsnovarejo). Os vencedores ainda receberão troféu de mérito, cortesias para participação nos Seminários do GVcev – Centro de Excelência em Varejo e apresentarão suas iniciativas no 6º Seminário de Responsabilidade Social e Sustentabilidade no Varejo.

No dia 8 de setembro serão divulgados os 18 finalistas, três em cada categoria. Os 6 vencedores, um em cada categoria, serão conhecidos no dia 6 de outubro de 2008. A cerimônia de premiação ocorrerá no dia 29 de outubro de 2008, durante o 6º Seminário de Responsabilidade Social e Sustentabilidade no Varejo, no Auditório da FGV-EAESP, em São Paulo.

O Prêmio reforça a importância da inclusão de questões sociais e ambientais na gestão dos negócios da empresa varejista, uma vez que os aspectos econômicos não têm sido suficientes para garantir a sobrevivência no mercado. Cada vez mais, a competitividade e o bom desempenho do negócio passam pelo gerenciamento dos seus impactos na sociedade e no meio ambiente. Por outro lado, a incorporação da responsabilidade social e da sustentabilidade no negócio da empresa varejista pode gerar benefícios como: redução de custos, proteção contra riscos, acesso a novos mercados, valorização da imagem institucional e da marca, fidelização do consumidor, entre outros ganhos.

Por se tratar de um processo contínuo, o Prêmio também valoriza as ações pontuais e pequenas iniciativas sociais ou ambientais desenvolvidas pelos varejistas, pois elas podem ser um primeiro passo para um exercício mais amplo da responsabilidade corporativa, que depende da mudança de comportamento do empresário e da adoção de uma postura consciente e responsável, alinhada com o desenvolvimento sustentável do planeta.

Nas três edições anteriores do Prêmio foram inscritas mais de trezentas práticas de responsabilidade social e sustentabilidade realizadas por varejistas brasileiros, de diversos setores, como por exemplo, supermercados, farmácias e padarias, direcionadas a funcionários, fornecedores, meio ambiente e à comunidade, entre outros públicos de interesse. Os exemplos de iniciativas podem ser consultados no Banco de Práticas de Responsabilidade Social e Sustentabilidade no Varejo, no site www.fgv.br/cev/rsnovarejo.

Pauta Social, 06/05/08

Mais...

O que, afinal, matou o gato?

Ouvi dizer que o padre paranaense que voou com balões de festa e desapareceu agiu como um louco. A pessoa justificou: "O sujeito nem sabia como operar um GPS! Levou o aparelho e quis aprender a usá-lo só quando o vento mudou a sua rota e o empurrou para dentro de uma tormenta em alto mar".

Eu não achei graça. Não só por respeito ao imprudente sacerdote cristão, mas por seu comportamento refletir um vício. Talvez tenha sido uma trágica faceta da cultura na qual vivemos.

É raro ver pessoas que dêem valor a procedimentos básicos. Brasileiro não precisa de instruções. Acha que sabe. Não fosse obrigatório o ensino de primeiros socorros na habilitação de motoristas, só bombeiros e salva-vidas teriam que aprender as técnicas. Nós gostamos mesmo de tirar o aparelho da caixa, ligar e ver o que acontece. O manual? Quem precisa de manual?

Um lugar onde isto se confirma é a empresa. Para muitos, treinamento é coisa de americano ou de soldado. É assustador o contingente de funcionários que atuam durante anos e anos nos mais diferentes postos, sem jamais terem sido convenientemente informados sobre o que fazer, como fazer e qual o padrão de eficiência que devem atingir. Enquanto isso, o diretor questiona seu staff – quando não caríssimos consultores – sobre como melhorar os resultados.

Uma das saídas clássicas é investir em propaganda. Pequenas fortunas são gastas em publicidade para garantir a demanda de produtos ou serviços. Mas comprometimento do time com a satisfação do cliente não é assim que se consegue. E venda alguma é consistente ou sustentável sem comprometimento. O que ocorre? A resposta é simples. Falta suprir os funcionários com as instruções básicas - isso está nos livros, é básico. Mas quem precisa de livros?

Aprendizagem é o princípio de tudo. É a base. Uma pessoa que acredita no estudo e se mantém nele está em constante desenvolvimento e diferencia-se da massa alienada e estagnada.

Nós temos praticado o oposto do que deveríamos. Desprezamos conhecimento por insana convicção. Isso vem de cima. Por isso, em muitas áreas estamos sempre na estaca zero.

Temos feito da eficiência uma escrava da sorte. E, quando é a sorte quem governa, os riscos de insucesso são absurdos. É uma loteria.

A história de que a curiosidade matou o gato está mal contada. O gato não era curioso. Ele confiava demais em si mesmo. Se curioso de fato fosse, teria lido o manual de instruções e, decerto, ainda contaria, a seu favor, aquele antigo e garantido saldo de sete vidas.


Abraham Shapiro
Coach e consultor especializado em lideranças, equipes de vendas e relacionamento com o cliente


HSM Online, 06/05/08

Mais...



Acesse esta Agenda

Clicando no botão ao lado você pode se inscrever nesta Agenda e receber as novidades em seu email:
BlogBlogs.Com.Br