quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Quatro lições do desenvolvimento local

Augusto de Franco
Carta Rede Social 151 publicada em 22/11/07

[Tempo estimado de leitura: 8 minutos]

Quem quer articular e animar redes sociais deve resistir às quatro tentações seguintes: de fazer redes de instituições (em vez de redes de pessoas), de ficar fazendo reunião para discutir e decidir o que os outros devem fazer (em vez de, simplesmente, fazer), de tratar os outros como “massa” a ser mobilizada (em vez de amigos pessoais a serem conquistados) e, por último, de querer monopolizar a liderança (em vez de estimular o fenômeno da emergência da multiliderança).

‘Carta Rede Social’, ex-‘Carta Capital Social’ (e antiga ‘Carta DLIS’) é uma comunicação pessoal de Augusto de Franco enviada quinzenalmente, desde 2001, para mais de 5.000 agentes de desenvolvimento e outras pessoas interessadas no assunto, de todo o Brasil.

Prezado(a) leitor(a)

Participei, como muitos sabem, durante os anos de 1998 a 2002, de um programa de indução ao desenvolvimento local promovido pelo governo federal em parceria com o SEBRAE. Esse programa, chamado Comunidade Ativa, aplicava uma metodologia chamada DLIS – Desenvolvimento Local Integrado e Sustentável.

Continuo, de lá para cá, tentando promover o desenvolvimento local sob várias formas e denominações diversas. Nesses novos trabalhos, eu mesmo e pessoas que trabalham comigo temos nos deparado com dúvidas, sobretudo da parte daqueles que, no passado, participaram da iniciativa mencionada acima.

Como se sabe, houve uma certa descontinuidade nesses trabalhos depois de 2002. Isso desapontou muitas pessoas que acreditaram nas instituições que os promoviam. A descontinuidade administrativa é uma das mazelas do nosso sistema político. Quem está chegando não quer saber o que foi feito de bom por quem está saindo. E, em geral, atua irresponsavelmente, às vezes até destruindo o que foi feito para apagar a marca do governante anterior (e esse não era o caso do DLIS – que sempre se baseou numa articulação mais ampla – mas o atual governo achou que era), sem se importar com as populações envolvidas.

Nas novas iniciativas de promoção do desenvolvimento local em que estou envolvido, tenho procurado incorporar algumas lições importantes que aprendi nestes últimos cinco anos e que começo a compartilhar agora com os interessados.

PRIMEIRA LIÇÃO Em primeiro lugar, não se pode promover o desenvolvimento sem fazer política. Existem muitas evidências de que os problemas ocorridos em programas de indução ao desenvolvimento local são, em sua maior parte, de natureza política. Os casos são variados: às vezes é o prefeito que não acredita ou tem medo, ou o governador que não quer, ou um outro chefe político que não vê com bons olhos o surgimento de novas lideranças que tendem a crescer em visibilidade e credibilidade. Às vezes são as instituições locais que não se entendem e disputam o tempo todo entre si em um clima adversarial, ninguém querendo colocar azeitona na empada do outro. E às vezes são vaidades pessoais que atrapalham tudo, quando as lideranças da localidade se comportam como se estivessem em um concurso de beleza. Para contornar tais problemas precisamos fazer política, exercitar nossa capacidade de articulação política. Essa capacidade não é inata, não é assegurada por um gene, mas tem que ser adquirida (e pode ser aprendida).

SEGUNDA LIÇÃO Em segundo lugar, não se pode colocar nas mãos de uma instituição (seja ela qual for, governamental ou não) a responsabilidade por promover processos de desenvolvimento local. Se fizermos isso, com toda a certeza, mais cedo ou mais tarde, teremos problemas. Pois nada garante que uma instituição manterá a mesma linha de atuação e a mesma disposição de investir recursos humanos, materiais ou financeiros. Pode acontecer, por exemplo, de mudarem os dirigentes dessa instituição (como é normal e desejável). Aprendemos, às custas de algum sofrimento, que o desenvolvimento local deve ser local mesmo. Ou seja, não pode ser patrocinado ou apadrinhado por ninguém de fora. A rigor, nem de dentro. Se isso ocorrer, as pessoas não assumirão suas responsabilidades, nem se virarão para captar novos recursos, pois ficarão esperando alguma coisa que virá de fora ou de cima. Ora, se for assim, não tem desenvolvimento local, que é – por definição – capacidade de identificar ativos internos, dinamizar potencialidades endógenas e aproveitar oportunidades a partir de uma inteligência coletiva formada localmente. O que fazer então para resolver esse problema? Não há outro caminho senão constituir parcerias entre instituições e pessoas da própria localidade, mobilizando amplo voluntariado local. Se isso não for possível, também não será possível promover o desenvolvimento local. E, assim, não devemos perder tempo tentando fazer o impossível: é melhor ir logo cuidar de outra coisa.

TERCEIRA LIÇÃO Em terceiro lugar, não se pode deixar o trabalho de indução do desenvolvimento local nas mãos de um conjunto de instituições (mesmo que sejam instituições locais). Ou seja, o sujeito impulsionador do desenvolvimento local não pode ser um conjunto de instituições (mesmo que queiramos, indevidamente, chamar tal conjunto de “rede” – pois que, em geral, não é rede coisa nenhuma e sim uma frente de instituições hierárquicas, cada qual com seu interesse particular no processo, interesse que, muitas vezes, não casa perfeitamente com os objetivos mais gerais do processo). Assim, aprendemos também a não apostar tudo apenas em Fóruns ou Agências de Desenvolvimento constituídos por representantes de instituições, a não ser que essas instâncias estejam suficientemente capilarizadas, ligadas no dia-a-dia das pessoas da localidade. Se fizermos isso acabaremos constituindo um grupinho mais ou menos isolado da população e, passado algum tempo, começaremos a reclamar que faltam recursos para contratar pessoas ou que ninguém vem na reunião, que está todo mundo muito ocupado com seus próprios assuntos, que ninguém quer colaborar com o coletivo. Para resolver esse problema descobrimos a solução da rede de desenvolvimento local (ou rede do desenvolvimento comunitário). Se estamos querendo induzir o desenvolvimento em uma localidade a partir dos recursos da própria localidade (outra boa definição de desenvolvimento local), então temos que ter, no mínimo, 1% das pessoas dessa localidade envolvida no processo. Só assim teremos a capilaridade suficiente para mobilizar contingentes maiores de voluntários. Só assim não ficaremos isolados da população, sem condições de disseminar mensagens molecularmente pela rede e sem condições de alavancar recursos novos que farão toda diferença.

Resumindo as três primeiras lições aprendidas: 1º) A indução do desenvolvimento local é um processo político, que exige muita articulação política para se concretizar; 2º) O desenvolvimento local não pode ter pai, padrinho ou patrocinador externo ou interno; 3º) O sujeito do desenvolvimento local é a rede social que existe na localidade e nosso papel (como agentes de desenvolvimento) não é fazer as coisas pela população e sim aumentar a conectividade e o grau de distribuição dessa rede, incorporando as pessoas – não como massa, mas uma-a-uma – no exercício compartilhado de visão de futuro, na elaboração do plano de desenvolvimento, na formulação da agenda de prioridades e na realização dessas prioridades.

Tudo indica que, se conseguirmos fazer isso, teremos mais chances de obter uma combinação virtuosa de esforços de todos os setores – governamentais, empresariais e sociais – e de uma boa parcela das pessoas (enquanto indivíduos mesmo, voluntários) na tarefa de promover o desenvolvimento da localidade em que atuamos. Se não conseguirmos, infelizmente, nossas chances serão bastante reduzidas.

No entanto, alguns leitores destas cartas me perguntam como proceder em relação às redes sociais. Como articulá-las e animá-las? Andamos quebrando a cabeça com esse problema e, a partir do infalível (e insubstituível em uma democracia) processo de tentativa-e-erro, também aprendemos alguma coisa (que tento resumir abaixo, na forma de uma quarta lição):

QUARTA LIÇÃO Quem quer articular e animar redes sociais deve resistir às quatro tentações seguintes: de fazer redes de instituições (em vez de redes de pessoas), de ficar fazendo reunião para discutir e decidir o que os outros devem fazer (em vez de, simplesmente, fazer), de tratar os outros como “massa” a ser mobilizada (em vez de amigos pessoais a serem conquistados) e, por último, de querer monopolizar a liderança (em vez de estimular o fenômeno da emergência da multiliderança).

Resistir à tentação de fazer redes de instituições (entidades, organizações). Muitas vezes é necessário, para começar um projeto ou mesmo para dar respaldo à sua implantação, reunir instituições em torno de um propósito. Pode-se até chamar esse conjunto de instituições de rede. No entanto, redes propriamente ditas, ou seja, redes distribuídas, não podem ser compostas por instituições hierárquicas (centralizadas ou descentralizadas, quer dizer, multicentralizadas). Redes distribuídas devem ser de pessoas (P2P). Portanto, é necessário conectar as pessoas diretamente à rede, mesmo que essas pessoas ainda imaginem estar ali representando suas instituições. Ocorre que um membro conectado à rede não pode ser substituído por outro membro da mesma instituição (nenhuma pessoa é substituível em uma rede). Além disso, as redes devem ser compostas pelas pessoas que queiram delas participar, independentemente de estarem ou não “representando” instituições (redes não são coletivos de representação, mas de participação direta – sem mediações de instituições hierárquicas).

Resistir à tentação de fazer reuniões de discussão ou de deliberação com os membros da rede. Rede é uma forma de organização não-baseada no ajuntamento, no arrebanhamento, no confinamento de pobres coitados numa salinha fechada, onde, em geral, se discute o que outros (que não estão ali) devem fazer. Sim, pois se for para fazer alguma coisa, então não se trata de reunião de discussão e sim de atividade coletiva. Outra coisa nociva é a tal da reunião para decidir, sobretudo pelo voto. Isso é um desastre. Se houver necessidade de votar para decidir é sinal de que o assunto não está maduro. Se estivesse, a solução se imporia naturalmente.

Ter sempre presente que fazer rede é fazer amigos. Tão simples assim. Então as pessoas devem estabelecer comunicações pessoais entre si, uma-a-uma. Cada membro da rede é um participante único, insubstituível, totalmente personalizado, que deve ser tratado sempre pelo nome, valorizado pelo que tem de peculiar, incluído pelo reconhecimento de suas potencialidades distintivas. Nada, portanto, de circulares impessoais, panfletos, chamamentos coletivos. Nada de mobilização de massa. Quem gosta de massa são os candidatos a condutores de rebanhos, que estabelecem uma relação vertical, autoritária e paternalista com o povo.

Levar em conta que rede é um campo para a emergência do fenômeno da multiliderança. Cada um pode ser líder em algum assunto de que goste, domine e a partir do qual seja capaz de propor iniciativas que são acolhidas voluntariamente por outros. Redes não podem ter líderes únicos, líderes de todos assuntos, dirigentes autocráticos que tentam monopolizar a liderança e impedir que os outros a exerçam.

Até a ‘Carta Rede Social 152’ e um abraço do

Augusto de Franco
augustodefranco@gmail.com

22 de novembro de 2007.

Para ler as ‘Cartas Rede Social’, ex-‘Cartas Capital Social’ (e antigas ‘Cartas DLIS’) e outros textos de Augusto de Franco, publicados a partir do final de 2005, clique em http://www.augustodefranco.com.br/ .


2 comentários:

henry disse...

achei excelente, vou postar no meu blog... http://www.valores.blog.terra.com.br com a sua licença

Cláudia Amaral disse...

Claro! Quanto mais gente ler, melhor, não é? Só não se esqueça de citar as fontes!



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