sexta-feira, 30 de maio de 2008

Um clube para quem tem no mínimo US$ 10 milhões

"Riquistão - Como Vivem os Novos-Ricos e Como Construíram suas Megafortunas" - Robert Frank.
Manole, 256 págs. R$49,90


"Riquistão" é leitura que pode interessar a novos ricos, àqueles que desejam ser ricos, aos que trabalham, prestam serviços ou vendem produtos para ricos ou burgueses decadentes. O fato de o livro retratar essencialmente a questão da riqueza na sociedade americana não retira valor ao trabalho de Robert Frank. Afinal, hábitos e comportamentos típicos do capitalismo americano se alastraram pelo mundo todo.

Ao falar da origem de novas fortunas, Frank, jornalista que vive em Nova York, as localiza entre pessoas que não as herdaram, mas as acumularam por conta própria. Baseando-se em dados do livro "Wealth and Democracy", do economista Kevin Phillips, Frank diz que os grandes picos da prosperidade americana foram impulsionados pela mesma convergência de forças: novas tecnologias, aumento da especulação financeira e governos que deram apoio aos mercados livres e à riqueza.

Frank descreve em detalhes as diferentes etapas em que emergiram novas fortunas na sociedade americana. Mas o grande momento está naquilo que ele chama de "evento de liquidez". É o momento em que o empreendedor ou o executivo de uma empresa vende sua participação em ações da companhia por uma vultosa quantia. Irônico, Frank comenta que "banqueiros adoram eventos de liquidez, pois lhes proporcionam uma montanha de dinheiro para administrar". Estão nessa categoria fundadores de empresas, executivos que lhes são vinculados e que obtiveram significativas participações acionárias, e altos executivos de grandes empresas, com excelentes salários e bonificações. Frank tipifica os integrantes de cada um desses grupos e seus comportamentos.

Ao situar o que se pode entender como uma pessoa rica, Frank afirma que, hoje, ela deve possuir no mínimo US$. 10 milhões. Será o começo para alguém conseguir manter um padrão de vida que possa ser considerado à altura de um rico e suas demandas.

Ao falar de alguns ricos e sua maneira de encarar o assunto, Frank mostra casos interessantes - inclusive, de alguns que satirizam o comportamento de seus colegas de fortuna. O bilionário americano David Tepper afirma que "a riqueza pode trazer à tona o pior - ou o melhor - das pessoas, transformando-as em uma versão um pouco exagerada delas mesmas". Diz também que "o dinheiro é como o soro da verdade. Coloca à mostra a natureza do indivíduo. Assim, se for um imbecil, será um imbecil ainda maior depois de ficar rico".

Existe o medo de perder tudo. Diz o autor: "Embora consigam amealhar grandes fortunas em tempo recorde, os novos ricos podem perdê-las num piscar de olhos. Os mercados financeiros e as tecnologias que mudam em ritmo acelerado criam oportunidades históricas para empreendedores e presidentes corporativos faturarem milhões e bilhões praticamente da noite para o dia. Mas também criam oportunidades históricas para perderem tudo com a mesma rapidez."

Os ricos também curtem suas insatisfações. Estudo realizado em 2005 mostrou que menos da metade dos ricos acha que a riqueza os fez mais felizes. Para 10% dos milionários, e 16% das milionárias, a riqueza criou mais problemas do que solucionou.

Segundo Frank, "os ricos sentem-se frustrados pela competição que existe entre eles. Não importa quão bem estejam se saindo, alguém estará sempre melhor. Essa corrida nunca termina, pois eles querem se tornar os maiorais, esperando por uma tranqüilidade que nunca chega". E aí, então, formam grupos de apoio. Esse mercado de auto-ajuda tornou-se um próspero negócio para os espertos de plantão.

Existem previsões de que, até 2052, devem ser transferidos para herdeiros a importância de US$. 15 trilhões. Na maioria dos casos de fortunas americanas, a destinação para filantropia gira em torno de 15% do total acumulado. O restante cairá nas mãos de herdeiros pouco educados para a herança e, menos ainda, para a própria vida.

Ao falar da conduta consumista dos novos ricos, Frank diz que "nunca foi tão difícil ser um consumista realmente esbanjador, pois há milhões de milionários competindo pelos mesmos símbolos e status e um número ainda maior de consumidores afluentes comprando artigos de luxo para imitar a elite".

"Riquistão" será leitura atraente para uma seleta parcela de brasileiros que vivem esses dilemas ou estão por eles cercados. Não é literatura relevante, mas certamente é interessante.


Renato Bernhoeft, para o Valor, de São Paulo
Valor Online, 29/05/08


Um comentário:

Adenilson disse...

Parabéns pelo blog, é realmente muito bom! Vou passar a lê-lo com frequencia!



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