quarta-feira, 4 de julho de 2007

Firma com sócios brasileiros blinda projeto da Stora Enso no Sul do país

André Vieira
Publicado pelo
Valor Online em 04/07/07

As empresas de papel e celulose sofrem críticas freqüentes de organizações não-governamentais sobre o impacto ambiental de seus empreendimentos. No Rio Grande do Sul, a Stora Enso está no meio não apenas desta discussão, mas também de um embate legal.

A fabricante sueco-finlandesa vem encontrando dificuldades para regularizar o registro de terras em zona de fronteira no Estado por ser uma companhia de capital estrangeiro - ela precisa de uma autorização especial do governo federal para efetuar o registro.

Mas a Stora Enso achou uma fórmula para evitar que as terras já adquiridas ficassem desprotegidas legalmente enquanto a autorização não for concedida. A empresa fez o registro das fazendas em nome de dois executivos da própria companhia, brasileiros natos e residentes no país. Na prática, eles passaram a ser grandes latifundiários, donos de 52 fazendas no Rio Grande do Sul.

O procedimento está sendo analisado pela Procuradoria da República no Estado do Rio Grande do Sul. "É um debate interessante", diz ao Valor o procurador Ipojucan Corvello Borba. "A questão é saber se essa foi uma saída legal para regularizar a situação ou se foi uma forma ilegal para contornar a legislação brasileira."

A investigação surgiu depois de promotores estaduais, que analisam o processo de licenciamento ambiental das empresas de celulose no Rio Grande do Sul (além da Stora Enso, há projetos de investimentos da Votorantim e da Aracruz), encontrarem um documento mostrando a relação entre a Derflin, controlada integralmente pela Stora Enso, e a Azenglever Agropecuária Ltda, a companhia dos diretores da empresa.

Ao comprar as fazendas, a Derflin não conseguiu fazer o registro de propriedade nos cartórios locais porque era uma empresa de capital estrangeiro. Por conta disso, decidiu efetuá-lo em nome da Azenglever. O documento descoberto pelos promotores públicos indica que as cotas da empresa dos executivos serão incorporadas pela Derflin tão logo seja dada a autorização do governo federal.

A análise, a cargo do Ministério Público Federal, em Porto Alegre, está em um estágio preliminar de avaliação da documentação dos acionistas das duas empresas, diz o procurador Borba. O MPF pode pedir a instauração de ação penal se avaliar necessário.

A informação, divulgada no site "EcoAgência", circulou rapidamente entre os integrantes dos movimentos ambientalistas contra os bilionários projetos de reflorestamento no Rio Grande do Sul. Eles acusam a Stora Enso de "driblar" a Lei de Segurança Nacional para "impor" seu projeto de reflorestamento para construção de uma fábrica de celulose. Dizem que os projetos ameaçam o ambiente com o que chamam de "deserto verde", áreas densas de florestas de eucaliptos que interferem na biodiversidade local.

O deputado federal Adão Pretto (PT-RS), ligado ao Movimento do Sem-Terras, pediu à Polícia Federal a abertura de inquérito contra a empresa. Em sua defesa, a Stora Enso diz que não agiu assim para burlar a Lei de Segurança Nacional que impede que companhias de capital estrangeiro tenham propriedades rurais a menos de 150 quilômetros da fronteira.

Das 94 fazendas adquiridas entre 2004 e 2005 pela Stora Enso, 52 propriedades já foram escrituradas em nome da Azenglever. As terras, situadas na região sudoeste do Estado, próximo à fronteira com a Argentina e o Uruguai, estão em Alegrete, Cacequi, Itaqui, Maçambará, Manoel Viana, Rosário do Sul, São Borja, São Francisco de Assis e Unistalda. No total, a empresa tem 45,7 mil hectares.

"A orientação dos advogados foi criar uma proteção jurídica para evitar riscos", diz ao Valor o vice-presidente da Stora Enso na América Latina, Otávio Pontes. "É preciso, em caso de invasão, que a terra tenha um dono para pedir sua reintegração de posse ao juiz." O executivo, juntamente com o diretor florestal João Borges, são os sócios da Azenglever.

Otávio Pontes explica que a empresa não tomou nenhuma atitude às escondidas, argumentando que o documento que serve de base para a investigação do MPF foi emitido pela própria Stora Enso enquanto aguarda a autorização do Conselho de Defesa Nacional (CDN), órgão de consulta do presidente da República para assuntos ligados à soberania nacional e a defesa do Estado. "É um processo transitório", diz Pontes.

O plantio de eucaliptos começou depois de a Fepam, o órgão ambiental do Estado, ter concedido licença para oito fazendas, em um total de 2,5 mil hectares. A meta da Stora Enso é comprar cerca de 120 mil hectares até o início da próxima década, mas as novas aquisições de fazendas foram suspensas.

Desde o ano passado, a Stora Enso enfrenta um longo caminho de resgate da história das terras adquiridas a fim de regularizar a situação. A empresa faz a compilação da Cadeia Sucessória Dominial dos títulos dos diversos proprietários de terras gaúchas desde 1850, quando foi instituída a Lei de Terras, a primeira norma legal de propriedade privada instituída pelo Império brasileiro.

A empresa já protocolou no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) 38 processos (um para cada propriedade). Deste total, 24 deles estão completos, à espera da análise dos técnicos do Incra. "O Incra nos pediu para não remeter mais documentos enquanto analisam o primeiro lote." Depois da análise, os documentos devem ser levados à Brasília. O CDN não tem data específica para avaliar os documentos.

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A fascinante história da meta única porém múltipla

Rolf Kuntz
Publicado pelo
Observatório da Imprensa em 03/07/07

Se rir é o melhor remédio, gargalhar será overdose? Alguém deveria entrevistar um especialista no assunto. As seções de Saúde complementariam as de Política e Economia, depois de uma semana com o discurso do senador Joaquim Roriz e as entrevistas sobre a reunião do Conselho Monetário Nacional (CMN). Os leitores poderiam votar, nos sites com pesquisa de opinião, para eleger o evento mais cômico e a explicação mais atrapalhada. A escolha entre a bezerra do senador e a meta de inflação para 2009 pode parecer difícil, mas segunda leva uma vantagem. Para avacalhar a história da bezerra a imprensa recorreu a testemunhos e a recibos. A explicação da meta foi auto-avacalhante.

O noticiário dos jornais deu toda a informação necessária para o leitor perceber o tamanho da trapalhada. Colunistas e editorialistas só tiveram de realçar, com algumas pinceladas, a confusão armada pelo governo. Repórteres mais caridosos tentaram ainda mostrar alguma racionalidade na história. A decisão do CMN, segundo a versão mais amigável, deu novo sentido à política monetária, atribuindo maior importância ao intervalo do que ao centro da meta.

Segundo essa interpretação, o Banco Central ficaria mais livre para buscar uma inflação em qualquer ponto entre 2,5% e 6,5% , sem ter de mirar necessariamente no meio do alvo – 4,5%. A liberdade seria usada, naturalmente, para a autoridade trabalhar por um resultado abaixo do centro.

Essa explicação foi alimentada por autoridade monetária e pode ter algum vínculo com a verdade, mas não corresponde, oficialmente, à decisão do CMN. A história da trapalhada é tão evidente quanto simples. O ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, havia proposto publicamente a meta de 4% para 2009. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, havia defendido, também publicamente, 4,5% – número já escolhido para 2007 e 2008. Em seguida, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou-se favorável, numa entrevista ao Valor, à manutenção dos 4,5%. Estava armado o circo.

Tudo bem, mas...
A opinião do presidente do Banco Central, terceiro membro do CMN, não era nenhum mistério. Normalmente, votaria na meta mais ambiciosa, porque as projeções, tanto oficiais quanto do mercado financeiro, apontam para uma inflação em torno de 3,5% neste ano e de 4%, no próximo. Para que desperdiçar essa expectativa favorável se os mesmos conjuntos de projeções indicam juros em queda?

Mas o presidente da República havia falado. Pôr o assunto em votação no CMN seria criar um caso com o chefe. Mas o ministro Guido Mantega deve ter percebido, afinal, a armadilha criada por ele mesmo e pelo presidente. Não se podia escolher menos que 4,5%, mas também seria uma bobagem olímpica anunciar ao mundo o afrouxamento do combate à inflação. Isso não tem relação com ortodoxia ou heterodoxia, e desta vez a imprensa não perdeu tempo com essa conversa.

O ministro do Planejamento foi claro na entrevista depois da reunião – tanto quanto seria possível sem violar a disciplina funcional. Apresentou exatamente o raciocínio sobre as projeções, sobre o andamento da política antiinflacionária e sobre as expectativas. Quem se enrolou foi o ministro da Fazenda, tentando juntar cacos desconexos.

Como ninguém se convenceu, ele continuou tentando. Suas entrevistas publicadas no domingo (1/7), no Estado de S.Paulo e na Folha de S.Paulo, apenas confirmaram a confusão exibida na terça-feira (26/6) depois da reunião do CMN.

"Quando a inflação está abaixo do centro da meta, o BC não tem de levar a inflação para 4,5%. Este é o equívoco de alguns. O centro da meta é um parâmetro." Mas qual deve ser a mira do BC e que diabo é esse parâmetro? "Ele [o Banco Central] tem de mirar em 4,5% (...) Ele tem de colocar 4,5% no modelo dele. Isso permite que continue reduzindo a taxa de juro." Estas são algumas das palavras ditas por Mantega ao Estado. Tudo bem, exceto por alguns detalhes: 1) que significa "mirar"? 2) se os 4,5% vão para o tal modelo, e se isso orienta a política de juros, para que servem o modelo e a política de juros? Nenhuma outra frase do ministro esclarece esses pontos.

Graças aos céus
As declarações à Folha não foram mais lógicas. "Essa meta (4,5%) evita que o Banco Central suba os juros, no caso de um pequeno aumento pontual da inflação, e interrompa o ciclo de crescimento. A meta que nós estabelecemos garante juros menores." Garante por quê? Porque o governo está disposto a aceitar 4,5% e, portanto, é essa a mensagem enviada ao setor privado? Talvez o ministro da Fazenda considere estrábico o pessoal do Conselho de Política Monetária (Copom). Isso explicaria a história de mirar num ponto para acertar noutro. Além do mais, não se pode acusar o pessoal do BC de ter elevado os juros por causa de um "aumento pontual" da inflação.

Casos como esse justificam a publicação de entrevistas pingue-pongue, porque vale a pena reproduzir, em vez de resumir, as palavras do entrevistado. O pingue-pongue é em geral uma chatice e um desperdício de espaço. Segundo alguns, é também uma demonstração de preguiça, pois dispensa o redator de condensar num texto decente as declarações do entrevistado. Também isso é uma questão de bom senso.

Quando uma autoridade, como o ministro Guido Mantega, se dispõe a justificar o injustificável, o repórter e o editor só podem agradecer aos céus por mais essa história divertida – e aproveitar muito bem a preciosa matéria-prima.

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terça-feira, 3 de julho de 2007

Assembléia Legislativa de SP aprova lei que exige sacola biodegradável no comércio

Publicado pela Envolverde em 03/07/07

(Imagem Sxc.hu )

A Assembléia Legislativa aprovou na última semana o projeto de lei nº 534/07, que obriga os estabelecimentos comerciais do Estado de São Paulo a trocarem as sacolas de plástico comum por material biodegradável. “Essa legislação pode ser considerada um avanço na relação entre o Poder Público e o Meio Ambiente. Esse material biodegradável terá impacto, inclusive, na vida útil dos aterros sanitários”, destaca o deputado estadual Sebastião Almeida (PT-SP), autor da lei que precisa ser sancionada em até 30 dias pelo governador José Serra para entrar em vigor.

O texto aprovado no plenário da Assembléia Legislativa determina o prazo de um ano para que os estabelecimentos comerciais substituam as sacolas normais pelas sacolinhas de composto oxi-biodegradável. Em caso de desobediência da lei, o proprietário será multado em 3.000 UFESP(s) – Unidades Fiscais do Estado de São Paulo, valor hoje equivalente a R$ 42.690,00. Se houver reincidência, a multa será aplicada em dobro. A lei exige que os sacos plásticos contenham informações dos fabricantes sobre a composição do aditivo oxi-biodegradável utilizado na produção.

Almeida explica que a lei não foi criada para punir os estabelecimentos comerciais nem visa a prejudicar os produtores das sacolas de plástico que não são biodegradáveis. “O prazo de um ano serve para todos se adaptarem. Tenho certeza de que as grandes redes de supermercado vão colaborar com a aplicação da lei”, explica Almeida.

Segundo ele, é importante destacar que a lei é válida somente para as sacolas fornecidas por estabelecimentos comerciais, deixando de fora as embalagens originais das mercadorias. “Espero que o governador se sensibilize com a questão e sancione a lei. Também se trata de uma responsabilidade do Estado”, diz o deputado.

Almeida lembra que legislação semelhante foi aprovada em março deste ano na cidade de San Francisco (EUA). “O apoio da comunidade foi muito importante lá fora. Espero que essa questão também sensibilize os brasileiros, já que outras cidades também vêm se movimentando nesse sentido”, destaca o deputado estadual, que é ex-presidente da Comissão de Meio Ambiente da Assembléia Legislativa.

Estimativas da indústria indicam a produção anual de 210 mil toneladas de plástico-filme no Brasil. O composto é utilizado principalmente para a fabricação de saquinhos utilizados em estabelecimentos como supermercados, padarias, açougues e quitandas. O petróleo é um dos componentes utilizados na fabricação do plástico-filme e algumas embalagens precisam de 100 a 300 anos para se decompor no ambiente. “Esse plástico termina em aterros sanitários e lixões. Já os sacos biodegradáveis desaparecem depois de alguns meses”, ressalta Almeida.

As embalagens plásticas oxi-biodegradáveis apresentam degradação inicial por oxidação acelerada pela luz e pelo calor, que vai de 60 a 90 dias. “Esse plástico é consumido por microorganismos, tendo como resultado CO2, água e biomassa, justamente para que os resíduos finais não poluam o Meio Ambiente”, conclui o deputado estadual. (Assessoria)

(Envolverde/Carbono Brasil)

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Belo Horizonte aprova 2 leis solares

Publicado pelo Carbono Brasil em 03/07/07

Além de São Paulo, mais uma cidade respondeu positivamente às propostas da Iniciativa Cidades Solares neste junho passado: a Câmara dos Vereadores de Belo Horizonte aprovou dois projetos de lei que confirmam a vocação solar da cidade que já é a capital brasileira que mais utiliza a energia solar para aquecimento de água.

Um dos projetos criou a política municipal de incentivo ao uso de formas alternativas de energia que, entre outras providências, elimina a sobretaxação do equipamento solar para cômputo do valor do IPTU das edificações, uma anomalia que penalizava os munícipes que optassem por esta forma de energia sustentável.

No outro projeto aprovado no dia 29 de junho passado, a Câmara passa a obrigar os empreendedores da construção civil a utilizarem tubulação que permita a utilização de energia solar em edifícios residenciais.

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Potencial eólico do Brasil não é aproveitado para produção de energia

Natália Suzuki
Publicado pela Carta Maior em 02/07/07


Pouco investimento no setor, baixos incentivos financeiros do governo e e falta de incentivos para o aprofundamento das pesquisas em tecnologia não colaboram para a exploração dessa fonte energética.
(Fotos www.sfiec.org.br)

Na última semana, o governo brasileiro optou pela construção da usina nuclear Angra 3. Mais uma vez, o investimento em outras fontes energéticas ficaram para depois. No rol das energias alternativas, a eólica é muito mencionada, mas, apesar do potencial expressivo que o país tem para o seu desenvolvimento, os investimentos e o seu alcance no Brasil são poucos.

Atualmente, o Brasil tem 200 MW de potência instalada de energia eólica, o que representa apenas 0,3% de toda a matriz elétrica do país. Se todos os projetos em andamento forem concluídos, a previsão é de que sejam implantados 1,3 mil MW de energia eólica até 2008.

“A China, um país em desenvolvimento como o Brasil, começou a implantar essa energia em 1996. Em 2006, os chineses tinham 2,6 mil MW de potência instalada. Para o próximo anos, o país prevê alcançar a meta de 2010, que é de 5 mil MW. Se comparado com a China, o desenvolvimento tecnológico e a adoção desse tipo de energia foram muito lentos aqui”, compara Karen Suassuna, técnica do Programa de Mudanças Climáticas da WWF-Brasil.

“A iniciativa tem que partir do governo: é ele quem tem que gerar o primeiro sinal sobre o projeto, garantindo a energia, a cobertura [de transmissão] e criando um mercado, como ocorreu na Alemanha”, lembra Ricardo Baitelo, coordenador da campanha de Energias Renováveis do Greenpeace.

Essa estratégia fez com que países com potencial menor que o do Brasil tenham uma potência de energia eólica instalada maior. A Dinamarca foi pioneira na empreitada, em 1976.

“Muitos projetos não saíram do papel no Brasil”, explica Eliane Amaral Fadigas, professora e pesquisadora do Departamento de Engenharia de Energia e Automação Elétricas da Escola Politécnica da USP. Segundo ela, a situação se deve à falta de interesse dos investidores. O Proinfa (Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica) do Ministério de Minas e Energia determina que as empresas fabricantes de turbinas sejam nacionalizadas para desenvolver projetos no Brasil. Se outras empresas estrangeiras se interessassem, elas devem se instalar aqui. No Brasil, há apenas um fabricante de turbinas eólicas.

Para a técnica da WWF, o governo brasileiro não criou condições para atrair investidores no setor. Ela menciona também que os custos externos da energia eólica, quando confrontados com os valores estipulados nos leilões com outros tipos de energia, liquidam as chances de concorrência. “Quando os custos externos começam a surgir, percebe-se que o custo de produção é elevado, o que torna a eólica incompatível. Não dá para concorrer de igual para igual com outros tipos de energias. São duas coisas diferentes”, observa. Uma saída seria ter leilões específicos para energia eólica.

A energia eólica chega a custar, no mínimo, R$ 180 MW/hora. Segundo a pesquisadora da USP, outras fontes têm preços mais baixos, como o gás (R$120) e a hidráulica (R$70 a 80). Para Eliane, se o governo ou setor elétrico quiserem desenvolver a energia eólica é preciso esforços para a redução dos custos a partir da nacionalização da instalação e das equipes especializadas no ramo, além da escolha dos melhores lugares para a implantação das usinas. “Está mais do que na hora de investir mais em pesquisas para baratear os preços”, afirma.

Potencial natural
O litoral do nordeste brasileiro, especialmente o do Ceará, é considerado um dos lugares favoráveis para a atividade eólica, devido ao regime de ventos, segundo o Atlas do Potencial Eólico Brasileiro, produzido pelo Centro de Referência para Energia Solar e Eólica Sérgio de Salvo Brito (Cresesb).

Contudo, a pesquisadora da USP, Eliane Fadigas, alerta que a medição sobre o regime de ventos e outras condições necessárias para a implantação de usinas eólicas é ainda muito deficiente no Brasil. Por isso, atualmente, não é possível estimar qual o real potencial para a eólica no país. Para dados mais completos e exatos, são necessários uns mapeamentos mais extensos. “Antes de dizer que uma região não é um bom lugar para a eólica, é preciso fazer um estudo preliminar com a instalação de uma torre de transmissão por pelo menos um ano”, explica a pesquisadora.

Eliane também enfatiza que, apesar de vantagens, a eólica tem também limitações. O fato de depender do regime de ventos faz com que seja uma fonte de energia sazonal. “Ela não vai resolver o problema de emissões de gases de efeito estufa sozinha, porque não conseguiria suprir o uso de combustíveis fósseis, como o petróleo. As fontes alternativas (eólica, biomassa solar) são fontes complementares”.

De acordo com Karen Suassuna, a característica dos ventos no nordeste se conjuga com as condições naturais da energia hidráulica. “O Brasil é um dos poucos lugares do planeta que tem uma relação inversamente proporcional entre o regime de ventos e o da hidráulica, principalmente na região nordeste: quando se tem um maior potencial de ventos, há um menor volume hídrico. Essa tecnologia pode ser complementar à hidráulica”, explica.

Além das condições naturais, outros fatores contam como a existência de uma rede de transmissão de energia próxima ao espaço da usina e a disponibilidade de uma área livre, distante de construções altas. O último fator limita a instalação em centros urbanos.

Segundo Karen, é necessário que haja políticas públicas, investigando as formas como cada Estado pode fazer uso e se beneficiar da energia eólica de acordo com as realidades locais.

Impactos
“Toda a fonte tem impactos”, diz Eliane. No caso da eólica, ela lembra que a região da usina é afetada na sua fase implantação, quando se faz a terraplanagem e a recuperação da vegetação rasteira. Já na fase de operação, os impactos apontados são o visual, sonoro e eletromagnético. Segundo a pesquisadora, para os dois últimos, a tecnologia já vem desenvolvendo turbinas menos ruidosas e reduzindo as interferências magnéticas.

Para a obra, são exigidos o relatório e o estudo de impactos ambientais (EIA-Rima), que teria função de prever conflitos com a fauna da região. A rota de aves migratórias costuma ser uma das principais preocupações durante o estudo de impacto ambiental.

Ricardo Baitelo, coordenador do Greenpeace, afirma que, comparados com outros tipos de fontes energéticas, os impactos da eólica são ainda mais reduzidos. “É uma energia muito benéfica, porque não faz uso de combustível, do solo e nem da água. A emissão de gases é superbaixa”, considera.

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Classe média deve dobrar até 2015, prevê Goldman Sachs

Assis Moreira
Publicado pelo
Valor Online em 03/07/07

Supachai Panitchpakdi, da Unctad: renda cresce nos países em desenvolvimento, mas diferenças na distribuição persistem
(Foto Ruy Baron/Valor DF)


A classe média deve dobrar de tamanho no Brasil até 2015, com impacto importante no mercado e nos padrões de consumo. Quem faz a estimativa é o Goldman Sachs, grande banco de investimento dos Estados Unidos, em relatório divulgado em Genebra.

O banco define como classe média no Brasil, Rússia, Índia e China - os chamados países Brics - a parcela da população com renda acima de US$ 3 mil por ano. Pode parecer pouco, mas basta ver que há 980 milhões de pessoas nos países em desenvolvimento sobrevivendo com menos de US$ 1 por dia.

No total, a instituição prevê que 2 bilhões de pessoas devam ascender para a classe média nesses quatro países nos próximos vinte anos, no que chama dos "novos consumidores num novo mundo".

A previsão é que o número de pessoas com rendimento acima de US$ 3 mil deve crescer dez vezes até 2015 na China e 14 vezes na Índia, no rastro de expansão econômica por volta de 9% ao ano dos dois gigantes. No Brasil e na Rússia, a classe média deve dobrar a partir de níveis já elevados, na avaliação do Goldman Sachs.

O crescimento é exponencial, mas a renda desses emergentes continuará por um longo tempo bem atrás da renda dos países do G-6 (EUA, Japão, Alemanha, Grã-Bretanha, França e Itália).

A renda real nos países em desenvolvimento cresceu 71% na última década, mas tem sido marcada por enormes diferenças na distribuição, alertou ontem o secretário-geral da Conferência das Nações Unidas para o Comércio e o Desenvolvimento (Unctad), Supachai Panitchpakdi.

As previsões de Goldman Sachs refletem uma mudança sem precedentes na economia mundial e atraem mais negócios para os países emergentes.

A parte da Europa, dos Estados Unidos e do Japão na produção global deve cair de 89% do total em 1991 para 75% este ano. Por sua vez, o crescimento nos emergentes é espetacular. Os economistas do Goldman Sachs estimam que a produção dos Brics, que equivaliam a 15% daquela do G-6 em 2005, representará quase 30% em 2010 e pode alcançar a paridade em 2030.

Em dólar, a China pode superar a Alemanha este ano, o Japão em 2015 e os EUA em 2039. A economia da Índia poderá ser maior que a dos EUA e da China em 30 anos. A Rússia pode superar Alemanha, França, Itália e Grã-Bretanha.

A população mundial vai aumentar e também ficar mais idosa. Passará dos 6,5 bilhões para cerca de 9 bilhões em 2050. África e Ásia vão contar com 90% do crescimento populacional, enquanto a população da Europa deve se contrair 9%.

A proporção da população vivendo na área urbana vai aumentar rapidamente, especialmente no Brasil, Rússia, Índia e China. Essa urbanização terá profundos efeitos sobre a utilização de recursos, criação de detritos, emissões e padrões de vida.

O Goldman Sachs nota que o incremento de energia já ocorre principalmente por causa dos Brics. No setor de alimentos, a produção de carnes bovina, de frango e suína na China e no Brasil passou de 21% da produção mundial em 1990 para 43% em 2006. A instituição chega a estimar que, com a população crescendo, esses países podem se tornar consumidores líquidos, em vez de serem exportadores. A realidade é que hoje o Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina.

O banco americano destaca que os consumidores estão mudando também o "velho mundo", sendo fiéis a produtos de companhias reconhecidas como "socialmente responsáveis". Essa tendência deve aumentar, de acordo com o relatório.

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Santander aposta em ciclo virtuoso na América Latina

Catherine Vieira
Publicado pelo
Valor Online em 03/07/07

José Juan Ruiz, economista-chefe do Santander para as Américas: 34% do resultado do banco provêm da AL
(Foto Marisa Cauduro / Valor)

Crescimento médio de 4,7% e inflação entre 3% e 5% e cerca de seis países próximos do grau de investimento. As previsões para a América Latina consolidadas pelo economista-chefe do Santander para as Américas, José Juan Ruiz, são apenas parte da justificativa do entusiasmo do banco com o ciclo virtuoso da região.

Não é à toa que 34% do resultado do banco provêm da América Latina. "É extraordinário, são quatro anos de crescimento e bons indicadores e teremos o quinto. Há 25 anos não se via algo parecido", diz Ruiz. Em grandes números, o quadro da economia latino-americana parece muito mais cor-de-rosa do que poderia sugerir um olhar clínico dos dados isolados de cada país, nos quais poderia se questionar a qualidade dos gastos públicos brasileiros ou a inflação argentina. Esta visão conjunta é, porém, a maneira como os grandes investidores do mundo analisam os dados, o que justifica, em parte, o fluxo que converge para a AL.

O Santander promove, a partir de amanhã, um encontro com especialistas de diversos países para debater e aprofundar alguns dos temas apresentados ontem pelo economista da instituição.

Segundo Ruiz, Wall Street está "comprando" a melhora dos fundamentos macroeconômicos da América Latina como um todo. "O que eles observam em grandes números é um crescimento na casa de 5% com inflação em cerca de 5,4%, um superávit comercial superior a US$ 115 bilhões e um superávit primário médio de 3% do PIB e mais de US$ 300 bilhões em reservas", aponta Ruiz. "É assim que os investidores e analistas pensam, eles não me perguntam sobre um país ou problema específico, em primeiro lugar, sempre me questionam sobre os indicadores e as projeções consolidadas", contou o economista.

Para ele, os latino-americanos costumam ser mais pessimistas do que os estrangeiros a respeito do próprio futuro. "O Francisco Luzón (diretor geral do grupo Santander) disse uma vez que o fracasso tem um enorme prestígio intelectual na América Latina e que é preciso acabar com esse fatalismo para aproveitar melhor as oportunidades que estão se criando", completou Ruiz, enquanto seu celular toca, fazendo soar uma melodia do ministro Gilberto Gil.

Apesar de garantir que sua devoção à música brasileira não influencia o seu otimismo com o país, as projeções de Ruiz para a economia do Brasil são animadoras. Para o economista, o Brasil vai atingir o grau de investimento nos próximos doze meses. E, apesar de apontar o câmbio e a apreciação das moedas locais como um principais riscos a serem observados no momento na AL, Ruiz diz que não há motivos para uma preocupação especial como Brasil. "A apreciação do câmbio é uma preocupação de forma geral, uma vez que a inflação esta baixa e isso também aprecia o câmbio real", observou Ruiz.

Ainda que o real apresente uma apreciação maior que as outras moedas e a balança comercial brasileira seja a mais robusta da região, ele não acredita em grandes estragos. "O Brasil cresceu com taxas de juros de dois dígitos e inflação baixa, imagina o impacto que pode ter um período sustentado de juro menor para a demanda interna", acredita ele.

Para Ruiz, esse desenvolvimento das demanda e poupança interna e a eliminação de riscos por meio da redução da dívida externa e do aumento das reservas sao os pilares que permitem o otimismo para os próximos meses. "Sempre se discute até quando essa fase boa vai durar e acredito que pelos próximos doze a dezoito meses certamente vai continuar", avalia o economista do Santander.

"Alguns defendem que, quando os preços das commodities voltarem a cair, haverá um estrago no superávit comercial da américa latina", diz ele, mostrando projeções feitas pelo JP Morgan. "Mas esta projeção desconsidera que os países não são igualmente vulneráveis e muitos ajustes aconteceram", adverte ele, apontando para um recém-divulgado relatório da Goldman Sachs, que aponta ser a América Latina mais do que só um jogo baseado em commodities.

Outros fatores que permitiram o crescimento da região, na visão de Ruiz, foram o desenvolvimento do mercado de capitais, a solidez do sistema financeiro e a expansão do crédito. Ruiz ressaltou que a média da relação crédito versus PIB na região aumentou de 23,2% em 2003 para 26,7% em 2006, sendo que no Brasil o movimento foi mais acentuado, e o percentual saltou de 24,6% para 31,5%. Ele lembra que o consumo interno foi beneficiado e vem se expandindo fortemente, mas a poupança interna também cresceu. "Ou seja, se consome, mas está ocorrendo investimento, financiado com a poupança interna". Para 2007, a previsto é a de que a demanda interna da região cresça 6,3%. No entanto, a projeção para a taxa brasileira é menor, de 5,6%, e ganha apenas do México (3,7%).

Para o economista, as mudanças na economia da América Latina se refletiram nos indicadores sociais. "A renda per capita teve um acréscimo de US$ 2 mil nos últimos quatro anos, sendo que em toda a década de 80 esse valor não passou de US$ 1,4 mil. Além disso, o número de pessoas abaixo da linha de pobreza se reduziu cinco pontos percentuais em quatro anos, o que representa 18 milhões de pessoas", ressalta Ruiz. Segundo ele, uma geração inteira de latino-americanos cresceu sem ver três anos seguidos de crescimento econömico de 3,5% ou mais.

A repórter viajou a convite do Santander

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Domínios '.mobi' já geram disputas

Josette Goulart
Publicado pelo
Valor Online em 03/07/07

As empresas brasileiras que têm planos de explorar a internet por celular precisam se apressar para fazer o registro de domínios ".mobi", que identifica os sites em formato de tela de celular. Apesar de fazer menos de um ano que os ".mobi" estão sendo vendidos, muitas empresas vão se surpreender com seus domínios já em mãos alheias. Mais precisamente em poder dos chamados cybersquatter - que compram domínios para revender para os titulares da marca mais tarde.

A chamada "ciberocupação" nos domínios ".mobi" já é tão grande no mercado internacional que a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) teve que resolver inúmeros conflitos por meio de arbitragem desde setembro do ano passado, quando os registros começaram a ser comercializados. Somente nós últimos quatro meses de 2006, outra mediadora de conflitos, a Sunrise Challenge, resolveu cerca de 20 processos envolvendo pedidos de transferências de domínio ".mobi", segundo dados do site da OMPI.

A rapidez com que se proliferaram os cybersquatter não deixou escapar nem mesmo as fabricantes de celulares internacionais. Caso da Siemens, que obteve o registro "siemens.mobi" depois de a Sunrise Challenges ter determinado que a empresa Botal Technology, que havia feito o registro, fizesse a transferência para a Siemens.

No Brasil, os escritórios especializados em propriedade industrial ainda não sentiram grande interesse das empresas em ter o domínio ".mobi". Na verdade, das pequenas empresas às grandes instituições financeiras, mesmo o conhecimento sobre a existência deste domínio ainda é pequeno. Os bancos, por exemplo, que já discutem até mesmo que tipo de tecnologia usar para fazer funcionar o internet banking por celular, ainda não fizeram seus registros. Dos grandes bancos nacionais, apenas o Itaú tem o registro em seu nome, segundo uma pesquisa feita no site "whois.mtdl.mobi", onde é possível pesquisar os domínios já registrados. O domínio "bancodobrasil.mobi", por exemplo, está hoje nas mãos de um cidadão da cidade de Sombrio, em Santa Catarina. O "unibanco.mobi" está em Curitiba e o "bancoreal.mobi", no Rio de Janeiro. O "bradesco.mobi" está ainda mais longe, nas mãos de chineses, e nem o braço brasileiro do Santander escapou. Apesar de o banco espanhol ter feito o registro "santander.mobi" na Espanha, o "santanderbanespa.mobi" foi registrado por americanos. Procurados, os bancos não quiseram comentar o assunto.

Ainda no setor financeiro há os exemplos da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) e da Bolsa de Mercadorias & Futuros (BMF), que tiveram seus domínios ".mobi" registrados por um cidadão londrino e, caso se interessem por eles, terão que tentar negociar a compra dos registros. Se não for possível negociá-los por um preço razoável, a grande vantagem destas empresas é que os domínios ".mobi" contam com uma cláusula de arbitragem. Com isso é possível resolver o conflito rapidamente e a um custo relativamente baixo, em torno de US$ 2 mil, a depender dos honorários advocatícios.

O advogado Márcio Oliveira e Souza, do escritório Barros e Souza Advogados, conta que as decisões deste tipo de conflito no Centro de Mediação e Arbitragem da OMPI podem levar menos de três meses e destaca, entre os casos de marcas famosas que já chegaram aos árbitros da OMPI, uma disputa envolvendo a Adidas. O processo entrou na OMPI em janeiro e em 21 de março os árbitros decidiram que um cidadão chinês deveria transferir à empresa alemã o domínio registrado. Nenhuma disputa envolvendo o domínio ".mobi" de uma empresa brasileira chegou ainda na OMPI. Mas, nos casos dos domínios ".com", tem sido crescente o número de brasileiras que entram com processos visando a transferência de domínio. O advogado Luiz Edgard Montaury Pimenta, que é árbitro da OMPI, conta que o processo é muito simples. Primeiro faz-se uma comunicação à empresa ou cidadão que fez o registro da marca e, se não houver negócio, basta pedir a transferência na OMPI. Normalmente, segundo Montaury, quando o registro é feito com o único objetivo de vender a marca famosa para o titular, o valor pedido para a transferência é elevado. "Então pode-se levar o caso à OMPI", diz Montaury.

O escritório Danneman, Siemsen ainda não se deparou com problemas deste tipo para seus clientes porque já fez o registro ".mobi" para 70 deles ainda no período de pré-venda, antes do lançamento oficial do domínio. De acordo com o advogado Filipe Fonteles Cabral, essa estratégia foi adotada para dar preferência às empresas titulares das marcas e evitar a ação dos cyberquatters. O custo do registro é relativamente baixo e depende da entidade intermediária que prestará o serviço. O preço via NSI (Network Solutions), por exemplo, é de US$ 35.00, e o da Register.com é de US$ 159.00.

Mas não é qualquer nome que se pode registrar, como lembra o advogado Márcio Oliveira e Souza. A OMPI fez algumas reservas e impede, por exemplo, o registro de domínios que indicam posição geográfica. Já no caso de nomes comuns os domínios serão vendidos por meio de leilão. Tirando estas hipóteses, é possível fazer o registro. Souza recomenda que as empresas se apressem porque não há previsão de ser criado um domínio ".mobi.br". Este pode ser um problema para empresas como a companhia aérea TAM, que têm empresas homônimas em outros países. O domínio "tam.mobi" já foi registrado nos Estados Unidos, como aconteceu com o "tam.com" que foi registrado pela Tam Systems.

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Os países não conseguem acabar com a fome

Gustavo Capdevila
Publicado pela
IPS em 03/07/07

O objetivo de reduzir pela metade, até 2015, a proporção de pessoas que passam fome, em relação aos níveis de 1990, caminha para o fracasso, alertaram ativistas da organização não-governamental ActionAid, que em resposta decidiu lançar uma campanha mundial.

Uma tragédia real e um verdadeiro escândalo é que o número de pessoas afetadas pela fome aumentou, em sete anos, de 800 milhões para 854 milhões, disse Ramesh Singh, chefe da organização, ao anunciar a campanha pela afirmação do direito à alimentação para os povos.

Singh responsabilizou pelo fracasso os governantes do mundo porque, ao mesmo tempo, a produção mundial de alimentos cresce ao extremo de poder sustentar 12 bilhões de pessoas, quase o dobro da população atual. Por esse motivo, a ActionAid escolheu a cidade suíça de Genebra, que esta semana é sede do primeiro Exame Ministerial Anual do Conselho Econômico e Social (Ecosoc), mecanismo recém-criado por esse organismo da Organização das Nações Unidas. Em sua sessão inaugural, o Exame analisa os resultados de dois dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio: redução pela metade da pobreza extrema e fome, e a criação de uma associação mundial para o desenvolvimento.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, ressaltou que essas duas metas, que na essência promovem a ação contra a miséria e a incorporação do setor privado ao fórum mundial, sustentam toda a agenda de desenvolvimento da organização. Os outros Objetivos do Milênio para 2015 são ensino primário universal; promoção da igualdade de gênero e autonomia da mulher; redução da mortalidade infantil; melhoria da saúde materna; combate ao HIV/aids, paludismo e a outras doenças, e garantir a sustentabilidade do meio ambiente.

Ban afirmou que, ao se completar a primeira metade do prazo estabelecido, essas metas continuam sendo alcançáveis, mas unicamente “se os líderes políticos adotarem ações urgentes e concertadas”. Entretanto, o secretário-geral defendeu as conclusões de um informe da ONU distribuído nesta segunda-feira que dá como certa a comprovação de que a porcentagem de pessoas que vivem em condições de extrema pobreza diminuiu de um terço para um quinto da população mundial entre 1990 e 2004. Em contraste, Singh declarou aos jornalistas que o informe do secretário-geral “encobre as questões da fome e não leva em conta o fato de que agora há mais pessoas com fome no mundo”.

Por sua vez, o relator especial das Nações Unidas sobre o direito à alimentação, o acadêmico suíço Jean Ziegler, disse à IPS que o informe de Ban revela progressos no geral, e retrocessos no tocante à fome. Segundo Ziegler, alguns funcionários da ONU acreditam que o aumento do número de pessoas afetadas pela fome se deve ao crescimento da população mundial. “Não aceitamos esse critério porque é um argumento desumano. Cada criança que morre de fome hoje em dia é uma criança assassinada”, afirmou.

Portanto, a ActionAid, com sede na África do Sul, “interpreta que a fome não é um sofrimento necessário, não é um ato da natureza nem um ação divina. É uma escolha política, pois constitui uma violação dos direitos humanos e um falta dos líderes mundiais em relação aos seus deveres”, resumiu Singh. A campanha da ActionAid procura assegurar que o direito à alimentação seja reconhecido como um dos direitos humanos fundamentais por todos os instrumentos jurídicos nacionais e internacionais, constituições, códigos, leis e outras normas, de maneira que os governantes e os líderes possam ser responsabilizados.

Outro aspecto da campanha inclui a promoção dos direitos da mulher à terra, um instrumento básico na produção de alimentos, atividade na qual a mulher aparece como provedora e produtora principal. As estatísticas demonstram que 90% do trabalho agrícola destinado à produção de alimentos são feitos por mulheres. Mas apenas 1% do total de propriedades agrícolas pertence a mulheres, destacou Singh. Este desequilíbrio é inaceitável, afirmou. A igualdade de direitos de propriedade agrária para a mulher garantirá a disponibilidade de alimentos para as famílias e as crianças, ressaltou o especialista.

Outro objetivo da campanha é deter a ação das empresas multinacionais que “criam fome”. Singh apontou grupos privados como Monsanto, Wal Mart e Tesco, os quais acusou de serem responsáveis por grande parte da fome no mundo. Cinco grandes empresas controlam 90% do comércio mundial de grãos, acrescentou. O mesmo ocorre com grande parte da agroindústria, como no caso de sementes, fertilizantes e demais químicos, no Brasil, o abastecimento de 60% da semente de milho está nas mãos da Monsanto, ressaltou Singh.

Por outro lado, Ziegler observou que os Estados têm uma obrigação transnacional de atuar em casos de fome em outros territórios. ‘Devem cumprir seu dever de assistência quando o outro Estado não é capaz de fazê-lo e têm de pagar a ajuda humanitária”, disse à IPS. Sobre este tema, o informe da ONU, assinado por José Antonio Ocampo, secretário-geral-adjunto para assuntos econômicos e sociais, reconhece que as nações industrializadas devem cumprir suas promessas de contribuir com uma ajuda ao desenvolvimento equivalente a 0,7% de seu produto interno bruto. (IPS/Envolverde)

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Uma espanhola que liberta de escravos

Mario Osava, enviado especial
Publicado pela
IPS em 03/07/07

Foto de Mario Osava

A luta contra a escravidão ainda existe no Brasil, e um pequeno grupo assentado no município de Açailândia, na Amazônia oriental, dirigido por uma espanhola ganha batalhas em meio a fazendeiros que alegam ignorância.

O jovem com queimaduras nos pés, mãos infectadas e cheirando mal, chegou amparado por um companheiro. Havia sofrido um choque elétrico ao transportar uma vara metálica que atingiu um cabo de alta tensão na fazenda onde trabalhava. O tratamento médico o está recuperando, mas foi preciso amputar um dedo do seu pé.

Foi o “caso mais triste que atendi”, conta Brígida Rocha, de 22 anos e há dois anos encarregada dos primeiros atendimentos aos que chegam ao Centro de Defesa da Vida e dos Direitos Humanos de Açailândia (CDVDH), com apoio de dois advogados, uma estudante e uma assistente social. O ferido estivera vários dias sem o tratamento adequado, embora seu patrão seja um médico que agora enfrenta uma denúncia penal e outra trabalhista. Mas são as chegadas de surpresa de dezenas de trabalhadores fugindo da escravidão moderna, esfarrapados, famintos, olhar cabisbaixo, freqüentemente doentes e torturados, os casos que mais persistem na memória da espanhola Carmen Bascarán, presidente do CDVDH, fundado por ela há 11 anos.

Essa organização não-governamental recebe denúncias de trabalho escravo, que é sua missão central, bem como pedidos de emprego, de moradia e de assistência variada. “Querem que sejamos um substituto do Estado, com qual devemos fazer trabalhar melhor”, afirma Bascarán. O centro paga o preço de ter se convertido em ponto de referência para os pobres e oprimidos de uma extensa zona no extremo oriental da Amazônia, onde a violência rural está muito presente.

As denúncias recebidas são encaminhadas às autoridades trabalhistas, judiciais ou policiais, e têm como resultado milhares de trabalhadores libertados que estavam em condições semelhantes à escravidão. A sede tão concorrida é uma modesta casa doada que fica no final de uma rua de Açailândia, onde eternos esgotos a céu aberto denunciam a falta de saneamento. Na frente fica a quadra da Escola de Futebol Pé de Atleta, cujas atividades acabam de ser reiniciadas após interrupção de meses desde que um aluno assassinou um professor a facadas.

Escravos e pistoleiros
Açailândia, com 110 mil habitantes, fica a 566 quilômetros de São Luis, no Maranhão, e é conhecida como zona de recrutamento de trabalhadores escravos. Em seus numerosos “hotéis”, casas precariamente ampliadas para alojar recém-chegados perto de um terminal de ônibus, agem os “gatos”, como são conhecidos os recrutadores. Também se atribui a Açailândia ser ponto de concentração de pistoleiros contratados para executar os freqüentes assassinatos de líderes camponeses e seus defensores, advogados e missionários religiosos, em uma região compreendida por áreas de três Estados: Maranhão, Pará e Tocantins.

Mas já não é assim. A violência em Açailândia diminuiu, bem como a incidência do trabalho escravo, afirma Bascarán, a quem se deve a insólita existência de uma organização de direitos humanos em uma cidade com tais antecedentes, em lugar da capital, como é o habitual. Por outro lado, agora crescem as denúncias de superexploração, ou seja, abusos sem cativeiro, afirma Rocha, baseada em estatísticas próprias e de outras instituições. O vizinho Pará mantém a triste liderança em matéria de massacres de camponeses e escravidão. Ali o governamental Grupo Móvel de Inspeção libertou mais de um terço dos 21.777 trabalhadores resgatados desde 1995 até março deste ano em todo o Brasil, segundo dados do Ministério do Trabalho.

Mas é o Maranhão, por sua pobreza e desemprego, a principal origem dessas pessoas atraídas por promessas de trabalho em fazendas distantes e que depois são impedidas de deixá-las, o que caracteriza a escravidão. Falsas dívidas, acumuladas pela cobrança indevida de transporte, equipamentos de trabalho e compras a preços absurdos na loja do patrão, servem de pretexto para a retenção sob ameaças, muitas vezes com guardas armados. ‘Um coco custava R$ 60, e de um companheiro que matou um frango cobraram o dobro”, conta Gildásio Meireles, de 26 anos, que fugiu de uma fazenda onde trabalhou os cinco primeiros meses deste ano cortando árvores.

Alojado na sede do CDVDH, que também lhe conseguiu emprego em um restaurante, Meireles, antes de voltar a Pindaré, pretende ajudar a libertar os 15 trabalhadores que ficaram na fazenda, recuperar seus bens trabalhistas e juntar o dinheiro necessário para uma cirurgia que seu pai precisa fazer. A produção de carvão para a siderurgia e o desmatamento com finalidades agrícolas são as atividades que mais escravizam. O combate à escravidão começou em 1995, quando o governo reconheceu o problema e criou o Grupo Móvel, formado por inspetores e fiscais do Trabalho apoiados por policiais federais em operações feitas a partir de denúncias.

Suas inspeções são “eficazes, mas são feitas poucas vezes por ano”, e investigando “uma pequena parte das denúncias que apresentamos”, se queixa Bascarán. Além disso, deixam como resultado poucas condenações: dos fazendeiros denunciados no CDVDH apenas um foi preso, “e apenas por uma semana”, recorda.

Julgamento exemplar
Alguns processos se arrastam na Justiça, como o de Olindo Chaves dos Santos, em cuja fazenda um Grupo Móvel informou ter resgatado 151 trabalhadores mantidos sob coação e em condições humilhantes, em 2001. Em uma audiência com um juiz de Açailândia, presenciada pela IPS no dia 13 de junho, o fazendeiro atribuiu tudo a uma “armadilha”, sem identificar os interessados em prejudicá-lo e apesar de ter pago os direitos trabalhistas dos trabalhadores os quais não reconhecia como seus empregados.

Somente havia pedido ao recrutador oito trabalhadores que apenas começavam a limpar uma propriedade recém-adquirida, “pequena, de 800 hectares”, e que dispunha de boa casa com todos os recursos, mas inexplicavelmente, acamparam perto de uma lagoa cuja água foi suja pra acusá-lo de oferecer água contaminada, afirmou o fazendeiro. Dono de seis fazendas de gado, Chaves explicou que mudou para Açailândia em 1974 porque o preço de um hectare em seu Estado natal, Minas Gerais, equivalia a 500 hectares em sua nova terra. Afirmou à IPS “desconhecer a prática de trabalho escravo” na região.

Seu advogado, Joel Dantas, definiu com “um processo mais pedagógico do que judicial” a campanha contra a escravidão em uma região que começa a superar a ausência total do Estado. Fazendeiros como Chaves são “capinadores” que abriram caminho para o desenvolvimento local e estão aprendendo a respeitar direitos trabalhistas, afirmou. Os acusados sempre apresentam versões como a de Chaves, totalmente contraditórias com “os fatos comprovados pela inspeção”, afirma o promotor Marco Aurélio Fonseca. A pena por trabalho escravo é de quatro a oito anos de prisão.

"Essa espanhola"
Apesar das inimizades que sua atividade desperta, Bascarán não sofreu ameaças de morte, comuns nesta região, talvez por não atuar diretamente em conflitos pela posse de terras. Mas houve manifestações de xenofobia contra “essa espanhola que quer destruir o futuro de Açailândia”, natural de Oviedo, esta asturiana descobriu sua vocação na adolescência, ao ouvir uma compatriota que regressava da Suíça após três anos dormindo em portas do metrô e sem visitar a família, tudo para economizar o salário e construir uma casa na Espanha. “Ainda lembro de seu rosto em pranto”, afirma Bascarán. Lamentando que os espanhóis tenham esquecido tão rapidamente que eram os pobres imigrantes da Europa e tenham se convertido em intolerantes diante da imigração.

Aos 50 anos, quando seus quatro filhos já eram independentes e iam para outros países, ela se negou a viver a “síndrome do ninho vazio” para cumprir sua vocação “onde fosse mais necessário”. Deixou o trabalho de enfermeira na clínica de seu irmão e, como integrante da Associação de Laicos Combonianos, decidiu atuar em Açailândia, onde já vivia outro irmão que é padre. Ela justifica sua escolha afirmando que Açailândia é “um laboratório do mundo pobre”, pois concentra em um raio de cem quilômetros os efeitos do “capitalismo mais duro, escravidão, máfias, degradação ambiental e familiar” mas por outro lado, “é um povo desejando um mínimo de oportunidades para se levantar”.

As conquistas
Depois de um ano discutindo o que fazer com um grupo local, a opção foi “defender os direitos humanos com ênfase na vida, onde o desprezo pela vida é forte e persiste”. O CDVDH nasceu em novembro de 1996 e colecionou triunfos. O primeiro foi uma campanha que conseguiu a certidão de nascimento para mais de três mil moradores da cidade que não tinham esse documento básico, oferecendo-o gratuitamente aos pobres, antes que o governo adotasse essa mesma iniciativa no plano nacional.

Outra conquista é o Instituto Carvão Cidadão, criado em 2004 pelas 14 siderúrgicas da região para monitorar o cumprimento de leis trabalhistas na produção do carvão vegetal. O instituto já qualificou 312 fornecedores de mais de mil auditados, informa Ornedson Carneiro, seu presidente. “É um avanço”, mas essa indústria de fundição de ferro (principal matéria-prima do aço) ainda não assume toda sua responsabilidade, porque deveria ter como seus empregados, e não terceirizados, os que produzem o carvão, ressalta Bascarán.

O CDVDH foi decisivo na formalização, em 21 de junho, do Plano Estadual de Erradicação do Trabalho Escravo no Maranhão, vinculado a um programa nacional vigente desde 2003. já organizou duas conferências sobre o tema em Açailândia com participantes de todo o País. A legalização, em 9 de junho, de uma rádio comunitária após nove anos de luta e freqüentes interrupções impostas pelas autoridades, e a criação da Cooperativa da Dignidade, que emprega apenas ex-escravos ou seus familiares na produção de carvão reciclado, com resíduos das siderurgias, e brinquedos com o restante da madeira, são outras conquistas celebradas.

Mas o Centro ainda tem energia para promover atividades culturais com grupos de dança, teatro e capoeira com mais de 600 jovens, alguns já profissionalizados como instrutores em núcleos organizados em cinco dos bairros mais pobres da cidade. É uma tarefa “de prevenção do trabalho escravo”, ao gerar renda novos horizontes para a juventude com o grande poder de mobilização da arte, afirma, entusiasmada, Bascarán, que sonha obter apoios para construir um centro cultural em Açailândia.

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segunda-feira, 2 de julho de 2007

Magistrados realizam ato contra corrupção e foro privilegiado

Publicado pela Folha Online em 02/07/07

A AMB - Associação dos Magistrados Brasileiros AMB realiza um ato público na quinta-feira pelo fim do foro privilegiado. No protesto -batizado de "Juízes contra a Corrupção"-, a AMB vai defender que um dos motivos para impunidade é a falta de estrutura dos tribunais para julgar processos de corrupção.

Para o presidente da AMB, Rodrigo Collaço, essa falta de estrutura acaba beneficiando quem tem foro privilegiado. "É impossível para o ministro deixar de lado os milhares de casos que têm para julgar com o objetivo de ouvir testemunhas ou praticar atos de instrução que são típicos de instâncias inferiores."

A AMB vai defender também a aprovação dos projetos de lei que tornam prioritários os julgamentos dos crimes contra o patrimônio público e a corrupção.

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Investimento Social mundo afora: uma expressão, muitos sentidos

Fernando Nogueira*
Publicado pelo
RedeGife Online em 02/07/07

O GIFE tem apresentado, ao longo de seus últimos anos, um conceito chave que reúne e explica quem faz parte de sua base de associados – aquelas organizações que praticam o Investimento Social Privado – ou seja, direcionam recursos de origem privada de forma planejada, sistemática e monitorada em iniciativas de interesse público.

A criação desse termo se fez necessária no Brasil, pois a palavra que é normalmente utilizada no mundo – filantropia – aqui ficou muito associada a uma prática mais tradicional, muitas vezes ligada à religião e a uma visão mais assistencialista. Assim, ao enfatizar a idéia de um investimento social, fica clara a preocupação com a forma de se investir – não apenas movido por caridade, mas sim de forma organizada e levando em conta os diferentes públicos envolvidos – e com o resultado obtido – não basta fazer o bem pelo bem em si, é preciso ser eficiente e efetivo.

É interessante constatar, no entanto, que a expressão aqui utilizada – Investimento Social Privado – tem também outros sentidos mundo afora. Como se observou na Conferência Anual do Centro Europeu de Fundações (EFC), há pelo menos dois importantes usos da expressão, que surgem a partir de contextos diferentes do brasileiro.

Um primeiro sentido é quando se fala em Investimento Social Privado a partir de um movimento que vem sendo chamado de venture philanthropy, que tem suas origens nas supostas novas práticas filantrópicas praticadas por doadores novos, geralmente vindo do mundo da tecnologia. Assim como o surgimento da internet e o fortalecimento dessa indústria trouxeram mudanças às organizações empresariais, seus líderes se voltaram ao meio social com a mesma intenção – a de fazer mais, melhor, pensando de jeitos diferentes.

Assim, aplicando técnicas do mundo empresarial e, em especial, do capitalismo de risco, como incubadoras, planos de negócios, planejamento de governança a médio e longo prazo, tais pessoas buscaram apagar as divisões antes claramente estabelecidas entre dois segmentos: o social e o mercado. Façamos o bem, desde que ele claramente produza retorno – de preferência, financeiro, de forma a ter um impacto maior e resolver os problemas de sustentabilidade tão comuns às iniciativas e instituições sociais.

Essa abordagem não apareceu sem críticas, no entanto. Na mais recente edição da revista Alliance, o professor Bruce Sievers apontou pelo menos 4 desafios a essa abordagem. Em primeiro lugar, falta demonstrar que esse suposto novo tipo de filantropia produza resultados e impactos melhores e observáveis. Além disso, ao focar tanto nos resultados financeiros, essas iniciativas podem deixar de lado aspectos mais subjetivos e qualitativos tão importantes à área social. Em seguida, observa-se que a orientação de negócios tende a reproduzir estruturas de decisões mais hierárquicas, top-down, que conflitam com a idéia de que todos os envolvidos na ação social têm a contribuir com as soluções de seus problemas. Por último, essa abordagem pode aprofundar os conflitos presentes entre interesses públicos e privados e sistemas de valores.

Mas ainda há outro sentido que começa aos poucos a fazer parte da nossa cultura. Chama-se de Investimento Social Privado também a prática de direcionar recursos financeiros em fundos éticos, que de alguma forma selecionam sua carteira de projetos e de ações de empresas de acordo com critérios baseados em responsabilidade social e desenvolvimento sustentável. No Brasil, já há importantes iniciativas neste sentido, como o Fundo Ethical do ABN AMRO Real Bank e o Índice de Sustentabilidade Empresarial da Bovespa.

É interessante destacar que esse movimento tem ganhado especial força no mundo das fundações norte-americanas e européias, que desde sua origem tem grandes patrimônios de onde tiram anualmente seu orçamento. De posse destes significativos patrimônios – muitas vezes nas casas dos milhões ou mesmo bilhões de dólares – as fundações tradicionalmente tenderam a investir seus recursos de forma conservadora, buscando mais segurança do que retorno. Agora, têm sido cobradas a atentar a que tipo de investimento estão fazendo, tanto em termo de retornos quanto em relação a em que empresas e fundos estão investindo. Levando em conta o tamanho do patrimônio de tais fundações, espera-se que elas possam, agindo em grupo, criar exemplos e benchmarks que levem a melhores práticas em geral.

Em sessão temática do encontro da EFC sobre Investimento Social e filantropia viu-se como a confusão em torno do termo se dá na prática: com palestrantes vindo de Inglaterra, Áustria, Rússia e Alemanha, cada pessoa parecia ter sua visão e interpretação para o conceito e para a prática de Investimento Social. Foi possível chegar a algum consenso, no entanto, principalmente em torno de dois pontos. Em primeiro lugar, a busca pelo retorno, pelo resultado, é sem dúvida importante, mas não se deve deixar de dar atenção ao processo pelo qual se chega ao fim esperado. Além disso, é importante dar atenção cada vez maior a questões como transparência e governança. Tais práticas poderão melhorar significativamente a forma como se lida com as inevitáveis tensões que surgem entre interesses públicos e privados em iniciativas do Investimento Social.

* Fernando Nogueira é gerente de projetos do GIFE e mestre em Administração Pública pela FGV-SP.

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Europa vive “boom” de fundações

Fernando Rossetti*
Publicado pelo
RedeGife Online em 02/07/07

Embora representem um fenômeno que remonta à idade média, as fundações na Europa vivem um momento de expansão acelerada – semelhante ao que vem acontecendo no Brasil desde a década de 90. Na Itália, por exemplo, pesquisa com 3.300 fundações privadas mostra que cerca da metade foi criada desde 1999; na Alemanha, mais de 40% surgiram na última década; entre 1999 e 2000 houve uma expansão de 28% no número de fundações na Bélgica, Finlândia e França.

Como no Brasil – e ao contrário dos EUA – as estatísticas européias sobre fundações e organizações da sociedade civil ainda são poucas e frágeis. Mas alguns movimentos são bastante significativos desse “boom” de fundações. A 18ª Conferência do Centro Europeu de Fundações, realizada em Madri, Espanha, no início de junho, abrigou pela primeira vez uma reunião da recém-criada Dafne (sigla em inglês para Redes de Fundações e Associações de Doadores da Europa). É uma articulação que abriga organizações criadas para apoiar as fundações – papel desempenhado pelo GIFE no Brasil.

“A velocidade com que as fundações estão sendo criadas na Europa é estonteante”, disse palestrante principal da Conferência, Barry Gaberman, norte-americano que dirigiu a Fundação Ford e é um dos principais especialistas em sociedade civil do mundo. Para os brasileiros, essa expansão é uma boa notícia, tendo em vista que muitas das novas instituições têm perspectiva de financiamento internacional. O nome da Conferência do Centro de Fundações Européias também sugere isso: “Novos Desafios para a Filantropia Global”.

Para Gaberman, o fenômeno da expansão global das fundações se deve, em termos gerais, à insuficiência dos três poderes clássicos dos Estados (Executivo, Legislativo e Judiciário) em garantirem o controle do poder em uma sociedade. “A imprensa também tem tido um papel importante; mas o que percebemos é que a sociedade civil está aumentando seu papel de 5° poder no controle contra o abuso de poder”, afirmou.

O que caracteriza esse conjunto de novas instituições, além da diversidade de temas, é uma tendência maior à colaboração, ao trabalho conjunto e troca de experiências – que se reflete no crescimento também do número de participantes em eventos como a Conferência de Madri.

O momento nos EUA é bastante diverso – embora o número de fundações também esteja crescendo. Pioneiros no desenvolvimento de novos papéis para fundações e promotores da expansão deste campo no mundo todo (tanto o Centro Europeu de Fundações como o GIFE tiveram apoio financeiro importante de organizações norte-americanas para sua criação), os EUA agora enfrentam uma “fadiga na infra-estrutura de apoio a doadores”, aponta Gaberman. Isto é, começa a haver excesso de organizações de apoio a fundações, o que leva a uma competição acirrada por recursos para essa área.

O resultado desta “saturação” na infra-estrutura e no próprio número de organizações da sociedade civil nos EUA é um movimento que estaria levando a quatro fenômenos principais: 1) o fechamento de algumas instituições; 2) a diminuição de tamanho de outras; 3) a fusão de organizações; e 4) um crescimento no número de atividades desenvolvidas em parceria por essas organizações.

É um alerta importante. Considerando que boa parte do mundo segue o modelo americano – Brasil e Europa, incluídos – e que no momento a situação é de crescimento acelerado no número de fundações, os quatro caminhos alternativos adotados nos EUA podem, em curto espaço de tempo, virem a ser necessários também em outros países e regiões.

* Fernando Rossetti é secretário-geral do GIFE.

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Portugal quer Brasil como parceiro estratégico da UE

Mario de Queiroz
Publicado pela
IPS em 02/07/07

Incrementar as relações com Brasil, África e o Mediterrâneo é para Portugal a imagem que o distingue das demais presidências semestrais da União Européia, apesar de o maior desafio que o bloco de 27 países enfrenta ser a aprovação do paralisado tratado constitucional. Portugal deseja que o tratado, agora chamado “reformador”, seja finalmente aprovado durante sua presidência, que começou no último domingo, e que passe à história como Tratado de Lisboa, após o acordo alcançado em Bruxelas pelos chefes de governo da UE no Conselho Europeu de 21 e 22 de junho, presidido pela Alemanha.

Entretanto, Portugal deseja, sobretudo, coroar com êxito três iniciativas de política externa para dar maior ênfase ao Sul do planeta: as cúpulas com Brasil, com África e as euro-mediterrâneas. “Se existe um país europeu que histórica e culturalmente deve dar especial importância ao Brasil e à África esse país se chama Portugal”, disse na quarta-feira no parlamento português o primeiro-ministro socialista José Sócrates, apresentar aos deputados o programa da presidência semestral comunitária.

No debate sobre o programa semestral no parlamento unicameral de São Bento, Sócrates obteve ao apoio unânime dos deputados quando deixou claro que a relação da UE com Brasil, África e a região do mar Mediterrâneo serão três assuntos aos quais Lisboa colocará toda a força. A relação da UE com a África “dever ser vista como um todo, incluído o Magreb (Argélia, Túnis, Marrocos, Líbia e Mauritânia) e a região subsaariana”, disse à IPS o chanceler Luís Amado, embora admitindo que Portugal deverá “ocupar-se com afinco da participação européia na solução de conflitos em várias partes do mundo”.

Em dezembro passado, Amado iniciou uma campanha de sensibilização, conseguindo um apoio inequívoco dos governantes do bloco na cúpula de encerramento da presidência finlandesa do segundo semestre de 2006, que aprovou uma “estratégia comum” para essas regiões, que será coroada com uma cúpula UE-África, no dia 9, em Lisboa. Para o chanceler, trata-se de “retomar o diálogo com a África, suspenso há muito tempo”, desde a cúpula entre os dois continentes realizada em abril de 2000 no Cairo, durante a presidência anterior portuguesa. O segundo encontro de alto nível entre europeus e africanos foi fixado para 2003, mas não chegou a acontecer e foi sucessivamente adiado.

Nos últimos sete anos, as iniciativas de reuniões fracassaram uma a uma por causa do desacordo entre a UE e os governantes africanos sobre a participação no segmento de máximo nível do presidente do Zimbábue, Robert Mugabe, que, por pedido de Londres, está proibido de entrar no território comunitário, acusado de “abusos de poder”. A solução encontrada agora é manter a condenação a Mugabe, mas convidar todos os líderes africanos, sem exceção, para a cúpula de Lisboa para debater a cooperação econômica, a fluidez do diálogo político, o apoio europeu ao desenvolvimento e, sobretudo, a imigração, tema que adquiriu enorme dimensão devido aos fluxos migratórios africanos para a Europa.

Os dirigentes de Lisboa, conhecedores de uma região onde Portugal marcou presença colonial de 560 anos (1415-1975), afirmam que diante do reforço da presença de Estados Unidos, China e Brasil na África seria uma cegueira política da UE não aprofundar suas relações históricas com os africanos. Amado garante que em nome da UE Portugal se empenhará no fortalecimento dessas relações “com uma nova visão” e como um todo, desde o Magreb até o cabo da Boa Esperança, “uma colaboração estratégica que se sobreponha ao modelo da colonização”. Uma preocupação central é o drama humanitário de Darfur, a região ocidental do Sudão assolada desde 2003 por um feroz conflito entre milícias árabes fiéis a Cartum e grupos rebeldes negros, que causaram cerca de 200 mil mortes e 2,5 milhões de refugiados.

Sócrates e Amado também se fazem porta-vozes da classe dirigente portuguesa, oficialista e de oposição, bem como de uma população que vê com simpatia seus “irmãos lusófonos” do outro lado do Atlântico, que querem ver o Brasil mais próximo da UE. Sócrates convocou seus pares europeus para, no próximo dia 4, em Lisboa, realizar uma reunião destinada a desenhar os termos de uma “associação estratégica” entre a UE e o maior país da América Latina, com a presença confirmada do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Portugal propõe que o Brasil se converta no oitavo “associado estratégico” da União Européia, um status que já possuem Canadá, China, Estados Unidos, Índia, Japão, Rússia e África do Sul, com os quais o bloco comunitário institucionalizou um diálogo político mediante reuniões do mais alto nível. Na cúpula com o Brasil, a UE será representada por Sócrates; pelo presidente da Comissão Européia (o executivo comunitário), José Manuel Durão Barroso, e por Javier Solana, alto representante para a Política Externa. Entretanto, sete líderes europeus também foram convidados para participar do jantar de honra dedicado ao Presidente Lula.

As duas iniciativas contam com o aval de Barroso, que em uma entrevista na quinta-feira à agência de notícias portuguesa Lusa apoiou as ações de Lisboa para reforçar as relações com o Brasil e a África como assuntos prioritários de sua presidência do bloco. “Penso que essas prioridades refletem muito daquilo que é a vocação de Portugal”, disse o presidente da Comissão Européia, afirmando que os efeitos desses objetivos “já podem ser sentidos” inclusive antes mesmo que Sócrates assuma a presidência rotativa da União Européia. Entretanto, a dedicação ao Brasil e à África não poderá ser em tempo integral.

Portugal também deverá colocar uma forte ênfase em outros assuntos, como Organização das Nações Unidas, a província autônoma sérvia de Kosovo, Darfur, Afeganistão e Irã, “crises nas quais a União Européia não pode continuar atuando em um plano meramente subordinado aos Estados Unidos”, disse à IPS o analista de assuntos internacionais Augusto Videla. Em termos internos europeus, “a situação mais preocupante é a de Kosovo, onde se pretende impor uma independência à qual se opõe a Sérvia, país ao qual pertence como província autônoma, e conta com o apoio da Rússia”, acrescentou. “Se Kosovo declarar a independência de maneira unilateral e apoiada pela UE, a situação ficará explosiva não apenas na região dos Balcãs, mas podendo se converter em um perigoso exemplo para a Espanha, dando razão aos bascos quando afirmam que a comunidade internacional tem dois pesos e duas medidas para os conflitos separatistas”, concluiu Videla. (IPS/Envolverde)

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Desenvolvimento: Macroeconomia esconde a miséria na América Latina

Darío Montero
Publicado pela
IPS em 02/07/07

Com escassa representação, a América Latina ficou em segundo plano no debate do Fórum de Desenvolvimento 2007, que terminou no sábado nesta cidade suíça. Sua profunda desigualdade, geradora de indigência, permaneceu camuflada entre os indicadores macroeconômicos positivos. A ausência latino-americana é recorrente nos fóruns internacionais, e não apenas nesta Conferência de Organizações Não-Governamentais em Relação Consultiva com as Nações Unidas (Congo), como questionou o ativista mexicano Humberto Jaramillo, da associação Comunidade em Movimento.

“Nem mesmo o caso do Haiti é levado em conta nas avaliações” e propostas dos expositores nos painéis, disse à IPS o representante desta ONG que representa no México o Chamado Mundial à Ação Contra a Pobreza (GCAP, sigla em inglês).

O Haiti é o país mais pobre da América Latina. Oitenta por cento de seus 8,5 milhões de habitantes estão submergidos na pobreza. Ali se alastram o analfabetismo e a desnutrição. O país caribenho é beneficiário de várias missões da Organização das Nações Unidas, uma delas de manutenção da paz, e também de atenção com a fome, educação e saúde. Também recebe ajuda financeira específica dos países ricos, embora boa parte dela esteja suspensa. Mas segundo destacaram alarmados diversos delegados, a sociedade civil haitiana esteve ausente do Fórum de Genebra, que levará suas recomendações à reunião desta semana do Conselho Econômico e Social (Ecosoc) da ONU.

A participação latino-americana esteve reduzida a apenas uma dezena de ativistas de igual quantidade de organizações da sociedade civil, entre meio milhar de delegados. Nos três dias de reuniões, prevaleceram em número e propostas as representações africana e asiática. Nas dissertações centrais e nos debates “ouviu-se o idioma de Cervantes uma única vez”, como disse um deles. Com Jaramillo concordou o diretor-executivo da ActionAid, Ramesh Singh, cuja organização de alcance mundial se constituiu, como outras semelhentas, em porta-voz de fato das urgências latino-americanas neste tipo de eventos, graças à sua experiência de trabalho nas comunidades desta região.

“Os países da América Latina deveriam ter mais peso na agenda de fóruns como este. Por outro lado, vemos que em termos sócio-econômicos muitos destes Estados crescem no cenário mundial, o que esconde a realidade de extrema pobreza que existe igualmente em grande parte da sociedade”, afirmou Singh em entrevista à IPS. É o caso do Brasil, um dos países com maior quantidade de indigentes, especialmente entre a população negra, com grandes favelas na periferia das metrópoles, apesar de registrar uma tendência de crescimento econômico constante há quase cinco anos. “Essas melhoras nos indicadores gerais esconde uma dura realidade”, ressaltou.

“Não podemos desatender nestes debates internacionais sobre superação da pobreza a situação dos 53 milhões de latino-americanos, cerca de 10% dos habitantes da região, que morrem de fome ao lado das grandes plantações de alimentos e estabelecimentos que produzem carne para o mundo”, disse o representante da ActionAid. Embora sejam porcentagens menores do que na África subsaariana, o problema para a América Latina na hora de cumprir os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio continuam ali, mas sepultado por essa outra realidade mais angustiante em outra parte do planeta.

Singh destacou, inclusive, o fato de que tampouco podem estar ausentes destes encontros os exemplos de avanços em matéria de programas para atingir esses objetivos, como é o caso do programa brasileiro Fome Zero e seus resultados positivos, bem como o que tem a ser corrigido. “Nos últimos quatro anos foram implementadas estratégias sócio-econômicas em alguns países que nos deixam otimistas, como no Brasil, na Bolívia e Venezuela, que enfocaram políticas específicas em beneficio dos setores mais marginalizados”, afirmou. Também detalhou as reformas a respeito do regime de posse da terra, distribuição e entrega em propriedade de áreas a comunidades, bem como a capacitação e os créditos brandos para que o camponês mais necessitado tenha ferramentas para sair da indigência.

“Nós observamos detalhadamente e com otimismo estes processos de melhoria na América Latina, com caráter sustentável, de setores muito submersos até agora. Também estamos aprendendo com estes processos e contribuindo com esse esforço para que não regrida”, disse o diretor da ActionAid. É aí que está organização se comprometeu a incentivar mudanças legais na América Latina para tirar da pobreza grandes contingentes excluídos. Com esse objetivo trabalha com parlamentares e diretamente com os governos, quando existem os canais adequados, mas, especialmente na arena internacional, na ONU e, mais particularmente, no Ecosoc.

Singh disse que nesses campos supranacionais onde é possível pressionar os governos para que atuem em favor do cumprimento das metas do milênio e destacar os processos iniciados nesse sentido, como os observados na América do Sul. Através da ONU se pode levar os países a adotarem leis para superar a pobreza extrema e a exclusão e verificar uma verdadeira mudança até 2015, ressaltou. Além disso, atua-se no outro extremo, o mais importante, que é trabalhar diretamente com as pessoas mais pobres em suas próprias comunidades.

A ActionAid voltou-se para a área rural do Brasil e da Guatemala, dando poder a essas comunidades para que sejam os próprios camponeses a encararem as saídas. São dadas ferramentas, capacitação e possibilidades de acesso à irrigação e ao crédito, para fortalecer seu próprio trabalho a fim de que possa superar a fome com programas sustentáveis. Tampouco se descuida da pressão sobre os organismos multilaterais, como a Organização Mundial do Comércio, em busca de um intercâmbio justo que viabilize o desenvolvimento agrícola e com ele a melhoria de vida para grandes contingentes de camponeses.

Entre os assuntos a atender quando se olha a problemática do desenvolvimento na América Latina, e que segundo ativistas não deveriam faltar neste fórum, figuram a necessidade de reformas fiscais que ataquem o mal maior da região que é a enorme brecha social, bem como o avanço das plantações para produzir combustíveis alternativos em detrimento dos alimentos. “Estamos muito preocupados com o fato de se continuar incentivando a produção de vegetais para fabricar combustível alternativo, pela mão das grandes multinacionais em seu plano de substituição do petróleo em extinção”, afirmou Singh.

Entretanto, esclareceu, “vemos com bons olhos o fato de haver possibilidades de criar novas fontes de energia, pois podem ser mudanças finalmente positivas, embora seja preciso estarmos atentos para evitar que se rompa esse frágil equilíbrio entre as duas produções agrícolas’. A questão tributária, no entanto, é o fundamento da desigualdade social na região, causa central da pobreza e que, entretanto, não é tratada como meta especifica nos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, criticou Jaramillo.

Como exemplo, o ativista mexicano recordou que a companhia telefônica de seu país, propriedade de Carlos Slim, pagou no ano passado a título de impostos apenas 6,1% de seus ganhos. É por isso que Slim é um dos homens mais ricos do mundo, enquanto subsistem em sua região de origem grandes bolsões de indigência, segundo Jaramillo. (IPS/Envolverde)

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Cresce questionamento sobre papel do Senado

Raquel Ulhôa
Publicado pelo
Valor Online em 02/07/07

O Senado federal, que passou praticamente ileso pelos escândalos que atingiram a Câmara na legislatura passada, transformou-se, em 2007, em foco de escândalos e cenas patéticas, com confissões de adultério em plenário, distribuição de documentos com autenticidade duvidosa, investigações conduzidas pelo réu, renúncias teatrais, choros, chantagens, convites públicos desfeitos e escutas telefônicas revelando detalhes picantes de uma traição e de uma suspeita partilha de milhões de reais.

"É lama sobre lama", observa o consultor político Gaudêncio Torquato, professor da USP. Nesse contexto, ganha força o questionamento sobre a utilidade do Senado, Casa legislativa que representa a federação (cada estado tem três senadores), enquanto a Câmara representa o povo (as bancadas são proporcionais à população). "O Senado está dando chance a que sua finalidade seja questionada", afirma Torquato.

A degradação do Senado se arrasta há mais de 40 dias, quando veio a público que o presidente da Casa, Renan Calheiros (PMDB-AL), usava um amigo, lobista da Mendes Júnior, para pagar pensão à mãe de uma filha sua fora do casamento. À primeira suspeita - recebimento de vantagens indevidas - somaram-se outras, como uso de notas frias, sonegação fiscal e omissão de rendimentos.

O cientista político Ricardo Caldas, professor da Universidade de Brasília (UNB), defende a existência do Senado para garantir o equilíbrio federativo. Mas reconhece que a Casa não está funcionando bem. "A permanência de Renan na presidência, apenas por sua vontade e apoio de um grupo de colegas, serve apenas para desgastar mais a imagem do Senado e de toda a classe política", disse. Como presidente do Senado, Renan exerceu influência sobre todos os procedimentos do Conselho de Ética e Decoro Parlamentar

A bancada do PSDB se reúne amanhã para decidir o que fazer diante da crise. Tucanos admitem que, se até terça o processo contra Renan não tiver encaminhamento correto, o partido pode abandonar o conselho. Seu líder, Arthur Virgílio (AM), foi apresentado como candidato a presidente do conselho, num entendimento que incluía dar a relatoria a Aloizio Mercadante (PT-SP). O PMDB não aceitou dar à oposição o comando do conselho por um mandato de dois anos.

Segundo rumores, o partido teme que outros senadores seus sejam alvos de processo. Outro pemedebista já é alvo de representação do PSOL: o ex-governador Joaquim Roriz (PMDB-DF) foi flagrado em conversa telefônica gravada pela Polícia Civil do DF, com autorização judicial, combinando a divisão de R$ 2,2 milhões. O próprio Quintanilha, eleito para arrumar a casa, responde a inquérito no STF por corrupção, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha.

"A escolha de alguém que está sendo processado por esses crimes mostra que há desrespeito completo da classe política pelo conselho de ética", afirmou Ricardo Caldas. Levantamento feito por seus alunos da UNB, entre os eleitores do DF, mostra que 90% não confiam mais na classe política.

O fechamento do Senado é defendido pelo diretor-executivo da ONG Transparência Brasil, Cláudio Abramo. Ele questiona a utilidade da chamada Câmara alta, a legitimidade dos suplentes de senadores e o alto custo do Senado. Segundo Torquato, contribui para que a utilidade do Senado seja questionada o fato de a Casa extrapolar suas funções de guardiã da federação e competir com as funções da Câmara.

Outro agravante é a forma de escolha dos suplentes, que não são votados pelo eleitor. "Pela sua natureza de guardiã da federação, o Senado deveria se compor de pessoas da mais alta experiência, com perfis ilibados. Mas, entre os 81 suplentes, quase 15 são suplentes, sem voto, sem experiência política, muitos deles financiadores de campanha. Isso mostra uma face oculta, coberta com perfis desqualificados", completa.

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Transposição deve ser última opção, diz estudo

Daniel Rittner
Publicado pelo Valor Online em 02/07/07

Foto do site Rota Brasil Oeste

Um estudo que mapeia os legados deixados por vários projetos de interligação de bacias hidrográficas no mundo, preparado pela organização não-governamental ambientalista WWF, é a mais nova arma de quem se opõe à transposição do rio São Francisco. O trabalho argumenta que, em vez de solução, as transposições analisadas levaram inúmeros problemas tanto às bacias receptoras quanto às bacias doadoras das águas. Por isso, esse tipo de intervenção de engenharia deve ser visto pelos governos como última opção para contornar a escassez de recursos hídricos.

O caso do São Francisco também é avaliado no estudo. Segundo o WWF, apenas 4% das águas retiradas da vazão do rio serão usadas para atender o consumo da população difusa - 26% irão para o abastecimento urbano e industrial e os 70% restantes para irrigação. Os pesquisadores alertam para perdas na biodiversidade de peixes e fragmentação do que resta das matas nativas.

"É simplista e utópico imaginar que grandes obras de engenharia podem resolver os problemas de escassez de água, sem impactos ambientais e sociais bastante significativos", afirma Samuel Barreto, coordenador do programa Água para a Vida do WWF-Brasil. "Não somos contra projetos de transposição. Só é preciso deixar claro que eles devem ser a última alternativa considerada".

A falta de chuvas é apenas uma das razões de déficit no sistema hídrico de uma região. Às vezes isso acontece por práticas agrícolas impróprias, desperdício de água ou exploração excessiva de recursos naturais. Antes de executar um projeto de interligação de bacias hidrográficas - jargão para designar o que popularmente se costuma chamar de transposição -, deve-se considerar, segundo o levantamento do WWF, reduzir a demanda por recursos hídricos, reciclar a água usada e buscar soluções locais, como ampliação de reservatórios, cisternas e poços artesianos.

Três empreendimentos prontos foram estudados: as interligações de Tagus-Segura (Espanha), do Rio Snowy com o sistema fluvial Murray-Darling (Austrália) e das Terras Altas do Lesoto (África do Sul e Lesoto). Os pesquisadores também analisaram quatro projetos que estão sendo implementados: além do São Francisco, as transposições do Rio Acheloos (Grécia), do Huancabamba (Peru) e do Rio Yangtzé para o Rio Amarelo (China) - este último, um empreendimento que, em apenas dois de seus três eixos previstos, custará US$ 23 bilhões.

De acordo com o estudo, as bacias doadoras freqüentemente pagam o preço social e ambiental das transposições, mas não é incomum ver os custos incidirem também sobre quem recebe as águas. Em geral, interrompe-se a conectividade dos sistemas fluviais e prejudica-se a migração de peixes. Pode haver transferência de espécies entre as bacias hidrográficas, alterando o equilíbrio do ecossistema, e contribuição para a salinização dos rios na proximidade de áreas costeiras.

Há exemplos concretos de impactos negativos provenientes de transposições. Na Espanha, a bacia do Tagus fornece recursos hídricos para o Rio Segura, onde se juntam com água dessalinizada, de poços e acumulada em reservatórios. O plano original era usar parte da água transposta para abastecer 50 mil hectares de agricultura irrigada e atender a demanda da população local.

Aparentemente, deu errado. A expansão descontrolada da agricultura elevou a área irrigada em 88 mil hectares - quase o dobro do previsto. E o melhor atendimento do consumo humano gerou aumento da construção civil, com a explosão populacional - agora, segundo o WWF, estão sendo construídos 115 mil flats para entrega em até oito anos.

Os custos econômicos são outro lado da moeda. Raramente, afirma o estudo, projetos de interligação de bacias hidrográficas saem pelo orçamento original. No caso do São Francisco, o Tribunal de Contas da União levantou questionamentos sobre o valor projetado das obras. Também a ausência de diálogo com populações diretamente afetadas é mencionada como praxe dos projetos de transposição. No Brasil, essa falta de governança é apontada pelo WWF-Brasil como causa das tensões envolvendo atualmente as comunidades locais e o governo. O estudo conclui enfaticamente: "A história das interligações de bacias deveria ser suficiente para disparar alarmes muito altos em qualquer governo a contemplar tal plano".

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domingo, 1 de julho de 2007

Conferência Internacional “Inovação para o Terceiro Setor: Sustentabilidade e Impacto Social”

Publicado pelo site do William Davidson Institute

A Conferência Internacional “Inovação para o Terceiro Setor: Sustentabilidade e Impacto Social”, a ser realizada pela William Davidson Institute (WDI) e o Instituto GESC, tem como objetivo fortalecer o perfil dos líderes de empreendimentos sociais, principalmente na América Latina, compartilhando as melhores práticas e estudos de casos em inovação social como Modelos de Negócios para Geração de Recursos; Ferramentas de Gestão; Empoderamento e Oportunidade Econômicas através da Tecnologia da Informação; e inovações em Parcerias. O compartilhamento destas experiências poderá ser de grande ajuda para que organizações sociais possam alcançar seus objetivos através de estratégias inovadoras e buscar eficiência e sustentabilidade como pilares para atingir seu impacto social.

As principais estratégias da conferência são:

. Avançar no escopo de trabalho criativo dos líderes do terceiro setor em todo o planeta;
. Compartilhar as melhores práticas e casos aplicados de innovação social como modelos de negócio em Geração de Recursos; Ferramentas de Gestão; Empoderamento e Oportunidade Econômicas através da Tecnologia da Informação; e inovações em Parcerias
. Analisar os obstáculos atuais e as oportunidades para o fortalecimento das estratégias de sustentabilidade das ONGs na América Latina.
. Criar oportunidade de network entre lideres sociais, o setor privado e governo.

A Conferência Internacional vai contar com plenárias de apresentações de conceitos, ferramentas e estudos de caso, sessões para compartilhar experiências aplicáveis e aprendizados. As sessões serão lideradas por professores da Universidade de Michigan e de Universidades da América Latina, gestores de organizações sociais, gestores de empresas que realizam investimento social privado através de alianças inter-setoriais, gestores públicos de áreas com interesse nos temas, profissionais de mídia, pesquisadores e estudantes.

Nos três dias de conferencia serão apresentadas palestras sobre estratégias e conceitos, discussões em grupos para trocas de aprendizados e sessões de assistência técnica em 3 tópicos de relevância que serão selecionados baseados nas indicações de preferência das ONG’s no processo de inscrição para a conferência.

A conferencia também oferecerá a oportunidade para as ONG’s exporem, no primeiro dia de conferencia, os produtos ou serviços oferecidos que gerem recursos para as organizações sócias.

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