quarta-feira, 20 de junho de 2007

China: Crianças escravizadas, que desenvolvimento é este?

Antoaneta Bezlova, da IPS
Publicado pela revista
Envolverde em 20/06/07

Perturbadores casos de escravidão nos fornos de olarias na China, incluindo meninos e meninas, despertaram novas dúvidas sobre as leis trabalhistas deste país.

O primeiro caso de exploração começou a ser conhecido este mês, quando jornais locais publicaram foto de um grupo de pessoas libertadas após mais de um ano de trabalhos forçados em uma fábrica de tijolo no centro da China. A fotografia, mais impactante ainda porque a imprensa chinesa é supervisionada pelo Estado, mostrava pessoas com ferimentos e queimaduras, claros sinais de má nutrição e expressões aturdidas de falta de fé em sua repentina libertação.

A matéria que acompanhava a foto era ainda mais surpreendente em um país onde o governante Partido Comunista chegou ao poder por seu compromisso de criar um paraíso para os trabalhadores. As 32 pessoas foram enganadas com oferta de trabalho pago, mas uma vez dentro das olarias, na aldeia de Caosheng, província central de Xhanxi, foram obrigadas a trabalhar sob controle de guardas e cães durante 18 horas por dia. Nenhuma recebeu dinheiro durante todo esse tempo e sobreviveram apenas com pão e água.

Quando uma blitz policial as libertou no final do mês passado, descobriu-se que um homem havia sido morto a marteladas; oito pessoas estavam tão traumatizadas que somente conseguiam lembrar seus nomes. Todas apresentavam queimaduras por terem carregado tijolo quente sem proteção. Suas roupas não passavam de farrapos e “a sujeira em seus corpos era tão grande que só saia raspando com uma faca”, informou o Shanxi Evening News. A fábrica de tijolos era operada por um capataz identificado como Heng Tinghan, mas seu proprietário era o filho do presidente do Partido Comunista da região. Segundo moradores da área, essas fábricas ilegais operavam graças a um acordo tácito com a polícia.

A revelação deste caso foi seguida por uma carta aberta que circulou em vários fóruns chineses na Internet na qual se denunciava que pelo menos mil crianças entre 8 e 16 anos foram escravizadas nas fabricas ilegais de tijolos na província de Shanxi. A carta, assinada por 400 pais da província central de Henan, pedia ajuda para uma campanha destinada a resgatar os menores. Os pais afirmavam que os filhos foram forçados a entrar em automóveis em diferentes cidade de Henan, como a capital Zhengzhou, e depois foram vendidos a chefes de fábricas por cerca de 500 yuans (US$ 65) cada um.

No final dos anos 60, o escarpado território da província de Henan foi usado pelos estrategistas de Mao Tse Tung para esconder milhares de fábricas de armas e munições. Muitas desses locais agora abrigam fornos ilegais de tijolos, segundo os pais de Henan, onde crianças seqüestradas trabalham em condições horríveis. “Os lugares onde vivem essas crianças eram piores do que casinhas de cachorro. Não havia camas, dormiam sobre tábuas e as paredes estavam cobertas de excremento. Estávamos mortos de medo pelo que vimos”, contou ao jornal Xinjigbao Chai Wei, um pai de Henan que conseguiu entrar em várias fábricas de tijolo em busca do filho desaparecido.

Chai havia dirigido os esforços de resgate de quase 100 pais que arrecadaram dinheiro para alugar um carro e percorrer as fábricas de tijolos de Shanxi. Sua busca conseguiu resgatar cerca de cem crianças, mas restavam centenas, disse Chai. Seu filho de 17 anos, que desapareceu de Zhengzhou em abril, ainda não foi encontrado. “Não conseguimos nenhuma ajuda da polícia local. Muitos de seus funcionários são pessoas próximas dos donos das fábricas e poderiam alertá-los da chegada de um grupo de busca. Aprendemos a não confiar nos policiais e percorrer as fábricas, uma a uma, por nossa própria conta”, disse Chai. A descoberta de redes provinciais de trabalhos forçados veio a público quando a China se prepara para adotar uma nova lei de trabalho que foi debatida pelos legisladores durante muitos meses.

A nova legislação pretende tomar medias enérgicas contra centros de exploração e os abusos de trabalhadores dando um poder real aos sindicatos controlados pelo Estado, pela primeira vez desde que Pequim introduziu reformas de mercado na década de 80. Nos últimos 10 anos, a economia chinesa cresceu dois dígitos graças ao trabalho de milhões de trabalhadores que produziam mercadorias para a exportação em troca de baixos salários. Mas com o florescer da economia, as disputas trabalhistas se multiplicaram. Cada vez mais trabalhadores se apresentam nos tribunais ou saem às ruas para protestar contra as más condições trabalhistas e atraso no pagamento.

O governo descreveu a nova legislação como uma tentativa de melhorar a proteção dos trabalhadores e deter os abusos. Mas não está claro o quanto será efetiva neste vasto país, onde muitos funcionários locais tendem a ignorar ou burlar as diretrizes do governo central. Os defensores dos trabalhadores alegam que os poderes de aplicação da lei serão melhorados somente se Pequim permitir sindicatos independentes. “Sem supervisão ou defesa do poder coletivo da mão-de-obra, as leis e resoluções do governo central não serão respeitadas ou administradas”, afirmou Cai Chongguo, especialista em direitos trabalhistas do China Labour Bulletin, com sede em Hong Kong.

A China já possui uma lei trabalhista e outra sobre proteção dos menores, mas nenhuma delas impediu o escândalo de trabalho forçado em Shanxi, dizia um comentário assinado e publicado domingo pela agência de notícias Sinhua. “A razão para que fossem cometidos delitos tão flagrantes nas fábricas de tijolos de Shanxi é que empresários e funcionários locais trabalhavam em equipe”, acrescentou. O jornal China Youth Daily foi mais longe, qualificando os casos de escravidão de “desgraça vergonhosa”, deixando exposta a negligência dos funcionários no cumprimento de seu dever. “Quando uma lei é debilitada maciçamente em sua implementação a ponto de se converter em um pedaço de papel sem valor, então é necessário repensá-la”, afirmou o jornal.

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Google lança YouTube no Brasil

Peter Sayer - IDG News Service, França
Publicado por
ComputerWorld em 19/06/07

O Google lançou nesta segunda-feira (19/06) a versão brasileira do site de compartilhamento de vídeos YouTube.

A companhia também anunciou versões localizadas do serviço para França, Irlanda, Itália, Japão, Holanda, Polônia, Espanha e Reino Unido. Por enquanto, os sites localizados utilizam a mesma base que o norte-americano, mas a idéia é personalizar os acervos para cada país. A versão brasileira traz a página principal em português e destaca vídeos no idioma nativo.

Mais da metade do tráfego do site hoje vem de fora dos Estados Unidos e a localização do serviço tem como objetivo gerar receitas a partir dessa audiência."O grande mote do YouTube em 2007 é acesso”, disse um dos fundadores do serviço, Chad Hurley, em uma conferência para imprensa em Paris. A empresa foi vendida em outubro passado ao Google, por 1,65 bilhão de dólares.

“Temos que colocar o YouTube em cada tela, e isso significa dispositivos móveis e a sala. Atualmente ele está restrito ao navegador, ao PC”, ele acrescentou.

Como parte do lançamento, o YouTube já firmou acordos com provedores locais de conteúdo nos países em que deve estrear.

Entre eles estão a inglesa British Broadcasting, a francesa France 24, as espanholas Antena 3 e Cuatro TV, a Rádio e Televisão de Portugal, os clubes europeus Chelsea, Milan, Barcelona e Real Madrid, e ONGs como Greenpeace e Amigos da Terra.

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Procurador pede ratificação de Convenção de Deficientes

Publicado pela Agência Câmara em 20/06/07

O procurador do Ministério Público do Trabalho no Paraná Ricardo Tadeu, que tem deficiência visual, pediu aos parlamentares que interrompam a votação do Estatuto das Pessoas com Deficiência (Projeto de Lei 7699/06), para ratificar a Convenção Internacional das Pessoas com Deficiência, concluída pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 5 de junho último.

Segundo ele, se o Brasil aprovar o estatuto antes da convenção, "poderá ficar na contramão dos outros países". Ricardo Tadeu destacou que, se a convenção for aprovada por 3/5 dos parlamentares na Câmara e no Senado, terá força de norma constitucional, garantindo direitos dos deficientes que hoje constam de decretos.

O procurador, que participa do seminário sobre pessoas com deficiência promovido pelas comissões de Seguridade Social e Família; e de Educação e Cultura, fez uma retrospectiva da legislação dos direitos humanos para as minorias. Segundo Tadeu, ela começou a ser implementada em 1950.

Debates regionais

Ao reabrir o seminário, o deputado Otávio Leite (PSDB-RJ) ressaltou que já houve muitos avanços em matéria de legislação para pessoas com deficiência, mas ainda há muito a ser feito. Ele afirmou que o objetivo do encontro é iniciar a discussão. Entretanto, segundo ele, depois serão realizados debates regionais para se chegar a um consenso sobre o que é mais necessário para essas pessoas.

A coordenadora nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (Corde), Izabel Maria Madeira de Loureiro Maior, que também participa do seminário, lembrou que a década atual foi definida pela Organização dos Estados Americanos (OEA) como Década das Américas para Pessoas com Deficiência.

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Conferência defende novos modelos empresariais

Publicado pelo redeGife Online em 18/06/07

Não é por acaso que “sociedade sustentável” tornou-se um tema freqüente nos mais diferentes fóruns e debates do setor privado. A hipercompetitividade global, aliada a crescente demanda socioambiental, tem exigido padrões de governança e sustentabilidade cada vez maiores dos negócios.

As preocupações inerentes a essa discussão tiveram, assim, especial destaque nos debates realizados durante a Conferência Internacional de Empresas e Responsabilidade Social, promovida pelo Instituto Ethos, entre os dias 12 e 15 de junho. Neles, as quase 1300 pessoas participantes puderam dialogar sobre os assuntos que estão em voga como aquecimento global, agronegócios e preservação de recursos naturais – com o foco evidente na responsabilidade dos empresários.

“Essa foi a maior Conferência do Ethos. Muitos empresários vieram para cá para saber o que fazer e como agir diante desse cenário”, comemorou Ricardo Young, presidente do Instituto Ethos. Para ele, “estamos em um processo inexorável de mudança de curso para evitar o desastre”.

A explicação para esse sucesso, no entanto, tem mais a ver a um momento vivido mundialmente do que com um aumento recorde na conscientização empresarial brasileira (por mais que venha em uma crescente nos últimos anos). Segundo Young, neste ano, o mundo se deu conta, por meio da visibilidade dada pela mídia aos resultados dos relatórios internacionais do Intergovernmental Panel on Climate Change (IPCC), “de que, se nada for feito, o planeta caminhará rumo a dificuldades – senão à inviabilidade – para a presença de vida na Terra”.

Mesmo assim, os especialistas convidados mostraram-se bastante reticentes em relação aos atuais discursos sobre a preocupação empresarial e o desenvolvimento sustentável. Na mesa-redonda que debateu os Avanços da Responsabilidade Social Empresarial nos Cinco Continentes, por exemplo, a diretora do Corporate ResponseAbility, Linda Funnell-Milner, chegou a afirmar que “as empresas precisam ser mais do que uma pintura verde.”

Linda apresentou as dificuldades que as empresas australianas, americanas e européias encontraram para implantar o Pacto Global - iniciativa da Organização das Nações Unidas (ONU) para o fomento da cidadania corporativa global - e os dez princípios que as empresas assumem quando decidem aderir a ele. Segundo ela, os indicadores simplesmente não são cumpridos. “O ideal é ter movimentos da sociedade civil que o Brasil tem. Lá não temos ações da sociedade civil voltadas para o meio ambiente em grande quantidade, como existem aqui”, disse ela.

Nesse mesmo contexto, o fundador e diretor do Institute of Social Sciences de Nova Délhi, George Mathew, afirmou que ainda falta mais seriedade nas políticas empresariais de RSE, dando como exemplo a Índia. “Grande parte das empresas parecem estar mais preocupadas em fazer marketing social do que ações de responsabilidade social. Infelizmente, das 140 filiais de multinacionais instaladas no país, ainda são poucas as que estão preocupadas em colaborar para o desenvolvimento sustentável”.

A representante do African Institute, Daisy Kambalane, fez coro ao colega indiano e explicou que o principal motivo para isso é a inexistência de qualquer pressão para que o setor privado passe a ter uma atitude baseada na sustentabilidade, e não somente no lucro. Ela argumentou que a situação só mudou na África do Sul quando foi firmado um acordo de conduta entre o governo e as empresas.

Para o presidente do Conselho Deliberativo do Instituto Ethos e membro do Conselho do Pacto Global da ONU, Oded Grajew, a responsabilidade social é, em muitos países, confundida com filantropia. No Brasil, essa discussão já evoluiu bastante e a cultura da responsabilidade social está mais evoluída.

“Raras empresas ultrapassam 1% dos lucros em investimentos filantrópicos. E, além disso, mostrar cifras impressiona. Mas, a RSE não pode ser mensurada financeiramente, porque envolve muitos fatores: pagamento de impostos, funcionários legalmente contratados, consumo consciente de forma geral etc”, defendeu.

Globalização

Um dos destaques do evento foi a apresentação da pesquisa Melhorando o Jogo – A Globalização É Sustentável? , realizada pela SustainAbility, que mostra os grandes cenários globais pelos quais Estados, empresas e pessoas deverão transitar daqui para a frente. A apresentação, realizada por Jodie Thorpe, gerente do SustainAbility e responsável pelo Programa para Economias Emergentes, mostrou que o movimento de globalização já responde por 20% do PIB global. Entretanto, como aponta a pesquisa, esse crescimento tem um preço em termos de degradação ambiental.

No levantamento, foram evidenciados sete pontos relevantes como diretrizes de ação das empresas em compasso com as diretivas para ser sustentável:
1 – Planeje para o Inesperado. A flexibilidade em cadeias de valor, plataformas tecnológicas e políticas de trabalho são fatores de eficácia.
2 – Encontre o Verdadeiro Sul. Não subestime a importância das economias emergentes. Há regiões e cidades onde o desenvolvimento é mais rápido.
3 – Não Espere os Bons Chegarem na Frente. Mesmo os melhores podem ser atingidos por escândalos e crises. O importante é a capacidade de criar valor.
4 – Colabore com o Sistema Imunológico da Terra. Faça parte das soluções nas crises ambientais e sociais. Sirva como fonte de inteligência e criatividade.
5 – Pense em Oportunidades e Inovações. Repense as questões ambientais e sociais não como riscos, mas como grandes oportunidades.
6 – Supere-se. A escala dos desafios é muito grande e exige abordagens radicais. Líderes precisam sair de sua zona de conforto para encontrar novos modelos, novos parceiros e novas soluções.
7 – Faça Política. A agenda agora é política. É preciso se envolver e assumir posições.

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Boletim sobre Marco Legal – Todas as dicussões sobre terceiro setor em Brasília, em breve

Publicado no site do Gife

Uma das grandes novidades do Projeto Marco Legal e Políticas Públicas – desenvolvido pelo GIFE com o apoio da Fundação Ford – para o biênio 2005-2007 foi a inclusão de um novo eixo de atuação: o de mobilização política. Assim, ao lado das atividades de produção de informações e conhecimento (primeiro eixo) e de articulação da redeGIFE e outros atores sociais (segundo eixo), o projeto passou também a atuar diretamente junto ao Congresso Nacional e ao Executivo federal, afim de acompanhar e influenciar a formulação e aprovação de projetos-de-lei e políticas públicas que contribuam para o aprimoramento do terceiro setor no Brasil.

Para tanto, o GIFE estabeleceu uma parceria com a Ágere – Cooperação em Advocacy, uma organização não-governamental sediada na própria capital federal e especializada na negociação em favor de políticas públicas eqüitativas e democráticas. Um dos produtos dessa parceria será um boletim a ser lançado em breve, que pretende ser um instrumento para compartilhar informações e identificar oportunidades de relevância para o terceiro setor no âmbito do Congresso Nacional e do Executivo federal, contemplando não apenas ações diretamente voltadas ao setor, mas também a algumas de suas principais áreas de atuação (cultura, educação e meio ambiente).

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A imprensa abre um olho para a sustentabilidade

Luciano Martins Costa
Publicado pelo Observatório da Imprensa em 19/6/07


A participação de jornalistas com elevadas responsabilidades em suas empresas no debate "Responsabilidade social na mídia: pauta e gestão", que inaugurou a Conferência Internacional 2007 – Empresas e Responsabilidade Social, do Instituto Ethos, abriu uma janela interessante para a observação do atual estado da mídia. Como se sabe, a imprensa alojada nos meios tradicionais, como jornais, revistas, rádio e televisão, vive um momento de grandes mudanças, com oportunidades e riscos trazidos pelas novas tecnologias, pela globalização e por novos hábitos de leitores que desafiam a capacidade de inovação de jornalistas e gestores.

A pergunta de Ricardo Young, diretor-executivo do Instituto Ethos, sobre se os jornalistas estariam "com o olhar afinado e ouvidos treinados para identificar os temas relativos à sustentabilidade" foi claramente respondido pelos participantes – Antonio Manuel Teixeira Mendes, diretor-superintendente do Grupo Folha; Caco de Paula, diretor do Núcleo de Turismo e coordenador do projeto Planeta Sustentável da Editora Abril; Albert Alcouloumbre, diretor de Planejamento e Projetos Sociais da Central Globo de Comunicação; e Ricardo Gandour, diretor de Conteúdo do Grupo Estado: não.

A imprensa, de modo geral, não consegue ainda produzir uma abordagem capaz de identificar e relacionar os temas da sustentabilidade ao veio principal das notícias e opiniões.

Relação comprovada
O debate fechou uma série de encontros promovidos pela Rede Ethos de Jornalistas, nos quais os representantes da mídia se mostraram surpresos com o amadurecimento que o tema já alcançou em outros setores com os quais os jornalistas têm muita familiaridade. Como um resumo das discussões anteriores, a mesa-redonda realizada na conferência do Ethos deverá produzir grandes mudanças na forma como a imprensa aborda o movimento global pela renovação da economia, dos hábitos de consumo e das políticas públicas – pois é disso, afinal, que trata a sustentabilidade.

Alguns dos especialistas presentes consideraram positiva – como um ato de coragem – a presença de dirigentes da mídia brasileira diante de cerca de 1.300 protagonistas de movimentos sociais e ambientais de várias partes do mundo. E pela primeira vez, desde que o Ethos iniciou seu esforço para buscar um engajamento mais efetivo da imprensa, seus representantes calçaram as "sandálias da humildade" – como dizem os comediantes da televisão – e assumiram a tarefa de se informar a respeito.

A despeito de algumas tentativas de "enrolar" a platéia – atitude insensata, a se considerar o alto grau de especialização da maioria dos presentes – o que se viu pode dar algumas pistas sobre outras deficiências da imprensa, fartamente apontadas neste Observatório e em outras instâncias de análise da mídia nacional.

Uma delas, talvez a mais evidente: embora todas as pesquisas indiquem grande expectativa dos leitores quanto a uma maior capacidade de jornais e revistas para melhor representar a realidade, oferecendo análises mais profundas e maior interconexão entre as notícias, a mídia impressa segue tratando com superficialidade e de forma fragmentada a questão mais premente da humanidade. Da mesma forma como quebra e recorta o noticiário sobre escândalos, sobre economia e sobre a precariedade da nossa democracia, a imprensa picota o tema sustentabilidade, dificultando a compreensão e o necessário e urgente engajamento de cidadãos, empresas e instituições públicas na busca de um modelo sustentável de desenvolvimento.

A questão ambiental vem separada do desafio das desigualdades sociais, que também aparece dissociado do ideal econômico adotado pela imprensa em geral, da mesma forma como, na editoria de Política, a absoluta evidência da incompatibilidade entre o comportamento do presidente do Senado e as honras do cargo vem regularmente apartada – como fato isolado – da impossibilidade de se esperar uma reforma institucional capitaneada pelos mesmos indivíduos que se beneficiam do atual sistema.

É a mesma deficiência demonstrada quando a imprensa foge da comprovada relação entre a falta de segurança e a ineficiência policial e o gangsterismo que caracteriza os "empreendedores" dos bingos e das máquinas de aposta viciadas que infestam os botecos e até farmácias das comunidades pobres.

Problema global
Qualquer repórter que percorrer as ruas onde se instalam os grandes bingos ouvirá de comerciantes que os "seguranças" ligados a casas de jogo, em associação com policiais, vendem proteção ao preço médio de 300 reais por mês. O mesmo repórter pode comprovar a proliferação das casas de prostituição nas redondezas dos bingos, todas tendo como associados ocultos ou às claras agentes do Estado – em alguns casos, com direito a proteção de viatura policial na porta.

Se a imprensa não consegue enxergar essas mazelas tão descaradas, e depende, para produzir notícias, do vazamento das informações obtidas por meio de grampeamento de telefones, como esperar que venha a entender ou sequer se encorajar a encarar o que realmente significa a questão da sustentabilidade, que, em última instância, nos remete a uma discussão sobre o futuro do capitalismo?

Se a imprensa ainda faz hierarquias de escândalos, conforme a filiação partidária do implicado, como esperar que encontre, afinal, a abordagem sistêmica que se exige para a representação do estado do mundo?

No absoluto deserto de líderes em que vaga o país, com as antigas forças de pressão esvaziadas pelo retrocesso conservador da igreja católica e o corporativismo em que degeneraram as organizações da sociedade civil que empurraram o movimento pela redemocratização, é hora de a imprensa assumir um papel mais decisivo nas mudanças de que o Brasil necessita.

O problema ambiental é global, mas a corrupção e as mazelas sociais são coisa nossa. A imprensa tem todas as condições para identificar os protagonistas adequados e com eles desenhar um projeto de país, para atacar amplamente todos esses problemas. Ao descobrir a importância da questão da sustentabilidade, como o amplo guarda-chuva sob o qual devem se abrigar os projetos de interesse nacional – seja o combate à corrupção, seja o combate à miséria –, os dirigentes das empresas de comunicação incorporam também a responsabilidade de descer do muro.

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Mistérios do PIB, idéias para pauta

Rolf Kuntz
Publicado pelo Observatório da Imprensa em 19/6/2007

Que diabo está havendo com a indústria? O Brasil está virando, mesmo, uma "economia de serviços", como as do mundo rico, ou os números do PIB mostram só uma caricatura de modernidade? Estas são algumas perguntas óbvias, motivadas pela divulgação das contas nacionais, na última quarta-feira (13/6). Os jornais apenas começaram a cuidar dessa pauta. Quem quiser cumpri-la ainda terá muito trabalho, mas o resultado valerá a pena.

Os jornais tentaram, nas edições de quinta e sexta-feira, debulhar os números divulgados pelo IBGE, examinando o Produto Interno Bruto de várias perspectivas. Para começar, deram ênfase ao dado mais vistoso – o "crescimento" de 4,3% em relação ao PIB do primeiro trimestre de 2006. A palavra crescimento, nesse caso, pode ser enganadora.

Como os períodos são descontínuos, seria mais correto afirmar que o PIB de janeiro a março de 2007 foi 4,3% maior que o de um ano antes. O ritmo de produção no trimestre inicial deste ano poderia estar estagnado ou até em queda. Ainda assim, poderia ser maior que o de janeiro a março do ano passado, por causa da expansão ocorrida entre os dois períodos.

O próprio IBGE comete essa impropriedade, com freqüência, ao divulgar seus levantamentos. Mas o assunto não é tão misterioso. Um septuagenário pode ser 15% mais alto do que era aos 15 anos, mas isso não é sinal de que esteja crescendo ou tenha crescido recentemente. O mais provável é que tenha começado a encolher.

A tendência de curto prazo é indicada mais claramente, no caso do PIB trimestral, pela comparação com o período imediatamente anterior, descontada a variação sazonal. Essa variação foi de 0,8%. Projetada para quatro trimestres, aponta uma expansão de apenas 3,25%. Há boas indicações de que tenha ocorrido uma aceleração no segundo trimestre e essa, por enquanto, é a melhor notícia.

Em perspectiva

Alguns economistas também mostraram otimismo diante da evolução do investimento bruto. Desta vez, disse um deles, o crescimento da economia é mais firme do que noutros episódios dos últimos anos. Faz parte da cobertura, tanto dos jornais quanto dos meios eletrônicos, a reprodução de opiniões de especialistas. Mas não custa fazer uns cálculos simples por conta própria. Uns poucos tiveram esse trabalho.

A taxa de investimento, no primeiro trimestre deste ano, ficou em 17,2% do PIB, praticamente igual à de um ano antes. É uma taxa ridícula, quando comparada com a de outros emergentes ou mesmo com a observada no Brasil na fase do chamado "milagre", no final dos anos 1960 e em boa parte dos 1970, quando a formação bruta de capital fixo andou pelos 24% e até mais.

Jornais, rádios e TVs também chamaram a atenção para um dado complementar, não explicitado no material divulgado pelo IBGE: o investimento na infra-estrutura continua emperrado. Projetos de hidrelétricas, centrais térmicas, estradas e terminais portuários continuam no papel, ou na imaginação, porque faltam licenças ambientais, garantia de abastecimento de gás e regras para as parcerias público-privadas. O problema, nesses casos, não é a escassez de capital, mas a indefinição política.

O ataque a uma questão das mais importantes, a composição setorial do PIB, demorou um pouco mais. No primeiro trimestre, a indústria de transformação produziu apenas 2,8% mais do que um ano antes. Em todas as demais comparações, o resultado da indústria foi pífio. Qual o problema? Não se trata, obviamente, apenas de uma perda de peso na composição do PIB, mas de uma redução do dinamismo do próprio setor.

O Estado de S.Paulo saiu com um primeiro ataque à questão no domingo (17/6), sob o título "Indústria cresce abaixo do PIB desde 2004". A escolha de um período razoavelmente longo, três anos, foi uma idéia interessante. Falta dizer mais sobre o assunto, mas a matéria foi um bom esforço inicial para pôr o assunto em perspectiva. A Folha de S.Paulo, também no domingo, tratou de um aspecto restrito da questão, mas também relevante: "Indústria de ponta perde espaço no país".

O peso dos serviços

Matérias como essas podem fazer a diferença numa cobertura. Mais que isso, podem fazer a diferença entre a cobertura dos jornais e a dos meios mais velozes, como a TV, o rádio e a agência de noticiário online.

No caso, esse tipo de matéria pode contribuir para uma avaliação mais precisa da natureza do crescimento econômico. Durante décadas, a indústria foi o motor principal da economia brasileira, não só por seu dinamismo, mas também por ser um dos pólos mais importantes de mudança tecnológica e a maior fonte de empregos de qualidade – formais, produtivos, com os melhores salários médios e com padrões mais altos de segurança.

Esse quadro foi parcialmente mudado pela terceirização, que jogou para os serviços parte dos empregos proporcionados até os anos 1980 pela indústria. Mas falta uma noção mais clara do que mudou no setor industrial e no de serviços. Este é muito amplo e muito diversificado em termos tecnológicos.

Maior peso estatístico na formação do PIB não é sinônimo de maior dinamismo, nem de modernização mais veloz que a do setor industrial. Também não significa, necessariamente, criação de empregos de maior qualidade. O contrário, segundo as aparências, é o mais provável. Excluída a área financeira, o que representa, no Brasil, o setor serviços em termos de tecnologia, dinamismo e criação de empregos de qualidade? Quais as suas conexões com a indústria de transformação e com o agronegócio?

São questões trabalhosas, mas vale a pena enfrentá-las.

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Stakeholders – Como interagir com tantos públicos diferentes

Andrea Goldschmidt*
Publicado pela revista Integração

Todo plano de negócios e, conseqüentemente, o plano de captação de recursos, deve começar pela compreensão do mercado em que a organização atua: conhecer em detalhes o mercado onde desenvolvemos nossa atividade social é fundamental para que seja possível tomar as decisões mais acertadas.

A análise do mercado passa por uma série de etapas, entre elas:
1. Identificação do público alvo;
2. Identificação das necessidades e desejos do público alvo;
3. Determinação do potencial de mercado;
4. Identificação dos “concorrentes” (no terceiro setor é mais comum o termo “organizações congêneres”, já que as organizações não concorrem para dominar o mercado, mas trabalham juntas na solução dos problemas sociais existentes);
5. Análise dos pontos fortes e fracos de cada uma das organizações congêneres (“concorrentes”);
6. Determinação dos produtos que trarão maior satisfação para as necessidades dos clientes e que preencherão “lacunas” de mercado (levando em consideração as características dos concorrentes e do mercado).

O objetivo deste texto é abordar os 3 primeiros itens: identificação do público alvo, identificação das suas necessidades e desejos, e determinação do potencial do mercado.

Identificação do público alvo

Quando pensamos em uma empresa qualquer, o público alvo é visto, de maneira simplificada, como o consumidor dos produtos e serviços daquela empresa.

Dentro do conceito de Responsabilidade Social Empresarial que vem sendo desenvolvido pelas empresas, no entanto, o público alvo deixa de ser apenas o consumidor e passa a englobar um número muito maior de pessoas e empresas. São os chamados stakeholders.

O termo “stakeholders” foi criado para designar todas as pessoas ou empresas que, de alguma maneira, são influenciadas pelas ações de uma organização.

Interna e externamente podemos pensar em vários grupos de pessoas que podem ser influenciados pelo trabalho de uma ONG:
. Beneficiários diretos, familiares, colegas de escola ou de trabalho dos beneficiários;
. Empresas situadas próximas ao local de desenvolvimento das atividades e /ou próximas ao local de residência dos beneficiários;
. Funcionários, voluntários e Conselheiros;
. Empresas parceiras e seus funcionários;
. Doadores;
. Fornecedores e seus funcionários;
. Governos locais;
. Outras organizações do terceiro setor que prestam serviços complementares ao da sua ONG.

Quem é, então, o público-alvo de uma ONG?

A melhor resposta, apesar de muito ousada, é: TODOS OS GRUPOS IDENTIFICADOS ACIMA.

São grupos muito diferentes, com perfis bastante diferentes e, certamente, com necessidades e desejos bastante diferentes em relação aos serviços prestados pela organização. Conciliar estas diferenças de interesses não é tarefa fácil!

Se os atendidos não estiverem satisfeitos, haverá problemas com o trabalho social. Se a comunidade do entorno não estiver satisfeita, poderá boicotar seu trabalho. Se os financiadores não estiverem satisfeitos, haverá problemas na captação de recursos e no estabelecimento de parcerias duradouras.

Desta forma, torna-se necessário, não apenas identificar cada um destes públicos-alvo, mas também identificar quais são suas necessidades e seus desejos e verificar como podemos atendê-los da melhor maneira possível.

Identificação das necessidades

O que faz com que cada uma das pessoas listadas acima tenham interesse no trabalho que a organização desenvolve? O que é importante na escolha da organização à qual irão se associar? O que esperam ter como retorno? Como irão medir o “desempenho” das organizações selecionadas?

Como são públicos diferentes, com interesses diferentes e necessidades diferentes, torna-se necessário pensar em cada um deles separadamente. Desta forma, cada uma destas questões deverá ser respondida para cada um dos grupos listados acima.

Existem basicamente 3 formas de descobrir quais são as necessidades e os desejos dos stakeholders:

1. Pense como ele – coloque-se no lugar daquela pessoa ou empresa e tente entender como é o seu comportamento e o seu processo de decisão. Se você fosse um beneficiário, que atividades gostaria que fossem desenvolvidas? Em que horário? Com que finalidade? Se você fosse um líder comunitário, o que esperaria da parceria com uma ONG? Se você fosse uma empresa financiadora, que tipo de projetos gostaria de apoiar? Que contrapartidas esperaria em troca? Como gostaria de receber a prestação de contas?

2. Observe-o – Que atributos o serviço deve transmitir para atender às necessidades de cada grupo de stakeholders? O que eles parecem observar quando estão diante de uma situação de decisão? Que fatores ajudam ou dificultam para conseguir seu apoio ou participação?

3. Pergunte a ele – Após ter se colocado no lugar do outro e ter observado seu processo de decisão, você ainda pode procurar pelas pessoas e perguntar a elas o que precisa saber. Isso pode ajudar a confirmar as conclusões a que você chegou anteriormente ou complementar as informações necessárias para a definição de qual é o serviço que melhor irá satisfazer aos desejos e às necessidades do seu público-alvo.

Entender as necessidades de um beneficiário pode aumentar significativamente o número de inscritos nos seus programas e ajudar a reduzir o índice de evasão. Entender as necessidades dos financiadores pode facilitar consideravelmente a formação de parcerias e a busca por recursos para sustentabilidade financeira do programa.

Determinação do potencial de mercado

Após terminada a etapa de identificação das necessidades de cada um dos grupos de interesse, o próximo passo é avaliar se o serviço que oferecemos está adequado à expectativas dos nossos stakeholders.

Em alguns casos, pode ser necessário efetuar ajustes para melhorar a adequação do nosso trabalho às expectativas das pessoas que queremos ter como parceiras. Em outros casos, isso pode não ser necessário.

Às vezes a adequação não é possível em função de alguma limitação que temos. Nestes casos, é importante ter clareza de como isso irá impactar as parcerias que desenvolvemos.

Uma vez que tenhamos clareza do que os parceiros querem e do que podemos oferecer, podemos iniciar a etapa de determinação do potencial do mercado. O principal objetivo é avaliar QUANTAS pessoas ou empresas têm potencial para se tornarem nossas parceiras.

Para ilustrar esta situação, vamos imaginar que nossa organização trabalhe com jovens de baixa renda, de 15 a 21 anos de idade, residentes na cidade de Florianópolis, que estejam cursando o ensino médio, com interesse em participar de cursos profissionalizantes de computação gráfica de segunda a sexta-feira, no período da tarde e que têm como principal objetivo conseguir uma nova colocação profissional.

Com todas estas informações em mãos, não será difícil calcularmos quantos jovens existem neste município que atendem às exigências acima e, se pudermos configurar um curso que se adeque a estas necessidades, teremos certeza de que haverá alunos suficientes para preencher todas as vagas.

O mesmo vale para o plano de captação de recursos. Uma vez feita a lista dos possíveis parceiros, podemos começar a buscar informações sobre o que pensam sobre investimento social e o que esperam das parcerias que realizam. Com esta informação, podemos avaliar se a nossa proposta de parceria atende a estas necessidades e, conseqüentemente, não será difícil medirmos quantas são as empresas com bom potencial de se tornarem nossas parceiras na condução de um projeto social qualquer.

Conclusões

Para cada grupo de pessoas com as quais interage, a organização deve desenvolver ações diferentes e linhas de comunicação diferentes. Isso é trabalhoso, sem dúvida, mas pode garantir o sucesso do seu negócio e a continuidade das parcerias desenvolvidas por um prazo mais longo, uma vez que todos os envolvidos sentem-se satisfeitos com o que recebem da organização.
As necessidades e expectativas de cada um destes grupos variam e é importante que cada um deles sinta que suas necessidades e expectativas estão sendo satisfeitas.

Desta forma, é preciso dividir estas pessoas em grupos através dos quais seja possível identificar características de comportamento comuns e características de comportamentos divergentes.
Algumas características são facilmente diferenciadas, mas existem outras mais difíceis de classificar. Para criar estas segmentações, podemos usar vários métodos diferentes – colocando-nos em seu lugar, observando seu comportamento ou perguntando diretamente a eles o que esperam.

Uma vez feitas as classificações, devemos verificar como podemos adequar nossos serviços para atender da melhor maneira possível às expectativas apresentadas. Quanto maior for a possibilidade de ajuste dos serviços prestados às necessidades do público alvo, maior será a garantia de sucesso do trabalho que a organização desenvolve.

Finalmente, tendo um grande conhecimento do mercado, poderemos medir qual é a demanda que existe de cada um dos stakeholders pelos serviços que prestamos e poderemos avaliar qual é o potencial do mercado onde estamos atuando.

* Andrea Goldschmidt é administradora de empresas pela EAESP- FGV e atua como captadora de recursos desde 1999. Também é professora de Marketing e Captação de Recursos na ESPM e na FACAMP e colaboradora do Centro de Estudos do Terceiro Setor (CETS FGV/EAESP).

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terça-feira, 19 de junho de 2007

ONU: Por mais transparência

Imagem do site da Onu

Thalif Deen
Publicado pela IPS em 15/06/07

Quando Ban Ki-moon assumiu o cargo de secretário-geral da Organização das Nações Unidas, em janeiro, prometeu estabelecer os “mais altos padrões” de transparência dentro do fórum mundial. Não só apresentou sua declaração de renda ao Escritório de Ética, o é uma obrigação, como deu um passo além: a tornou publica. “Asseguro a vocês que irei lidera-los como o exemplo”, afirmou. Pouco depois, a vice-secretária-geral da ONU, Asha-Rose Migiro, e uma das porta-vozes de Ban, Marie Okabe, também apresentaram publicamente a declaração de seu patrimônio.

Informar a situação financeira junto ao Escritório de Ética da ONU é um dever para todos os funcionários com cargos superiores, incluindo o secretário-geral, disse Okabe à IPS. Também é obrigatório para cerca de dois mil funcionários relacionados com assuntos de logística e investimentos, bem como para os próprios integrantes do Escritório de Ética, criado em janeiro de 2005. Okabe explicou que o prazo para apresentar essa informação venceu em 31 de maio. A firma de auditoria norte-americana PriceWaterhouseCooper agora está revisando as declarações. “Uma vez terminada a revisão, o informe da empresa será apresentado ao próprio Escritório de Ética”, acrescentou.

Em sua declaração do começo deste ano, Ban disse que ele e sua mulher, Yoo sooin Taek, têm um apartamento e mais duas propriedades na Coréia do Sul. Também possuem três contas bancárias, cada uma com mais de US$ 10 mil. No ano passado o casal vendeu uma propriedade por preço inferior a essa quantia.

Na semana passada, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) anunciou seu “Plano Estratégico”, que inclui medidas de transparência. “Basicamente, o documento serve para recordar os funcionários sobre seus deveres, para se adequarem aos mais altos padrões de conduta, e informar sobre os mecanismos disponíveis para denunciar irregularidades”, explicou o administrador associado do Pnud, Ad Melkert. Além disso, disse que várias categorias de funcionários, incluindo os da área de logística, terão que declarar seu patrimônio.

“Estou feliz de informar que tanto o administrador do Pnud (Kemal Dervis) quanto eu completamos nossa declaração financeira este ano, como parte do procedimento”, disse Melkert. Consultado se o Pnud seguirá o exemplo de Ban e tornará pública as declarações, Melkert respondeu: “Não sou a favor de torná-las publicas no site da agência na Internet. Creio que seria exceder a privacidade das pessoas”. Gillian Dell, coordenador de programas mundiais da Transparência Internacional, disse que “assim como as declarações de renda são algo muito apropriado para os funcionários públicos de um país, também o são para organizações internacionais”.

“De fato, a própria Convenção das Nações Unidas contra a Corrupção, assinada por 140 países, convoca todos os signatários a pedir a declaração de todas as fontes de renda ou de benefícios que possam em algum caso supor um conflito de interesses”, disse Dell à IPS. Além disso, destacou que o Pnud, que promove ativamente a Convenção, deveria se obrigar a adotar as mais altos padrões de transparência.

Hans von Sponeck, ex-coordenador de ajuda humanitária da ONU para o Iraque, disse que a revelação do estado financeiro dos funcionários do Pnud ou de qualquer outra agência deveria ser um procedimento habitual. “Esta informação, entretanto, deveria ser tratada de maneira confidencial. De nada serviria ser compartilhada com o público, a menos que os funcionários tenham violado as regras das Nações Unidas”, disse à IPS.Por sua vez, Bill Pace, diretor-executivo do Institute for Global Policy, afirmou à IPS que, “geralmente, nossa organização não acredita que os altos funcionários da ONU sejam tão corruptos como os meios de comunicação e alguns governos os pintam”. Mas, a transparência obtida ao revelar esse tipo de informação seria um bom precedente, acrescentou Pace. De todo modo, “é muito importante respeitar ao mesmo tempo a privacidade do indivíduo”, ressaltou Pace.

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ONU organiza Rede de capacitação com Empresas de Saneamento do Brasil e da América Latina

Publicado pela revista Envolverde em 17/06/07


Uma rede de capacitação envolvendo troca de tecnologias, experiências e informações entre empresas de saneamento do Brasil e da América Latina será formada com o apoio da Organização das Nações Unidas. O objetivo é acelerar o cumprimento das Metas do Milênio na área de abastecimento de água e do esgotamento sanitário. Há uma intensa mobilização de países da América Latina e do Caribe, em continuidade a um projeto já iniciado com países da Ásia e da África. Durante três dias, representantes da Comissão de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas estiveram reunidos em Recife com mais de 60 participantes. A Aesbe esteve presente representada pelo presidente Paulo Ruy Carnelli e o Superintendente Executivo Walder Suriani. Desde o ano passado esta comissão da ONU vem trabalhando para organizar uma agenda global para a questão do abastecimento de água e saneamento no mundo. Pelo menos 30 países da América Latina e Caribe já se comprometeram a apoiar a formação da rede, além de 50 paí ses da Ásia e 30 países da África. Como resultado da reunião, os participantes do encontro aprovaram na quarta-feira uma Carta de Recife que deverá ser divulgada na próxima semana. O documento reafirma o compromisso destes países com o cumprimento das Metas do Milênio estabelecidas pela ONU e ainda o apoio das empresas de saneamento à proposta da ONU de organizar a rede de capacitação.

O presidente da Aesbe, Paulo Ruy Carnelli, destaca que a proposta dessa rede é uma iniciativa positiva e traduz a experiência que a Aesbe já vem desenvolvendo entre as suas 24 associadas. “A idéia é um pouco o que a Aesbe realiza entre as empresas maiores e menores. Troca de experiências e apoio recíproco como forma de estar sempre melhorando a prestação dos serviços” afirmou ele. A Copasa, de Minas Gerais, uma das empresas associadas da Aesbe, apresentou na reunião de Recife um estudo de caso sobre esta troca de experiência com uma companhia do Paraguai, a Essap. “Esta rede pode e deve facilitar a troca de experiência entre os países da América Latina e isto é muito positivo” afirmou o presidente da Aesbe lembrando que a iniciativa vai estimular o setor rumo à universalização dos serviços.

Para o representante da Comissão de Desenvolvimento Sustentável da ONU e um dos organizadores do encontro em Recife, Manuel Dengo, a rede será formada por empresas públicas de prestação de serviço porque estas são maioria em todo mundo. “Em princípio estamos mobilizando principalmente as empresas públicas porque elas estão em todo o mundo, mas a rede é aberta” afirmou ele lembrando que a proposta é orientar as empresas de saneamento para intercâmbios pontuais, encontros e troca de experiências e, sobretudo, para que aquelas empresas menores possam receber das maiores ajuda técnica, na área de treinamento e assim acelerar o processo de cumprimento das metas do milênio na área de saneamento básico e abastecimento de água.

Ele informou que desde julho do ano passado a ONU iniciou o trabalho de mobilizar os países para a rede. Em julho houve uma reunião com os países da Ásia, em dezembro com os países africanos e agora no Brasil com os representantes da América Latina e do Caribe. As metas para o abastecimento de água e saneamento são o item número 07 das metas do milênio estabelecidas pela ONU para o desenvolvimento sustentável. Entre os principais objetivos das Metas do Milênio a serem alcançados até 2015, estão a redução pela metade da porcentagem de pessoas que vivem na extrema pobreza, o fornecimento de água potável para todos, a universalização da educação e o combate à propagação da aids, malária e outras doenças. De acordo com o relatório de desenvolvimento humano do PNUD, na área de saneamento, o Brasil precisa levar o esgotamento sanitário para 85,5% da população até 2015.

A Associação das Empresas de Saneamento Básico Estaduais - Aesbe é uma entidade civil sem fins lucrativos, constituída por 24 Companhias Estaduais de Saneamento Básico. Essas empresas atendem 103 milhões de pessoas com abastecimento de água, em 3919 municípios. Também prestam serviços de esgotamento sanitário a 45 milhões de pessoas, em 893 municípios.
A associação está em atividade desde 1985 e nos seus quase vinte anos de existência vem desenvolvendo ações voltadas às questões do saneamento básico, discutindo e apresentando matérias variadas aos diversos fóruns, visando a evolução do setor.

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Política pública é o que falta para deslanchar o uso de energias renováveis no Brasil

Paula Scheidt, CarbonoBrasil
Publicado pela Revista Envolverde em 19/06/07

O desenvolvimento da indústria de energias limpas no Brasil depende da vontade política, pois muita coisa já esta sendo feita e há ainda muito que se fazer. Esta é a opinião do presidente do Instituto para o Desenvolvimento de Energias Renováveis da América Latina (IDEAL), Mauro Passos. “Temos um potencial enorme na América Latina, porém faltam políticas públicas, pesquisas e tecnologias, que dependem das pesquisas. Sem uma legislação apropriada ninguém vai investir”, afirma o engenheiro.

Um exemplo dado por Passos é permitir a comercialização de energia de produção própria para a rede do município, o que acontece na Alemanha. Lá, muitos cidadãos instalam sistemas de energia solar na residência e podem vender o que não consomem para a rede pública. Segundo o engenheiro, o custo da instalação do sistema é pago em seis anos com esta espécie de compensação.

Passos lança um desafio para o Brasil. Por que não isentar de impostos iniciativas privadas de uso de energia renovável. “Hoje quase 40% do custo é imposto e, com esta medida, aproximaríamos rapidamente o custo ao da energia fóssil”, diz. Sobre os custos, por sinal, ele lembra que os investimentos são os mesmos para a instalação de um sistema de painéis solares aqui e na Alemanha, por exemplo. Nos últimos dez anos o preço das energias limpas vem caindo, uma tendência que deve continuar até a curva de valores alcançar o dos combustíveis fósseis.

A idéia é incentivar a produção em pequena escala, pois a energia renovável é por excelência descentralizada. “Nós brasileiros temos a mania do grande, como grandes hidrelétricas. Temos que nos reeducarmos para esta nova situação dos pequenos produtores”, destaca. No País há um grande potencial de PCHs (Pequenas Centrais Hidrelétricas) 21,43 MW a ser explorado, em uma fonte de pouco impacto sócio-ambiental e baixos investimentos.

Membro do conselho Mundial de Energias Renováveis (WRCE), com sede na Alemanha, Passos conhece de perto a realidade deste país que é referência no uso de fontes renováveis. Em uma recente visita a Alemanha, ele participou de um debate em um centro comunitário agrícola de uma pequena cidade onde, em pleno sábado à noite, o grupo de agricultores se reuniu para assistir ao filme “Uma verdade inconveniente” (de Al Gore) e discutir a questão das mudanças climáticas. “A grande vitória do governo alemão é o convencimento. A consciência é outra”, diz.

Esta foi uma das questões destacadas por Passos, que reitera ser preciso pensar diferente e mudar a mentalidade brasileira. O engenheiro lembra que na hora de desenvolver o plano diretor da cidade, planejar uma nova usina energética ou mesmo uma casa, a nova geração de profissionais brasileiros não deve seguir velhos padrões e sim empregar o diferente e levar em consideração a grande questão energética do mundo.

Através de gráficos do IBGE, Passos mostra que o consumo energético brasileiro está sempre acima do PIB. “Há uma questão de eficiência a ser trabalhada. O Brasil tem quase que cultural esse lado do desperdício. Teremos que ter uma nova geração para encarar com mais consciência isso”, afirma.

Crédito da imagem: Power Naturally.org

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Povos da floresta querem compensações pelo PAC

Yara Aquino, Agência Brasil
Publicado pela Revista Envolverde em 19/06/07

Além das mudanças climáticas, as obras previstas no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) para ocorrer na região da Floresta Amazônica estimularam as organizações da região a promover o 2º Encontro Nacional dos Povos da Floresta. "A idéia é incorporar algumas medidas de valor e de compensação as população que vão estar em torno dos empreendimentos", afirma o presidente do Grupo de Trabalho da Amazônia (GTA), Alberto Cantanhêde. Entre as obras previstas, estão as usinas do Rio Madeira.

O encontro deve fechar uma proposta de "PAC sócio-ambiental" a ser apresentada para governos, segundo ele. “A idéia é pautar governos nacionais e internacionais e empresas para o desenvolvimentos sustentável e acrescer esse tema na pauta das conferências regionais do Meio Ambiente que terão início no segundo semestre".

Além da questão ambiental, a reforma agrária será um dos temas. "Há interesses que são muito particulares, mas uma coisa que é comum é quando se trata da questão da reforma agrária", o vice-presidente do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), Júlio Barbosa de Aquino.O encontro marca a retomada da Aliança dos Povos da Floresta, que é formada pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), o Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), e o Grupo de Trabalho Amazônico (GTA).

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Indústria do Brasil encolhe frente a emergentes

Sergio Lamucci
Publicado pelo Valor Online em 19/06/07

A produção da indústria manufatureira do Brasil perde cada vez mais importância no mundo emergente. A comparação do desempenho brasileiro com o de países como China, Índia, Coréia do Sul, Malásia e Tailândia mostra uma expressiva falta de dinamismo, como deixam claro os números elaborados pelo professor chileno Gabriel Palma, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido.

Até 1980, segundo Palma, a produção manufatureira no Brasil equivalia à soma de China e Índia, quadro que mudou profundamente em 25 anos: em 2005, a fabricação brasileira de manufaturados correspondia a apenas um oitavo da produção conjunta desses dois países.
O resultado também é bastante desanimador quando comparado com o de tigres asiáticos como Coréia do Sul, Malásia e Tailândia. Se nos anos 70 a produção do Brasil era equivalente a três vezes a registrada por esses três países, em 2005 estava reduzida a um terço da soma da produção coreana, malaia e tailandesa, nota Palma.

Para ele, a perda de terreno do Brasil entre os emergentes na produção manufatureira se deve a um conjunto de políticas equivocadas adotadas nos últimos anos. De um lado, a combinação de juros elevados, câmbio sobrevalorizado e redução drástica dos investimentos públicos em infra-estrutura. De outro, a falta de uma política industrial, comercial e tecnológica desenhadas para a fabricação de produtos de maior valor agregado. Em resumo, o oposto da receita usada pelo países asiáticos. "Na América Latina, especialmente no Brasil, as reformas se fizeram por motivos ideológicos, sem nenhum grau de pragmatismo", afirma Palma. "Na Ásia, as reformas econômicas foram feitas para acelerar o crescimento."

O professor Paulo Gala, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), concorda com Palma, e diz que o problema tem dois vetores, um de curto e um de longo prazo. O primeiro é a combinação de juro alto e dólar barato e o segundo é a falta de políticas de governo voltadas para o desenvolvimento tecnológico, que levem ao aumento da inovação e da produtividade.

Para Palma, o processo que o Brasil passa é o de uma desindustrialização prematura. "Isso é bastante ruim, porque a indústria é motor mais eficiente para o crescimento de um país com renda média como o Brasil." Há uma perda de empregos no setor industrial, que tem produtividade maior do que o agropecuário e o de serviços, diz ele.

Palma usou números do Banco Mundial, que mostram o crescimento real da indústria manufatureira, medido em dólares constantes de 2000. Segundo ele, de 1980 a 2005, a indústria manufatureira no Brasil cresceu a um ritmo anual de apenas 0,7%. Nesse período, a da China avançou 10,9%, a da Índia, 6,7%, a da Coréia do Sul, 9,3%, a da Malásia, 8,8% e da Tailândia, 8,2%.

O economista chileno diz que um fator fundamental para reverter esse processo é o Brasil definir qual será o nicho da indústria manufatureira que o país pretende manter no mundo globalizado. "A China quer ser a fábrica do mundo, a Índia quer ser o escritório do mundo (com a produção de softwares), mas o que quer o Brasil?"

Para Palma, o Brasil deveria investir no nicho de processamento de produtos primários, agregando valor a eles. Não faz sentido, segundo ele, o Brasil exportar mais de 50% do ferro consumido no mundo, mas apenas 2% do aço. O ideal seria vender cada vez mais aço e menos ferro.

"O Brasil deveria colocar muita ênfase numa política industrial, comercial e tecnológica para aumentar o valor agregado das commodities que exporta", diz, apontando o caso dos países nórdicos como um modelo interessante. Além de agregar valor a produtos primários, países como a Finlândia também investiram na produção de insumos utilizados nesse processo para aumentar a industrialização do país. É um processo de adensamento das cadeias produtivas ligadas às commodities.

"Não acredito na maldição dos recursos naturais. Não há nada mal na produção de produtos primários. Eles podem ser uma bênção se forem usados como base para a industrialização", afirma ele. "Foi o que fizeram os nórdicos e também países como a Malásia."
Para Gala, essa tendência de perda de terreno da indústria de transformação é reversível, desde que se altere a combinação de juros altos e câmbio valorizado e também se passe a dar prioridade a políticas de desenvolvimento tecnológico, um receituário bastante semelhante ao proposto por Palma.

O economista chileno insiste na importância de um país como o Brasil dar ênfase à produção manufatureira. Exportar apenas produtos primários, como alguns economistas acreditam ser a vocação do Brasil, é uma estratégia que vai ter custos significativos em termos de crescimento e emprego.

"Qualquer pessoa que conhece a história econômica sabe que as commodities passam por ciclos em que seus preços sobem e descem. Pensar que eles vão se manter nos níveis atuais é um erro muito grande", afirma Palma, para quem vantagens comparativas podem ser construídas. "Elas podem se basear em ativos adquiridos e não apenas herdados, como o investimento para gerar novas capacidades tecnológicas e de inovação, a geração de capital humano de alta especialização e de redes de comercialização, assim como o investimento em capital social e institucional."

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Política de inovação tecnológica demora a avançar no país

Raquel Salgado
Publicado pelo
Valor Online em 19/06/07

Dante Alario Jr, presidente da Biolab: remédio novo não foi lançado no mercado porque preço autorizado foi baixo
Foto de Leo Pinheiro/Valor


A equipe de pesquisadores da farmacêutica Biolab passou dois anos em busca de um novo remédio. Por meio de financiamentos do governo federal e utilizando incentivos fiscais, a empresa criou um medicamento inédito no país, que sintetiza outros dois, antes vendidos separadamente: o ácido fólico e a vitamina E. São substâncias usadas por grávidas para a prevenção de uma doença chamada "espinha bífida", na qual a coluna vertebral do bebê não se fecha e deixa a medula óssea exposta. Dante Alario Jr., presidente da Biolab, porém, não tem muito o que comemorar, pois o medicamento pode não ser lançado no mercado.

O entrave se dá por conta do preço pedido pela empresa e o permitido pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (Cmed). Enquanto a Biolab quer cobrar R$ 30 por 90 cápsulas - o que corresponde ao tratamento completo, já que as grávidas devem tomar uma por dia, durante três meses - a Cmed autorizou a cobrança de apenas R$ 5, um sexto do pedido pela farmacêutica.

O caso da Biolab, que emprega 1,1 mil funcionários, ilustra problemas que continuam presentes para empresas inovadoras no país, apesar dos avanços recentes. Recursos ainda são escassos, falta entrosamento entre os diversos órgãos do governo responsáveis por promovê-la, o dinheiro demora a chegar e poucas são as empresas que conseguem, de fato, acesso aos programas de incentivo e subvenção. Apesar dos problemas remanescentes, a procura por recursos para inovação tecnológica tem sido muito forte. Especialmente nas linhas que disponibilizam recursos a fundo perdido.

Uma empresa inovadora que ainda espera apoio oficial é a Silvestre Labs, farmacêutica que desbancou a Natura e a Valée e levou o prêmio de empresa mais inovadora em uma das três categorias do Índice Brasil de Inovação, organizado pelo Fórum Permanente das Relações Universidade Empresa (Uniemp), ligado à Unicamp e a (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Ela ganhou o prêmio graças a 20 anos de pesquisa e desenvolvimento tecnológico "sem um único centavo de dinheiro público", conta Eduardo Cruz, o bioquímico que é diretor da empresa carioca.

A última novidade que saiu dos laboratórios da Silvestre foi o Extra Graft XG-13. Trata-se do primeiro enxerto ósseo com propriedades ósteo-indutoras, totalmente desenvolvido no Brasil a partir do estudo de células-tronco. Ele pode substituir, por exemplo, uma placa de platina, com a vantagem de não precisar ser trocado e de induzir o crescimento do tecido ósseo onde é aplicado.

Cruz quer agora registrar esse enxerto na FDA, agência americana que regula medicamentos, procedimentos médicos e segurança alimentar. Para fazer isso e conseguir exportar seu produto, precisa de capital para adequar alguns processos e controles na fabricação do Extra Graft. Ele inscreveu um projeto sobre esse tema no edital lançado pela Financiadora de Estudos e Projetos, a Finep, no ano passado. Mesmo sendo um produto inédito, o projeto foi rejeitado.
"Nem a Silvestre Labs nem outras oito empresas que ficam aqui da Fundação BioRio (um pólo tecnológico dentro da Universidade Federal do Rio de Janeiro) passaram nesse edital", ressalta o empresário.

Ele não foi o único a ficar frustrado com o resultado do edital. A demanda pela subvenção - o programa no qual o governo aporta recursos em um projeto inovador a fundo perdido (não precisam ser devolvidos) é a maior novidade da Lei de Inovação -, culminou em 1,1 mil propostas no valor de R$ 1,9 bilhão, mas o governo só tinha R$ 300 milhões, 15% da demanda total.

Além de incapazes de atender à demanda, os recursos também demoram a chegar ao destino. Até agora, apenas R$ 20,5 milhões do total de R$ 300 milhões foram parar nas empresas. O resto ainda pode demorar, já que a Finep tem um prazo de dois anos para liberar esse dinheiro. Os outros dois braços da subvenção, que somam mais R$ 210 milhões e fazem com que o programa total chegue a R$ 510 milhões, ainda estão parados nos cofres públicos.
Com isso, após um ano e meio da regulamentação das leis (do Bem e de Inovação), apenas 4% dos recursos planejados (ou R$ 20,5 milhões) foram efetivamente destinados a projetos de inovação.

A morosidade nas análises dos projetos e na liberação dos recursos impede que os investimentos em inovação deslanchem. "As mudanças trazidas pela Lei de Inovação foram muito fortes, então, é natural que demore um certo tempo até que os instrumentos de fomento deslanchem", argumenta Eduardo Costa, superintendente da Finep.

Costa admite que o sistema utilizado pela financiadora peca pela lentidão. "A comunicação ainda é via papel, ainda vivemos a cultura da burocracia." Segundo ele, no entanto, o objetivo da nova gestão da Finep é acelerar a informatização da entidade. "Mas o processo de modernização administrativa é complexo, vai levar algum tempo", adianta.

Enquanto a subvenção não deslancha, a expectativa é de que a mudança trazida pela a lei 11.196 de 2005, a chamada Lei do Bem, esteja contribuindo para estimular novos investimentos em inovação. Para 2006, o governo federal projetou uma renúncia fiscal de R$ 500 milhões para a inovação, apenas para projetos dentro da MP do Bem. Se a renúncia chegar a esse montante, ela somará mais de R$ 840 milhões, já que, pelo mecanismo antigo de incentivos, foram concedidos R$ 324,6 milhões, entre janeiro e julho do ano passado. O valor total, será, portanto, 174% superior ao de 2005, que foi de R$ 306,1 milhões. O valor efetivo do ano passado só será conhecido depois que a Receita Federal processar as declarações de pessoa jurídica referentes ao ano passado.

No entanto, o valor concedido não é, necessariamente, o valor usufruído pelas empresas, uma vez que pelo regime antigo, elas só podem abater as despesas com pesquisa do Imposto de Renda a pagar. E, muitas vezes, não têm IR a pagar. E elas não precisam usufruir do benefício apenas no ano em que ele é concedido.

Além disso, antes, o Ministério de Ciência e Tecnologia precisava avaliar previamente os projetos de pesquisa e inovação. A Lei do Bem facilitou o uso desses instrumentos na medida em que não exige essa aprovação prévia e o usufruto dos benefícios é automático. A empresa deve apenas lançar as despesas em pesquisa e desenvolvimento em contas definidas pela Receita Federal, que as fiscaliza no momento de apurar o Imposto de Renda anual da companhia.

Ainda pelo regime antigo, ao longo de 2005, entre janeiro e dezembro, foram usufruídos R$ 34 milhões, de uma concessão de R$ 306,1 milhões. Esses números, assim como os de 2006, referem-se aos Programas de Desenvolvimento Tecnológico Industrial (PDTI) e Agropecuário (PDTA), que estavam em vigor antes da aprovação da Lei do Bem e eram regidos pela lei 8.661/93. Em 2005, 19 projetos foram aprovados e mais 16 protocolados. Em 2006. nenhum projeto novo foi protocolado pela mudança na legislação.

São, portanto, poucos projetos de valores altos. A tendência é que isso continue a acontecer, uma vez que os incentivos previstos na Lei do Bem só podem ser utilizados por empresas com sistema de apuração de lucro real. Denis Barbosa, advogado especializado no tema, estima que no Brasil apenas 6% das empresas optem por esse sistema, o que, na sua análise, restringe muito a eficácia desse instrumento, especialmente para os pequenos e médio empreendimentos, que quase sempre utilizam o sistema de lucro presumido.

A Brasilata, fabricante de embalagens metálicas, que opta pelo regime de lucro real, diz que tem se beneficiado dessas mudanças. "A Lei de Inovação foi a carta de alforria dos pesquisadores", comenta o presidente Antonio Carlos Teixeira Álvares.

A avaliação de Álvares, porém, é a de que esses instrumentos "ainda são muito recentes e vão demorar um pouco para surtir efeito." Para ele, que tem aproveitado "todos os instrumentos disponíveis, inclusive o abatimento do IR", o importante é que as leis acabam servindo como um marco regulatório para o setor.

Outra vertente da política industrial para a inovação, fora da Lei do Bem e da Inovação, está no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que pretendia destinar R$ 1 bilhão para uma linha especial para essa área, criada no ano passado. Até agora, foram liberados R$ 356 mil. As aprovações, porém, são maiores e chegam a R$ 16,3 milhões, o que significa que mais dinheiro está por vir. Em 2006, não houve desembolso. Na semana passada, o banco anunciou que reduzirá de 6% para 4,5% a taxa de juros anual dessa linha.

"Não faltam instrumentos, falta informação de como usá-los", explica Mario Sergio Salerno, engenheiro e professor da USP, que também foi diretor da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial entre 2005 e 2006.

Não é essa a visão de Cruz, presidente da Silvestre Labs. Ele é crítico à atuação da Finep e à distância que há entre empresas e universidades. "Precisamos sair da retórica. Não adianta de nada uma lei de inovação se não temos uma secretaria para liderar e coordenar essas ações." Ele diz que suas instalações estão dentro da UFRJ e que não consegue estabelecer vínculos e acordos com esses pesquisadores.

"Ainda há muita insegurança. A Receita Federal lançou dúvidas, pois cada secretaria estadual trabalha com um conceito do que é investimento em pesquisa", explica Roberto Nicolsky, diretor da Sociedade Brasileira Pró-Inovação Tecnológica (Protec), entidade ligada à indústria. Segundo ele, as empresas têm receio de abater os gastos do IR e depois serem autuadas ou chamadas pela Receita para esclarecimentos.

Entre velhos problemas e lentos avanços, pelos cálculos mais otimistas, o país investe apenas 1,6% do PIB em P&D. É um percentual semelhante ao da China, mas para um PIB muito menor.

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Coca-Cola ainda tenta recuperar a marca

The Economist
Publicado pelo Valor Online em 19/06/07

Quando foi preciso encontrar alguém para reorganizar a companhia em 2004, Neville Isdell não foi a primeira escolha, e nem a segunda, dos diretores da Coca-Cola. Com a maior fabricante de refrigerantes do mundo passando por sua crise mais expressiva em seus 121 anos de existência, seus executivos procuraram alguém de fora para consertar as coisas. Somente depois das negativas de James Kilts, então presidente da Gillette, e de Carlos Gutierrez, então presidente da Kellogg, eles recorreram a Isdell, então com 62 anos, que aproveitava uma aposentadoria ensolarada em Barbados depois de 40 anos na companhia.

Ele não hesitou em trocar o calção de banho por um terno, depois de ter sido preterido ao principal cargo da Coca-Cola em 1997 e novamente em 2000 - o que levou à sua aposentadoria precoce. Nascido na Irlanda, Isdell foi criado em Zâmbia, onde começou a trabalhar para a Coca-Cola. Passagens pela África do Sul, Austrália, Filipinas e Alemanha se seguiram. Isdell, então, levou a companhia para novos mercados na Índia, Oriente Médio e na extinta União Soviética e acabou encarregado das operações européias. Administrador prático, sua primeira medida ao retornar à companhia foi investigar ele mesmo os problemas.

Assim como um Phileas Fogg moderno, ele cruzou o mundo em 100 dias para ouvir funcionários de todos os escalões em muitos dos mais de 200 países em que a Coca-Cola está presente. Ele encontrou vendas em queda, funcionários desmotivados, marketing ineficiente e falta de liderança. A marca mais valiosa do mundo passava por uma crise de confiança. "Havíamos perdido a confiança em nossa capacidade de vencer", diz Isdell.

Uma vez de volta à sede da Coca-Cola, em Atlanta, Estado da Geórgia, Isdell dividiu suas constatações com os executivos da cúpula. O resultado do que ele chama de um "processo catártico" foi o Manifesto pelo Crescimento, um plano de dez anos para revitalizar a companhia. Seu primeiro objetivo foi melhorar a produção e o marketing da Coca-Cola, Sprite e Fanta, os refrigerantes gaseificados que respondem por cerca de quatro quintos das vendas do grupo. Isdell decidiu injetar recursos adicionais de US$ 400 milhões em marketing, por causa do aumento das evidências de que o poder da marca Coca-Cola estava enfraquecendo. Ao mesmo tempo, ele se mobilizou para fortalecer o portfólio de bebidas não gaseificadas e bebidas "funcionais".

Água engarrafada, bebidas energéticas e sucos de frutas são hoje as principais fontes de novos negócios da indústria dos refrigerantes, com taxas de crescimento sete vezes maiores que as das bebidas gaseificadas, cujas vendas perderam seu vigor como resultado das preocupações com a obesidade. A medida mais arrojada de Isdell nessa área aconteceu em 25 de maio, quando a Coca-Cola anunciou que iria comprar a Glaceau, uma fabricante americana de água vitaminada, por US$ 4,1 bilhões - a maior aquisição já feita por ela. Na semana retrasada, porém, a Coca-Cola perdeu para a PepsiCo uma batalha pela Sandora, uma fabricante de sucos da Ucrânia.

Um outrora "chefão" do engarrafamento - ele já comandou a Coca-Cola Beverages, uma engarrafadora européia -, Isdell também prestou bastante atenção às relações freqüentemente disfuncionais com as companhias engarrafadoras. Sob acordos que algumas vezes datam de mais de um século, o fornecimento da Coca-Cola está concentrado nas engarrafadoras locais, que então produzem e distribuem os refrigerantes. Isdell deu às engarrafadoras permissão para se unirem a outras empresas para atender melhor a disparada das vendas das bebidas mais saudáveis.

Como a Coca-Cola possui participações em muitas engarrafadoras e controla totalmente outras, esta é mais uma maneira de o grupo se diversificar. A Coca-Cola Enterprises, por exemplo, que é uma grande engarrafadora dos Estados Unidos na qual a Coca-Cola possui uma grande fatia, agora distribui o Arizona, um chá pronto para beber produzido pela Ferolito, Vultaggio & Sons, uma companhia americana de chás gelados. Como parte de sua estratégia, Isdell também aumentou a participação da Coca-Cola em algumas engarrafadoras, ou comprou algumas inteiras, como ele fez este ano com a companhia engarrafadora onde trabalhou nas Filipinas.

Os esforços de Isdell estão agora começando a dar resultados. O preço da ação da companhia subiu 20% em 2006 e no primeiro trimestre deste ano as vendas cresceram 17%, para US$ 6,1 bilhões, e os lucros aumentaram 14% em comparação ao mesmo período do ano passado. Analistas da companhia de serviços financeiros Stifel Nicolaus consideram esse desempenho a melhor evidência de que o plano de Isdell está funcionando e que suas metas de longo prazo são sólidas. Bonnie Herzog, uma analista do Citigroup para o setor de bebidas, recentemente aumentou a recomendação da Coca-Cola para "comprar", o que não fazia há quatro anos, principalmente por causa da aquisição da Glaceau. Isso mostra que a companhia "está se recompondo", diz ela.

Mas outros continuam céticos. Robert van Brugge, da companhia de investimentos e pesquisas Sanford Bernstein, acredita que as aquisições da Glaceau e da Fuze, uma companhia americana de sucos e chás, são bons negócios, mas ambas são empresas relativamente pequenas. As vendas fracas no mundo desenvolvido precisam de um incentivo, diz ele. Europa, EUA e Japão responderam por cerca de 70% dos lucros, mas praticamente nada do crescimento em 2006. E muitas das bebidas lançadas no ano passado, como a Coke Black, um refrigerante com café, e o chá gelado Gold Peak foram um fracasso.

Segundo a companhia de pesquisas de mercado Euromonitor, a Coca-Cola vem perdendo participação mundial nos últimos seis anos. Sua principal rival, a Pepsi, vem fazendo um trabalho melhor ao se voltar para as bebidas saudáveis nos Estados Unidos. E, ao contrário da Pepsi, que produz salgadinhos tanto quanto refrigerantes, a Coca-Cola não tem nenhuma outra linha de negócios como segurança. E é altamente improvável que isso mude no curto prazo, uma vez que Isdell quer consertar as coisas primeiro.

Ele observa que sua empresa superou as expectativas dos analistas em cada um dos últimos dez trimestres, embora admita que "ainda não estamos cantando vitória". Para alguns analistas, as medidas adotadas deveriam ter sido mais radicais, como aquisições e cortes de empregos mais audaciosos. Mas eles sabiam que alguém de dentro da companhia provavelmente não faria mudanças muito drásticas e vêm se mostrando surpresos com o que Isdell está conseguindo. Nunca subestime a dificuldade que é reverter uma situação ruim em uma companhia enorme como a Coca-Cola. Mas para Isdell ser visto como o salvador da empresa, ele agora também precisa conseguir um crescimento mais rápido.

(Tradução de Mario Zamarian)

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segunda-feira, 18 de junho de 2007

RSS - O famoso quem?

Publicado na Toca da Cathy em 17/06/07

Nesse vídeo que está traduzido para nosso idioma, você vai entender o que é o RSS e para que serve.

Se alguém lhe falar de RSS, nunca mais pergunte que bicho é esse.




Para assistir, clique aqui (3 min 45 seg).

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Inovações no Planejamento da Sustentabilidade em Organizações da Sociedade Civil

Eduardo Marino e Rosana Kisil*
Publicado pela Revista IntegrAção de Junho/2007


Introdução

Os desafios do planejamento na área social têm indicado para a inclusão dos atores sociais no seu processo, tornando a atividade de planejar bastante participativa e integradora. Este movimento tem sido buscado pelas lideranças da sociedade, uma vez que casos de sucesso são observados quando o planejamento envolveu a todos na busca de atender as necessidades sócio-ambientais.

Assim nasceu toda uma corrente de trabalho: instrumentos, ferramentas, conceitos dirigidos a aprimorar processos de planejamento em grupos, que pudessem superar o limite do planejamento empresarial feito dentro de escritórios por equipes especializadas para subsidiar a tomada decisões dos acionistas.

Hoje, estamos diante de um novo limite: os métodos desenvolvidos nas últimas três décadas foram utilizados largamente em todo o mundo e temos então uma visão histórica dos mesmos, sua aplicabilidade e limitações.

Esses métodos, orientados para variáveis, produtos e resultados que supostamente podem ser controlados, deixam lacunas diante do caráter dinâmico do sistema social, que, composto de diferentes atores e interesses, formam um sistema complexo e não previsível. O planejamento voltado para a lógica da causalidade simplesmente não se valida nas relações sociais atuais, mais complexas e metamórficas do que antes. O mundo mudou, as forças políticas são hoje mais diversificadas e as relações econômicas e de poder também. A economia informal, os negócios ocultos do crime, o papel das lideranças e até da cultura, tudo foi se modificando e resultou numa sociedade muito intrincada, com laços difíceis de compreender e até de ver. Como incluir esta análise no planejamento de projetos sociais? Qual a inovação que permite aumentar a qualidade dos planos de trabalho de modo que as chances de sucesso e o alcance de resultados sejam efetivos? Existem novas alternativas? Sim.

Este artigo discute a transição dos métodos de planejamento convencionais para novas abordagens e apresenta novas oportunidades para grupos e empreendedores sociais melhor delinearem seus projetos e ampliarem sua sustentabilidade.

Na primeira parte, faz-se um Referencial Histórico e Teórico dos métodos de planejamento orientados para objetivos, dando foco no Marco Lógico, modelo representativo de todos os métodos deste tipo, mundialmente utilizado entre países desenvolvidos e em desenvolvimento nas últimas três décadas e ainda em prática por diversas instituições de ajuda internacional.

Na segunda parte há uma discussão sobre o conceito de Sustentabilidade em Organizações da Sociedade Civil (OSCs), sob o título de O que é uma organização sustentável?. Em seguida, explora as Limitações do Modelo Lógico, colocando suas lacunas e deficiências.

Na terceira parte apresenta Alternativas para um Planejamento Inovador, que começa com um esclarecimento sobre o que é inovação e como este conceito se insere na realidade organizacional, avançando para novos modelos e conceitos do planejamento: aborda o Mapa de Ativos Locais e o Modelo da Sustentabilidade como Construção de Valor.

Seguem então as Conclusões, que apontam para um novo ingrediente no planejamento sustentável: as relações humanas e sociais como novo foco, nova condição e novo instrumento.


1 - Referencial Histórico e Teórico

Pequena história dos métodos mais largamente utilizados no planejamento de organizações sem fins lucrativos e projetos sociais.


“Se você não sabe para onde se dirige, qualquer caminho o levará até lá”.

Peter Drucker disse que administrar é estabelecer objetivos. Afinal, qual o valor relativo das estratégias que não têm sua referência no alcance de resultados pré-determinados? Há consumo de recursos, insumos de todo tipo, para quê?

Em 1969, a fim de “descobrir para onde estava se dirigindo”, a Agência Internacional de Desenvolvimento dos Estados Unidos (USAID) encomendou à Practical Concepts Inc. (PCI) a análise do seu sistema de avaliação de projetos. Aquela análise colocou em evidência três problemas básicos que estavam afetando seriamente não só a avaliação significativa dos projetos, como também a sua implementação:

1. O planejamento era demasiadamente impreciso: os objetivos eram múltiplos e não se relacionavam claramente com as atividades do projeto. Não havia uma imagem clara de êxito. Portanto, os avaliadores não podiam comparar, de maneira objetiva, o plano com os resultados que haviam sido obtidos.

2. A responsabilidade pela gerência não era clara: os gerentes de projetos tinham consciência de que os projetos se justificam em função de seus benefícios finais (impacto); contudo, resistiam em assumir responsabilidade pelo impacto: muitos fatores importantes escapavam ao seu controle. Achavam difícil identificar aquilo pelo qual eles deveriam ser responsáveis e terminavam por não aceitar nenhuma responsabilidade pelos resultados.

3. A avaliação era um processo conflitivo: sem metas claras e com freqüentes desacordos entre gestores, os avaliadores acabavam usando seus próprios critérios sobre o que seriam aspectos positivos e negativos. Portanto, os resultados da avaliação freqüentemente se convertiam em maiores desacordos acerca dos resultados, em lugar de constituir-se em ações construtivas para o melhoramento dos projetos.

O método da Estrutura Lógica para o desenho e avaliação de projetos foi especificamente elaborado para responder aos problemas acima mencionados. Promove a colaboração desde o principio e ajuda a evitar relações conflitivas tanto na formulação como na avaliação de projetos sociais.

A Estrutura Lógica foi provada pela USAID em 1970 na avaliação de projetos de assistência técnica. Foi implementada em 30 programas em diversos países entre 1970 e 1971. Nos anos seguintes, o método foi estendido a projetos de empréstimos no campo e a projetos de financiamento direto da Agência. A Agência Canadense de Ajuda Exterior (CIDA) aprovou a Estrutura Lógica em 1974 e em 1975 decidiu aplicá-lo mundialmente. O método foi ensinado em instituições governamentais e acadêmicas dos Estados Unidos e de países em desenvolvimento. No Paquistão elaborou-se um Sistema de Gerenciamento de Projetos (SGP) completo, agregando-se à Estrutura Lógica o uso de redes de rendimento para sistemas de acompanhamento e informação. Na Tailândia, Omã e Guatemala, o SGP foi adotado em vários ministérios. Na Costa Rica, o Ministério da Agricultura e Pecuária fez sua Programação Orçamentária empregando o este método. O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) incluiu a Estrutura Lógica em seus cursos de preparação e avaliação de projetos para melhorar a administração de estudos de factibilidade. No Brasil também há inúmeros exemplos de uso da Estrutura Lógica, também chamada de Marco Lógico, com ênfase nos projetos financiados por fundações americanas, como por exemplo a Fundação W.K.Kellogg, que incorporou nos seus Seminários de Idéias a ferramenta, que a auxiliava a analisar e decidir sobre os financiamentos de projetos em conjunto com as lideranças dos próprios projetos.

Vale lembrar também o método ZOPP, versão alemã do Marco Lógico. A metodologia ZOPP, "Ziel orientierte Projekt Planung" - Planejamento de Projetos orientado por Objetivos - foi criada pela Agência Alemã de Cooperação Técnica (GTZ), com sede em Escborn, na Alemanha, entre as décadas de 70 e 80. A GTZ constituiu um grupo de especialistas para que criassem uma metodologia de planejamento que se inserisse num processo participativo de gestão de projetos de desenvolvimento. Com base no "Logical Framework Approach" a GTZ introduziu a participação dos envolvidos como premissa básica do planejamento de projetos, criando a metodologia ZOPP, testado em fase-piloto no início da década de 80 e definitivamente implantado em todos seus projetos de Cooperação a partir de 1987.

Explicando o modelo do Marco Lógico: conceito, estrutura, premissas
O método da Estrutura Lógica é um conjunto de conceitos entrelaçados que devem ser usados juntos de uma maneira dinâmica. Sua popularidade se deve também à sua simplicidade: não é difícil de ser aprendida, não requer especialização em matemática ou no uso dos computadores. Repousa na experiência que o usuário tem em projetos de desenvolvimento, assim como na sua percepção do que é bom ou não. Não proporciona respostas ou tomadas de decisão, porém organiza a informação de tal maneira que permite a visualização de dúvidas e falhas do projeto, bem como a identificação das condições necessárias à sua implantação.

O método reconhece três níveis básicos de responsabilidade:
1. Insumos: os recursos que consumimos e as atividades que levamos a cabo;
2. Produtos: Estes devem ser estipulados como resultados. Se há fracasso em produzir aqueles resultados, então o gerente tem a responsabilidade de mostrar a causa pela qual fracassou;
3. Propósito: o objetivo de mais alto nível que é a razão de investir na produção de resultados. Por exemplo, se Produtos são serviços sociais, então o Propósito poderia ser o melhoramento da qualidade de vida da população alvo do projeto.

Esta é a hierarquia básica de objetivos.

Mas, há a premissa de que todas as atividades humanas são incertas. Portanto, o método considera o projeto como um conjunto de hipóteses em cadeia: se Insumos, então Produtos; se Produtos, então Propósito.

Neste ponto o método agrega o terceiro ponto importante: o requerimento da Análise de Sistemas que diz que não teremos especificado um sistema até que não tenhamos especificado a relação que este sistema tem com um sistema maior. Para fazer isto, agrega-se à hierarquia de objetivos, um quarto nível superior chamado “Fim”. “Fim” é o objetivo de mais alto nível, imediatamente acima do Propósito do projeto. O Fim relaciona as aspirações do projeto às aspirações gerais. Se os Propósitos estão em nível da instituição, então o Fim vai além dela e relaciona o projeto ou programa a objetivos verdadeiramente nacionais, que poderiam ser comuns a várias instituições.

Dado que existem muitas incertezas na conexão entre Propósito e Fim, vemos também este último elemento lógico do projeto ou programa como hipótese comprovável (se Propósito, então Fim).

Deve-se notar que o que varia entre os níveis é a probabilidade de êxito. Assegurar-se que os insumos resultem em produtos é parte da habilidade de um gerente; ele é o responsável; o método frisa que, se houver fracasso em qualquer dos níveis, ele, o gerente, está pronto a reconhecer e mostrar a causa.

Até certo ponto; ainda há fatores que não estão sob seu controle. Para aumentar as chances de sucesso, há então a necessidade de explicitar esses fatores em cada nível da hierarquia: quais as condições determinantes do sucesso em cada nível? Em outras palavras, de que depende o projeto para alcançar seus objetivos em cada nível? São os “Pressupostos”, o quarto elemento chave da Estrutura Lógica.

Os pressupostos refletem nosso reconhecimento de que existem fatores que estão além do controle e que são fundamentais para o êxito dos objetivos em todos os níveis plano. Ao identificar os pressupostos, terá se expandido a hipótese original para incluir a natureza específica das incertezas mais importantes que podem afetá-la.

O diagrama (Figura 1) mostra uma formulação mais completa das hipóteses e incertezas nelas contidas:


Diagrama da Estrutura Lógica

Figura 1


2 - O Que é Uma Organização Sustentável?


“As OSCs, como não têm o lucro como objetivo primordial,
justificam sua existência na medida em que logram
consolidar e incrementar sua contribuição para a sociedade.”
Marcos Kisil

A sustentabilidade, nas organizações sem fins de lucro, tem sido freqüentemente compreendida como sendo aquela condição na qual a organização está financeiramente equilibrada, sem grandes riscos de “fechar” os seus serviços e com perspectivas futuras de investimentos ou receitas originadas nos outros setores - público e privado. Mas, esta compreensão tem-se mostrado insuficiente para agregar a complexidade do contexto social no qual as OSCs estão mergulhadas.

Gestores de OSCs relatam muitas variáveis presentes em seu cotidiano e observam grandes lacunas no seu planejamento, lacunas que os impedem de lidar de forma estratégica e arrojada com a existência de sua organização. É freqüente a observação de fenômenos recorrentes nos tomadores de decisão: às vezes confusos ou desmotivados, os executivos e os Conselhos vivem numa permanente atitude reativa frente aos acontecimentos e estão em busca de algo novo, que os ajude a criar um significado para seus desafios, que possa orientar para uma vida organizacional mais satisfatória, perene, segura de suas realizações.

No conceito mais clássico e tradicional utilizado pelas empresas, a sustentabilidade também estava voltada apenas para a recuperação de ativos financeiros investidos na produção.

A transformação deste conceito começou na década de 80, quando a noção de “desenvolvimento sustentável” foi introduzida por Robert Allen, segundo Bello (1998) apud Oliveira (2002) no artigo “How to Save the World”, que sumarizava um livro publicado pelas ONGs ambientalistas IUCN e WWF e pelo Programa Ambiental das Nações Unidas. O termo começou a ser discutido amplamente em 1988, a partir o Relatório Brundtland, que teve alto impacto mundial, sob o nome “Nosso Futuro Comum”, documento difundido e aceito nos meios políticos e científicos e que pode ser consultado inclusive nas páginas eletrônicas do governo brasileiro.

Assim, a primeira definição dizia que desenvolvimento sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade das gerações futuras atenderem suas próprias necessidades.

Esta nova maneira de compreender sustentabilidade trouxe ao mundo da produção um contexto mais diversificado do que antes, quando o foco estava na contabilidade de ativos.

Da mesma forma, o desafio multidimensional se abriu para todas as organizações da sociedade que buscam uma gestão duradoura e equilibrada. Os componentes vetores desta busca podem ser assim descritos, como o foram claramente na Agenda 21 (Barbieri, 1997):
· crescimento e manutenção da economia do sistema no qual a organização está inserida;
· a qualidade desse crescimento: o sistema de tomada de decisões, a inclusão dos stakeholders (no português, traduzido como interessados em determinada iniciativa; alguém que é afetado pelos resultados daquele empreendimento), a composição de parcerias, as necessidades sociais presentes e futuras;
- a consideração das necessidades de todos;
- a manutenção dos níveis populacionais sustentáveis;
- conservação e melhoria da base de recursos naturais;
- reorientação das relações comerciais internacionais;
- normatização e controle da poluição;
- geração de novas tecnologias;
- administração de riscos;
- inclusão do meio ambiente e sociedade em todas as decisões;
- administração das taxas de substituição;
- etc.

Como se vê, as variáveis incluídas na busca da sustentabilidade são muitas e não terminadas. O sistema social ficou bastante complexo, o que significa que os instrumentos de planejamento também têm de incluir mais variáveis em seu escopo, modernizando sua abordagem para as necessidades atuais.

Hoje há o reconhecimento de que os elementos acima citados são indissociáveis, e que, alterando um deles, modifica-se o todo. O isolamento de qualquer das variáveis pode conduzir a uma tomada de decisão errada, a investimentos equivocados, a resultados não desejados.

Para ampliar a visão deste conceito, seguem algumas diferentes abordagens, entre autores diversos:

Formulada por Kisil (2002): “sustentabilidade é a capacidade das organizações para consolidar e incrementar sua interação com a sociedade em função da contribuição que aportam para o desenvolvimento social”. Neste conceito são colocadas considerações sobre o valor agregado de uma OSC em termos de: 1) valor econômico, no campo da gestão da eficiência interna dos recursos (humanos, financeiros); 2) valor social, no campo da gestão da eficácia organizacional (missão, resultados, parcerias e alianças). A sustentabilidade figura no eixo de equilíbrio destes dois vetores.

A abordagem da Global Report Initiative – GRI . GRI é um centro colaborador do Programa Ambiental das Nações Unidas (UNEP) que desenvolveu uma visão de sustentabilidade, propondo um modelo para o Relato de Sustentabilidade, no qual as organizações podem se orientar para avaliar seu estado, conforme os parâmetros baseados no tripple bottom line: desempenho nos resultados econômico, ambiental e social e estratégias futuras para melhoria destes. Estes parâmetros sugerem a comparabilidade entre organizações, abrindo assim o diálogo para a evolução do tema. Mais informações sobre o GRI podem ser obtidas em: http://www.bsd-net.com/bsd_brasil/handbookgri.pdf.

Para Mello (1999), a busca da sustentabilidade está na capacidade organizacional de dialogar e viver na dinâmica do sistema complexo, de modo a otimizar todas os aspectos intrínsecos a ele. Este diálogo da organização busca articular as várias informações (científicas, sociais, econômicas, etc..) em um todo consistente e coerente para manter uma uniformidade, sem sufocar a criatividade humana. Este autor cita como fonte os estudos apoiados na Complexidade, elaborados, entre outros, por Edgar Morin, que aponta para a existência de fenômenos organizacionais de duas ordens: uma autônoma e outra dependente. Na autonomia tem-se aquilo que é interno ou próprio à organização e que dá a sua identidade. Na dependência têm-se os diversos níveis de relações. A questão é que não existe a linearidade da relação causa e efeito, mas sim, o constante fluxo e refluxo, onde causas e efeitos se alternam como origens e conseqüências dos fenômenos, gerando uma complexa sinergia.

Marrewijck (2003) está desenvolvendo a European Corporate Sustainability Framework, uma estrutura para análise da sustentabilidade em organizações corporativas, que contém as dimensões contextuais, situacionais e dinâmicas da complexidade. Este conceito de sustentabilidade oferece quatro “janelas” de gestão: a Constituição (os elementos fundamentais que dão a orientação - missão, orientação estratégica, valores, identidade), a Química (elementos relacionais de processos e mecanismos de comunicação e relacionamentos), a Condução (elementos de intervenção concreta, procedimentos e atividades) e o Controle (elementos de avaliação e monitoramento para aprendizagem). Nesta abordagem, a sustentabilidade é assegurada quando o gestor consegue dinamizar estes campos gerenciais.

Lievegoed (1991) já apoiava seu conceito de sustentabilidade na gestão de 5 campos bem definidos, mas, não isolados, cuja dinâmica produz um sistema complexo de variáveis, ao qual ele chamou de Clover-leaf Organization, traduzido como: Modelo Trevo. São eles: 1) a informação e comunicação interna; 2) os recursos; 3)os serviços e processos internos; 4) a relação com a sociedade, incluindo todos os stakeholders; 5) a gestão dos tomadores de decisão (Conselho e Diretoria).

Sustentabilidade é estar na gestão desse sistema, mantendo a vitalidade do todo. Paula e Silva (2000) adaptou este Modelo Trevo para a realidade de nossas OSCs e explicitou a relação entre os campos, que ilustra claramente a dinâmica da sustentabilidade nesta perspectiva (Figura 2).


Figura 2

Sachs (1993) apud Oliveira (2002), propõe cinco dimensões que devem ser consideradas na sustentabilidade da organização: 1) social; 2) econômica; 3) ecológica; 4) espacial; 5) cultural. Nesta abordagem, fica clara a necessidade de integrar simultaneamente na vida organizacional os diferentes aspectos do desenvolvimento humano, cada um com seu tempo, ritmo e natureza.

Pettigrew & Fenton (2000) realçam o papel de controle dos mecanismos sociais nas redes emergentes de governança, dando ênfase nas formas relacionais de organização para além das estruturas formais e puramente econômicas dominantes.
Emerge, portanto, que a Sustentabilidade de uma organização é a situação de busca equilibrada e permanente por manter saudáveis todos os subsistemas envolvidos com a organização: a tecnologia, os relacionamentos, as finanças, a qualidade dos serviços, os recursos naturais, financeiros, a cultura local e, é claro, especialmente nas OSCs, o resultado social. Percebe-se que nos modelos e conceitos comentados há sempre uma vertente interna à organização e outra externa. A arte em equilibrar esses dois lados da vida organizacional conduz a formas de planejamento que atendam a ambos.


3 - Limitações do Modelo Lógico para o Planejamento de OSCs e de Projetos de Desenvolvimento Social

De posse do conceito discutido até aqui sobre o que é uma organização sustentável, pode-se agora retornar ao modelo de planejamento da Estrutura Lógica e tentar compreender por quê ele não pode, isoladamente, atender as necessidades das organizações contemporâneas.

As hipóteses baseadas em problemas
O caminho tradicional do planejamento lógico traz em seu pano de fundo a relação de causa-efeito como eixo de análise. Isto significou para os planejadores uma vertente muito forte no exame diagnóstico de situações. O próprio Banco Interamericano de Desenvolvimento promove a difusão deste tipo de análise, disponível para download, que tomou o nome bastante popular de “Árvore de Problemas” (Figura 3).


Figura 3

As limitações provocadas pelo uso intensivo do diagnóstico baseado em problemas foram discutidas por McKnight (1993). Segundo o autor, as imagens negativas geradas por esse tipo de abordagem podem ser compreendidas como um tipo de "mapa" mental da comunidade ou grupo envolvido, onde o “todo” é deixado de lado e apenas a “parte” é tomada como verdade. Uma vez assumida a abordagem PROBLEMA como sendo a verdade de uma comunidade ou grupo, o diagnóstico produzido a partir daí orienta tendenciosamente todas as decisões futuras, ou seja, todas as Hipóteses produzidas estão sobre uma base falseada pelo modelo mental de problemas.

A orientação do planejamento pelas deficiências apresenta o risco de criar serviços públicos ou beneficentes mantidos por universidades, fundações, empresas, que se traduzem na simples manutenção dos problemas, por impedir a visão para além deles. Estes “...ensinam às pessoas a natureza e a dimensão de seus problemas e a importância dos serviços como resposta a seus problemas. Em conseqüência disso, muitas comunidades urbanas de baixa renda são hoje ambientes de serviços em que os comportamentos foram afetados, porque os habitantes passaram a acreditar que seu bem-estar depende de eles se tornarem clientes. Eles começam a se ver como pessoas com necessidades especiais que só podem ser supridas por estranhos. Eles se tornam consumidores de serviços, sem nenhum incentivo para serem os produtores. Os consumidores de serviços concentram vastas quantidades de criatividade e inteligência no desafio, motivado pela sobrevivência, de burlar o ‘sistema’, ou em encontrar maneiras – na economia informal ou até ilegal – de ficar totalmente à margem do sistema.” (McKnight, 1993, p. 4). A natureza invasiva do modelo da deficiência tem sistematicamente levado à criação dessas comunidades-cliente e, combinado com o poder econômico do mundo filantrópico, tem gerado um quadro de agravamento das diferenças de poder, já que o parâmetro da divisão é a necessidade. É importante observar como os habitantes locais das comunidades e até de organizações não governamentais de base comunitária têm pouco poder para influenciar a natureza do investimento social ali realizado. Segue um exemplo de um Mapa de Necessidades que orienta o planejamento causa-efeito (Figura 4).



Figura 4

Como nas comunidades, nas organizações também acontece o efeito devastador de um mapa de deficiências e necessidades. As pessoas passam a considerar a si mesmas e as suas organizações como fundamentalmente deficientes, vítimas incapazes de se encarregarem de solucionar a situação com sua própria sabedoria e talentos. Esta sensação de esgotamento acaba por direcionar recursos de modo fragmentado e tímido para prestadores de serviços diversos, desde consultorias a treinamentos, pesquisas e levantamentos, sem a segurança de estar encontrando reais caminhos de desenvolvimento e sustentabilidade. Pode, portanto gerar um ciclo de dependência dos serviços externos.

No mundo do investimento social, após anos de treino em observar e realçar suas deficiências, os financiados já aprenderam que para renovar financiamentos, precisam destacar suas deficiências. Este comportamento criou toda uma geração que alicerça seus projetos no esforço continuado de mostrar que os problemas são sempre maiores e mais graves. A complexidade não aborda potencialidades, mas, apenas necessidades fundadas nas lacunas. Criou-se assim um perfil solicitante que não agrega nos projetos o valor de seus ativos sociais.

Negação da complexidade: pressupostos e stakeholders
O modelo lógico sugere que algo se planeje com relação a pressupostos, mas, não propõe a inserção deste tópico na hierarquia de objetivos. Esta é, sem dúvida, uma deficiência da ferramenta. Na medida em que se consegue ver e compreender quais são os limites de uma hipótese, as providências que desenhamos para lidar com estes limites não podem ficar de fora dos planos; têm de estar explicitamente projetadas.

Da mesma forma, os stakeholders a serem considerados não surgem naturalmente, a menos que se inclua um instrumento de análise que permita inserir alguma atividade ou propósito direcionado a eles. O modelo lógico não faz referências a estas importantes combinações, pois está dirigido ao encadeamento das hipóteses de trabalho. O importante é perceber que estes atores fazem parte do cenário de implantação de qualquer iniciativa e devem estar no planejamento, desde a análise diagnóstica até a definição de estratégias.

Agregados à ferramenta lógica, estes dois pontos podem fazer enorme diferença no resultado final do planejamento organizacional.

Indicadores relacionados a produtos
Quando se observa a recomendação do Marco Lógico com relação à avaliação de resultados, encontra-se que os Indicadores de Resultados estão vinculados ao diversos níveis de objetivos de um plano ou projeto e devem ter as qualidades de:
. medir, quantitativa ou qualitativamente, aquilo que é essencial no objetivo;
. apresentar evidências concretas de relação com o objetivo;
. ser específicos nas suas medidas de quantidade, qualidade e tempo.

Para o conceito de indicadores, estas características servem adequadamente à sua função. Mas, Marino (2003) colocou claramente que este esforço de medir objetivamente os resultados traz junto de si a dificuldade de acomodar o pluralismo de valores que reside na complexidade do processo de avaliação. A sociedade compartilha valores e o julgamento de indicadores deve ser capaz de agregar a diversidade das variáveis de cada contexto. Uma rigidez excessiva nesta matéria pode mascarar a compreensão de resultados sutis e nem sempre mensuráveis, às vezes inesperados e muito contributivos. O mesmo raciocínio deve-se usar para a análise de resultados não desejados, que às vezes, também aparecem de forma subliminar aos objetivos concretos e visíveis.


4 - Alternativas para um Planejamento Inovador

O que é inovação?
Afuah (1998) coloca claro: Inovação está para os anos 2000 como a Gestão da Qualidade Total estava para os anos 70, a Gestão dos Tempos para os 80, a Gestão da Eficiência para os anos 90. Ou seja, Inovação ganhou o status de ser a precondição para ganhar e/ou manter a vantagem competitiva das empresas de mercado. Assim, os fundamentos teóricos da Inovação como tema disciplinar têm assumido a ligação entre novas idéias e lucro. Coloca a cadeia do lucro, que envolve mobilizar conteúdos de duas naturezas: tecnológica e mercadológica, cujo dínamo é o conhecimento adquirido pelas pessoas. O conhecimento é posto então a serviço do patrimônio e competências organizacionais (Figura 5).


Nas organizações sem fins lucrativos, onde a busca não é pelo lucro financeiro, mas, sim por resultados sociais, o escopo da idéia permanece: mobilizar conteúdos metodológicos (que equivale à tecnologia de produção, no mundo empresarial) simultaneamente com seu conhecimento sobre a demanda social (que equivale ao mercado, no mundo das empresas) e assim conseguir potencializar resultados sociais.

Assim, a natureza de uma inovação no conhecimento tecnológico / metodológico e no conhecimento do mercado / demanda social levaria a um aumento na produção do lucro / resultado social. Tomando como ponto central o conhecimento, inovar é portanto, uma adoção de novos conhecimentos. Implica em mudar, em deixar algo velho para trás, ou, pelo menos, transformar parte deste algo que é sabido.

Afuah (1998) define: “Inovação é o uso de novos conhecimentos tecnológicos e mercadológicos para oferecer produtos ou serviços a clientes”. Nesta definição podemos ver que não é a simples novidade ou idéia que se chama de inovação; é mais do que isso: é a adoção pelo mercado, onde pessoas legitimam a importância da novidade utilizando-a, comprando-a, vendendo-a, aceitando-a espontaneamente como útil para o processo relacionado a ela.

Mas, se este raciocínio parece ser tão claro e lógico, algumas questões permanecem: por que é tão difícil reconhecer o potencial de uma inovação? Como uma organização sabe qual inovação explorar? De onde surgem as inovações? Existem lugares ou organizações melhores do que outros que ambientam inovações? Pode uma organização controlar o ambiente local através de inovação?

Dosi (1988) discute o processo da inovação tecnológica como uma mudança de paradigma, onde a busca pela descoberta, desenvolvimento, imitação e adoção de produtos é a sua essência e Freeman e Perez (1986), apud Dosi, já colocavam a expressão “paradigma tecnológico” para descrever esse processo.

Neste conceito expandido de INOVAÇÃO, podemos avançar para diversas possibilidades. Na dimensão organizacional, a inovação pode ser tecnológica (produtos e serviços melhorados ou desenvolvidos e gerados para o mercado) ou administrativa (estrutura organizacional e processos administrativos melhorados ou desenvolvidos e gerados). Na dimensão cultural e econômica, pode-se identificar a inovação radical (que requer um conhecimento muito diferente daquele já existente, tornando este último obsoleto) ou incremental (que se apóia no conhecimento existente, sem destruí-lo). A inovação radical é considerada como destruidora das competências antes adquiridas, pois se instala solicitando novíssimas habilidades para a implantação de novíssimos métodos. Já a inovação incremental é considerada como ‘alavancadora’ de competências, pois é uma evolução do que já se sabe, agregando as novas habilidades.

Independente do grau de novidade de uma inovação, a consideração principal é que ela garanta a sustentabilidade da organização em sua missão institucional.

Barbieri (2003) mostra diversos modelos de processos de inovação, dentre eles o demand pull, que é um modelo linear, onde a necessidade do mercado é a propulsora da geração de idéias. No nosso caso em foco, os métodos de planejamento adotados por organizações da sociedade civil para implementar sua missão social, este modelo orientado pela necessidade se aplica: a inovação é induzida pelos próprios problemas operacionais que emergiram do modelo lógico de planejamento e a sociedade começou a clamar por novas formas que incluíssem a complexidade das relações sociais, para além do antigo modelo lógico.

Nesta altura, algumas perguntas surgem: como melhor aproveitar a ferramenta do Marco Lógico? Há alternativas para cobrir suas lacunas? Como potencializar seu uso? Como diminuir o efeito destruidor de competências que novas formas de planejamento podem trazer?

Claro, diante de tão difundido uso, é preciso compreender a contribuição do modelo lógico e perceber seus desafios, sem com isso, torná-lo apenas “fora de moda”; ao contrário, descobrir como agregar novas contribuições que possam completar, ampliar, atualizar e ajudar as organizações a se planejarem no contexto de hoje.

McKnight (1993) indica que há uma nova maneira de fazer um plano que realmente introduza mudanças inovadoras num sistema (comunidade, organização): o planejamento baseado em Ativos. Por se a estratégia tradicional baseada nas necessidades o foco é essencialmente a sobrevivência e as propostas de mudança são, via de regra, de natureza incremental, alterando pouco ou quase nada a situação geradora dos problemas. Em suas próprias palavras: “... se a manutenção e a sobrevivência são o melhor que podemos proporcionar, qual o sentido em investir no futuro?”

O caminho alternativo que o autor propõe é o Enfoque nas Capacidades. Chama a atenção para as evidências históricas que indicam que o desenvolvimento significativo das comunidades só tem ocorrido quando as pessoas locais estão comprometidas a investir em si e utilizar seus recursos na tentativa. Porque é claro que até na comunidade mais pobre os indivíduos e organizações representam recursos para reconstruir. A solução para a regeneração das comunidades, portanto, é assim colocada: localizar todos os ativos locais disponíveis, começar a conectá-los uns com os outros de modos que multipliquem seu poder e sua eficiência, e começar a utilizar as instituições locais que ainda não estejam disponíveis e inseridas no processo do desenvolvimento.

Os instrumentos de planejamento que ele propõe estão todos subordinados a este reconhecimento de ativos locais. Seu mapeamento e desenvolvimento são as ferramentas indicadas para, junto com o reconhecimento das necessidades, traçar o plano de trabalho, que, em poucas palavras, é movido a relacionamentos.

Abaixo um modelo de Mapa de Ativos Locais (Figura 6). Observe que há uma categorização que divide os ativos em três grupos: indivíduos, associações de base comunitária e instituições públicas e privadas locais.


Como o intuito deste artigo não é o de explicar os procedimentos dos diferentes instrumentos de planejamento que surgiram recentemente, mas, o de apresentar uma visão panorâmica dessas alternativas inovadoras, fica a sugestão aos interessados, que procurem conhecer melhor o que lhes chama a atenção.

Outra abordagem recente e interessante de raciocínio inovador no planejamento é aquela apresentada por Hart (2005) em seu livro Capitalism at the Crossroads. Apesar de não ser dirigido a organizações sem fins lucrativos, mas, a corporações multinacionais, Hart levanta um assunto muito compatível com esta discussão, que é: como incluir a Base da Pirâmide nos negócios das empresas de forma a consolidar uma sustentabilidade genuína? Ele enfoca os 4 bilhões de consumidores pobres e potenciais que existem no mundo e provoca as empresas a re-inventar seu modelo de negócios. Não propõe melhoria incremental na tecnologia ou nos produtos, mas, sim uma mudança radical no modelo mental que vê as camadas de baixa ou nenhuma renda apenas como foco de problemas e poço de necessidades.

Nessa abordagem, o modelo de Hart dialoga com o de McKnight, pois ambos apostam no enfoque das capacidades.

Observando o modelo de sustentabilidade oferecido por Hart (2003) apud Hart (2005), destaca-se o caráter dinâmico entre as dimensões de Futuro, orientada pela realidade social de iniqüidade e pobreza e pela necessidade de desenvolvimento de tecnologias limpas e de Presente, orientada pelas exigências da sociedade civil na transparência e conectividade e pela necessidade de minimização do desperdício e poluição. Ainda neste contexto há as dimensões Internas e as Externas à organização, mostrando assim a natureza multivariável e dinâmica do conceito (Figura 7).


A partir desta visão de planejamento da sustentabilidade é que Hart propõe a estratégia por ele denominada de “Becoming Indigenous”[1], indicando que a alternativa que emerge é a de estar aberto às capacidades autóctones de desenvolvimento. Elas é que abrirão mercados, multiplicarão consumidores, tornarão o capitalismo um modelo possível porque inclusivo na vida econômica para nossa época. Mas, para isto, os tomadores de decisão devem, definitivamente, romper com a tradicional visão sobre diagnósticos externos e distantes dos stakeholders, que levam ao raciocínio de que a Base da Pirâmide é definitivamente incapaz de participar do sistema produtivo. Nesse sentido, propõe uma análise de stakeholders minuciosa e inclusiva, agregando à análise tradicional o que ele chama de “franja” do sistema (Figura 8). Estes atores marginais, quase sempre relegados ao esquecimento, compõem uma rede de interesses e estruturas locais que afetam diretamente a inserção dos negócios no contexto local. Ele cita exemplos de empresas que fracassaram (exemplo, Nike) por negligenciar esta realidade e empresas que conquistaram espaço (exemplo, Grameen Telecom) por considerarem com seriedade e respeito os ativos locais.


Esta forma de planejar, explorando as possibilidades dos Ativos Locais e não ignorando a economia também local, faz uma interface com outra abordagem, adotada pelo PMI – Project Management Institute[2]. Em sua análise os stakeholders são categorizados em primários (que têm vínculos formais com a organização) e secundários (ou informais, já que não apresentam nenhum instrumento legal de vínculo). A complexidade do entorno é então mapeada e agregada ao processo do planejamento e formulação de hipóteses de ação.


Conclusões

Os diferentes enfoques inovadores discutidos neste artigo apresentam como ponto em comum dois vetores importantes: a atenção às capacidades locais e a rede de relacionamentos. A consideração destes dois fatores mostra-se determinante para o sucesso de qualquer iniciativa de desenvolvimento.

Um exemplo é a existência de redes locais de todo tipo, desde a assistência básica de saúde e educação organizada pelo setor público até aquelas informais, que podem iniciar com lideranças locais, chegando à criação de estruturas permanentes de organização por território que podem interferir em qualquer iniciativa econômica ou social.

Com relação às OSCs, é importante destacar que a sua sustentabilidade é um fator muito forte para o desenvolvimento da nova ordem mundial, conforme realça Barbieri (1997), pois desempenham um papel fundamental na construção social – seus interesses não se encontram compromissados com questões de curto prazo (como eleições e mandatos partidários) e sua atuação tem atraído muitos investimentos por parte dos setores público e empresarial.

Considerar, portanto, que há novas e inovadoras formas de planejar para alcançar a sustentabilidade, remete a uma autêntica motivação para os gestores e técnicos dessas organizações: a de criar condições para que os tomadores de decisão do setor privado possam agregar ao seu sistema de valores, esta original visão - moderna e ao mesmo tempo óbvia, singela e arrojada - de que há possibilidades locais para empreendimentos sustentáveis.

Como Hart (2005) destaca, se as grandes corporações conseguirem ir além do escopo “cliente-fornecedor”, a estratégia orientada para a base da pirâmide terá um potencial de “destruição criativa” que realmente inovará o modelo do capitalismo hoje existente. Transpondo o raciocínio para o setor sem fins de lucro, pode-se dizer que as OSCs têm o desafio de ir além do escopo “beneficiário-financiador”, mas, de provocar também uma negociação radical que re-crie as formas de desenvolvimento do Terceiro Setor.

Há que considerar também que a Base da Pirâmide é realidade mundial e a capacidade de compreender o mundo passa pela capacidade de incluir essas pessoas em qualquer iniciativa. Talvez aí não precisemos mais de investimentos na filantropia, uma vez que as comunidades estarão dignamente inseridas no funcionamento sócio econômico e as corporações também.


Notas
[1] sem tradução direta, “tornar-se nativo” significa, na posição do autor, agir localmente e nas estratégias e capacidades locais
[2]
http://www.pmi.org/info/default.asp


Bibliografia
BARBIERI, José Carlos. Desenvolvimento e Meio Ambiente – As estratégias de mudanças da Agenda 21. Ed Vozes, São Paulo,1997.

DOSI, Giovanni. The nature of Innovative Process, in Technical Change and Economics . London ; New York : Pinter Publishers, 1988.

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PMBOK® Guide. A Guide to the Project Management Body of Knowledge. Pennsylvania: Project Management Institute, 2000.


* Eduardo Marino, Ms. USP, Consultor Avaliação Organizacional; Rosana Kisil, Mestranda EAESP/FGV, Consultora Desenvolvimento Organizacional.

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