sexta-feira, 23 de maio de 2008

Os colarinhos-verdes

Operário de fábrica com certificação ambiental nos EUA: Bush liberou US$ 125 milhões para o treinamento de trabalhadores que queiram se especializar na área
Foto H. Scott Hoffmann / News-Record


Eles aparecem em todos os programas dos candidatos à Casa Branca e são considerados estratégicos pelos democratas. São os trabalhadores de colarinho-verde - variante do colarinho-branco dos empresários e do colarinho-azul dos operários -, encontrados nas indústrias de energia renovável, combustíveis alternativos e na construção de prédios ecologicamente corretos. Em dezembro, George W. Bush sancionou o Green Jobs Act, autorizando investimento de US$ 125 milhões para treinamento de trabalhadores interessados em se especializar na área. O alvo dos candidatos é a massa de operários-eleitores que perderam emprego por causa da mão-de-obra mais barata na China e na Índia. Mas a tentativa de ligar o movimento verde à solução de um dos maiores entraves socioeconômicos dos EUA também está mexendo de forma intensa com a inteligência progressista da zona norte do mundo.

Coordenador-geral da Oakland Apollo Alliance, coalizão de ambientalistas, trabalhadores e ativistas políticos voltada para a criação de empregos verdes na área de Oakland (subúrbio operário da Califórnia), Ian Kim participou do lobby que levou Washington a reconhecer a necessidade de investir em especialização para uma área que cresce a olhos vistos, em trabalhos como a instalação de painéis solares, a jardinagem orgânica e a construção verde. "Foi um investimento modesto. Nosso setor precisa de bilhões de recursos para começarmos a combater a pobreza por meio da ampliação do universo do colarinho-verde. Hoje gastamos US$ 1,4 bilhão/ano no Iraque. Parte desse dinheiro poderia estar sendo investida na reorganização de nossa economia", diz Kim, professor de estudos urbanos da Universidade de São Francisco.

Ele sublinha que a importância simbólica do Green Jobs Act, no entanto, é inegável. De acordo com estimativas da Sociedade de Energia Solar Americana (Ases), a atual força de trabalho de 8,5 milhões de colarinhos-verdes deve chegar a 40 milhões em 2030. Um estudo da Cleantech Network, especializada em investimento verde, mostra que para cada US$ 100 milhões investidos, criam-se hoje 250 mil novos postos de trabalho nos EUA. Em 2007, apenas na Califórnia, corporações privadas investiram US$ 654 milhões na criação de 33 painéis solares (ante US$ 253 milhões em 2006). Não por acaso, uma nova função aparece no mercado: a dos headhunters especializados em empregos de colarinho-verde, como a Green Careers. O Instituto de Tecnologia do Oregon (OIT), por sua vez, acaba de formar o primeiro grupo de 50 estudantes superiores especializados em energias renováveis. Outros cursos semelhantes pipocam país afora, para entusiasmo dos candidatos à Casa Branca, que não querem ver esses postos de trabalho rumarem para a Ásia.

Liderada pelo advogado Van Jones, a Oakland Apollo Alliance foi criada por ativistas sociais e ambientalistas de uma das áreas mais afetadas pela crise da pós-industrialização. Enquanto o Vale do Silício multiplicava fortunas, Oakland amargava índices recordes de desemprego e crime. O mote de Jones é marxista: "Ofereça o trabalho de que mais precisamos para as pessoas que mais precisam de trabalho." Parece simples, mas a união de ecologistas com operários em torno da idéia de que os EUA deveriam acelerar o passo na direção de uma economia limpa, com a criação de milhares de empregos no meio do caminho, levou a discussão da ética verde para além da eco-elite e encontrou surpreendente abrigo nas centrais sindicais mais poderosas do país. "Nosso maior orgulho foi estabelecer essa ligação com os trabalhadores. Se o movimento verde ficar preso aos aspectos comportamentais, estaremos fadados à desimportância", diz Kim.

Ao lado do Sustainable South Bronx, de Nova York, a Apollo Alliance criou a campanha Verde para Todos, que defende o investimento imediato de US$ 1 bilhão do governo federal para deslanchar uma revolução verde-e-vermelha no país, com a capacitação de pelo menos 250 mil trabalhadores no que já é conhecido como o Plano Marshall do século XXI.

A mobilização já começou. Oakland é a primeira cidade dos EUA a contar com um Green Jobs Corps (GJC), voltado para a capacitação de profissionais nas áreas de manufaturas de biocombustíveis e instalação de painéis solares. A prefeitura decidiu investir US$ 250 mil para dar o gatilho no GJC. Na cidade, 13% dos menores de idade vivem abaixo da linha de pobreza. Ao mesmo tempo, o governo local anunciou incentivos fiscais para atrair empresas como a Grid Alternatives, que, desde 2004, já habilitou 1.700 profissionais na prática de instalação de painéis solares. De acordo com a Apollo Alliance, em 2006 foram investidos US$ 2,9 bi no setor, aumento de 80% em relação ao ano anterior.

Uma das figuras políticas mais importantes do país, a democrata Nancy Pelosi, é uma entusiasta da criação de um Green Job Corps nacional. Durante anos a fio compreendido nos EUA como uma subcultura fechada em si mesma, o pensamento ecológico tem conquistado novos espaços desde a exposição dos perigos do aquecimento global e da transformação do ex-vice-presidente Al Gore em apóstolo do crescimento sustentável.

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Estimativa mostra que atual força de trabalho de 8,5 milhões de trabalhadores dessa área deve chegar a 40 milhões em 2030
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Agora, verdes ligados a movimentos sociais, como Jones e Kim, começam a dizer sem medo que os trabalhadores precisam ver o verde, também, no bolso. E recebem mais interesse da opinião pública dos verdes mais tradicionais, como o eterno candidato à Presidência pelo Partido Verde, Ralph Nader.

No Brasil, Beto Mesquita, diretor do Instituto BioAtlântica, pensa que a excitação por causa dos empregos de colarinho-verde nos EUA tem tudo para ser repetida no país. "Um dos maiores desafios para a recuperação da Mata Atlântica, por exemplo, é a conciliação da necessidade de ações de restauração florestal com a geração de novas oportunidades de trabalho e renda. A cadeia produtiva da restauração florestal - que inclui atividades como coleta de sementes de espécies nativas, produção de mudas, plantio e manutenção de áreas - apresenta um tremendo potencial de expansão e de profissionalização."

Mesquita lembra que regiões economicamente deprimidas no Brasil, com baixos Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), distantes dos grandes parques industriais e com reduzida cobertura florestal nativa, podem se beneficiar de oportunidades relacionadas à recuperação e à preservação dos serviços ambientais das florestas nativas. Ele cita como exemplos a produção e o armazenamento de água, o seqüestro de carbono da atmosfera e a proteção de paisagens naturais, fundamentais para o ecoturismo, segmento da indústria de viagens que mais cresceu no mundo na última década.

Mas nem tudo é consenso. Nos EUA, ambientalistas têm criticado a ligação entre criação de postos de trabalho na área do meio ambiente e diminuição da pobreza e da desigualdade. Acabar com a poluição e com a pobreza da maior economia do globo parece tarefa complexa demais para ser abordada de forma simplista. Gente como Rich Sweeney, da organização Ressources for the Future, pondera que a relação de causa e efeito, quando estabelecida, enfraquece o discurso verde e desvia o foco de um problema completamente diverso das mazelas sociais enfrentadas em países com sociedades desiguais, como os Estados Unidos, ou, em um caso extremo, o Brasil.

Qual seria, afinal, a relação possível entre a adoção de uma política ambiental responsável e o combate à pobreza? "Quem mais sofre com a degradação ambiental são as camadas mais pobres. Também é possível perceber uma tendência de certos setores em relacionar preservação ambiental com pobreza a partir da idéia de que os impactos ambientais graves - e muitos deles perfeitamente evitáveis, com a adoção de tecnologias limpas e sustentáveis - seriam apenas um aspecto inevitável do crescimento econômico", comenta Mesquita.

O diretor do BioAtlântica lembra o estudo feito pelo professor José Augusto Pádua, da Universidade Rural do Rio de Janeiro, apresentando correlação entre altas taxas de desemprego e desmatamento das florestas nativas. "Não é justo atribuir à criação de um parque nacional ou de uma reserva extrativista a função de, além de proteger a natureza, gerar renda e combater a pobreza. Essa combinação de fatores só será possível em situações muito peculiares. Seria a mesma coisa que exigir, como contrapartida e de maneira genérica, que o Bolsa Família fosse também um programa de preservação ambiental."

Ian Kim diz que a experiência vitoriosa de Oakland tem tudo para se repetir em outras cidades economicamente deprimidas, como Detroit. Em todo o Estado de Michigan, um dos berços da hoje enfraquecida indústria automobilística americana, os investimentos têm se concentrado na energia eólica e na construção de turbinas utilizando a mão-de-obra especializada oriunda dos muitos desempregados do parque industrial tradicional, cada vez mais diminuto. Beto Mesquita concorda. E lembra que no Brasil, também, a nova fronteira dos serviços ambientais, especialmente a proteção e a recuperação dos mananciais hídricos e as ações de redução da concentração dos gases de efeito estufa na atmosfera, aponta claramente para esse novo paradigma. Uma parceria verde-e-vermelha que parece ter chegado para ficar.


Eduardo Graça, para o Valor, de Nova York

Valor Online, 23/05/08

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segunda-feira, 12 de maio de 2008

Empresa corrupta pode perder crédito

Chega a oito o número de casos em exame no Grupo Anticorrupção da Organização de Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) envolvendo empresas estrangeiras que teriam pago propinas a funcionários públicos no Brasil.

Além disso, como o Valor revelou na sexta-feira, o grupo investiga cinco casos de empresas brasileiras que supostamente subornaram funcionários estrangeiro para obter contratos em seus países.

Um dos emergentes em vista na economia global, o Brasil sofre pressão crescente pela sua presença numa lista de 150 casos que a OCDE monitora globalmente. O presidente do grupo na OCDE, o professor suíço Mark Pieth, considera que o mais grave envolvendo o Brasil é mesmo a corrupção interna.

"O país tem problemas graves (de corrupção), mas estamos empenhados em usar todo o rigor contra isso", afirmou Luiz Navarro, secretário-executivo da Controladoria Geral da União (CGU), órgão que representa o país nas reuniões da OCDE e a implementação dos compromissos antisuborno assumidos pelo país.

Navarro revelou que a CGU propôs ao governo incluir uma cláusula nos contratos de financiamento de instituições oficiais, prevendo o cancelamento da operação se a empresa se envolver em corrupção de modo geral.

A sugestão, disse ele, está sendo examinada num grupo de trabalho do BNDES, principal instituição de financiamento.

"A corrupção gera competição desigual numa transação comercial, e as regras internacionais estabelecem até desativação da empresa corruptora", alertou.

A CGU enviou cartilhas anti-corrupção para 20 mil empresas exportadoras brasileiras em 2007, explicando a convenção da OCDE e os riscos de propinas.

O Itamaraty foi orientado a fazer todos seus postos no exterior procurarem as empresas brasileiras instaladas em cada país, também para alertá-las das conseqüências de corromper funcionários públicos para obter contratos.

"Em principio, os empresários reagiram bem em reuniões realizadas em federações estaduais, há mais preocupação com isso, porque um caso desses estraga a reputação", afirmou Navarro.

O secretário-executivo da CGU disse que em todas as reuniões do grupo anticorrupção da OCDE, o Brasil é obrigado a reportar o que está fazendo em relação a empresas brasileiras acusadas de corrupção, e também sobre funcionários públicos que teriam cobrado pagamentos de empresas estrangeiras.

Com relação às empresas brasileiras, quatro inquéritos estão em andamento no país, mas nenhum caso chegou até a ação judicial.

Quanto a funcionários, a CGU pede colaboração dos governos dos países de origem das empresas corruptoras, para poder acionar a justiça.

"A dificuldade é grande para iniciar processos no país, porque a rigor todas as provas tem que ser colhidas lá fora, mas esse grupo de trabalho na OCDE pode ajudar", comentou.

A Convenção sobre o Combate da Corrupção de Funcionários Públicos Estrangeiros em Transações Comerciais Internacionais (Convenção da OCDE) define as obrigações dos governos, das empresas, dos contadores públicos, dos advogados e da sociedade civil das nações signatárias do Tratado.

A CGU já se prepara para a reunião de junho do Grupo Anticorrupção da OCDE, para discutir o caso Alstom, envolvendo suposto pagamento de propinas a funcionários brasileiros. "Certamente vamos ser demandados sobre esse caso, como também vamos demandar a Suíça e França mais informações sobre suas investigações", afirmou.

Como nota o jornal "Financial Times", a lista de de grandes empresas enfrentando alegações de corrupção está aumentando. A acusação contra Alstom segue-se a investigações atualmente envolvendo Siemens da Alemanha e BAE Systems da Grã-Bretanha. Enquanto países como os EUA abrem mais processos, outros, como a Grã-Bretanha, ganham reputações de recidivistas.


Assis Moreira, de Genebra

Valor Online, 12/05/08

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Isolada na "Sibéria" pela Net

Desde o último dia 6, venho lutando com a Net para que a empresa estabilize minha conexão à Internet. Desde essa data não consigo sequer responder a um email; tenho sorte quando consigo ler.

Após horas e horas pendurada ao telefone com atendentes que seguramente entendem muito menos do problema do que eu que sou apenas usuária; de repetir testes idiotas que dão sempre o mesmo resultado inútil; de ser ignorada pelos mesmos atendentes quando digo qualquer coisa que fuja dos "scripts" de atendimento que recebem, finalmente a Net se dignou a mandar um técnico à minha casa.

Depois de 3 horas de trabalho e 3 trocas de modem, finalmente o serviço funcionou - apenas o tempo suficiente para que o técnico fosse embora. Conclusão: claro que o problema não era do modem... Menos ainda de 3 modens! Como eu vinha afirmando desde o início, baseada em claras evidências (um vizinho tem uma rede sem fio que pode ser acessada com meu portátil - o coitado também é assinante Vírtua - e a rede dele se comporta como a minha nesse período), o problema é da rede externa!!
Ontem de manhã, um segundo técnico apareceu e levou menos de 10 minutos para constatar o que eu vinha afirmando há 5 dias.

Neste meio tempo, fiz uma reclamação à Anatel, embora saiba que a Agência já não funciona como funcionava. Saudades do tempo que ela era um órgão técnico e não político e que um chamado era respondido em 24 horas... Confesso que a resposta pouco me interessa, uma vez que quando finalmente chegar, das duas, uma: a Net já terá solucionado o problema ou eu já terei trocado de fornecedor. Mas minha esperança é que a Net sofra algum tipo de sanção pelo tamanho do prejuízo que vem me acarretando.

Bem, tudo isso para explicar a razão pela qual não venho me comunicando bem ou publicando nos últimos dias. Obviamente, também não tem sido possível pesquisar e guardar as notícias para publicar mais tarde.

E, claro, exponho minha indignação também para exercer meu direito (ou dever?) de cidadã e consumidora, denunciando o desserviço de uma empresa que se comporta de maneira superficial no fornecimento de um serviço que já se tornou vital para muitos de nó. E, de quebra, lembrar o quanto as agências reguladoras são importantes para que permitamos que se tornem aparelho político.

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quinta-feira, 8 de maio de 2008

Wal-Mart Brasil lança prêmio para estudantes

Iniciativa inédita no varejo brasileiro premiará anualmente estudantes

Já estão abertas as inscrições para a primeira edição do Prêmio Varejo Sustentável Wal-Mart Brasil. A premiação é direcionada a estudantes de nível técnico e universitário de qualquer área de formação que tenham interesse em buscar novas práticas para o desenvolvimento sustentável e vai reconhecer os autores dos melhores trabalhos.

O concurso é uma iniciativa pioneira da rede e pretende disseminar a discussão sobre como satisfazer as necessidades do consumidor sem comprometer os recursos para gerações futuras. “Com este prêmio, o Wal-Mart quer contribuir para a formação destes futuros profissionais tornando-os agentes na preservação do meio ambiente a partir da formulação de novos projetos, práticas, idéias ou aplicações com potencial de desenvolvimento do setor varejista”, explica Daniela de Fiori, Vice-Presidente de Sustentabilidade da empresa.

O Prêmio Varejo Sustentável Wal-Mart Brasil será um concurso nacional, aberto a todos os estudantes dos níveis técnico e superior, sem distinção no nível de formação – seqüencial, tecnologia ou graduação - que poderão participar com projetos variados de sustentabilidade - ações, métodos, equipamentos, sistemas operacionais e soluções inovadoras que atinjam qualquer etapa da cadeia produtiva do varejo, garantam menor impacto ao meio ambiente e que possam ser aplicados pelo segmento varejista supermercadista.

Os trabalhos inscritos devem ser inéditos – ainda não aplicados no setor varejista – e estruturados de maneira que demonstrem todo o seu potencial para ser desenvolvido e aplicado pelo Wal-Mart. As propostas devem contemplar pelo menos uma das seguintes áreas: ecoeficiência; redução e reciclagem de resíduos; produtos e embalagens sustentáveis; processos e métodos de avaliação, medição, minimização e mitigação dos impactos ambientais dos produtos comercializados pelo setor. Projetos desenvolvidos para testes ou em caráter experimental poderão participar deste concurso.

Serão eleitos os três melhores trabalhos por uma comissão julgadora composta por uma equipe técnica com profissionais da rede e especialistas externos. Cada projeto será premiado com um Notebook DELL de última geração, bolsa de estudos no valor de até R$ 5.000,00 e realização de visita técnica de cinco dias ao Departamento de Sustentabilidade do Wal-Mart Brasil, em São Paulo. Caso o Wal-Mart decida implementar um ou mais projetos vencedores, os escolhidos receberão prêmio adicional de R$ 15.000,00. Como os projetos podem ser orientados por professores da mesma instituição de ensino dos estudantes inscritos, o professor dos projetos selecionados ganhará um SmartPhone desbloqueado.

As inscrições poderão ser realizadas apenas pelo site: www.premiovarejosustentavel.com.br e os trabalhos devem ser enviados até o dia 19 de setembro de 2008. Mais informações e o regulamento completo também estão disponíveis no site.

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Sustentabilidade na carne: a responsabilidade social e ambiental bate à porta das empresas

O site Clima e Consumo, lançado pelas ONGs Instituto de Defesa do Consumidor (Idec) e Vitae Civilis, mostra como os hábitos cotidianos influenciam nas mudanças climáticas. Dos combustíveis fósseis (como gasolina, diesel e gás) que são queimados em motores ou em fogões domésticos ao avanço da pecuária e da soja derrubando as árvores da Amazônia, vários são os motivos que explicam como nosso modo de vida está relacionado ao aumento das emissões de gases de efeito estufa, o que provoca o aquecimento global e as conseqüentes mudanças climáticas.

Para que o consumidor seja parte da solução e não do problema, o site convida-o a colocar a mão na massa e lista 21 atitudes que deveria tomar, como economizar energia, usar menos o automóvel etc. Dessa lista, porém, sete itens estão ligados diretamente ao consumo de produtos ou à pressão que o consumidor deveria fazer sobre as empresas. Em relação ao fato de a pecuária estar crescendo na Amazônia, sendo um dos fatores responsáveis pelo aumento do desmatamento, o site apresenta duas sugestões bem diretas: ou o consumidor reduz o consumo de carne, ou exige dos supermercados que garantam não ser aquele bife o pedaço de um boi criado sobre áreas desflorestadas.

Para não ficar apenas no discurso, o site produziu um cartão postal que pode ser baixado, impresso pelo consumidor e entregue ao supermercado do qual é cliente. De um lado, sobre uma foto da floresta em chamas, a frase "não quero ser cúmplice do desmatamento da Amazônia". Do outro, um espaço para ser preenchido com o nome e o endereço do supermercado, além do recado impresso: "Como consumidor desse supermercado, solicito que o senhor exija dos seus fornecedores um sistema de rastreamento da carne bovina comercializada que me garanta não estar contribuindo para o desmatamento da Amazônia Legal ao comprar esse produto no seu estabelecimento. Essa informação precisa estar visível para os consumidores".

Pelas mãos do consumidor, a responsabilidade social e ambiental bate à porta das empresas ligadas à produção e ao comércio da carne - com uma ajudazinha da sociedade civil organizada, é claro. "O Idec quer conscientizar o consumidor sobre a relação direta entre seu consumo de carne e os problemas do desmatamento e das queimadas na Amazônia e, também, dar uma ferramenta concreta para que ele possa agir", conta Lisa Gunn, gerente de Informação do Idec. "A idéia é que haja uma pressão em cadeia: o consumidor pressiona o supermercado, que pressiona o frigorífico, que pressiona o produtor. Dessa forma, esperamos que a demanda do consumidor contribua para que tanto os supermercados quanto os frigoríficos assumam sua responsabilidade socioambiental e desenvolvam ferramentas eficazes que garantam a rastreabilidade da carne e a informação clara e adequada aos consumidores".

Pressão com nome e endereço
Alguns dos cartões postais do site já vêm com destinatário, pois têm impressos o nome e o endereço de algum supermercado. Um deles é endereçado ao Carrefour, que deve recebê-los de portas abertas, caso os postais apareçam mesmo por lá. "Apoiamos iniciativas que tenham, entre outros objetivos, o consumo consciente e a aproximação dos consumidores com as empresas", afirma Rodrigo Lacerda, diretor de Marketing Corporativo do Carrefour. "Conhecer e entender a percepção dos consumidores em relação à responsabilidade social empresarial nos ajuda a estabelecer um campo fértil em prol de um consumo digno e consciente". Em fevereiro deste ano, o Carrefour lançou o projeto Cuca, que une um grupo de consumidores transformados em uma espécie de consultores sobre os produtos vendidos, atendimento, ambiente das lojas e até questões ligadas a responsabilidade social e ambiental. Foi montado um blog do projeto que, para o diretor de Marketing Corporativo do Carrefour, representa "uma postura mais próxima e transparente de ouvir, aprender e evoluir junto com o consumidor".

Em relação à origem da carne vendida nas lojas, Lacerda conta que o Carrefour tem um contrato com os fornecedores que, entre outras cláusulas, "prevê a obrigatoriedade do respeito às leis sanitárias, ambientais, à legislação trabalhista e à dignidade humana, sob pena de rescisão, nos casos de descumprimento". De toda a carne bovina comercializada pelo Carrefour, 40% estão dentro do selo Garantia de Origem, um programa desenvolvido desde 1999 que estabelece padrões de exigências aos fornecedores acima do que estabelece a legislação. "Os produtos com este selo, sejam carnes, peixes, frutas ou legumes, são aqueles que, em todas as etapas, do campo à gôndola, foram preparados dentro de conceitos rigorosos de qualidade, responsabilidade ambiental e social", destaca Rodrigo Lacerda, explicando ainda que os fornecedores desses produtos são constantemente visitados para monitoramento de suas atividades.

Outro destinatário já pronto dos cartões postais é a rede de supermercados Extra, que pertence ao Grupo Pão de Açúcar. Para o consumidor que exigir não comprar um bife responsável pela destruição da Amazônia, o Grupo atesta que, "antenado com as demandas urgentes de responsabilidade socioambiental, tomou a iniciativa de realizar um programa de carne de qualidade com princípios de sustentabilidade", segundo informou sua assessoria de imprensa. "Nesse programa, temos uma parceria com pecuaristas, dos quais somos co-responsáveis pela proteção ambiental e desenvolvimento social".

Essa iniciativa é parte do Programa Tear - Tecendo Redes Sustentáveis, promovido pelo Instituto Ethos e pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). O Programa Tear tem o objetivo de estender práticas de responsabilidade social e ambiental a pequenas e médias empresas que atuam na cadeia de valor de grandes empresas estratégicas de sete setores da economia: açúcar e álcool; construção civil; energia elétrica; mineração; petróleo e gás; siderurgia; varejo. No setor varejo, a empresa estratégica (âncora) é o Grupo Pão de Açúcar, que conta com nove fazendas no Tear.

As fazendas participantes do programa conseguem rastrear sua produção desde o momento de fecundação dos bois até a chegada da carne às gôndolas dos supermercados e hipermercados do Grupo. De acordo com a assessoria de imprensa, a rastreabilidade da carne é só uma parte do processo, pois "as fazendas parceiras passaram a incorporar o conceito de responsabilidade social empresarial nas suas práticas de gestão, com um modelo mais participativo e o desenvolvimento de produtos e serviços que atendem a critérios sociombientais".

Rastreabilidade é a chave
O consumidor bate à porta que enxerga - a carne à venda no varejo - e é lá que vai exigir produtos socialmente e ambientalmente responsáveis à sua disposição. Os produtores, que ficam alguns passos atrás nessa cadeia, não são atingidos diretamente pela pressão do consumidor, mas sofrem as conseqüências dela. E não é a única. De acordo com Leslie Cohen, assessora internacional da Associação Brasileira de Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), entidade que reúne os maiores frigoríficos do Brasil, a demanda por práticas socialmente e ambientalmente corretas está vindo de todos os lados. "Os grandes frigoríficos são empresas de capital aberto, têm ações na Bolsa de Valores. Há pressão dos acionistas, dos clientes, dos bancos que financiam essas empresas. Por isso, há uma grande preocupação no setor com as questões sociais e ambientais", explica Leslie.

Como os grandes frigoríficos processam a carne mas normalmente não criam bois, a solução é atuar junto aos fazendeiros. "Os frigoríficos fazem acordos com seus fornecedores. Pagam mais se eles fornecerem animais não só dentro dos padrões sanitários exigidos, mas que atendam critérios de responsabilidade social e ambiental", conta Leslie. "Os frigoríficos não têm poder de fiscalização, mas são clientes dos pecuaristas e escolhem de quem comprar. Visitam as fazendas e às vezes até financiam os pecuaristas para que façam os investimentos necessários para fornecer animais dentro dos padrões exigidos".

Para que o consumidor saiba se os fazendeiros, os frigoríficos e os supermercados estão lhe oferecendo um pedaço de bife que não ajudou a derrubar a floresta, a palavra-chave é rastreabilidade. "É possível pegar um pedaço de carne e saber de onde ela veio e quem é o fornecedor, mesmo que essa informação não esteja no rótulo do produto, pois todo animal é identificado desde o nascimento até o abatimento", afirma Leslie Cohen. Esse processo, exigido na carne para exportação, acaba sendo estendido também no mercado interno.

O passo além seria a certificação, ou seja, a criação de um sistema confiável de verificação da origem da carne, garantindo que aquele boi não pastou sobre a Amazônia devastada. Essa informação seria dada ao consumidor por meio de um selo estampado na embalagem. Seria um sistema semelhante ao selo FSC para produtos de madeira, uma certificação que garante que o produto é originário de florestas com manejo sustentável, e não do desmatamento ilegal. "Talvez a certificação seja o caminho, mas isso traria um custo adicional a toda a cadeia produtiva. Como o preço ainda tem um peso muito grande para o consumidor, pode ser um processo que leve algum tempo", opina Leslie.

Mesmo que a certificação ainda esteja longe, todas essas empresas estão começando a sentir na carne o que é sustentabilidade.


Fátima Cardoso, para o Instituto Ethos

Envolverde, 07/05/08
© Copyleft - É livre a reprodução exclusivamente para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam citados e esta nota seja incluída.

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Impressão responsável no ambiente corporativo

Por que imprimimos documentos? Qual é a real necessidade de se imprimir um documento? Responder a essas perguntas pode ser a chave para uma redução significativa nos custos de impressão, especialmente no ambiente corporativo, em que os volumes de informações, relatórios e documentos que precisam ser distribuídos costumam ser elevados.

Imprimir um documento é a simples transferência de uma informação digital para uma mídia física. Esse conceito é muito útil para definirmos o que é necessário ser impresso.

Controlar a maneira como os colaboradores se comportam quanto à impressão é fundamental para que uma corporação imprima com eficácia. Mas doutrinar os colaboradores não é suficiente, pois o ato de imprimir já é algo incorporado à cultura das corporações. Afinal, o colaborador, na maioria das vezes, não sente o peso que uma impressão pode ter no bolso da corporação. E as atitudes ambientalistas ainda são só um discurso bonito que gerentes de marketing gostam de usar para cativar clientes e ganhar pontos nas Bolsas. Para todos os efeitos, apertar o botão de “print” ainda é bem mais fácil para todo mundo.

Os modelos de outsourcing de impressão utilizados no Brasil apenas controlam o quanto se imprime, afinal eles têm quemandar a fatura para alguém, mas não controlam de maneira alguma como é utilizado o parque de impressoras e como a corporação pode dotar de inteligência sua impressão. As empresas que oferecem esse tipo de serviço fornecem equipamentos de alta tecnologia que facilitam ainda mais o uso do botão “print”. Resultado: o funcionário prefere imprimir a enviar este documento por e-mail e, no final das contas, a empresa acaba imprimindo mais do que precisa sem saber o que está imprimindo.

É preciso que exista algum controle sobre o que os usuários imprimem, sem tirar dele a capacidade de transferência de mídia e armazenamento destes documentos. Ou seja, é necessário definir como cada usuário pode ter acesso a cada tipo de mídia. Essa não é uma tarefa fácil, exige planejamento, esforço e investimento para que se colham os frutos em um tempo razoável. É necessário então uma solução para gerenciamento e distribuição de documentos para diferentes mídias disponíveis na corporação, administrando como cada tipo de documento deve ser transportado ou armazenado.

Possuir uma solução capaz de gerenciar e distribuir documentos de forma “inteligente” significa disponibilizar a informação exata, na hora certa e da maneira mais conveniente. Significa ainda acesso fácil, rápido e seguro aos dados, além da troca de informações eletrônicas com clientes e fornecedores de forma integrada. A entrega controlada e garantida de documentos para qualquer dispositivo - não só impressoras e aparelhos de fax, mas também e-mail, SMS ou Web sites – é também outro benefício relevante.

Já existem hoje no mercado ferramentas voltadas ao gerenciamento inteligente de documentos, que, entre outras coisas, resultam em redução dos custos com impressão. Há que se transpor, contudo, a barreira cultural que ainda existe nas corporações. Será que todas as pessoas na empresa realmente precisam imprimir tudo para ter um “documento válido”?

Quando se trata de documentos oficiais, é certo que ainda confiamos mais no papel que nas mídias digitais. Mas, nessas horas, devemos nos lembrar dos bancos. Nosso dinheiro está lá, de maneira 100% digital, e nós confiamos nisso, não deixamos mais o papel moeda debaixo dos colchões. Ou seja, por que confiamos lá, mas não confiamos quando precisamos apenas mostrar um relatório para colegas ou superiores?

Quando falamos em impressão em nossas casas, sabemos o quanto isso custa. Não é só o preço do cartucho e do papel, mas também o espaço que isso ocupa em nossas gavetas e, principalmente, quanto tempo perdemos organizando, limpando e eliminando papéis desnecessários. As empresas também têm que pensar nisso. É trabalhoso mas, sem dúvida alguma, vale à pena para conquistar mais produtividade, eficiência, economia e responsabilidade sócio-ambiental.


André Balparda, Product Manager da Eccox

Envolverde, 07/05/08
© Copyleft - É livre a reprodução exclusivamente para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam citados e esta nota seja incluída.

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Michael Conroy anuncia a revolução pela certificação de produtos

O economista e consultor americano Michael Conroy vê uma revolução no horizonte. Ela está surgindo por meio da certificação de produtos que estejam adequados a práticas socialmente e ambientalmente responsáveis. Um sistema de certificação com credibilidade é, segundo ele, a melhor forma de as grandes empresas garantirem que estão fazendo negócios respeitando a sociedade e o meio ambiente, e não o contrário. E é uma resposta à pressão social exercida principalmente por campanhas lideradas pelas ONGs.

De Austin, no Texas, onde fica a sede da Colibri Consulting, empresa que ele dirige e que atua em certificação e desenvolvimento sustentável, Conroy falou sobre como as ONGs podem mudar o comportamento das grandes corporações. Essa história ele conta em detalhes no livro "Certificado! - A Certificação de Produtos Transformando as Corporações Globais", que será lançado no Brasil em junho, pela WGB Editora.

Instituto Ethos: Você diz no seu livro que as ONGs têm afetado os mercados corporativos. De onde vem esse poder? Como elas conseguem fazer com que as grandes empresas transformem suas práticas em socialmente responsáveis?
Michael Conroy: Neste mundo que se globaliza rapidamente, o mais importante ativo das grandes companhias é sua marca, isto é, seu nome e sua reputação. As ONGs descobriram novos e poderosos meios de desafiar essas companhias comunicando aos clientes das empresas e aos consumidores finais sobre qualquer problema que exista na cadeia de valor. Evidências de que um varejista está comprando carne da região amazônica, onde essa carne pode ser ligada diretamente à devastação da floresta, proporcionam uma base muito fácil - e muito dramática - para atacar a marca da companhia, diminuindo sua participação no mercado e prejudicando o valor das ações da empresa nos mercados financeiros. Uma campanha parecida contra o McDonald's, alguns anos atrás, o forçou a parar de comprar carne de áreas onde as florestas estavam sendo devastadas e a começar a criar fazendas de gado para obter carne.

IE: Por que as grandes empresas respondem a essas pressões? É a única maneira de continuar no mercado?
MC: As empresas que se recusam a reconhecer que a sociedade civil, tanto no Brasil como em outras partes do mundo, está cada vez mais consciente da conexão entre a destruição das florestas e as mudanças climáticas, e se recusam a mudar suas práticas, estão sob grande risco de perder seus mercados e o valor das suas ações, quando elas forem relacionadas à destruição das florestas. Não é preciso que os consumidores sejam completamente educados ambientalmente; basta que as empresas mais inteligentes reconheçam que elas arriscam suas marcas se forem associadas com práticas ambientalmente irresponsáveis.

IE: No seu livro, você menciona que a Nestlé e a Starbucks começaram a pagar mais pelo café que compram de seus fornecedores. Por que fizeram isso?
MC: Eles concordaram em pagar mais pelo café que tinha uma nova qualidade, uma "qualidade ética", que assegurava a seus consumidores que um preço justo tinha sido pago pelo café, e que um sistema válido de certificação estava em vigor para assegurá-los de que a reivindicação "ética" era válida. Esse sistema de certificação é o Fair Trade Certified (Certificado de Comércio Justo), e ele garante aos consumidores que os fazendeiros receberam não apenas um preço mais alto pelo café do que é pago pelos "coiotes" locais, mas também um "prêmio social" que contribui para o desenvolvimento econômico das suas comunidades. A resposta dos consumidores foi tão grande que o Fair Trade Certified é o segmento que mais cresce na indústria de café em todo o mundo.

IE: Uma grande empresa pode ser lucrativa se tiver de pagar mais a seus fornecedores?
MC: Sim, pode, se ela estiver pagando por produtos certificados com credibilidade para carregar essa nova "qualidade ética", e se os consumidores estiverem dispostos a pagar um preço levemente mais alto como uma forma de contribuir para uma globalização mais equânime, por meio da criação de um sistema mais igualitário de comércio por todo o mundo. Desde que meu livro foi publicado nos Estados Unidos, o Wal-Mart pode ser acrescentado à lista das empresas que estão importando grandes quantidades de café, a maior parte do Brasil, que é Fair Trade Certified. Processando e embalando o café no Brasil, o Wal-Mart descobriu uma maneira de colocá-lo nas lojas dos Estados Unidos a um preço competitivo. Isso gerou respostas muito positivas dos consumidores do Wal-Mart, que são muito sensíveis a preço. Mesmo os consumidores do Wal-Mart gostam de ter a satisfação de contribuir para um mundo melhor.

IE: O subtítulo do seu livro em inglês é "como a revolução da certificação está transformando as corporações globais". Por que a certificação é uma revolução? Que tipo de mudança a certificação pode trazer aos negócios, ao comportamento das empresas e à sociedade?
MC: No ultimo século, as grandes corporações, especialmente as transnacionais, cresceram de uma maneira que é quase impossível para a sociedade civil exercer algum controle sobre suas práticas sociais e ambientais. Elas são mais poderosas do que muitos governos! Nenhuma nação pode controlar as atividades delas fora de suas fronteiras. E a Organização Mundial do Comércio proíbe os países de banir a importação de produtos com base no fato de eles serem produzidos de maneira responsável ou irresponsável. Esta parece ter sido a era em que as corporações dominavam o mundo. Mas, nos últimos quinze anos, a sociedade civil aprendeu que a combinação de "campanhas de marketing" duras, claras e precisas, que movem as corporações na direção de melhorar suas práticas, além de sistemas de certificação que validam com independência se as companhias estão cumprindo essas melhores práticas, pode devolver às sociedade civil a influência sobre as práticas das grandes corporações. E parece não haver fim para o número de indústrias sobre as quais isto pode ser aplicado. Isso é revolucionário!

IE: No Brasil, há uma campanha contra comer carne que venha de gado criado na Amazônia. É possível salvar a floresta se recusando a comer esse tipo de carne? Os produtores de carne e os varejistas responderão a isso, ou essas campanhas são uma pregação no deserto?
MC: Isso não vai acontecer imediatamente, essas campanhas levam tempo para se desenvolver. Mas estamos descobrindo que o reconhecimento por parte das empresas do dano que essas campanhas de marketing podem fazer está levando-as a responder muito mais rapidamente. E, mais importante, as empresas estão começando a perceber que há um mercado importante para produtos socialmente e ambientalmente responsáveis. Por isso, as empresas estão pedindo às ONGs que as ajudem a desenvolver novos sistemas de certificação para uma variedade completa de novos produtos. Isso é o que está acontecendo, por exemplo, na indústria de mineração. Veja o site www.responsiblemining.net para ter um exemplo da Iniciativa para Garantia de Mineração Responsável (IRMA, na sigla em inglês), que está surgindo como um sistema de certificação para a mineração.


Fátima Cardoso, para o Instituto Ethos

Envolverde, 06/05/08
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Governos no Brasil usam software da ONU

Presidência da República, prefeitura de São Paulo e governo do Amazonas utilizam sistema que interliga dados de gestão pública

Um sistema de gestão baseado num software desenvolvido pelo PNUD, aplicado em pelo menos 17 países da América Latina e do Caribe, na Europa Oriental (Geórgia) e na Ásia (Timor Leste), já foi implantado, no Brasil, em três órgãos do governo federal (incluindo a Presidência da República), na prefeitura do município mais populoso (São Paulo) e no governo do maior Estado (Amazonas). Outras unidades da Federação estudam adotá-lo.

Chamada Sigob (Sistema de Informação e Gestão para a Governabilidade), a ferramenta dispõe de 15 sistemas de trabalhos e de informática e tem entre seus pilares a transparência dos processos internos de gestão pública, através de uma espécie de mapeamento eletrônico das ações.

As informações do programa são interligadas — de modo que os funcionários que lidam com o software podem alimentá-lo e ter acesso às informações acrescentadas pelos outros usuários. "Os usuários recebem treinamento de uma equipe de consultores internacionais multidisciplinar", afirma o técnico em informática Rodolfo Otalora, consultor para o projeto regional do Sigob no Brasil. Além de consultores de informática, a equipe é composta por sociólogos e especialistas em políticas públicas. “São módulos que requerem uma forte capacitação dentro dos gabinetes", afirma Otalora.

Na prática, esse treinamento — que pode durar de quatro meses a cerca de um ano — implica uma mudança da cultura de trabalho nos gabinetes, que precisam se organizar dentro da filosofia que o Sigob propõe.

Na Presidência da República, por exemplo, primeira instância do poder público brasileiro em que o sistema foi implantado, em 2003, a ferramenta facilitou a interação entre ministros ou secretários e a agenda do presidente. "Antes do Sigob, era muito uma questão reativa. O sistema permite, por exemplo, que o ministro da Saúde veja que o presidente vai viajar daqui a 15 dias para um Estado e então proponha atividades para a agenda do presidente lá", explica a diretora de Gestão Interna do Gabinete Pessoal do Presidente, Fanie Miranda. "A agenda do presidente da República envolve vários setores, como segurança, logística, comunicação, uma série de equipes. Em vez de você ter um papel que ordena os acontecimentos, você tem um sistema que faz essa organização e, ao mesmo tempo, em que todos que participam têm acesso às informações."

"Em termos de sistema, o Sigob não é nada muito complexo. O que existe de mais importante é a forma de arranjo do trabalho", afirma Érica Mássimo, oficial de projeto da Unidade de Políticas Sociais e Cidadania do PNUD.

Não é necessário implantar todos os 15 módulos — a instituição escolhe o que melhor se adequar às suas necessidades. No caso do gabinete do presidente Lula, onde a aplicação começou em janeiro de 2004, são três as aplicações: o Centro de Gestão do Presidente; Sistema de Gestão de Correspondência Oficial; e Arquivos e Metas Prioritárias.

Além de ser um instrumento básico de trabalho do gabinete presidencial, o Sigob está em outras áreas do governo federal — a Casa Civil usa um dos módulos, assim como o Ministério do Planejamento, onde foi recém-implantado. O sistema também está presente na Prefeitura de São Paulo e no Governo do Amazonas.

Outros governos estaduais, como os de Alagoas, Distrito Federal, Fortaleza, Rio Grande do Sul, Sergipe, Pará e Paraíba, além da Advocacia Geral a União e a Prefeitura da Bahia, estudam ou estudaram a implementação do Sigob. O custo para implementação do sistema varia, em média, de US$ 40 mil a US$ 90 mil — envolvem as viagens dos consultores para treinamento dos usuários e a instalação do programa.

"São custos unicamente de implementação. O software do Sigob, a metodologia e a documentação têm custo zero para a organização", diz o paraguaio Miguel Cereceda, coordenador-regional para América Latina do Sigob.

Saiba mais sobre o Sigob
O sistema Sigob nasceu de uma iniciativa do governo peruano, há cerca de 20 anos. O então presidente do país, Alan Garcia — hoje novamente no cargo —, ao assumir o posto avaliou que o Peru estava precisando de ferramentas para a gestão pública. "Para isso, ele pediu apoio ao escritório do PNUD no Peru, que ajudou com algumas experiências na área", conta Rodolfo Otalora, consultor para o projeto regional do Sigob no Brasil.

Foi iniciado um projeto nacional para a criação dessas ferramentas de trabalho. "Os conceitos eram relativamente novos, tanto em relação à computação quanto o conceito de gestão para governabilidade", diz Otalora.

A partir dessa experiência, o PNUD ofereceu o sistema a outros países da América Latina.

"A intenção do PNUD com o Sigob é constituir uma metodologia de trabalho que propicie transparência, interatividade e contato com o cidadão", afirma Miguel Cereceda, responsável pelo Sigob. "O sistema tem métodos de trabalho, procedimentos operacionais para diferentes módulos de trabalho, softwares e uma técnica de implementação."

Além do Brasil, o Sigob está hoje em países como Argentina, Chile, Colômbia, Equador, Guatemala, Honduras, México, Paraguai, Panamá, Peru, República Dominicana, Timor Leste e Uruguai.

Osmar Soares de Campos, do Pnud
Envolverde, 06/05/08
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quarta-feira, 7 de maio de 2008

Prêmio de responsabilidade social e sustentabilidade no varejo

O Centro de Excelência em Varejo (GVcev) da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP), por meio de seu Programa de Responsabilidade Social e Sustentabilidade no Varejo, acaba de abrir as inscrições para o 4º Prêmio de Responsabilidade Social e Sustentabilidade no Varejo. O Prêmio visa reconhecer e incentivar iniciativas de responsabilidade social e sustentabilidade desenvolvidas por empresas e entidades varejistas de todo o Brasil. As inscrições devem ser realizadas até o dia 11 de julho de 2008 pelo site www.fgv.br/cev/premio ou pelo Correio.

Podem participar empresas e entidades varejistas de todo território nacional, de qualquer porte ou natureza, que estejam desenvolvendo iniciativas de responsabilidade social e sustentabilidade iniciadas antes de 31 de dezembro de 2007.

O Prêmio é dividido em seis categorias: Microempresa (até 20 funcionários), Pequena Empresa (de 21 a 100 funcionários), Média Empresa (de 101 a 500 funcionários), Grande Empresa (acima de 501 funcionários), Shopping Center e Entidade Varejista.

Um comitê técnico, formado por instituições de reconhecida atuação nas áreas de responsabilidade social e sustentabilidade, ficará responsável pela escolha de três finalistas, um em cada categoria, e uma comissão de premiação, com personalidades da área, avaliará as iniciativas e escolherá um vencedor para cada categoria. Os finalistas receberão certificados, exemplares do livro “Varejo Socialmente Responsável” (Editora Bookman, 2007) e terão sua iniciativa publicada no Banco de Práticas de Responsabilidade Social e Sustentabilidade no Varejo (www.fgv.br/cev/rsnovarejo). Os vencedores ainda receberão troféu de mérito, cortesias para participação nos Seminários do GVcev – Centro de Excelência em Varejo e apresentarão suas iniciativas no 6º Seminário de Responsabilidade Social e Sustentabilidade no Varejo.

No dia 8 de setembro serão divulgados os 18 finalistas, três em cada categoria. Os 6 vencedores, um em cada categoria, serão conhecidos no dia 6 de outubro de 2008. A cerimônia de premiação ocorrerá no dia 29 de outubro de 2008, durante o 6º Seminário de Responsabilidade Social e Sustentabilidade no Varejo, no Auditório da FGV-EAESP, em São Paulo.

O Prêmio reforça a importância da inclusão de questões sociais e ambientais na gestão dos negócios da empresa varejista, uma vez que os aspectos econômicos não têm sido suficientes para garantir a sobrevivência no mercado. Cada vez mais, a competitividade e o bom desempenho do negócio passam pelo gerenciamento dos seus impactos na sociedade e no meio ambiente. Por outro lado, a incorporação da responsabilidade social e da sustentabilidade no negócio da empresa varejista pode gerar benefícios como: redução de custos, proteção contra riscos, acesso a novos mercados, valorização da imagem institucional e da marca, fidelização do consumidor, entre outros ganhos.

Por se tratar de um processo contínuo, o Prêmio também valoriza as ações pontuais e pequenas iniciativas sociais ou ambientais desenvolvidas pelos varejistas, pois elas podem ser um primeiro passo para um exercício mais amplo da responsabilidade corporativa, que depende da mudança de comportamento do empresário e da adoção de uma postura consciente e responsável, alinhada com o desenvolvimento sustentável do planeta.

Nas três edições anteriores do Prêmio foram inscritas mais de trezentas práticas de responsabilidade social e sustentabilidade realizadas por varejistas brasileiros, de diversos setores, como por exemplo, supermercados, farmácias e padarias, direcionadas a funcionários, fornecedores, meio ambiente e à comunidade, entre outros públicos de interesse. Os exemplos de iniciativas podem ser consultados no Banco de Práticas de Responsabilidade Social e Sustentabilidade no Varejo, no site www.fgv.br/cev/rsnovarejo.

Pauta Social, 06/05/08

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O que, afinal, matou o gato?

Ouvi dizer que o padre paranaense que voou com balões de festa e desapareceu agiu como um louco. A pessoa justificou: "O sujeito nem sabia como operar um GPS! Levou o aparelho e quis aprender a usá-lo só quando o vento mudou a sua rota e o empurrou para dentro de uma tormenta em alto mar".

Eu não achei graça. Não só por respeito ao imprudente sacerdote cristão, mas por seu comportamento refletir um vício. Talvez tenha sido uma trágica faceta da cultura na qual vivemos.

É raro ver pessoas que dêem valor a procedimentos básicos. Brasileiro não precisa de instruções. Acha que sabe. Não fosse obrigatório o ensino de primeiros socorros na habilitação de motoristas, só bombeiros e salva-vidas teriam que aprender as técnicas. Nós gostamos mesmo de tirar o aparelho da caixa, ligar e ver o que acontece. O manual? Quem precisa de manual?

Um lugar onde isto se confirma é a empresa. Para muitos, treinamento é coisa de americano ou de soldado. É assustador o contingente de funcionários que atuam durante anos e anos nos mais diferentes postos, sem jamais terem sido convenientemente informados sobre o que fazer, como fazer e qual o padrão de eficiência que devem atingir. Enquanto isso, o diretor questiona seu staff – quando não caríssimos consultores – sobre como melhorar os resultados.

Uma das saídas clássicas é investir em propaganda. Pequenas fortunas são gastas em publicidade para garantir a demanda de produtos ou serviços. Mas comprometimento do time com a satisfação do cliente não é assim que se consegue. E venda alguma é consistente ou sustentável sem comprometimento. O que ocorre? A resposta é simples. Falta suprir os funcionários com as instruções básicas - isso está nos livros, é básico. Mas quem precisa de livros?

Aprendizagem é o princípio de tudo. É a base. Uma pessoa que acredita no estudo e se mantém nele está em constante desenvolvimento e diferencia-se da massa alienada e estagnada.

Nós temos praticado o oposto do que deveríamos. Desprezamos conhecimento por insana convicção. Isso vem de cima. Por isso, em muitas áreas estamos sempre na estaca zero.

Temos feito da eficiência uma escrava da sorte. E, quando é a sorte quem governa, os riscos de insucesso são absurdos. É uma loteria.

A história de que a curiosidade matou o gato está mal contada. O gato não era curioso. Ele confiava demais em si mesmo. Se curioso de fato fosse, teria lido o manual de instruções e, decerto, ainda contaria, a seu favor, aquele antigo e garantido saldo de sete vidas.


Abraham Shapiro
Coach e consultor especializado em lideranças, equipes de vendas e relacionamento com o cliente


HSM Online, 06/05/08

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Reforma tributária, Simples Nacional e pequenas empresas

Em fevereiro último, a proposta de Emenda à Constituição nº 233, de 2008, foi encaminhada ao Congresso Nacional com o maior intuito de simplificar o esquizofrênico sistema tributário brasileiro.

Conseqüentemente, também elenca como objetivo ampliar o crescimento e a competitividade das empresas, justamente pelo desembaraço que irá causar na atividade empresarial e nos investimentos. A redução de carga tributária não é o foco principal da proposta, mas acabará por acontecer por via transversal à racionalização da tributação sobre a produção e investimentos e desde que se efetive a desoneração da folha de pagamentos.

Em linhas gerais, a proposta extingue a Cofins, o PIS, a Cide-Combustíveis e o Salário-Educação, substituindo-os pelo Imposto sobre Valor Adicionado Federal (IVA-F), incidente sobre operações com bens e serviços. Prevê também a fusão do Imposto de Renda Pessoa Jurídica (IRPJ) com a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (CSLL). Em um segundo momento, seria realizada a redução gradativa da contribuição previdenciária sobre a folha de pagamento de 20% para 14%.

Já com relação ao ICMS, responsável pelas maiores atrocidades tributárias dos últimos tempos, está prevista a uniformização de sua incidência, por meio de uma lei complementar que substituiria as legislações estaduais e suas milhares de páginas. Caberia aos Estados a regulamentação interna e os ajustes necessários para manutenção da sua arrecadação. Isto em uma transição de oito anos após aprovação reforma.

Estão previstos instrumentos como o crédito presumido para investimentos e alíquotas reduzidas para os produtos da cesta básica, em um ambiente de não cumulatividade e de incidência majoritária no destino das mercadorias. É bastante provável que as alterações da PEC nº 233 tragam para os pequenos negócios considerável parte dos benefícios previstos para as demais empresas, principalmente no campo de incidência do ICMS - a pedra no sapato do Simples Nacional e do sistema tributário brasileiro.

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Não é possível mensurar o impacto do novo ICMS nos optantes do Simples Nacional, mas um bom caminho é trilhado
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O Simples Nacional entrou em vigor em 1º de julho passado e, após quase um ano de vigência, trouxe alguns desapontamentos ao segmento empresarial. Menos pelos seus dispositivos e muito mais pela forma como foi recepcionado por alguns Estados, que boicotaram o novo regime, abusando da substituição tributária e da cobrança de ICMS nas fronteiras, com a aberração do "ICMS Garantido Integral", bem como distorcendo a exigência do diferencial de alíquota nas operações interestaduais. Isto sem contar a incompreensível resistência em manter mecanismos de incentivo contidos nos Simples estaduais, revogados pela Lei Complementar nº 123, de 2006, que, a seu turno, previu a manutenção e melhoria destes benefícios, na forma de seu artigo 18, parágrafo 20, com a alteração apenas da forma de cobrança, que deve se dar em consonância com o novo sistema. Com o tempo estas distorções vêm sendo resolvidas, até porque fica claro para os governantes que os pequenos negócios, apesar do seu grande número, respondem por uma parcela ínfima na arrecadação tributária do país.

Em relação à arrecadação do ICMS, nenhum Estado brasileiro teve recuo na arrecadação tributária após a vigência do novo regime. Só para se ter uma idéia, de acordo com dados da declaração de IRPJ de 2004, 97,6% das empresas do país têm receita bruta anual inferior a R$ 2,4 milhões e respondem por apenas 13,8% das receitas declaradas. A representatividade da empresa optante pelo Simples Nacional no bolo tributário nacional é residual, haja vista, além da pequena representatividade no universo de receitas declaradas, as receitas tributárias relativas à substituição, diferencial de alíquota, limite regionais inferiores a R$ 2,4 milhões, ICMS de energia elétrica, telefonia, bebidas e automóveis, além de retenções e da considerável quantidade de empresas de serviços impedidas de usufruir deste regime.

Para as pequenas empresas, o atual texto da reforma prevê um tratamento diferenciado e favorecido conforme a redação proposta para o artigo 146, inciso III, alínea "d" da Constituição Federal. Ficam preservados o sistema unificado de arrecadação e a simplificação das obrigações tributárias vigente, enquanto que os problemas relativos a operações interestaduais tendem a ser resolvidos.

O texto da Lei Complementar nº 123 deverá ser alterado, no sentido de ajustar a partilha tributária prevista em relação aos novos tributos criados e extintos. Ainda não é possível mensurar o impacto do novo ICMS nos optantes pelo Simples Nacional, mas um bom caminho é trilhado, com a tributação no destino e uniformização da incidência. Como a maioria dos optantes é composta por contribuintes finais da cadeia produtiva, a proposta de redução da cumulatividade propiciada pelo IVA-F pode reduzir a carga tributária destas empresas, desde que seja levado em conta que o Simples Nacional incide sobre a receita bruta de seus optantes e haja um conseqüente ajuste.

Em linhas gerais, a reforma, se exitosa, trará grandes avanços para o país, proporcionando menos burocracia, redução contundente do câncer da guerra fiscal, tributação mais uniforme, mais investimentos, mais competitividade, dentre outros resultados. No entanto, não será suficiente para colocar o Brasil no rol de países com melhores práticas de tributação. Mesmo assim, podemos considerar que temos uma boa oportunidade de realizar uma boa reforma e devemos ponderar que, às vezes, "o bom é inimigo do ótimo", principalmente em um país complexo como o Brasil, preso em uma teia de interesses federativos e corporativistas bastante complexa.

André Silva Spínola
Advogado e analista técnico da unidade de políticas públicas do Sebrae Nacional

Valor Online, 06/05/08
Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações

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terça-feira, 6 de maio de 2008

A nova moda do subúrbio do Rio

A bancária Thaís quer roupa que está moda e um preço que caiba no seu bolso
Foto Silvia Costanti/Valor RJ


Em meio ao burburinho do calçadão de comércio de Madureira, entre a quadra da escola de samba Império Serrano, pastelarias, farmácias, supermercados e pequenas lojas de roupas usadas pelos jovens nos bailes funk, a bancária Thaís Helena Dutra faz mais uma compra em uma loja de moda que foge do padrão popular ou dos grandes magazines. "Quase todas as minhas roupas são daqui. São roupas que estão na moda, por um preço que dá para pagar", diz Thaís, de 22 anos, conhecida entre as vendedoras da Mercatto, marca de moda feminina voltada para a classe C cujas vendas crescem na faixa de 30% ao ano, desde 2002.

Berço das escolas de samba Portela e Império Serrano, Madureira também agrega o maior centro de comércio do subúrbio carioca - reúne um calçadão, um shopping center e um mercado popular - e reflete as mudanças no consumo de moda da classe C, hoje mais populosa, com mais acesso a crédito e dinheiro disponível para gastar.

Se antes era apenas o preço baixo quem mandava, agora o estilo e a qualidade dos produtos e do serviço na hora de vender passam a contar para esta faixa da população.

"Na década de 80, Madureira só tinha grandes lojas populares ou de pequenos comerciantes que não tinham a menor preocupação com o estilo. Isso vem mudando", diz a pesquisadora de consumo do Centro de Tecnologia da Indústria Química e Têxtil do Senai e da PUC-Rio Aline Monçores. O consumidor da classe C, diz ela, está mais informado e com nível maior de escolaridade. E, por isso, mais exigente.

Desse quadro, deriva a fórmula da Mercatto. A marca, com 25 lojas espalhadas pela região metropolitana do Rio, oferece o mesmo tipo de roupa encontrada nas lojas voltadas para as classes A e B, mas a preços mais baixos. Marco Cohen, sócio da rede, diz que para atrair a clientela usa rostos famosos da TV como garotas-propaganda - entre eles os de Juliana Paes, Vera Fischer, Angélica, Taís Araújo e Luma de Oliveira -, embora reconheça que o grande diferencial é mesmo o preço. "Fabricamos tudo em muito volume", diz Cohen, que prevê crescimento de 35% no faturamento deste ano.

Thaís, por exemplo, só comprava roupas em grandes redes de varejo antes de descobrir a Mercatto. A bancária aposentada Sônia Agostinho também passou a comprar em lojas especializadas em moda com preços em conta. Sônia, casada com um bancário e mãe de dois adolescentes, diz que as condições financeiras da família melhoraram nos últimos anos. "Estamos consumindo mais roupa e estamos comprando mais eletrodomésticos e gastando mais em diversão, em cinema e restaurante", disse Sônia.

Próximo do calçadão, na Armazém 66, loja recém-inaugurada no Madureira Shopping, a gerente Andressa do Nascimento Silva, conta que conquista clientes com atendimento personalizado e uma espécie de consultoria de moda. "A cliente entra querendo comprar uma peça. A gente faz a produção e mostra como ela pode usar aquela roupa com outras peças e com os acessórios. Temos um público muito fiel", diz. A Armazém 66, de moda jovem feminina, fez uma aposta no subúrbio e tem outras três lojas em Madureira, Bangu e Realengo.

Para concorrer com a movimentação das redes menores de vestuário, os grandes magazines têm investido mais na qualidade de olho nesse grupo de consumidores, cuja tendência é crescer nos próximos anos.

A rede Riachuelo, com uma filial no shopping Madureira entre as 93 lojas distribuídas no país, percebeu o que estava acontecendo e hoje tem um departamento de pesquisa e criação. A loja de Madureira produz o maior faturamento entre as quatro que a rede possui no Rio.

O gerente-geral da rede, Flávio Amadeu, diz que a sensibilidade desse consumidor para a moda aumentou, mas observa que o preço mais baixo é sempre levado em conta. "Investimos em formar coleções 'antenadas' com as tendências de moda. Nas lojas, agregamos mais serviços e fazemos com que a experiência da compra seja prazerosa. Cuidamos mais do atendimento."

Boa parte do crescimento de 7,1% do faturamento em 2007 da Riachuelo, diz Amadeu, deveu-se ao crédito facilitado por meio de um cartão próprio que permite o parcelamento em até cinco vezes sem juros ou em até oito vezes com juros. Usado por 65% de seus compradores, o cartão fechou 2007 com o nada modesto número de 13,2 milhões de usuários - 1,8 milhão a mais em relação ao ano anterior.

O preço, embora importante na decisão da compra dessa faixa da população, tem espaço para ficar um pouco maior dependendo de outros fatores como matéria-prima e acabamento, na avaliação da pesquisadora Aline Monçores. "Há cinco anos, uma camiseta de malha custava R$ 10, R$ 12. Hoje, uma camiseta dessa está mais trabalhada e tem um preço maior, em torno de R$ 30, mas não é nada que inviabilize a compra", explica ela.

No Madureira Shopping há uma particularidade além da presença das lojas de departamentos, como Renner, Leader e Lojas Americanas. Distante cerca de 20 quilômetros da praia, o shopping detém a maior concentração de lojas de artigos de surfe em comparação a outros shoppings da cidade.

Marcas de produtos para surfistas que ficaram famosas nos anos 80, como a Cristal Graffiti, permaneceram com lojas abertas às custas do estilo das roupas usadas nos bailes funks do subúrbio. "Aqui não tem surfista. É uma marca antiga, mas que tem preço bom e que não sai de moda", diz Rodrigo Pereira, gerente da Cristal Graffiti de Madureira.

Particularidades à parte, a superintendente da Brascan Shoppings, que administra o Madureira Shopping, Liliane Dutra, aposta que o ciclo virtuoso de crescimento da classe C dure até 2010. "O varejo já percebeu isso e vê que a classe C não quer mais o que é popular", disse.

Ana Paula Grabois
Valor Online, 06/05/08

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Braun investe US$ 100 mi no Brasil

O grupo alemão B.Braun, produtor de equipamentos médicos, investirá US$ 100 milhões no Brasil nos próximos dois anos, para aproveitar as oportunidades que aumentam no país, disse seu presidente, Ludwig Georg Braun.

Também presidente da Associação das Câmaras de Indústria e Comércio da Alemanha, o empresário desafiou as empresas alemães a investirem mais no Brasil, ainda mais com o grau de investimentos obtido na semana passada.

"Todas as firmas que não estiverem ainda no Brasil, perdem algo", alertou Braun numa entrevista na primeira página do jornal alemão de economia "Handelsblatt".

O líder empresarial lamentou que as companhias alemães concentrem investimentos na Ásia, quando vê a América Latina com enorme potencial, com exceção da Argentina, Venezuela e Bolívia.

Para Braun, uma grande dificuldade para as empresas alemães expandirem seus negócios no Brasil tem sido o fato de os bancos alemães terem fechado muitas agências no país.

Conseqüente com seu discurso, Ludwig Georg Braun reiterou que está aumentando os investimentos no Brasil, onde o Laboratórios B. Braun está instalada há 41 anos e tem atualmente 1.500 funcionários.

B.Braun é especializada em produtos para anestesia, medicina intensiva, cardiologia, dialisadores capilares, envase de soro, combate a infecção hospitalar, e faturou US$ 5,5 bilhões globalmente em 2007.


Assis Moreira
Valor Online, 06/05/08

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Delegados do Orçamento Participativo viram cabos eleitorais no Recife

O Orçamento Participativo (OP), que nasceu em Porto Alegre com Olívio Dutra, difundiu-se em São Paulo na gestão Marta Suplicy e ganhou uma versão digital em Belo Horizonte, alcançou no Recife sua maior expressão atual, fundamentando a candidatura do sucessor do prefeito João Paulo (PT).

Há sete anos no comando do programa responsável pela maioria das obras feitas na periferia da cidade, João da Costa, hoje secretário de planejamento participativo do Recife, foi escolhido pelo atual prefeito para a disputa municipal.

À revelia dos maiores caciques petistas de Pernambuco, João Paulo aposta na força do Orçamento Participativo para fazer seu sucessor. Cerca de 12% do orçamento municipal - ou R$ 300 milhões - passaram pelas mãos de João da Costa desde 2001, dando origem a 3.600 obras. Quase um terço do 1,5 milhão de habitantes da cidade já participou das votações, o que faz do programa recifense o maior do país em termos de mobilização.

Por outro lado, o candidato petista terá de vencer a pouca experiência na disputa por cargos majoritários em uma eleição com figuras políticas bastante conhecidas dos recifenses, como o ex-governador Mendonça Filho (DEM) e o deputado federal Cadoca (PSC).

Líder estudantil na juventude, desde o fim dos anos 80 João da Costa atua nos bastidores das eleições, como assessor para campanhas e programas de governo do prefeito João Paulo. A única experiência como candidato foi em 2006, quando se elegeu deputado estadual por Pernambuco, cargo do qual se licenciou para continuar à frente da secretaria municipal.

Mobilizando o exército de delegados do Orçamento Participativo na campanha, João da Costa foi o terceiro deputado mais votado no Estado. Uma estratégia que agora ele pretende repetir, com a ajuda dos 2.400 delegados do OP, que farão a campanha do candidato nas periferias. "Aquilo foi um teste para minha candidatura a prefeito", explica.

O uso do programa para fins eleitorais já desperta reações. "Nos primeiros anos, o Orçamento Participativo foi muito bom porque deixou os movimentos sociais definirem o que queriam para suas regiões. Mas ele se perdeu um pouco ao longo desses últimos sete anos ao se misturar com a política. Com isso, parece que se armou toda uma estrutura para evitar a contestação", afirma Evódia Lima Alves de Souza, coordenadora da Articulação Comunitária da Caxangá, que congrega 30 entidades. Depois de ser eleita quatro vezes delegado do programa, Evódia decidiu se afastar da gestão do Orçamento Participativo.

No Ibura, outro bairro do Recife, a líder comunitária Heunar Santos também optou por não mais participar do programa desde o começo de 2007, depois de ver João da Costa se eleger deputado estadual. "Com a estrutura que ele tinha, ele podia ser presidente. O Orçamento Participativo ficou vinculado ao uso político. Eu não uso interesses eleitorais em minha comunidade", diz Heunar.

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Capital pernambucana é hoje a maior vitrine do instrumento de gestão petista que nasceu em Porto Alegre

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Com a aproximação da votação, o secretário de Planejamento Participativo João Costa tem intensificado suas visitas aos bairros para apresentar sua candidatura aos líderes comunitários em reuniões fechadas. Nesses encontros, ele afirma que a continuação do Orçamento Participativo depende da sua eleição.

Para o sociólogo Rudá Ricci, diretor da organização não-governamental Instituto Cultiva, voltada para a implementação de práticas democráticas participativas, o Orçamento Participativo no Recife realmente se transformou numa poderosa ferramenta. "Não tenho dúvidas de que o programa criou uma estrutura de poder. Porém não se pode dizer que há clientelismo. Se houvesse, João da Costa lideraria desde o começo as pesquisas."

Para o sociólogo Leonardo Avritzer, professor da Universidade Federal de Minas Gerais e pesquisador do orçamento participativo, não é possível afirmar que apenas os programas não resistam ao fim dos mandatos. "No entanto, uma das grandes vulnerabilidades do Orçamento Participativo é a sua dependência do sistema político. Mesmo experiências importantes sofrem dessa dependência e o ideal seria institucionalizá-lo com uma forma de democratização do orçamento independente de quem está ocupando a administração municipal."

Com uma popularidade mais concentrada nos redutos do Orçamento Participativo, os líderes do PT - principalmente o ex-ministro Humberto Costa - resistiram em lançá-lo candidato. Agora, mesmo tendo cedido à indicação do prefeito, o apoio total deles à campanha ainda não está totalmente definido. "Podemos dizer que isso está mais ou menos encaminhado", avalia o secretário. Nem mesmo o vice de João Paulo concordou com a candidatura. Luciano Siqueira (PCdoB) resolveu se lançar na disputa. No âmbito estadual, o apoio do governador Eduardo Campos (PSB) ainda está sendo costurado.

João da Costa sabe que pela frente terá de se tornar mais conhecido da população para ganhar votos. "Agora estou na linha de frente. Meu jeito é mais racional e exige-se do candidato que ele tenha mais sentimento, expressão. Será um teste para mim até no aspecto pessoal", diz o candidato de 47 anos.

Para isso, João da Costa está se aproximando ainda mais do outro João, o popular prefeito, que dança frevo e torna suas experiências espirituais - incluindo a levitação - públicas. Camisetas de cabos eleitorais já estampam o dizer "João é João". Faixas afirmam que "em 2008, a grande obra não pode parar".

Nas visitas que faz à periferia da cidade, o secretário circula como velho conhecido da população. Foram as obras do Orçamento Participativo que arrumaram as encostas dos morros, acabando com as recorrentes mortes a cada estação de chuva na cidade.

Mas não é assim em todo o Recife. Num restaurante no bairro de Casa Forte, de classe média alta, poucos demonstravam conhecê-lo. O próprio candidato também parece esquecer que participa de uma eleição. À saída, prestes a entrar no carro, lembra-se de que havia esquecido de se despedir dos garçons. Voltou. "Depois podem dizer que o candidato é mal-educado", disse, ainda pouco habituado à rotina política.

Para tornar seu candidato mais conhecido, João Paulo também tem andado com ele pela cidade a tiracolo. No aniversário da cidade, dia 12 de março, anunciou R$ 100 milhões de investimento ao lado de João da Costa. Quando o também candidato a prefeito Mendonça Filho foi a seu gabinete pedir informações sobre a cidade, João Paulo recepcionou-o com João da Costa. E quem estava na cadeira de governante era o prefeiturável petista.

Carolina Mandl
Valor Online, 06/05/08

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segunda-feira, 5 de maio de 2008

Educador Nota 10 define data de inscrições

O maior prêmio da educação brasileira já definiu suas datas de inscrição. De 11 de junho a 6 de julho de 2008, educadores de todo Brasil poderão concorrer ao Prêmio Educador Nota 10, com projetos que já estejam em andamento e que mostrem maneiras inovadoras, simples e eficientes de praticar o ensino.

Realizado anualmente pela Fundação Victor Civita, desde 1998, o prêmio elege as melhores experiências de ensino em diversas disciplinas desenvolvidas por professores de todo o País, tanto de escolas públicas como privadas, rurais ou urbanas, voltadas para a Educação Infantil e para o Ensino Fundamental. Os dez premiados participarão de uma cerimônia no dia 13 de outubro, onde concorrerão ao título de Educador do Ano.

O regulamento já pode ser conferido no canal do Prêmio, disponível nos sites da Revista Nova Escola (www.novaescola.org.br) e da Fundação Victor Civita (www.fvc.org.br). Neles, os interessados podem ter acesso também a um guia de orientações para a redação de projetos e informações sobre as edições passadas.

redeGIFE Online, 05/05/08

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“ONGs devem definir metas claras com medidas de produtividade e qualidade”

Nos últimos três anos, a Hand in Hand International treinou mais de 252.000 mulheres pobres, analfabetas e mal nutridas do estado indiano de Tamil Nadu em empreendedorismo e geração de negócios. Isso resultou na criação de 85.000 empresas familiares e 400 empresas de porte médio. O objetivo é criar 1,3 milhões de empregos e 250.000 empreendimentos em Tamil Nadu nos próximos três anos, além de expandir para outros estados indianos e outros países.

A Hand in Hand também retirou 12.000 crianças de contratos de trabalho vinculados e colocou-as em escolas transitórias ou residenciais até que estejam prontas a voltar ao sistema escolar estadual. Como tanto foi realizado em tão pouco tempo?

A editora da Alliance Magazine, Caroline Hartnell, conversou com o doador fundador da Hand in Hand, o bem-sucedido industrial suíço Percy Barnevik, sobre o uso de metas e indicadores pela Hand in Hand, suas opiniões sobre o aumento de escala e as barreiras a isso.

Caroline Hartnell - O senhor diz que 95 % da administração de uma organização sem fins lucrativos são iguais à uma empresa com fins lucrativos. Poderia falar um pouco mais sobre isso?

Percy Barnevik - Os 5% de diferença são, é claro, que a empresa com fins lucrativos é de propriedade dos acionistas que exigem lucros e dividendos. O mais importante são os 95 % que são iguais: recrutar, desenvolver e manter funcionários capazes, compartilhar uma visão e fazer com que as pessoas tenham orgulho de trabalhar na empresa ou na ONG, definir metas claras com medidas de produtividade e qualidade, recompensar o bom desempenho.

Em relação às operações, eu aplico na Hand in Hand o mesmo que empreguei na Sandvik e na ABB durante os últimos 40 anos: descentralização de longo alcance com a responsabilidade colocada no nível do indivíduo, organização plana e custos mínimos de administração e instalações.

CH - Quantas ONGs você acha que funcionam assim, com metas claras?

PB - Existem ONGs bem administradas e ONGs que são mais confusas e com pouco foco, mas acho que as coisas estão indo na direção certa. O que é medido é feito – é o que disse nos negócios durante décadas e estou tentando fazer a mesma coisa no trabalho de caridade. Mas a filantropia internacional também tem custos administrativos altos porque têm sedes no Ocidente e expatriados nas suas folhas de pagamentos.

A Hand in Hand tem apenas funcionários indianos (e alguns sul-africanos e afegãos) e não temos uma sede em Londres. Todos os ocidentais trabalham como voluntários, como eu. A Hand in Hand também tem a sorte de ter um excepcional líder indiano como nosso CEO, o Dr Kalpana Sankar. Ela e sua excelente equipe fazem uma grande diferença.

CH - O senhor diz que deseja ser comparado com as melhores empresas, não com as melhores ONGs. O que quer dizer com isso?

PB - Na Índia, as ONGS são vistas como ocupações de classe B secundárias, para pessoas qualificadas, educadas. Quando eu quero recrutar as melhores pessoas na Índia concorrendo com boas empresas, tenho de convencê-las de que a Hand in Hand não é uma ONG normal. Somos como uma organização comercial, mas a nossa missão é maximizar nosso impacto para as crianças, as mulheres exploradas etc., não maximizar nossos lucros.

Não se trata apenas de pagar salários melhores, porque as pessoas que contratamos normalmente têm tanto coração quanto cérebro. Elas gostam da idéia de estar nessa cruzada contra a pobreza extrema. Muitos indianos acham terrível que a Índia tenha 40% das crianças subnutridas do mundo. Gostamos de atrair essas pessoas e dizemos que podemos pagar a elas salários justos. Elas também recebem por desempenho. Assim, nós usamos medidas, medidas todo o tempo.

CH - Muitas outras ONGs recompensam o desempenho dessa maneira?

PB - Não, acho que não, embora as ONGs que conheço são quase todas indianas. Elas colocam dinheiro para fazer o bem e depois medem as mudanças nos padrões de vida. Aqui, a administração, eu mesmo, o conselho e alguns doadores recebemos um relatório mensal de 25 páginas sobre desempenho: crianças educadas, empresas abertas, empregos criados e assim por diante.

Nossos coordenadores de grupos, por exemplo – os que trabalham em campo lidando diretamente com as mulheres – têm metas mensais para a criação de novos grupos, por exemplo, iniciar uma operação de tecelagem em um distrito tecelão, e para diferentes tipos de treinamento. Um professor em uma escola transitória tem uma meta de aprovação de um certo número de alunos em certos exames. Todos têm metas individuais. Eu rejeito completamente a idéia de que o trabalho assistencial não é mensurável.

CH - Como as metas são definidas?

PB - Você tem o orçamento para o próximo ano que é dividido por programa e distrito. Existem hoje 14 distritos, cada um com um gerente distrital e, em baixo dele, gerentes de zonas, gerentes de quarteirão e 400 coordenadores de grupos. Em alguns casos, são dadas recompensas monetárias imediatas quando as metas mensais são ultrapassadas. Mais importante, existe uma comunicação com o gerente superior tanto no caso de desempenho aquém quanto além do previsto.

Antes do início do ano, a pessoa e seu gerente concordam em relação à meta. O gerente pode, por exemplo, perguntar ao coordenador de grupo se ele poderia organizar 800 mulheres no próximo ano e o coordenador poderia dizer, "Acho que devemos nos concentrar na criação de empregos e nos grupos existentes, assim prefiro ficar com uma meta de 400 mulheres e dobrar o número de empresas familiares". Houve um diálogo.

Eu comecei a ASEA em 1980 e acabei tendo 220.000 pessoas trabalhando para mim. Criamos 5.000 centros de lucros com um gerente em cada um. Cada um deles tinha uma equipe, com cinco gerentes por equipe, o que perfaz 25.000 gerentes no total. Se conseguimos que todos eles puxem juntos na mesma direção, é uma força tremenda. Na Hand in Hand, temos 4.000 funcionários, mas a mesma idéia funciona. Eu acho que a gente deve dar responsabilidade às pessoas. Se você não atinge a sua meta, isso não quer dizer que é demitido. Isso pode ser causado por circunstâncias externas, ou talvez você precise de mais treinamento ou suporte, mas o resultado é um diálogo muito construtivo.

CH - Tudo isso claramente toma muito tempo. Vale a pena?

PB - Vale muito a pena. E eu não diria que toma tempo, é parte do processo administrativo. Se você não falasse com as pessoas, se apenas definisse metas para elas, levaria menos tempo, mas não funcionaria tão bem. Mas você não precisa sentar-se e conversar horas sobre uma meta, você pode falar por telefone por 10 a 15 minutos. Dessa forma, você tem uma base construtiva para a sua discussão periódica. As pessoas dizem "você pode fazer isso em uma instituição de caridade?" Claro que pode. Pode fazer isso em qualquer lugar.

CH - Existe um processo para relacionar essas colaborações imediatas com o impacto na qualidade de vida?

PB - Eu não sou entusiasta de planos enormes, mas a gente precisa de algumas metas de longo prazo. Se tomarmos o programa das mulheres, temos uma meta de 1,3 milhões de empregos até 2011, 250.000 empresas. Com o programa de lixo, coleta, armazenamento e reciclagem, temos o objetivo de alcançar 1,7 milhões de domicílios, cerca de 10 milhões de pessoas.

Como chegar lá? Bem, temos um plano de tratar de uma vila de cada vez, cidade após cidade. Depois nos espalharemos por todo o estado de Tamil Nadu até finalmente cobrir 10 milhões de pessoas – e essa é uma visão a ser compartilhada. As pessoas têm orgulho de trabalhar na Hand in Hand porque nós realmente mudamos a situação de vida de tantas pessoas de forma permanente.

O que nos distingue da instituição de caridade normal é o tamanho. Muitas instituições têm 50 vacas, administram um pequeno hospital, trabalham com 50 mulheres – não há nada de errado nisso. Mas se um problema afeta um bilhão de pessoas e você realmente quer ter um impacto, tem de ter certeza de poder aumentar a escala.

CH - Quais são as barreiras ao aumento de escala? O senhor já aumentou a escala, mas quer ir mais além.

PB - Muito mais além. Temos, é claro, um plano claro para Tamil Nadu para os próximos cinco a dez anos. Depois, temos mais três outros estados indianos com 240 milhões de pessoas que estão nos pedindo para introduzir o programa de cinco pilares ali. Estamos trabalhando na África do Sul e no Afeganistão, e a China quer que desenvolvamos um plano-piloto para 1.000 vilas em Yunnan.

O Banco Interamericano de Desenvolvimento está nos consultando sobre o desenvolvimento de um plano-piloto no Nordeste do Brasil, onde existe muita pobreza. Estou em contato com Kofi Annan sobre o que poderíamos fazer juntos na África e, há uma hora, conversei com algumas pessoas sobre fazer isso no Nepal.

Como você pode ver, a necessidade é infinita. Minha maior limitação é ter o número suficiente de pessoas fluentes em inglês treinadas, além é claro, de financiamento.

CH - O senhor espera que o dinheiro venha dos países ricos?

PB - De pessoas, famílias e fundos ricos e de organizações com programas de responsabilidade social corporativa. Não importa em que país estejam. Nosso principal objetivo é recrutar doadores no Reino Unido, Suécia, Estados Unidos e Índia. Mas estamos tendo conversas também na Holanda e nos países nórdicos.

Até um ano atrás, eu mesmo doava a maior parte do dinheiro porque a Hand in Hand era desconhecida, mas eu não posso cobrir mais todo o financiamento. Mesmo com o custo per capita sendo baixo, os números são muito altos, temos uma equipe de 4.000 pessoas e estamos crescendo. Agora, nós temos um histórico e podemos mostrar, de forma transparente, que é possível oferecer ajuda para auto-ajuda. Mas a necessidade é grande e precisamos de mais fundos, e ficamos felizes de os doadores realmente se envolverem se quiserem.

Temos tido sucesso no recrutamento de doadores. Eu acho que a forma mais eficiente é trazê-los a Tamil Nadu para verem o nosso trabalho. Uma grande empresa de cosméticos nos deu meio milhão de dólares – acharam que nosso trabalho é interessante e eles também trabalham com mulheres. Então os donos foram visitar e viram por si mesmos. Quando voltaram, pediram à sua fundação familiar que nos desse US$5 milhões!

Assim, quanto mais pessoas nos visitarem e tiverem uma noção boa de como operamos, mais doadores teremos, assim esperamos. Mas, na verdade não estou preocupado com o financiamento, se conseguirmos divulgar nossa mensagem. Temos uma história tão boa para contar e o custo de transformar a vida de cada mulher é tão pequeno.

CH - Como o senhor pode garantir que terá as pessoas treinadas de que precisa?

PB - Precisamos ter nossa própria escola de treinamento. Estamos em contato com várias universidade que trabalham com empreendedorismo –Stanford, a escola de administração de Oxford e Erasmus University, Rotterdam. Todas querem nos ajudar a montar uma academia Hand in Hand em Chennai, onde teremos pessoas pesquisando e dando treinamento em empreendedorismo. Essa é a meta de longo prazo. Se montarmos um quadro de consultores, eles podem ir ao Afeganistão, África do Sul, China, Brasil, onde quer que exista pobreza, e desenvolver a capacidade local.

Vamos tomar o Quênia como exemplo: temos de treinar seus assistentes sociais e temos de encontrar financiamento porque o governo não pode fazer isso. Poderia ser a agência de assistência sueca ou a USAID, ou o Banco Mundial, como no Afeganistão. Depois, precisa haver algum tipo de rede de microcrédito para que as mulheres, e às vezes os homens, possam tomar empréstimos com condições decentes. Com esses pré-requisitos e os nossos consultores da Hand in Hand, podemos alavancar a nossa competência e experiência adquirida em Tamil Nadu.

Isso custa mais em alguns países, como o Afeganistão, por exemplo, onde as vilas são pequenas e há montanhas muito altas e problemas de segurança. Na índia, podemos fazer o trabalho com maior eficiência de custo porque controlamos todo o processo; em outros países, apenas treinamos os treinadores. Mas em dez anos, esperamos ser capazes de ter um impacto importante na pobreza extrema do mundo.

CH - Então o seu objetivo não é abrir Hand in Hands em todos esses países, mas fornecer a eles treinamento para que possam fazer eles mesmos?

PB - Certamente. A África do Sul, por exemplo. Aqui, 30 indianos treinarão 1.200 assistentes sociais sul-africanos que, por sua vez, treinarão 300.000-400.000 mulheres africanas por ano para ajudá-las a abrir empresas.

Assim estamos exportando o modelo. Mas não se pode apenas enviar o modelo, é necessário ter as pessoas, e elas precisam ser de mais alto calibre do que os coordenadores de grupo da Índia, porque os coordenadores de grupos estão cercados de pessoas que os apóiam. E eles falam o idioma. Os que vão para o Quênia, digamos assim, entram em território estrangeiro. Eles têm de ser fluentes em inglês. Eu estimo que 90 % de nossos funcionários tenham diploma superior e muitos têm PhDs.

CH - Então recrutamento e financiamento são seus principais desafios. Há outros?

PB - Bom, existe mais um. Na Índia, experimentamos uma resistência dos interesses atingidos. Você tem os mais velhos em cada vila que costumavam decidir tudo, imagine o que acontece quando uma mulher de pele escura aparece de repente! Os senhorios não gostam que as mulheres recebam salários melhores, porque são concorrentes deles. Você acaba com os intermediários – eles podem ficar contentes?

Os agiotas que costumavam cobrar 150 % de juros perdem porque nós só cobramos 15%. Os donos das tecelagens que perderam a mão de obra infantil, não gostam de nós tampouco. Alguns maridos têm ciúme porque as mulheres estão ficando superiores economicamente, por isso oferecemos cursos sobre gênero a eles. E há ainda os políticos que, às vezes, ficam preocupados que as mulheres se unam para pressioná-los – 50.000 mulheres exigindo banheiros, estradas e eletricidade podem ser poderosas quando cada pessoa tem um voto.

Eles também suspeitavam de mim, no início, um deles até pensou que eu queria ser político na Índia! Ele me perguntou: "Qual é o seu interesse?" “Por que está fazendo tudo isso?" E eu disse, "Meu Deus, sou cidadão suíço, eu moro em Londres!"

Para obter mais informações: http://www.hihseed.org/

redeGIFE Online, 05/05/08

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