terça-feira, 24 de julho de 2007

Desenvolvimento: Futuro está no conhecimento

Gustavo Capdevila
Publicado pela
IPS em 20/07/07

A única tábua de salvação para 767 milhões de pessoas que vivem nos 50 países mais pobres do mundo é obter conhecimento para aplicá-lo às suas economias e promover o progresso tecnológico, afirmou a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad).

Essas nações, identificadas pela ONU como os países menos adiantados, continuarão monopolizando a pobreza extrema de “um dólar por dia” em 2015, quando vencer o prazo fixado pelas Nações Unidas para alcançar os Oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.

Dessas metas, as duas primeiras se referem precisamente à erradicação da pobreza extrema, mediante redução da metade da proporção de população com renda inferior a um dólar por dia e que sofre fome, e pelo ensino primário universal. No momento, os países menos adiantados (PMA) permanecem nos escalões inferiores da economia e tecnologia, de acordo com o informe anual que a Unctad dedica a esse grupo de nações, concentrado em 2007 no documento intitulado “O conhecimento, a aprendizagem tecnológica e a inovação para o desenvolvimento”.

Para sair do atoleiro da pobreza, os países mais pobres terão de inovar, recomendou ontem o secretário-geral da Unctad, Supachai Panitchpakdi, ao apresentar o informe. Os conhecimentos, que a cada dia ganham maior importância para a produção e a competição, são o flanco vulnerável dos PMAs, pois suas empresas e suas explorações agrícolas carecem de avanços tecnológicos, suas competências técnicas estão subdesenvolvidas e não contam com instituições nacionais que fomentem a obtenção e difusão de tecnologias.

O grupo dos PMAs, segundo a última revisão trienal da ONU feita em 2006, é formado por Afeganistão, Angola, Bangladesh, Benin, Butão, Birmânia, Burkina Faso, Burundi, Cabo Verde, Camboja, Chade, Comoras, Djibuti, Eritréia, Etiópia, Gâmbia, Guiné, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Haiti, Ilhas Salomão, Kiribati, Laos, Lesoto e Libéria. Completam a lista Madagascar, Malawi, Maldivas, Mali, Mauritânia, Moçambique, Nepal, Níger, República Centro-africana, República Democrática do Congo, Ruanda, Samoa, São Tomé e Príncipe, Senegal, Serra Leoa, Somália, Sudão, Tanzânia, Timor Leste, Togo, Tuvalu, Uganda, Vanuatu, Iêmen e Zâmbia.

O informe se concentra no exame de qual medida o desenvolvimento das capacidades tecnológicas dos PMAs se deve aos vínculos com os mercados internacionais, especialmente com o comércio, o investimento estrangeiro direto e a concessão de licenças. Neste aspecto, a situação dessas nações a respeito de alguns índices apresenta resultados decepcionantes, disse a Unctad. Por exemplo, esses países ocupam as últimas posições do índice de capacidade inovadora que está sendo preparado por esta agência da ONU. Essa tendência chegou ao pico na medição feita em 2001, quando metade dos PMAs aparecia com uma capacidade de inovação inferior à que tinha em 1995.

Os PMAs contam apenas com 94,3 pesquisadores científicos para cada milhão de pessoas, contra 313 nos demais países em desenvolvimento e 3.728 nas nações ricas. Por outro lado, a matricula universitária, como porcentagem do grupo de idade correspondente representa apenas 3,5% nos PMAs, sendo que chega a 23% nas demais nações em desenvolvimento e a 69% nos países ricos. Outro dado é sobre a porcentagem do produto interno bruto dedicado à pesquisa e ao desenvolvimento, que chega a 0,3% nos PMAs, a 0,8% nos demais países em desenvolvimento e a 2,4% nas nações ricas.

Supachai destacou que a ciência, a tecnologia e a inovação são elementos necessários, não um luxo, para os países mais pobres. A Unctad recordou o caso de um empresário de Bangladesh que no começo da década de 80 iniciou a indústria da confecção de roupas para exportação, sendo logo imitado. O informe também citou um empresário da Mauritânia que nos anos 90 começou a exportar queixo feito com leite de camelo para a União Européia, e, também, os pequenos camponeses de Malawi que se lançaram a testar novas variedades supeprodutivas de milho.

O documento expõe de maneira taxativa que a proteção rigorosa da propriedade intelectual é um obstáculo ao progresso tecnológico nos países pobres do mundo, um enfoque novo tanto para a instituição quanto para seu secretário-geral, em particular com respeito às posições que Supachai assumiu quando foi diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, entre 2002 e 2005. A Unctad afirma que nas atuais condições não é realista esperar que a maioria desses países consiga uma base tecnológica sólida e viável em 2013, como prescrevem as normas do acordo da OMC sobre Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados com o Comércio (Trips).

A Unctad recomenda que o período de transição reconhecido até 2013 para que os PMAs apliquem o acordo sobre os Trips seja estendido. Supachai também pediu “um pouco mais de flexibilidade” para os PMAs quanto à propriedade intelectual. Os autores do informe estimam, da mesma forma, que não se deve exigir dos PMAs que atualmente estão em processo de adesão à OMC que concedam uma proteção acelerada ou mais rigorosa do que a prevista nos Trips. O documento se refere ao tipo de proteção denominada “Trips plus”, que as nações industrializadas, especialmente os Estados Unidos, exigem das nações em desenvolvimento para assinar acordos bilaterais de comércio.

Um ângulo de destaque na questão do emprego da tecnologia para a expansão econômica dos PMAs é a fuga de cérebros que estas nações sofrem e que afeta seu progresso. Cinco desses países, Haiti, Cabo Verde, Samoa, Gâmbia e Somália, perderam nos últimos anos mais da metade de seus profissionais universitários que foram para países industrializados em busca de melhores condições, lembrou a Unctad. Supachai, que se referiu aos casos de enfermeiras e enfermeiros que se mudaram para alguns países europeus, esclareceu que não julga essa tendência como negativa para os países pobres, “mas, merece ser acompanhada com atenção”, afirmou.

Em 2004 calculou-se que cerca de um milhão de pessoas capacitadas nos PMAs viviam e trabalhavam em nações industrializadas, o que equivalia a um êxodo intelectual de 15%, pois o número estimado de população com formação desse grupo de países chegava a 6,6 milhões. Nas demais nações em desenvolvimento essa fuga de cérebros era inferior, chegando a apenas 8%. Com relação às remessas que os emigrantes enviam, a Unctad admite que se converteram em uma importante fonte de divisas para alguns PMAs. Entretanto, observa que, no geral, se investe no consumo, e que grande parte dele é de bens importados. Essas entradas de dinheiro não parecem contribuir muito para o crescimento econômico de longo prazo dos PMAs, conclui a agência da ONU.

O informe examina por último o comportamento da ajuda oficial estrangeira destinada ao desenvolvimento da ciência, tecnologia e inovação nos PMAs. Essa contribuição foi muito menos efetiva do que deveria ser porque não reconhece a função essencial que a mudança tecnológica desempenha em um crescimento econômico sustentável, afirma a Unctad. Supachai compartilha dessa critica do documento. A ajuda oficial externa foi proveitosa no plano social, afirmou. Além disso, objetou que entre 2003 e 2005 os PMAs tenham recebido US$ 1,3 bilhão para melhorar sua governabilidade, enquanto simultaneamente, e pelos mesmos canais, chegaram apenas US$ 12 milhões para projetos de extensão agrícola. Por esse motivo, o secretário da Unctad reclamou das nações industriais que concedam uma ajuda mais balanceada.

Ao longo de todo o informe, a Unctad desenvolve sua idéia de que a menos que os PMAs adotem políticas de convergência para se recuperarem de seu atraso tecnológico, continuarão defasados nessa área e enfrentarão uma marginalização econômica ainda mais acentuada. A Unctad relatou que desde a década de 90 a maioria dos PMAs liberou de maneira acelerada e profunda o comércio e os investimentos. Mas, a liberalização sem aprendizagem da tecnologia acabará em aumento da marginalização, previu a agência.

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Filosofia e Sociologia devem apresentar os clássicos aos estudantes

Alan Meguerditchian
Publicado pelo
Aprendiz em 23/07/07

"Existem alguns textos com os quais não precisamos concordar, mas sem os quais não conseguimos pensar. Devemos colocar a serviço da educação dos nossos jovens os textos clássicos de Sociologia e de Filosofia". A fala é do filosofo e professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), Emanuel Appel, que participou do 1º Encontro Nacional sobre Sociologia e Filosofia, em São Paulo.

O encontro teve como principal motivação a inclusão das duas ciências como disciplinas nas escolas brasileiras de Ensino Médio, conforme o Parecer nº 38, assinado pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), em julho de 2006. A Sociologia já foi matéria obrigatória entre 1925 e 1942. Depois desse período, várias escolas continuaram com a disciplina, mesmo sendo optativa. Enquanto isso, o governo nunca exigiu o ensino de Filosofia.

Segundo Appel, a presença das duas ciências no Ensino Médio traz a possibilidade dos professores resgatarem nos estudantes um espírito crítico, que há muito tempo foi submerso pela indústria cultural. "A indústria cultural traz tudo pronto e os jovens na maioria das vezes não discutem. Devemos modificar isso e tanto a Sociologia quanto a Filosofia são instrumentos de questionamento", disse.

Para que isso aconteça, o melhor método é levar aos estudantes leituras de primeira mão. "Concordo que não devemos aplicar a bibliografia de graduação no Ensino Médio, mas o ensino da Filosofia não pode ser separado da leitura dos pequenos textos dos grandes filósofos", explicou Appel, dizendo que a regra também deve ser aplicada para a Sociologia.

Apesar do otimismo de Appel, a situação do Ensino Médio brasileiro não é muito propício para sonhos. "O Ensino Médio vive uma crise de identidade, de eqüidade e qualidade. Uma a cada três escola não tem biblioteca. Faltam professores de Química e Matemática. Apenas 8% dos professores de Física têm formação específica de licenciatura na área", lembrou alguns dados o vice-presidente do Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed). "É um desafio monumental", completou.

"O único dado positivo em relação ao Ensino Médio é que 85% dos jovens estão matriculados em escolas públicas. O Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica (Fundeb) pode melhorar a situação, pois incluiu o Ensino Médio na divisão dos recursos. Mesmo assim, devemos observar o passado e verificar o que fizemos de bom e de ruim. O Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental (Fundef) - que antecedeu o Fundeb - , por exemplo, colocou as crianças na escola, mas que escola é essa?", avaliou a coordenadora do Ensino Médio da Secretaria de Educação Básica do Ministério da Educação (MEC), Lúcia Lodi.

Mesmo diante de tantos desafios, Appel mantém a posição de que os clássicos devem ser levados aos jovens estudantes. "Vai demorar para observarmos os resultados, mas devemos convocar os alunos para encarar a perplexidade dos conceitos. Não devemos subestimar a capacidade crítica dos jovens estudantes", conclui o filósofo.

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Mercado de compensação de carbono precisa ser regulado

Reuters
Publicado pelo
Carbono Brasil em 23/07/07

A compensação de carbono desempenha um importante papel na luta contra as mudanças climáticas, mas essa atividade precisa de um código de prática, afirma o comitê ambiental dos parlamentares britânicos.

Compensar voluntariamente é diferente de comprar compensações de carbono em esquemas compulsórios, como o Protocolo de Kyoto, e envolve indivíduos e companhias que pagam a empresas para cortarem emissões a seu favor.

"Sem transparência, consumidores terão pouca confiança para comprar ou negociar emissões – e o mercado necessita dessa confiança para crescer", alerta o relatório divulgado nessa segunda-feira (23) e preparado pelo Comitê de Auditoria da Câmara Ambiental dos Comuns do Reino Unido.

"O governo precisa agir rapidamente", enfatiza o documento, ao mesmo tempo em que taxa de muito restritiva uma proposta britânica apresentada recentemente para alinhar o mercado voluntário de acordo com os padrões compulsórios necessários para a negociação por meio de Kyoto.

“Essa restrição desnecessária pode afetar seriamente o crescimento do mercado de Reduções de Emissões Verificadas”, avalia o comitê. O relatório acrescenta que o mercado regulado tem rejeitado largamente projetos na África, por exemplo – algo que o mercado voluntário poderia remediar.

Para ilustrar a necessidade de padrões, é citado um projeto em que plantas morreram por falta de água, quando, na verdade, deveriam ter absorvido dióxido de carbono e compensado as emissões de gases causadores do efeito estufa provenientes dos shows da banda de rock Coldplay.

Outra preocupação é a de que a compensação de carbono tem sido muito usada como estratégia de marketing pelas empresas – assim, uma empresa pode se dizer neutra em carbono (o que significa que compensa todas as suas emissões) sem, na realidade, mudar de comportamento. Um exemplo são as evidências apontadas no documento de que as emissões de carbono do banco britânico HSBC aumentaram no ano em que a instituição se declarou neutra em carbono – 2005.

As empresas podem ser forçadas a oferecer compensação de carbono aos seus consumidores devido ao grande consumo de energia, explica o relatório, e isso provocou desprezo pelos esforços realizados pela companhia aérea British Airways até agora. “Desde que este esquema de compensação com Cuidado Climático foi lançado em 2005, a British Airways tem encorajado a compra de apenas 1,6 mil toneladas de compensação de emissões em média por ano – o equivalente a quatro vôos de ida e volta a Nova York, aproximadamente, informa.

A aposta na compensação voluntária tem sido muito bem sucedida, especialmente para empresas como Google, Yahoo, Marks and Spencer e News Cororation, que dão passos para a neutralização de carbono, com estimativas variando entre o dobro e o triplo das negociações do último ano.

O relatório também chama atenção para um relaxamento das regras dos Mecanismos de Desenvolvimento Limpo (instrumento para comércio de créditos de carbono por meio do Protocolo de Kyoto), dizendo que estava muito restritivo, burocrático e caro, assim como muito favorável a grandes projetos industriais.

Traduzido por Sabrina Domingos

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Saúde: Deficientes auditivos querem mais acesso a novas tecnologias

Alicia Fraerman, da IPS
Publicado pela
Envolverde em 24/07/07

O desenvolvimento técnico ajuda a participação social das pessoas surdas, mas são necessárias mais medidas para que todas tenham acesso às novas tecnologias, sobretudo nos países pobres, destacaram participantes do XV Congresso da Federação Mundial de Pessoas Surdas (FMPS). Do encontro, que aconteceu entre os dias 16 e 22 deste mês em Madri, participaram mais de dois mil representantes de deficientes auditivos de uma centena de nações, e sua principal reivindicação foi que tenham reconhecido e facilitado o direito de se comunicarem em suas linguagens de sinais que, segundo afirmaram, difere de país para país, mas todas são válidas.

Ontem, com reconhecimento desse setor da sociedade, uma intérprete traduziu por meio da linguagem de sinais a conferência sobre os direitos da cidadania pronunciada em outro encontro pela primeira vice-presidente do governo espanhol, a socialista Maria Teresa Fernández de la Veja. A ministra havia aberto o congresso, que se desenvolveu sob o lema “Linguagem de sinais, questão de direitos”. O presidente da FMPS, Markku Jokinen, disse que “no mundo existem cerca de 130 linguagens de sinais, que refletem uma diversidade cultural importante à qual durante séculos negou-se direitos nas áreas da saúde, cultura e legalidade”.

As pessoas surdas ou com deficiências auditivas devem enfrentar muitos problemas, na maioria provocados por sua incapacidade de se comunicar como os demais. Conchi García, técnica da Federação de Pessoas Surdas da Comunidade de Madri, deu como exemplo o que ocorre quando no trem, avião ou aeroporto é divulgado um comunicado pelo serviço de som. As pessoas surdas irão reagir pelas demais, correndo, amontoando-se sem saber se é o caso de acidente, atentado ou mudança de direção. García admitiu que é difícil que em todos esses casos haja pessoas atuando como interpretes, mas, acrescentou, “se no trem, metrô e nos aviões há telas transmitindo publicidade por que não incluir também mensagens na linguagem de sinais?”.

A responsável pela Comissão de Direitos Humanos, Lingüísticos e Cultura do congresso, a neozelandesa Kim Robinson, destacou que “a comunicação é um direito humano fundamental. Por isso a linguagem de sinais é uma questão de direitos humanos, não uma simples ferramenta”. Jokinen afirmou que “sem direitos lingüísticos tampouco temos direitos humanos, portanto, o reconhecimento das línguas de sinais é uma pré-condição necessária para garantir a segurança destes direitos em todo o mundo”.

O especialista finlandês Antti Naike disse que já existem novas tecnologias que favorecem a participação social das pessoas surdas. Mas, alertou que “é preciso aplicá-las” sem que o lugar de residência seja um obstáculo. Naike considerou que um importante passo adiante seria fomentar o intercâmbio e a cooperação entre os países, tarefa em que as administrações públicas devem assumir sua responsabilidade. Na Espanha já se registrou algum avanço. Um deles foi uma lei aprovada por consenso no Congresso dos Deputados, no dia 28 de junho, que impõe a presença de interpretes nos atos públicos, a garantia do direito à escolha da língua, incluindo a de sinais, nas escolas, e a aplicação de meios de apoio alternativos, entre eles os códigos visuais. Além disso, a lei determina a criação do Centro de Normalização Lingüística, do qual participarão as organizações que agrupam as pessoas com problemas de audição.

Ao abrir o congresso, Fernández de la Veja disse que “uma sociedade, para ser justa, tem de ser, em primeiro lugar, decente e combater práticas coletivas que comportam formas intoleráveis de discriminação, o que é um pressuposto obrigatório de igualdade e de toda a democracia”. Um fato considerado discriminatório acontece nas escolas onde não se leva em conta a identidade das pessoas surdas. A psiquiatra holandesa Ines Sleebom destacou que o sistema educacional deve tê-la em conta e os centros de saúde precisam criar serviços especializados de saúde mental, com pessoal surdo e profissionais que conheça a linguagem de sinais.

Sleebom destacou que “é fundamental o diagnostico precoce da surdez para garantir um adequado desenvolvimento emocional e cognitivo na infância”. A responsável pela seção científica do congresso, Amparo Minguet, disse que esta reunião permitiu avançar seriamente no reconhecimento das linguagens de sinais de diferentes países e compartilhar experiências em educação, cultura, ciência e novas tecnologias. Com um telefone vibratório nas mãos, se expressou por meio de sinais e com o apoio de uma intérprete disse à imprensa que “graças a isto estou facilmente em contato, recebendo textos e acompanhando meu correio eletrônico”.

David Hoareau, um professor que acompanhado por 20 alunos viajou ao congresso desde a ilha Reunião, um território sob domínio francês no leste da África, recordou que os surdos têm fama de isolados. “Mas este encontro demonstrou que somos capazes de sair para trocarmos experiências e nos comunicarmos”, afirmou. Paralelo ao congresso, aconteceram diversas exposições e um espetáculo teatral com a participação de atores surdos. Também se apresentou o grupo de hip-hop finlandês Singmark, que utiliza a linguagem de sinais. (IPS/Envolverde)

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Além de terem mais dinheiro, ricos se dizem mais felizes

The Economist
Publicado pelo
Valor Online em 24/07/2007

Todo verão, o mundo tem sua temperatura duplamente aferida - uma por climatologistas, literalmente; outra pelas pesquisas de opinião, metaforicamente. Neste ano, duas novas pesquisas trouxeram muitos dados novos sobre como o mundo se sente. E esses dados, dizem os pesquisadores, lançam uma luz inesperada sobre a relação entre riqueza e felicidade.

Desde que os pesquisadores da Universidade da Pensilvânia descobriram que milionários americanos que moram em mansões são só marginalmente mais felizes que guerreiros massai que vivem em choupanas, vários economistas vêm minimizando o nexo entre dinheiro e satisfação. Num livro de 2005, Richard Layard, estudioso britânico, diz que ambiente familiar, emprego e saúde são, todos, fatores mais influentes para a sensação de bem-estar do que a renda. Países ricos poderiam ser mais felizes que os pobres, mas, além de determinado limiar, a relação enfraquece, e mais dinheiro não compra mais felicidade, diz a teoria.

As novas pesquisas lançam alguma dúvida sobre essa escola de pensamento. Os dados coletados dão maior peso ao argumento segundo o qual crescimento e renda desempenham um grande papel na substancial melhoria da satisfação das pessoas com a vida e de sua atitude em relação ao futuro.

Uma dessas pesquisas diz ser a primeira genuinamente mundial. Denominada Pesquisa Mundial de Opinião e realizada pelo instituto Gallup, cobriu 130 países, muitos dos quais avaliados pela primeira vez. Outras pesquisas são de menor abrangência. A respeitada Pesquisa Mundial sobre Atitudes, do Pew Research Centre, atua anualmente em pouco mais de 50 países. A Pesquisa Mundial sobre Valores, coordenada pela Universidade de Michigan, é mais abrangente (mais de 80 países), porém só é atualizada a cada cinco anos.

Os pesquisadores da Gallup fizeram uma pergunta padrão: qual seu grau de satisfação com a vida, numa escala de zero a dez? Em todos os lugares ricos (EUA, Europa, Japão, Arábia Saudita), a maioria das pessoas diz estar feliz. Em todos os lugares pobres (especialmente na África), as pessoas dizem que não estão. Nas palavras de Angus Deaton, da Universidade Princeton, o mapeamento dos resultados assemelha-se a uma representação gráfica da distribuição da renda no mundo (ver mapa). Há algumas exceções: Geórgia e Armênia, embora não estejam entre os países mais pobres do mundo, são dois dos 20 mais infelizes. Costa Rica e Venezuela, embora sejam de renda média, estão entre os 20 mais felizes. Os brasileiros parecem um pouco mais felizes do que justificável por seu nível de renda.

Mas, em geral, os níveis declarados de felicidade estão correlacionados com a riqueza. O padrão parece se repetir também dentro das fronteiras de cada país. Os americanos ricos são mais felizes do que os pobres; os brasileiros ricos são mais felizes que os mais pobres.

A outra nova pesquisa, do Ipsos, confirma o quadro. Em primeiro na sua lista de 20 países ordenados por felicidade está a rica Holanda (segundo o Gallup, é a Finlândia); a China está na lanterninha. A pesquisa perguntou ainda sobre confiança no futuro, se acredita que seus filhos terão melhores condições de vida do que você, e assim por diante. Independentemente da renda corrente dos países, verificou-se uma íntima correlação entre crescimento do PIB e otimismo, sendo que China, Índia e Rússia revelaram-se os mais otimistas; França, Alemanha e Itália se disseram os menos otimistas. Se as duas pesquisas estão corretas, os chineses são bem infelizes agora, mas esperam uma melhoria espetacular.

A pesquisa do Ipsos não é rigorosamente comparável à do Gallup, porque (pela primeira vez) faz perguntas a pessoas que o Ipsos denomina "líderes e formadores de opinião pública", em sua maioria empresários e políticos. Esse grupo encara o mundo de modo distinto e vê as coisas de um ângulo mais favorável do que a população em geral. A discrepância entre a percepção da elite e do povo em geral é especialmente grande na Rússia, Índia e China. Nesses países, a atitude das pessoas mais bem situadas é muito mais otimista que a da população. Na Europa e nos EUA, as atitudes da elite estão praticamente alinhadas com (ou são mais pessimistas que) as da sociedade em seu todo.

Para sermos justos, é preciso admitir que os economistas dedicados ao estudo da "nova felicidade", como Layard, nunca afirmaram a total inexistência de uma relação entre dinheiro e bem-estar. O que disseram é que, depois que as pessoas escapam da pobreza, o nexo é fraco e pode ser totalmente inexistente acima de certo ponto (nas palavras de um expert britânico, "hoje está provado, sem qualquer dúvida", que mais dinheiro "não proporciona maior felicidade, nacional ou individualmente"). A prova disso vem de pesquisas na maioria dos países ricos (como a pesquisa social geral nos EUA), que revela uma felicidade inalterada há décadas, apesar de a renda ter crescido sensivelmente.

Aparentemente, as novas constatações são um contraponto a dados anteriores. Se os países mais ricos se dizem mais "felizes" que os moderadamente ricos, isso sugere não existir um nível quantificável de renda a partir do qual mais dinheiro não proporciona satisfação adicional. Ainda assim, as conclusões mais recentes não invalidam a experiência histórica de determinados países - como os EUA - que ascenderam a níveis mais altos de riqueza sem registrar nenhum aumento geral nos níveis de felicidade declarada.

Mas, se o leitor quiser ignorar o passado e concentrar-se nos níveis de satisfação que os países sentem neste momento, os resultados são, na opinião de Deaton, bem surpreendentes. Ele comparou a pontuação de satisfação registrada pelo Gallup com rendas nacionais baseadas em paridades de poder de compra, e detectou uma correlação muito próxima.

Assim, que conclusões deveríamos tirar da contradição entre essas pesquisas e evidências anteriores? Problemas de definição podem ser responsáveis por parte da explicação. Nessas pesquisas, os entrevistadores registram o que as pessoas relatam, e quando falam de sua "felicidade", as pessoas referem-se a coisas diferentes. É provável que diferenças culturais de entendimento sejam muito maiores quando há 130 países envolvidos.

Outra possibilidade é que "felicidade" seja, na realidade, um indicador de alguma outra coisa, como saúde. Talvez o aspecto central seja que o dinheiro ameniza problemas de saúde, de modo que os ricos são mais felizes do que os pobres principalmente porque sentem-se mais saudáveis. Mas essa não pode ser toda a explicação.

Mais de metade dos 20 países com o mais baixo nível de satisfação com a saúde pertenceram à União Soviética ou estão na Europa Oriental, embora em termos estatísticos pareçam relativamente bem de vida. Em contraste, países africanos muito mais pobres (com incidência muito maior de aids e outras doenças) relatam níveis mais elevados de satisfação com a saúde. Expectativas, ou lembranças, podem estar influindo nas respostas: problemas de saúde num ex-país comunista parecem piores porque as pessoas se lembram, ou julgam lembrar-se, de um passado róseo - uma era de cobertura total pelo sistema público de saúde.

Por último, como evidencia claramente a pesquisa do Ipsos, felicidade e otimismo não são apenas diferentes, pode ser contraditórios. Os chineses estão insatisfeitos, porém, otimistas; os europeus estão satisfeitos agora, mas temem o amanhã. Muitos nexos entre felicidade, renda e otimismo ainda não foram extraídos das pesquisas. Esses novos dados, embora não sejam a última palavra sobre a questão, podem ser úteis para isso.

Tradução de Sergio Blum

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Anvisa e INPI buscam regras para anuência

Josette Goulart
Publicado pelo
Valor Online em 24/07/2007

Gustavo Leonardos, da ABPI, diz que INPI tem se reunido com indústria
Foto Daniela Toviansky / Ciadefoto / Valor

A nomeação de Jorge Ávila como como presidente do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) pelo novo ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, vem em um momento em que há uma forte tentativa de entendimento entre a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e o INPI para que se estabeleçam regras para a anuência prévia na concessão de patentes farmacêuticas. O tema é polêmico desde que o Ministério da Saúde, em 2001, incluiu, por meio de uma medida provisória, o artigo 229-C na Lei de Propriedade Intelectual, prevendo a necessidade de anuência prévia da Anvisa na concessão de patentes farmacêuticas. Desde então nenhuma patente de medicamento é concedida pelo INPI sem antes passar pelo crivo da Anvisa.

Mas o problema é que em muitos casos os dois órgãos divergem. Enquanto o INPI entende que em certos pedidos há requisitos para a concessão da patente, a Anvisa nega a anuência e abre caminho para que os processos cheguem à Justiça. Os dois órgãos já chegaram a trocar farpas publicamente em torno do papel da Anvisa no processo de concessão de patentes, de competência do INPI. A briga se estende desde 2001 e recentemente teve um novo "round": a Anvisa colocou em consulta pública um projeto de resolução que estabelece que as embalagens dos medicamentos genéricos estampem o nome comercial do remédio de referência - ou seja, que traga a marca do remédio que originou o genérico - gerando protestos da indústria farmacêutica.

O presidente do INPI, Jorge Ávila, sempre tentou, pelo menos publicamente, mostrar um tom conciliador, já que a disputa envolve dois órgãos do mesmo governo. Agora os presidentes de ambos estão chegando a um entendimento sobre o assunto e devem estabelecer uma resolução conjunta para criar regras para o processo de concessão de patentes. Ávila, no entanto, não quis comentar o assunto ou dar detalhes sobre a resolução. O presidente da Associação Brasileira da Propriedade Intelectual (ABPI), Gustavo Leonardos, conta que o INPI tem se reunido constantemente com representantes da indústria farmacêutica e com advogados que defendem as multinacionais para discutir temas como a anuência e também as patentes de segundo uso. Leonardos diz que é salutar que o INPI ouça a indústria em um processo de regulamentação mais definido.

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Marca já é concedida em 18 meses no INPI

Josette Goulart
Publicado pelo
Valor Online em 24/07/2007

O engenheiro Jorge Ávila foi confirmado na semana passada como presidente do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) depois de oito meses ocupando o cargo como interino. E assumiu já afirmando que os pedidos de registros de marcas que entrarem hoje no órgão levarão apenas 18 meses para serem analisados - prazo que salta aos olhos se levado em consideração que, quando assumiu a vice-presidência do INPI em 2004, este período era de seis anos. Entidades e advogados contestam os números de Ávila e dizem que o prazo varia entre três e quatro anos ainda hoje. Independentemente da fórmula usada para o cálculo do tempo em que uma marca demora a ser concedida no Brasil, o fato é que em 2007, pela primeira vez em dez anos, os examinadores do INPI analisam mais pedidos de registro do que depósitos que entram.

Os números são relevantes. Entre janeiro e junho deste ano foram depositados pouco mais de 45 mil pedidos e analisadas mais de 126 mil marcas. A última vez que o número analisado foi maior do que o de pedidos foi em 1997. De lá para cá (ver tabela ao lado), os dados estatísticos revelam o descaso com que os governos trataram o órgão, a ponto de deixá-lo marcado pela ineficiência de se conceder uma marca em longos seis anos.

A última edição da Revista da Propriedade Industrial traz publicada a concessão de registros de marcas que foram depositadas em 2003 e 2004 - o que daria subsídio para a conta de que o prazo ainda é de até quatro anos. Mas Ávila explica que os 18 meses podem ser auferidos com a seguinte conta: são hoje 350 mil o número de marcas no estoque do INPI, ou seja, depósitos a serem analisados. Neste ano, a média mensal de análise foi de 21 mil processos. "Divida os cerca de 350 mil que temos de marcas no estoque com os 21 mil de exames mensais e o prazo para analisar todos os pedidos é até menor que os 18 meses", diz Ávila. Ou seja, ainda que as marcas depositadas há três ou quatro anos estejam somente agora sendo concedidas, as que entrarem agora seguem o prazo de 18 meses para análise.

A média mundial está justamente neste patamar e, ao atingi-la, o INPI se torna apto para que o Brasil possa assinar o Protocolo de Madri, que prevê a integração de sistemas para um depósito único de marca que vale em dezenas de países. Mas apesar dos números, as críticas ao INPI ainda são grandes. A grande produtividade dos examinadores, por exemplo, se deve não só à contratação de novos funcionários feita nos últimos meses. Segundo Ávila, isso aconteceu também porque hoje os processos estão todos digitalizados. Mas, de acordo com o presidente da Associação Brasileira da Propriedade Intelectual (ABPI), Gustavo Leonardos, a produtividade aumentou em função do exame simplificado das marcas que está sendo feito hoje - preocupação compartilhada com a candidata à presidência da entidade, Juliana Viegas. Para Leonardos, a instrução de serviços que orienta os examinadores ao exame simplificado traz um potencial de contencioso significativo. Ele cita o exemplo da parte da instrução que diz que fica suspensa a verificação de atividade da empresa que faz o depósito. O artigo 128 da Lei de Propriedade Industrial diz que o registro só poderá ser requerido por empresa que atue no ramo do produto da marca em análise. Ávila diz que de forma alguma a lei está sendo desrespeitada pelo INPI e que apenas não se está exigindo que a empresa comprove seu ramo de atividade. Ou seja, se a empresa mentir, ela é quem estaria desrespeitando a lei.

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Conselho subordinado a Lula ataca governo

Cristiane Agostine
Publicado pelo
Valor Online em 24/07/07

Frei Betto: "É preciso cuidar de alimentar os sofridos famintos, antes de enriquecer os 'heróicos' usineiros", afirma
Foto Israel Antunes/FolhaImagem


Em ataque aberto ao governo federal, o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) divulgou ontem - pelo correio eletrônico da Presidência e pela página do governo - um texto crítico à política nacional de biocombustíveis. A entidade, ligada diretamente ao gabinete do presidente, deu publicidade ao artigo "Necrocombustíveis", de Frei Betto, que ataca a indústria de "agrocombustíveis", por ser "predadora de vidas humanas" e aumentar o preço dos alimentos.

No artigo, o ex-assessor especial da Presidência destaca que o aumento das áreas cultivadas para a produção dos biocombustíveis realça a superexploração dos trabalhadores, o aumento do trabalho escravo e da desigualdade social: "A desnutrição ameaça, hoje, 52,4 milhões de latino-americanos e caribenhos, 10% da população do continente. Com a expansão das áreas de cultivo voltadas à produção de etanol, corre-se o risco dele se transformar, de fato, em necrocombustível - predador de vidas humanas."

No texto, apoiado pelo Consea, Frei Betto escreve que "hoje quem manda é o mercado" e que o governo deveria priorizar fontes de energia alternativa, "antes de transformar o país num imenso canavial e sonhar com a energia atômica." Para o frei dominicano, é preciso "cuidar de alimentar os sofridos famintos, antes de enriquecer os 'heróicos' usineiros." "Vamos alimentar carros e desnutrir pessoas. Há 800 milhões de veículos automotores no mundo. O mesmo número de pessoas sobrevive em desnutrição crônica."

A assessoria da Presidência não quis se pronunciar. Já a assessoria do Consea disse que o intuito da entidade foi o de somente divulgar o artigo de Frei Betto, um dos idealizadores do conselho.

O artigo foi publicado inicialmente na Agência de Notícias da América Latina e Caribe, em 20 de julho de 2007 e reproduzido pela página da Presidência da República (www.planalto.gov.br/consea).

Não é a primeira vez que o Consea assume postura divergente da do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e dá publicidade a isso. A entidade é contra a transposição do rio São Francisco. Entre as críticas, está a de que o projeto é "apressado, dirigido ao agronegócio e não busca o desenvolvimento sustentável do semi-árido." O Consea é presidido pelo pesquisador do Ibase, Chico Menezes, que já defendeu, publicamente, a tese de que o etanol pode transformar o país numa monocultura da cana.

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Tata estréia megacentro de TI de US$ 400 milhões

André Borges
Publicado pelo
Valor Online em 24/07/2007

Ravi Shah, vice-presidente da TCS em Chennai: mais de 25 mil pessoas trabalharão no maior complexo de TI da Índia
Foto Davilym Dourado/Valor

As imagens aéreas da planície verde de Chennai sugerem que ali, nos arredores de uma das principais cidades da Índia, será erguido um enorme resort, um daqueles hotéis de luxo ladeados de piscinas, como os que tomaram conta do litoral nordestino do Brasil nos últimos anos.

As aparências ficam por aí. Com o controle remoto nas mãos, Ravi Shah paralisa o vídeo para apontar qual será o primeiro prédio do complexo Siruseri a entrar em atividade, daqui a três meses. Shah aponta o raio laser para a tela, percorre as imagens de uma animação em 3D, fala com orgulho sobre os detalhes da futura obra, suas dimensões e traços característicos, cenas de um vídeo de marketing explícito, com direito à música indiana de fundo. Mas o senhor Shah tem lá seus motivos para tanta exaltação.

Em outubro, a indiana Tata Consultancy Services (TCS), empresa de tecnologia onde Shah é funcionário há mais de 30 anos, estréia parte das operações daquele que será o maior centro de desenvolvimento de software e serviços de toda a Índia, o Siruseri Technology Park.

Com seus prédios inspirados nos templos indianos, o complexo começou a ser erguido há dois anos, numa área 283 mil metros quadrados. Quando suas obras forem concluídas, em meados de 2009, o centro de serviços terceirizados de informática estará pronto para receber mais de 20 mil funcionários. O projeto total, comenta Shah, que ocupa o cargo de vice-presidente e coordenador da TCS em Chennai, vai receber investimentos de US$ 400 milhões. "É como se estivéssemos construindo uma pequena cidade", disse o executivo, em entrevista ao Valor.

Em outubro, a TCS coloca para funcionar a primeira unidade do complexo. "Vamos começar com 3 mil funcionários", diz Shah, com a mesma facilidade de quem fala em empregar uma dúzia de pessoas. A postura ilustra bem o ritmo indiano de crescimento no setor de tecnologia da informação (TI), principalmente quando o assunto é exportação de serviços. Há quatro anos, a TCS era uma empresa de 30 mil funcionários em todo o mundo, com faturamento de US$ 1,5 bilhão. Hoje são cerca de 60 mil pessoas só na Índia. Se somada a presença que tem em 47 países, o contingente chega a 95 mil empregados diretos. Em seu mais recente ano fiscal, encerrado em março, a TCS faturou US$ 4,3 bilhões.


Shah, que veio ao Brasil pela primeira vez, afirma que o novo centro de serviços da TCS tem também um "traço" latino. Os arquitetos uruguaios Carlos Ott e Carlos Ponce de Leon são os responsáveis pelo desenho do complexo de Siruseri. De alguns anos para cá, diz Shah, a América Latina passou a ser uma prioridade para indianos, não apenas pelo potencial do mercado local, mas principalmente pelo fuso horário muito próximo ao dos Estados Unidos. Hoje quase dois terços das exportações de software e serviços de informática dos indianos são consumidos pelos EUA, segundo a Associação Nacional de Software e Companhias de Serviços (Nasscom).

Com as suas contratações em massa e projetos milionários, a TCS se articula como pode para fazer frente a concorrentes como Accenture, EDS e IBM, que brigam por uma fatia do bolo bilionário de terceirização de serviços de TI, o chamado "offshore", mercado que no ano passado movimentou cerca de US$ 75 bilhões, segundo estimativas do setor.

Há quatro anos no Brasil, a empresa indiana conta hoje com 1,7 mil funcionários no país. Para Shah, a subsidiária tem toda a capacidade de pegar embalo no ritmo asiático. "Hoje temos 2 mil pessoas no Chile, outras 2 mil no Uruguai", comenta. "O crescimento no Brasil também é muito forte. Dobrar a operação em dois anos é algo totalmente possível."

Em setembro, adianta Shah, a TCS Brasil vai inaugurar uma nova estrutura em Alphaville, na Grande São Paulo. O prédio terá capacidade para receber mil funcionários. Até março do ano que vem, a subsidiária pretende contratar mais 600 pessoas. São os primeiros passos da TCS Brasil sem a participação do grupo brasileiro TBA, que até maio passado detinha 49% da operação. Para assumir o controle total da companhia, os indianos pagaram US$ 33,4 milhões ao grupo TBA. Em seu último ano fiscal, a TCS Brasil faturou US$ 66,5 milhões.

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segunda-feira, 23 de julho de 2007

Estatuto da Criança e do Adolescente faz 17 anos

Publicado pelo Portal do Voluntário em julho de 2007

Mais do que uma mudança na legislação, o ECA trouxe ao Brasil uma nova forma de se perceber e respeitar a criança e o adolescente, sem distinção de raça, classe social ou qualquer forma de discriminação, tornando-os sujeitos de direitos. O Estatuto também criou mecanismos de proteção nas áreas de educação, saúde, trabalho e assistência social.

Apesar dos inúmeros projetos ligados a ele, o Estatuto da Criança e do Adolescente ainda é desconhecido para a maioria das pessoas. O ECA ou Lei 8.069 foi aprovado no dia 13 de julho de 1990, por meio de um movimento da sociedade civil organizada que reivindicou a cidadania de crianças e adolescentes.

O ECA é dividido em dois livros: o Livro I trata das regras para vida, educação, saúde, liberdade, dignidade, convivência familiar, esporte, cultura e lazer, trabalho, prevenção à ameaça e violação de direitos, compreendendo os direitos das crianças desde a gestação e adolescentes até 18 anos. O Livro II, com 181 artigos, enfoca as normas a serem utilizadas para corrigir tais desvios, assim como indicação de acesso ao Estado brasileiro, para garantir esses direitos.

Para garantir que os direitos das crianças e adolescentes sejam respeitados, foi criado o Conselho Tutelar, órgão municipal composto por cinco membros, eleitos pela comunidade, que acompanham os menores e decidem qual a melhor medida de proteção.

Conhecendo o ECA
Muitos órgãos públicos e instituições funcionam como ferramentas de conhecimento e/ou utilização do ECA. Previsto no Estatuto, o Conselho Nacional da Criança e do Adolescente/Conanda tem a finalidade de deliberar e controlar a política de promoção e defesa dos direitos da criança e do adolescente no nível federal. Para divulgar e discutir ainda mais o assunto, o Conanda realizará, ao lado da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, entre os dias 3 e 6 de dezembro, em Brasília, a VII Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, que, este ano, terá o tema: Concretizar direitos humanos de crianças e adolescentes: investimento obrigatório.

Projeto da Fundação Telefônica e organizado pelo Centro de Empreendedorismo Social e Administração (Ceats), o Portal Pró-menino/Risolidária tem a missão de atingir os profissionais da área de proteção aos direitos da criança e do adolescente com conteúdo sobre o tema. Além da internet, o projeto também organiza capacitação de profissionais da área ou estudantes nos temas ligados ao Estatuto, como o “ECA no Escola da Família”. O Portal Pró-menino também organiza um concurso anual, o Concurso de Causos do ECA, em que histórias exemplares de aplicação do ECA são premiadas.

Assim como o Portal Pró-menino, a Fundação Abrinq também tem a missão de promover a defesa dos direitos e o exercício da cidadania da criança e do adolescente. Todo o trabalho da Fundação, que é uma organização “amiga da criança”, é pautado na Conveção Internacional dos Direitos da Criança (ONU, 1989), Constituição Federal Brasileira (1988) e Estatuto da Criança e do Adolescente. Atualmente, a Fundação Abrinq beneficia milhões de crianças e adolescentes por meio de seus programas, além da ajuda de muitos parceiros. Conheça melhor o trabalho da Fundação Abrinq na entrevista de Sandra Faria, Superintendente da Fundação.

Garantia de informação
Parceria entre organizações de comunicação que atuam na área, a ANDI, Agência de Notícias dos Direitos da Infância, surgiu em 2000 com o objetivo de investir na formação de uma cultura jornalística que investigue e priorize as questões relativas ao universo infanto-juvenil, sempre sob a ótica dos seus direitos. Em 2005, a Rede ANDI Brasil, em parceria com o Conanda e a Secretaria Especial de Direitos Humanos, realizou o projeto “Qualificando a mídia em favor dos direitos da criança e do adolescente”, com o intuito de expandir a sensibilidade e compreensão dos comunicadores e orientá-los na abordagem dos temas relacionados ao ECA e os Conselhos Tutelares.

Em 2006, a Rede concentrou sua atuação no projeto “Comunicação para o Desenvolvimento, que reuniu uma série de ações focadas na região do Semi-árido, uma das realidades de maior desafio para a garantia dos direitos da infância e da adolescência dos brasileiros.

Criada em 1996, a Rebidia, Rede Brasileira de Informação e Documentação sobre Infância e Adolescência, é um instrumento a serviço de todos os interessados no assunto, com ênfase especial nos conselheiros e formuladores de políticas públicas, operadores e gerentes de projeto para o setor. Trata-se de um sistema descentralizado de documentação e informação sobre infância e adolescência, gerenciado por uma rede de organizações não-governamentais. O objetivo é a criação de múltiplos canais de acesso à informação e documentação, bem como promover a capacitação, por meio de um processo de educação contínua, dos seus usuários.

Não bata, eduque!
Em 2005, a Rede Não Bata, Eduque foi criada no Brasil com o objetivo de erradicar a prática dos castigos físicos e humilhantes contra as crianças. Neste ano, o trabalho se intensificou e foi lançada uma Campanha Nacional, onde uma série de materiais de sensibilização e educativos como vídeos, anúncios, spots de rádio e folders serão veiculados para incentivar os pais e responsáveis a refletir sobre suas atitudes e mostrar as conseqüências que os castigos físicos e humilhantes trazem para as crianças, família e sociedade.

A campanha tem a apresentadora Xuxa Meneghel como sua porta-vez. A sua fundação, a Fundação Xuxa Meneghel, é uma das organizações sociais que integram a Rede Não Bata, Eduque. Além dela, a ANDI, a Comunicarte, o Fórum Nacional DCA, a Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, a Fundação Abrinq, o Projeto Proteger, o Promundo e o Save the Children Suécia também fazem parte dessa iniciativa.» Entenda mais sobre Conselho Tutelar» Telefones e endereços úteis» O importante trabalho dos Conselhos Tutelares

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Os caminhos do dinheiro usado em iniciativas sociais

Rita Monte
Publicado pelo
Mapa do 3º Setor

“Hoje a única área de financiamento do ‘Terceiro Setor’ em franca expansão é a venda de produtos e serviços”. Se você é gestor de uma organização ou projeto social, já deve ter pensado nessa frase. Quem a diz é Fernando Rossetti, secretário-geral do Gife, ao falar sobre a origem do dinheiro que financia ações do campo social – de onde vem ou de onde deveria vir? Não sem crítica, Rossetti apresenta um cenário de mercado para a sociedade civil e o chamado “Terceiro Setor”, ao enxergar “um momento darwinista para o setor: as ONGs mais fortes sobreviverão, e elas necessariamente são as profissionalizadas. Para uma organização sem fins lucrativos sobreviver, ela é obrigada a ter um plano de negócios, se não ela vai quebrar. A sociedade civil transformou-se em um mercado – costumo dizer, ironicamente, que é um mercado do bem”, completa Rossetti.

O panorama colocado carrega o desenrolar da sociedade civil organizada no Brasil, trazendo um conceito cada vez mais presente entre dirigentes de organizações sociais e financiadores: a auto-sustentabilidade. Em um movimento de fragilização do modelo tradicional de financiamento do campo social, que colocava fora da organização as principais fontes de recursos, a criação de projetos de geração de renda parece surgir como “a” solução para a sobrevivência das organizações sem fins lucrativos – ou, como diz a lei civil, com fins não econômicos, como frisa Francisco Galdino, superintendente da organização mineira Fundação Projeto Sorria, “porque lucro temos que ter, para ser revertido para a própria organização”.

Fazendo um paralelo com o desenvolvimento do campo social no país desde a década de 90 – especialmente tocante às fontes de recursos –, Galdino conta a história da Fundação Projeto Sorria, organização que presta serviço gratuito de prevenção e ortodontia a crianças de zero a 7 anos, tendo atendido mais de 7 mil crianças e suas famílias e que, em 16 anos de existência na cidade de Ouro Preto, transformou sua visão sobre a dependência com relação a financiadores. Galdino começa:

“O maior financiador, por anos, foi o Poder Público local, que subvencionava a Fundação com um valor mensal destinado a cobrir não só o custo do Projeto Sorria, mas o próprio custeio institucional – temos a despesa mensal de R$ 60 mil para pagar o salário de 43 funcionários e manter 8 unidades de atendimento de boa qualidade. Com o tempo, avaliamos que a Prefeitura alterava a política de ‘doar’ de acordo com o ponto de vista do governante: ficamos dependentes dessa situação – a subvenção chegou a ser da ordem de 60% do nosso orçamento. E isso não podia mais continuar.
Em 2007, começamos a mudar o pensamento: conversamos com a Prefeitura, mostrando que a ONG presta serviço. Como a Fundação cumpre seu dever social realizando ações para a comunidade, nada mais justo que receber dinheiro por isso. Então, definimos valores para essas ações (valores, claro, abaixo dos praticados pelas iniciativas privadas) e fizemos um contrato administrativo de prestação de serviço. Prestamos um trabalho e recebemos por ele”, relata Galdino.

Fernando Rossetti expande esse cenário e atesta as mudanças nas relações sociedade civil/Estado no Brasil que, atualmente, permitem contratos desse tipo: “de 1990 para cá, essas relações se transformaram: hoje o Estado se relaciona financeiramente com a sociedade civil associando-se ao ‘Terceiro Setor’ na execução de políticas públicas, como o caso do Comunidade Solidária, do Fome Zero”, explica.

Além de ter oportunidade de mudar a qualidade da relação com seu principal financiador – a Prefeitura de Ouro Preto –, a Fundação Projeto Sorria investiu em um negócio próprio. Galdino continua:

“Quando detectamos que as empresas também mudaram sua política de financiamento – passaram de doações para aproveitamento dos incentivos fiscais destinados a projetos específicos –, ficamos alertas. No fim de 2005 começamos a pensar em algo que a Fundação pudesse fazer para ser auto-sustentável. Diante dessa situação de vulnerabilidade frente aos financiadores – estávamos sempre nas mãos de alguém para continuar nossas atividades –, fomos premiados por um empresário local com a idéia de montar um negócio: produção e venda de produtos de higiene pessoal e cosméticos. A idéia era boa: os sabonetes são produto de alto valor agregado, vendem bem em uma cidade turística, têm o potencial de levar o nome de Ouro Preto para fora, sem falar que quando o produto é feito por uma ONG, as portas se abrem.... Fizemos um plano de negócio que prevê tudo, até exportações para a Europa, realizamos campanha publicitária (desenvolvemos um selo para indivíduos e empresas consumidoras – chamamos nossos consumidores de “parceiros”) e mostramos para o comércio e para as indústrias locais que aquele produto não almeja o lucro para as pessoas da Fundação, mas que reverte para o sustento da própria organização. Na fábrica geramos 7 empregos diretos, mais 3 a 4 estágios em acordo de cooperação técnica com Universidade Federal de Ouro Preto – alunos e professores da faculdade de Farmácia são os responsáveis pelo controle de qualidade de nossos produtos. Em até 4 anos, a idéia é sermos auto-sustentáveis, embora não veja que apenas nosso projeto de geração de renda seja o responsável por nos manter – mas ele será a principal fonte”, finaliza Galdino.

A Fundação Projeto Sorria é um bom exemplo de organização que almeja e caminha para um lugar de maior auto-sustentabilidade. Mas o que implica ser uma organização auto-sustentável? Haveria sombras nessa condição? Daniela Nascimento Fainberg, fundadora do Instituto GerAção e coordenadora do Programa Nova Geração, voltado ao desenvolvimento pessoal e social de jovens privilegiados, traz alguns elementos que podem passar despercebidos no debate, e pondera:

“Não acredito que toda organização da sociedade civil deva ser auto-sustentável, se auto-sustentabilidade significar desnecessidade de recursos externos. Nesse sentido de gerar os próprios recursos, acredito que a organização deve depender de outros recursos, inclusive dos externos: se a organização existe na sociedade, se sua causa é de fato importante, então não só ela deve contribuir para que sua missão seja cumprida. Cabe à organização mostrar a relevância de seu trabalho para que a sociedade possa cobrá-la. A participação de diversos atores no orçamento da organização, além de ser financeiramente saudável e importante, é essencial para aproximar esses sujeitos da organização e viabilizar a própria participação desses atores na sociedade. Além do que, auto-sustentabilidade muitas vezes pode se tornar um isolamento. E aí surge uma outra questão: a não-colaboração entre as organizações sociais. Isso pode advir de uma ‘concorrência’ pelos mesmos recursos, mas uma organização social deveria pensar em qual sua relevância para aquilo que lhe é único, e não seguir a linha do ‘quanto mais organizações sociais no Brasil, melhor’: uma organização pode estar duplicando o trabalho de outra”, acredita Daniela.

Para a gestora, sustentabilidade e auto-sustentabilidade têm um significado mais amplo que o que tende a se colocar num contexto de mercado (concorrência por recursos, enxugamento de fontes, desenvolvimento de negócios próprios). Para ela, “sustentabilidade não diz respeito apenas à dimensão da sustentação financeira de uma organização, mas também à capacidade de desenvolvimento e revisão constante de seu projeto institucional. É uma combinação da capacidade da organização social de obter receitas ‘próprias’ com a de acessar fontes de financiamento públicas, privadas e não-governamentais nacionais e internacionais. Ao falar em auto-sustentabilidade, também, entramos em uma discussão anterior sobre qual é a função da organização: ao identificá-la, podemos enxergar se um negócio próprio cabe ou não”, comenta. Seguindo essa linha de raciocínio, Daniela inclui na construção da sustentabilidade o fator da qualidade das relações com financiadores externos e o que isso pode dizer sobre o potencial de transformação da realidade social. E muda o lugar de onde enxerga a sustentabilidade das organizações sociais, agora falando a partir de uma distância, promovida por ambos os lados, entre doador e organização beneficiária. Daniela pontua:

“Muitas vezes vejo no novo doador impaciência e até uma certa arrogância (por estar na lógica do mercado, com muito mais ferramentas, com modelos eficientes de gestão, querendo resultados rápidos etc). Mas, também, vejo uma certa desconfiança legítima. Afinal, quem acredita as organizações da sociedade civil? Há iniciativas isoladas e louváveis, como o Mapa do Terceiro Setor do CETS, o Prêmio Bem Eficiente, mas, em geral, falta credibilidade das ONGs frente à população – e por quê frente ao doador isso seria diferente? Por essa razão vejo nas organizações sociais um papel de educar esse doador, mas parece que esse lado ainda é frágil. Ouço muito a fala ‘quero uma relação mais duradoura com o financiador, para fazermos juntos’, mas o que a organização faz para isso? Pede recursos, apresenta relatórios e resultados e, de vez em quando, aparece no escritório do doador? “, provoca Daniela. E arremata:

“Esse lado de educar o doador é muito novo. Muitas vezes o doador não quer, mas também, muitas vezes, quem não quer esse papel é a própria organização beneficiada. Para mim, se quisermos realmente transformar algo, a grande chave está na relação da organização beneficiária com o doador, e vice-versa. Do lado do doador, se só pensar em resultados a curto prazo e quantitativos, não se muda o status quo de ninguém. E do lado da organização social, ela deve ter essa leitura: ‘o que eu dou em troca desse recurso? O doador faz isso porque é bonzinho?’. Se queremos que a realidade realmente mude, devem haver esforços conjuntos da organização com seus doadores e com outras organizações semelhantes tanto no sentido de gerar credibilidade para o trabalho realizado (pensando em modos de monitorar, em que tipos de resultados querem, em como o trabalho pode ser mais bem realizado) como no sentido de impactar melhor a realidade trabalhada. Por que se for para manter o que temos....”, finaliza, reticente.

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Universidades brasileiras investem no Second Life

Stela Campos
Publicado pelo
Valor Online em 23/07/07

Mais de 100 instituições de ensino já estão funcionando no Second Life, ambiente virtual tridimensional na internet onde as pessoas criam suas representações visuais e vivem simulações da vida real online. E não se trata apenas de escolas novatas, capitaneadas por jovens empreendedores acostumados ao convívio em 3D. Estão neste novo mundo de " faz de conta", que já recebe investimentos e promove negócios de verdade, nomes consagrados como Harvard, Berkeley, Oxford, Insead, entre muitas outras. Agora, as escolas brasileiras também começam a ingressar nessa aventura "high tech" com a ambição de recriar o modelo de aprendizagem tradicional.

As primeiras a fincarem suas bandeiras nesse universo virtual foram a Universidade Presbiteriana Mackenzie e a Universidade Anhembi Morumbi. O Senac entre em cena oferecendo seus primeiros cursos a partir do próximo dia 27. Já a Universidade de São Paulo e a PUC-SP anunciam para agosto um plano ousado. O lançamento do primeiro espaço público no Second Life. A Cidade do Conhecimento 2.0 reunirá projetos educacionais, ambientais, culturais e empreendimentos tecnológicos.

Há quem diga que ainda é cedo para prever a revolução que um ambiente em 3D como o Second Life pode ocasionar ao ensino. Mas, sem dúvida, algumas mudanças já estão em curso. Para Solange Giardino, coordenadora de informática na educação da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o ensino em ambientes tridimencionais já representa um avanço em relação ao que é usualmente oferecido no ensino online. "O fato de você se ver presente na sala de aula com seu avatar (representação humana criada pelo usuário) e poder interagir com os colegas e professores, colabora para um maior envolvimento dos alunos", acredita. Como em outros cursos na internet, nas aulas no Second Life existe o bate-papo e a correção imediata dos exercícios. "A vantagem é que tudo pode ser gravado ou fotografado", diz Solange.

Mas as possibilidades de inovação no aprendizado em ambientes virtuais hoje ainda são limitadas. "No futuro, o aluno que quiser saber sobre a Primeira Guerra Mundial poderá se teletransportar para uma trincheira e interagir com os personagens da História", diz Cesar Taurion, gerente de novas tecnologias da IBM. "Por enquanto, os cursos ainda simulam a maneira tradicional de ensinar, pois o sistema não é tão sofisticado", diz. "Mas não devemos subestimar o que virá no longo prazo". Sua empresa foi uma das primeiras a comprar "terras" no Second Life na época de seu lançamento em 2003, mas hoje está reticente quanto ao progresso dos negócios nessa plataforma. "Estamos num processo de aprendizado sobre essas novas possibilidades. Quando a internet começou em 1994 também não sabíamos onde iríamos chegar."

Fazer uma réplica das salas de aula tradicionais no Second Life é perder a parte mais divertida do novo ambiente virtual. "É preciso transformar o conteúdo e a narrativa, não fazer uma mímica do mundo real", diz Gilson Schwartz, diretor da Cidade do Conhecimento da USP. "Imagine poder ensinar cidadania fazendo com que os alunos experimentem viver um dia como negros ou como outras minorias", diz. "É preciso explorar esse salto cognitivo que é a representação digital".


Para quem ainda não se aventurou pelo Second Life, a experiência se assemelha a uma participação em um jogo em 3D. Pode ser fascinante ou traumatizante, dependendo do grau de familiaridade do usuário com as ferramentas usadas em programas de relacionamento pela internet como Orkut ou MySpace. Tornar-se um avatar é bem simples para quem costuma jogar no computador. Os menos habituados a esse universo podem apanhar um bocado, principalmente para aprender a usar os comandos que o "teletransportarão" para os campi virtuais das universidades. Uma forma simples de acessá-los é clicar direto nos links localizados nos sites das próprias escolas.

Em muitas escolas do Second Life, como Harvard, o avatar tem a possibilidade de passear virtualmente pela réplica do prédio da universidade. Pelo campus, acessa quadros que o redirecionam para páginas específicas no site da escola. A possibilidade de frequentar ambientes muito próximos da realidade, intangíveis no dia-a-dia, acaba sendo um atrativo a mais para as mais de 8 milhões de pessoas que já ingressaram, pelo menos uma vez, no Second Life desde seu lançamento em 2003. Seu criador, o americano Philip Rosedale, hoje comanda a Linden Lab, empresa criada para administrar o site, que movimentou em junho, US$ 6,8 milhões. A versão em português do Second Life foi lançada no país há pouco mais de três meses e estima-se que já tenha sido utilizada por 300 mil pessoas.

A Universidade Mackenzie está apostando nesse fascínio dos brasileiros por sites de relacionamentos que se assemelham ao mundo real para atrair futuros alunos. Até o fim do ano, deve lançar uma réplica virtual do prédio da escola localizado no bairro de Higienópolis, em São Paulo. O projeto será dos próprios alunos. Desde que criou seus primeiros espaços no Second Life, em abril, nas chamadas ilhas Alpahville e Copacabana, a universidade já recebeu 15 mil visitantes. Num primeiro momento, ela disponibiliza para os usuários vídeos e displays com orientações sobre profissões e um painel onde ex-alunos são direcionados para uma página onde poderão encontrar antigos colegas.

No futuro, o Mackenzie pretende oferecer aulas, mas antes está investindo na preparação dos professores. Cerca de 200 dos 400 docentes da instituição deverão ser treinados nos próximos meses. "Não é um ambiente nativo para eles", lembra José Augusto Pereira Brito, gerente de TI do Mackenzie. O vice-reitor Pedro Ronzelli Jr. acredita que a investida no Second Life ajudará a escola no quesito inovação. "Buscamos a renovação da nossa marca", diz.

Para Yaccoff Sarkovas, diretor geral da Significa, agência de publicidade especializada em "atitude de marca", o Second Life deve contribuir para a renovação da imagem de instituições de ensino mais tradicionais. "Elas podem atingir um público novo, agregar valor de inovação à sua marca, mas se isso virar um default esse predicado se perderá", alerta o publicitário.

A Anhembi Morumbi investiu R$ 50 mil para ingressar no Second Life. Assim como o Mackenzie, aposta primeiro na divulgação de sua marca para depois começar a ministrar cursos. O campus virtual foi lançado em maio e já foi visitado por 18 mil avatares. No fim de agosto, a universidade deve começar uma nova fase, onde utilizará o espaço como plataforma de apoio para os alunos dos cursos de moda e design digital lançarem seus projetos. "Será uma espécie de incubadora virtual", explica Maysa Simões, diretora de marketing da Anhembi Morumbi. O próximo passo será disponibilizar os cursos de extensão de curta duração. "A ferramenta de ensino em 3D é sedutora e atraente, mas temos que desenvolver o lado pedagógico", diz Maysa. A universidade já oferece cursos online desde 2002.

O Senac também oferece ensino online desde 2001. Nesse tempo, teve 5 mil alunos. Diferente das outras universidades, a instituição já entrará no Second Life oferecendo três cursos: "Integração do photoshop ao Second Life", "Criação de objetos no Second Life básico" e "Criação de objetos no Second Life avançado". "Usaremos a mesma proposta pedagógica", explica Regina Helena Ribeiro, coordenadora do núcleo de educação à distância do Senac São Paulo. Para quem prefere se inteirar sobre o assunto no mundo real, o Senac também oferecerá os cursos presenciais: "Desvendando o Second Life" e "Criando interfaces 3D no Second Life". Até o fim do ano, está nos planos do Senac lançar também o Centro Universitário Senac, que oferecerá atividades para os estudantes no Second Life. "Nosso olhar é educacional e sabemos que se trata de um ambiente potencial de aprendizagem", diz Regina.

Na área de ensino executivo, uma adesão recente ao Second Life foi do renomado Instituto de Empresa, da Espanha, que ocupa sempre as primeiras colocações nos principais rankings de MBA globais. A intenção do IE é transferir para a nova plataforma, a habilidade desenvolvida nos cursos oferecidos a distância, nos últimos seis anos. Nesse período, o IE formou 1800 estudantes no seu programa de educação executiva online. No Second Life, disponibilizará o mestrado em telecomunicações e em negócios digitais. Ele não conta o investimento feito na empreitada, mas diz que uma ilha custa, em média, US$ 1,7 mil e o custo de manutenção mensal é de US$ 295. "A média de idade dos usuários está entre 18 a 30 anos de idade, um público bem interessante para nós", justifica Carlos Saldaña, diretor de a marketing da escola de negócios espanhola. "O Second Life é uma parte natural da evolução da nossa educação online".

"A primeira reforma agrária digital"

A Cidade do Conhecimento 2.0, cujo lançamento está previsto para o dia 28 de agosto, será uma espécie de "condomínio" público capitaneado pela Universidade de São Paulo (USP) dentro do Second Life. O objetivo é abrigar projetos inovadores na área educacional, social, ambiental e de empreendedorismo tecnológico.

A inciativa é dos mesmos criadores da Cidade do Conhecimento da USP, campus virtual criado há sete anos para aproximar o mundo acadêmico e escolar das empresas, ONGs e governo, através de cursos de capacitação e pesquisas. "Faremos a primeira reforma agrária digital privada do mundo", diz Gilson Schwartz, diretor da Cidade do Conhecimento da USP.

O espaço no Second Life foi cedido pelos administradores da plataforma no país, o IG e a Kaizen Games. A intenção é atrair instituições de ensino, ONGs e empresas privadas para esse território, livre de impostos. "Não existe limite para a formação dessa rede. O tamanho dependerá da mobilização, do impacto e da aceitação dessa grande parceria público privada".

A área educacional já conta com a USP e a PUC São Paulo. O objetivo é conseguir outras adesões de instituições até o lançamento. No novo espaço virtual serão oferecidas oficinas dirigidas ao ensino fundamental até especializações.

Na área de empreendedorismo tecnológico, a Cidade do Conhecimento 2.0 servirá como incubadora de pequenas e micro empresas. "A idéia é adaptar a tecnologia do venture capital, do financiamento à inovação, para a área sócio educacional ambiental", diz o diretor.

As empresas privadas que apoiarem o projeto, segundo Schwartz, se beneficiarão pela associação de sua imagem à inovação e à responsabilidade social. "Outro vantagem será poder contar no futuro com mais pessoas saindo da USP capacitadas no uso de mídias digitais", acredita. Isso será possível, segundo ele, porque o acesso à capacitação será mais simples do que o tradicional via vestibular. "É o capital social, intelectual e tecnológico se mobilizando para construir o intangível, uma cidadania feita de troca de conhecimento", diz.

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Vídeos de Argentina, Brasil, Colômbia, México e Peru vencem concurso de documentários do BID sobre exclusão social

Publicado pela Agência de Meios em 22/07/07

O Banco Interamericano de Desenvolvimento anunciou que cineastas da Argentina, do Brasil, da Colômbia, do México e do Peru venceram o concurso de documentários sobre exclusão social, tema do principal relatório do Departamento de Pesquisa do BID neste ano.

Os vídeos foram selecionados por um júri formado por especialistas do BID e cineastas independentes, entre mais de 120 obras de 15 países da América Latina e do Caribe inscritas no concurso “As Faces da Exclusão”.

Os documentários ajudarão a ilustrar vários aspectos da próxima edição do Relatório sobre Progresso Econômico e Social na América Latina e no Caribe (IPES 2008) do Departamento de Pesquisa do BID, que será apresentado em setembro próximo.


A cada ano o IPES se dedica a um tema específico relacionado com o desenvolvimento, buscando promover um debate mais profundo sobre o assunto em países membros do BID. Edições anteriores abordaram questões como dívida, competitividade, instituições e processos políticos e mercados de trabalho.

"O tema central do IPES 2008 será a exclusão, um fenômeno social, econômico e político que impede o acesso de milhões de pessoas e grupos inteiros a meios e oportunidades para progredir em uma economia de mercado”, declarou o coordenador do relatório, Gustavo Marquez Mosconi.
Para atingir um público mais diversificado do que aquele normalmente atraído por um relatório econômico tradicional, o Departamento de Pesquisa do BID solicitou aos cineastas que apresentassem vídeos sobre diferentes aspectos da exclusão na América Latina e no Caribe.

"Naturalmente, os pontos de vista apresentados nos filmes são os dos autores e não refletem a posição oficial do BID”, acrescentou Marquez Mosconi. "Mas os vídeos têm a virtude de mostrar os excluídos não como meras estatísticas, mas sim como agentes reais de ações para tentar modificar seus padrões de vida”.

Os prêmios nas diferentes categorias do concurso foram concedidos aos seguintes cineastas:

Falta de acesso a serviços essenciais
Vencedor: "Prestes Maia", de Bianca Suyama, Brasil
Menção Honrosa: "Saúde entre os Matsinguengas do Baixo Urubamba " de Henry Pilares Frisancho, Peru

Falta de acesso a instituições
Vencedor: "A miragem de uma redenção", de Carlos Andres Grisales Tabares, Colômbia
Menção Honrosa: "Posseiros", de Caio Chatagnier, Brasil

Falta de documentos de identificação
Vencedor: "Gaspar", de Caio Chatagnier, Brasil
Exclusão dos mercados de trabalho
Vencedor: "Circo Urbano, Cidade do México", de Jalil Rashid Graniel Espinosa, México
Menção Honrosa: "Jorge", de Pedro Jimenez, México

Sistemas alternativos de representação social e política
Vencedor: "Espelhos", de Lucrecia Mastrangelo, Argentina
Menção Honrosa: "Vamos pela Rua", de Ariana Chediak Roquim, Brasil

Substitutos da ordem social estabelecida
Vencedor: "Ladeira Abaixo", de Silvia Patricia Arispe Bazan, Peru
Menção Honrosa: "El Ceibo", de Andres Esteban Dunayevich, Argentina

Os prêmios serão entregues nos próximos meses, em cerimônias a serem realizadas nas Representações do BID nos países dos cineastas.

Os documentários podem ser vistos na página da Internet criada para o concurso “As Faces da Exclusão”.

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domingo, 22 de julho de 2007

Terceiro setor ganha certificado mundial de boas práticas

Publicado pelo Mapa do 3º Setor

O NGO Benchmarking foi desenvolvido pela SGS, multinacional líder em certificações, testes e inspeções, em sua matriz na Suíça, exclusivamente para suprir as necessidades de organizações do terceiro setor em ter uma norma que alinhe às práticas mundiais de confiabilidade, transparência e boa governança frente a órgãos financiadores e mantenedores internacionais, sociedade e poder público.

Com 33 organizações certificadas em todo mundo e mais de 50 que já passaram pelo processo, a certificação busca validar transparência, desempenhos éticos, operacionais e financeiros com base em Boas Práticas e Padrões Internacionais. “O NGO Benchmarking é também uma garantia de que objetivos e atividades são implementados de modo eficiente, sustentável e eficaz”, explica Sarah Duarte, analista da SGS do Brasil. Com validade mundial, o NGO Benchmarking fornece às organizações, além da certificação, um mapeamento de seus pontos fortes e fracos e um plano de ação para melhoria contínua.

O processo de avaliação do NGO Benchmarking engloba nove dimensões: conselho de administração; estrutura estratégica; administração de integridade; comunicação e imagem; recursos humanos; levantamento de fundos; alocação de recursos e controle financeiro; operações; e resultados e melhoria contínua. Os técnicos da SGS analisam também as expectativas do investidor, componentes gerenciais das organizações e melhorias contínuas.

“A certificação é fundamental porque sabemos como é difícil para as organizações construir uma imagem, conquistar espaço e ganhar confiança da sociedade e dos investidores. Dessa forma, o NGO Benchmarking serve como aliado, pois permite às organizações solidificar pontos fortes e ajustar pontos fracos para assim prevenir e reduzir fatores de risco que podem macular uma reputação conquistada em anos de trabalho idôneo”, explica Sarah.

Case Futurong
Em dezembro passado, a Futurong, entidade sem fins lucrativos que oferece assistência a jovens e crianças em situação de risco social da região sul da cidade de São Paulo, foi a primeira ONG do Brasil e da América Latina a conquistar a certificação NGO Benchmarking. “O certificado melhorou muito a organização do nosso trabalho. Contribuiu para o cumprimento de metas que nos ajudarão a alcançar a re-certificação” diz o diretor executivo da Futurong, Lucas Duarte.

A procura por informações sobre o NGO Benchmarking, no Brasil, tem crescido. No último mês, mais de 20 ONGs procuraram a SGS para obter mais informações. “Muitas organizações estão compreendendo que precisam avançar e aprofundar no processo de conhecimento, transparência e eficácia. Essas entidades perceberam que a certificação não é apenas uma ferramenta dos processos internos, mas também um instrumento de crescimento e boa gestão, o que as levará à ratificação de sua excelência, pioneirismo e da capacidade de gerar mais resultados de grande impacto e eficácia”, explica Sarah.

Para ler depoimentos de organizações certificadas e ter a possibilidade de fazer uma breve simulação do NGO Benchmarking acesse o link: http://www.ngobenchmarking.sgs.com/.

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Usuários publicam cada vez mais na Web e começam a mudar padrões informativos

Carlos Castilho
Publicado pelo
Observatório da Imprensa em 14/7/2007

O que antes era um exercício de imaginação de gurus e futurólogos da Web começa agora ganhar uma base real em números. Os últimos dados sobre o fenômeno UGC (User Generated Content – Conteúdo Produzido por Usuários) revelam que 136,5 milhões de pessoas em todo o mundo devem publicar, em 2007, textos, gravações, filmes ou fotos na Web.

No ano passado, a participação total de usuários era de 118 milhões e as projeções indicam que se este ritmo de crescimento for mantido, em 2011, já serão mais de 238 milhões de pessoas usando a Web como ferramenta para divulgação de conteúdos informativos produzidos por elas mesmas.

O número dos criadores online é 10% menor do que os usuários que só consomem conteúdos produzidos por amadores ou pessoas comuns. O total de internautas que apenas visitam sites de criadores online foi estimado em 147,5 milhões em 2007, com uma projeção de 253,6 milhões dentro de quatro anos.

Os números consolidam a tendência de aumento da participação dos usuários em todos os segmentos da Web, o que assinala um fenômeno capaz de mudar significativamente vários conceitos, rotinas e valores da comunicação contemporânea.

Os números recolhidos pela eMarketer, uma empresa norte-americana de pesquisas de mercado com muitos negócios na área de marketing, podem estar muito influenciados pelo chamado “wishfull thinking” (desejo de que algo aconteça). Também não se sabe até que ponto a pesquisa foi sugerida por algum cliente.

Mas mesmo que tudo isto seja verdadeiro, os dados mostram uma tendência irreversível à consolidação da Web 2.0 , cuja principal característica é a participação dos internautas na produção de conteúdos.

Metade, tanto dos que vêem como dos que produzem material produzido por pessoas comuns, vive nos Estados Unidos e a esmagadora maioria dos textos, fotos, desenhos, áudios e vídeos publicados na Web por pessoas comuns é formada por confidências, fofocas, fotos e vídeos de animais de estimação e de amigos.

Não há dados confiáveis sobre qual o percentual de usuários que publicam informações de interesse público na Web. O site Technorati, que monitora os weblogs na Internet chegou a estimar, há dois anos, em mais ou menos 15 milhões o total de páginas pessoais no mundo inteiro que publicam conteúdos que podem ser considerados informativos.

Os sites mais famosos e mais visitados no universo da Web 2.0 são o YouTube (publicação de vídeos amadores), o Flickr (fotos), MySpace e FaceBook (comunidades), usam conteúdos produzidos por amadores para atrair milhões de visitantes e com isto chegar a um faturamento global previsto para um bilhão de dólares até dezembro. A mesma eMarketer antecipa uma receita publicitária de US$ 4,3 bilhões em 2011.

É muito dinheiro com o trabalho dos outros. Mas não deixa de ser uma vitrine importantíssima, e além de tudo grátis, para quem deseja visibilidade por motivos profissionais ou simplesmente por egolatria.

O certo é que não dá mais para ocultar o fato de que a participação do público no processo da comunicação está ganhando dimensões inéditas na história da humanidade.

Estamos assistindo o início do fim de um sistema e a emergência de outro, o que vai implicar um período confusão e incerteza, como acontece em toda grande transição econômica e social.

Aos jornalistas e comunicadores caberá um papel crucial neste processo. Em vez de defender a velha ordem, eles podem usar seus conhecimentos e experiência para atuar como orientadores, treinadores ou consultores dos novos atores na arena informativa. O primeiro desafio seria desarmar os preconceitos mútuos entre profissionais e amadores em matéria de publicação de conteúdos online.

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Conquistas do Terceiro Setor

Luiz Carlos Merege*
Editorial da Revista IntegrAção de julho/07


Decorridos treze anos desde a publicação do já clássico “O Setor Emergente” (1994) de Lester Salamon as conquistas do terceiro setor podem ser consideradas admiráveis, considerando este curto espaço de tempo.

Vejamos algumas dessas conquistas:

Identidade: A grande batalha travada nos anos noventa foi à criação da identidade do setor. Assim como uma pessoa necessita de um documento que indique a sua nacionalidade e suas principais características, não tínhamos até o inicio dos anos 90 um conceito que distinguia o setor dos demais setores. Foi necessário um grande esforço conceitual para demonstrar que as organizações da sociedade civil possuíam características distintas das organizações estatais e das privadas. Substituir o paradigma de uma sociedade bi-setorial por um novo modelo tri-setorial foi uma tarefa executada principalmente por uma rede de pesquisadores da Europa, Estados Unidos e América Latina. Essa nova estruturação da sociedade passou a ser o referencial que orientou as pesquisas posteriores que passaram a estudar os problemas da sociedade contemporânea e as suas soluções partindo da possibilidade de uma sinergia inter-setorial. Desde então não se fala em política pública como uma atribuição exclusivamente do Estado, assim como não se concebe o setor privado tendo como único objetivo à geração de lucro.

Conhecimento: No Brasil não tínhamos praticamente nenhuma publicação específica sobre o terceiro setor até meados da década passada. Além da importantíssima publicação de Rubem César Fernandes, “Público porém privado: o terceiro setor na América Latina” de 1994 registrava-se as publicações do Instituto de Estudos da Religião – ISER em que apareciam o nome deste pesquisador e o de Leilah Landim. A partir da criação de centros de estudos do terceiro setor nas universidades os artigos acadêmicos assim como as dissertações e teses versando sobre o tema cresceram acentuadamente. Pesquisa recente na base de currículos Lattes indicava a existência de pelo menos dois mil pesquisadores trabalhando a temática do terceiro setor. Atualmente a bibliografia referente ao tema apresenta uma grande diversidade de assuntos abordados que cobrem os mais distintos campos do conhecimento. Pode-se facilmente listar cerca de 100 livros de autores nacionais que se constituem como principal referência bibliográfica existente hoje.

Reconhecimento: Apesar do grande volume de publicações que se acumulou em todo o mundo faltava ainda o reconhecimento oficial do setor por parte de autoridades internacionais que desse legitimidade ao novo modelo de estruturação da sociedade. Este reconhecimento finalmente chegou em março de 2002 quando o Departamento de Estatística da ONU publicou o “Handbook on Nonprofit Institutions in the System of National Accounts”. Este manual convoca as agências nacionais de estatística para que modifiquem o sistema de levantamento de informações econômicas e sociais que são realizadas tendo como referência a metodologia de Contas Nacionais que foi instituída pela ONU em 1948. Para nossa alegria o IBGE adotou o manual como uma referência para publicar as primeiras estatísticas oficiais sobre o setor no Brasil, o que foi feito por meio do documento intitulado “As fundações Privadas e as Associações sem Fins Lucrativos no Brasil.” Com essa publicação o nosso País se insere no grupo de outros 12 países que adotaram a nova metodologia e que seguem uma definição comum no que diz respeito ao conjunto de organizações que compõem o terceiro setor, assim como adotam uma mesma classificação das suas áreas de atuação. É claro que o manual da ONU deixa em aberto a discussão sobre a precisão do conceito de terceiro setor, instigando o debate sobre a natureza e papel do setor nas distintas realidades sociais. Entretanto, o referencial metodológico comum que se estabeleceu permitirá que os países, estados e municípios possam, brevemente, realizar estudos comparativos identificando similaridades e características peculiares do setor em cada realidade.

Neste editorial chamo a atenção para estas três conquistas fundamentais que contribuíram para o reconhecimento da existência e importância do setor. Voltarei ao tema para realçar outras importantes conquistas assim como comentar sobre a necessidade de construção de uma agenda que transforme o setor em um ativo protagonista estratégico para a solução dos graves problemas sociais em nosso País.


* Luiz Carlos Merege é professor titular, doutor pela Maxwell School of Citizenship and Public Affairs da Universidade de Syracuse, coordenador do Centro de Estudos do Terceiro Setor - CETS da FGV-EAESP, do curso de Administração para Organizações do Terceiro Setor e do Projeto Censo do Terceiro Setor do Pará . E-mail: merege@fgvsp.br

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Venezuela compra submarinos russos

Humberto Márquez
Publicado pela
IPS em 19/07/07

O anúncio de que a Venezuela comprará da Rússia cinco submarinos fez disparar alarmes de armamentismo convencional em um país que adota como doutrina de defesa a guerra assimétrica, ou de “todo o povo”.

Os submarinos custarão mais de US$ 1 bilhão, aos quais se somam os US$ 3 bilhões que o governo de Hugo Chávez destinou nos últimos dois anos para a compra também de armas russas. Além disso, adquiriu três radares da China e nesta semana foi informada a importação de aviões militares de transporte.

Os sistemas de armas incluem 24 caça-bombardeios Sukhoi-30, 55 helicópteros Mi-17 e Mi-35, 100 mil fuzis AK-103 e uma fábrica desses Kalashnikov e suas munições. Várias das aeronaves já sobrevoam território venezuelano. “Os Estados Unidos nos ameaçam constantemente. Temos de defender nossa revolução”, disse no final de junho durante visita a Moscou o presidehte Hugo Chávez, que mantém um aberto enfrentamento político com Washington. Chávez acusa os norte-americanos de negarem reposição de armamento e peças de reposição para os caças F-16 que a Venezuela comprou há um quarto de século, bem com para os aviões de transporte Hércules C-130, também fabricados nos Estados Unidos.

A agência russa Interfax informou sobre a venda dos submarinos movidos a diesel da classe Varshvyanka, conhecidos no Ocidente como Kilo 636, para operações anti-naves e equipados com seis tubos torpedeiros, 18 torpedos, 24 minas e oito mísseis superfície-ar. Uma versão melhorada, o submarino Amur 677, é mais silencioso e possui sistemas de lançamento vertical, para atingir alvos localizados a centenas de quilômetros.

“Por que submarinos?”, perguntou Chávez, dirigindo-se aos seus críticos. “Porque temos mar, para ajudar a proteger os campos de produção energética em mar aberto e porque o império norte-americano tem planos de agressão e fez tentativas desse tipo há anos, quando um porta-aviões entrou em águas territoriais da Venezuela”. Por sua vez, Rocio San Miguel, presidente da organização não-governamental Controle Cidadão para a Segurança e Defesa, entende que os submarinos “não atendem às necessidades de vigilância marítima da Venezuela, que são de superfície e de natureza aduaneira, ambiental, fiscal, sanitária e de luta contra o narcotráfico”.

A compra dos submarinos “é ruim para os vizinhos e pode alterar a geopolítica no Caribe”, começando pela vizinha Colômbia, que tem pendente com Caracas a delimitação de suas áreas marinhas e submarinas junto à fronteira norte, envolvendo águas do mar do Caribe e do Golfo da Venezuela, disse San Miguel à IPS. Durante décadas, as academias militares destes dois países incluíram em seus jogos de guerra hipóteses de conflito entre ambos.

O general da reserva Fernando Ochoa, ministro da defesa quando em 1992 Chávez liderou um cruento e falido golpe, disse que, “devido à deterioração de seu prestígio e ao fato de ninguém acreditar na invasão gringa, Chávez precisa recuperar popularidade à la Galtieri, criando tensão com um país vizinho”. Em 1982, o então ditador argentino Leopoldo Galtieri ordenou a ocupação militar das ilhas Malvinas, para deter a acelerada deterioração do regime imposto em 1976, com o resultado de uma guerra com a Grã-Bretanha e a conseqüente derrota diante da segunda maior força marítima do mundo.

Segundo Ochoa, isso explica o fato de “ter comprado material bélico pesado, embora seja contraditório com a teoria da guerra assimétrica, que demanda material leve em lugar de submarinos ou aviões de alta tecnologia para uma guerra regular na região”. A preparação “de todo o povo” para tarefas de defesa levou Chávez, há dois anos, a criar a Reserva, com dezenas de milhares de civis como quinto componente das Forças Armadas, junto com Exército, Marinha, Aeronáutica e Guarda Nacional, que é uma força militar com atribuições de polícia.

O até agora comandante dessa Reserva, general Gustavo Rangel, assumiu ontem como ministro da Defesa, “o que impulsionará a nova doutrina de segurança, de união cívico-militar e guerra de resistência”, afirmou o coronel da reserva Héctor Herrera, do grupo pró-oficialista Frente Cívico-Militar Bolivariano. Rangel substitui o general Isaías Baduel, artífice da devolução do governo a Chávez em abril de 2002, quando um golpe de Estado cívico-militar o tirou do poder por dois dias, e que passa à reserva com outros generais, como Alberto Muller, coordenador do Estado Maior Presidencial.

A imprensa informou que Baduel liderou dentro dos altos comandos a corrente “profissional” dos quadros militares com compra de armamento convencional, enquanto Muller, seguindo o discurso de Chávez, defendeu a “guerra de todo o povo”. Há “pressões nos comandos militares a respeito da mudança que possa significar o novo modelo de defesa, porque isso acaba com uma série de privilégios. Minha posição é contrária a profissionalizar a Força Armada’, disse o esquerdista Muller, que em 2005 foi chamado novamente às fileiras pelo mandatário, apesar de já ter 70 anos de idade e 20 na reserva. A Força Armada venezuelana “deve apontar para a defesa de todo o povo, para a guerra de resistência que faz o povo diante do invasor estrangeiro”, ressaltou Muller.

O especialista político Alberto Garrido disse à IPS que, “embora Chávez compartilha com Muller o julgamento de que o choque final com os Estados Unidos é assimétrico, a imprescindível situação geopolítica regional e a realidade militar racional o obrigam a ser cuidadoso”. O esquema do presidente seria “preparação para uma guerra combinada, convencional e assimétrica. A convencional não pode funcionar eficazmente contra os Estados Unidos, mas, tem validade diante de vizinhos, algo esboçado por Baduel quando formulou (há um ano) a hipótese de guerra em razão de conflitos em países fronteiriços”, segundo Garrido.

A guerra assimetria ou sem restrições, segundo os teóricos chineses Qiao Lyang e Wang Xiangsui, pressupõe a utilização de qualquer tipo de luta diante de uma potência esmagadoramente superior em força, tecnologia ou influência diplomática, combinando ações políticas e militares e envolvendo a população civil.San Miguel recordou que a Venezuela é signatária dos Convênios de Genebra de 1949 e seus protocolos adicionais de 1977, que protegem a população civil e vedam seu emprego em ações bélicas, “pois se assumem o papel de combatentes pode-se usar a força letal contra eles”.

A anunciada compra de submarinos não despertou maiores repercussões no resto da América. Washington se absteve de incluir o assunto quando, ainda com Chávez na Rússia, o presidente desse país, Vladimir Putin, visitou seu colega George W. Bush em sua residência de verão. Até deixar seu cargo há duas semanas, o embaixador de Washington em Caracas, William Brownfield, repetiu com freqüência em suas declarações públicas que “os Estados Unidos não invadiram nunca a Venezuela, não a está invadindo e jamais a invadirá”.

A Colômbia não fez nenhuma declaração sobre o assunto. Um pacto entre os presidentes Chávez e seu colega Álvaro Uribe mantém longe dos microfones diversos temas sensíveis. Diplomatas europeus e latino-americanos em Caracas reconhecem em particular que um crescimento do armamento venezuelano deve levar a Colômbia a fórmulas de equilíbrio. Segundo Ochoa, a hipótese de um conflito com a Colômbia exige a neutralidade dos Estados Unidos, “sem a qual uma aventura seria irresponsabilidade inaceitável”.

No Brasil, o almirante Julio Soares de Moura, comandante da Marinha, descartou qualquer preocupação. “Não diria que há uma corrida armamentista na Venezuela, creio que é um reequipamento ou renovação de arsenal. Não me parece que representam algum risco. Brasil e Venezuela mantêm relações cordiais”, disse Moura. San Miguel insistiu em que a Venezuela carece de um “livro branco” que defina as ameaças à sua segurança e a construção de políticas de defesa nacional. “Parece que o presidente se expressa e os demais atuam. Não há quem lhe diga não”.

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