segunda-feira, 23 de julho de 2007

Estatuto da Criança e do Adolescente faz 17 anos

Publicado pelo Portal do Voluntário em julho de 2007

Mais do que uma mudança na legislação, o ECA trouxe ao Brasil uma nova forma de se perceber e respeitar a criança e o adolescente, sem distinção de raça, classe social ou qualquer forma de discriminação, tornando-os sujeitos de direitos. O Estatuto também criou mecanismos de proteção nas áreas de educação, saúde, trabalho e assistência social.

Apesar dos inúmeros projetos ligados a ele, o Estatuto da Criança e do Adolescente ainda é desconhecido para a maioria das pessoas. O ECA ou Lei 8.069 foi aprovado no dia 13 de julho de 1990, por meio de um movimento da sociedade civil organizada que reivindicou a cidadania de crianças e adolescentes.

O ECA é dividido em dois livros: o Livro I trata das regras para vida, educação, saúde, liberdade, dignidade, convivência familiar, esporte, cultura e lazer, trabalho, prevenção à ameaça e violação de direitos, compreendendo os direitos das crianças desde a gestação e adolescentes até 18 anos. O Livro II, com 181 artigos, enfoca as normas a serem utilizadas para corrigir tais desvios, assim como indicação de acesso ao Estado brasileiro, para garantir esses direitos.

Para garantir que os direitos das crianças e adolescentes sejam respeitados, foi criado o Conselho Tutelar, órgão municipal composto por cinco membros, eleitos pela comunidade, que acompanham os menores e decidem qual a melhor medida de proteção.

Conhecendo o ECA
Muitos órgãos públicos e instituições funcionam como ferramentas de conhecimento e/ou utilização do ECA. Previsto no Estatuto, o Conselho Nacional da Criança e do Adolescente/Conanda tem a finalidade de deliberar e controlar a política de promoção e defesa dos direitos da criança e do adolescente no nível federal. Para divulgar e discutir ainda mais o assunto, o Conanda realizará, ao lado da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, entre os dias 3 e 6 de dezembro, em Brasília, a VII Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, que, este ano, terá o tema: Concretizar direitos humanos de crianças e adolescentes: investimento obrigatório.

Projeto da Fundação Telefônica e organizado pelo Centro de Empreendedorismo Social e Administração (Ceats), o Portal Pró-menino/Risolidária tem a missão de atingir os profissionais da área de proteção aos direitos da criança e do adolescente com conteúdo sobre o tema. Além da internet, o projeto também organiza capacitação de profissionais da área ou estudantes nos temas ligados ao Estatuto, como o “ECA no Escola da Família”. O Portal Pró-menino também organiza um concurso anual, o Concurso de Causos do ECA, em que histórias exemplares de aplicação do ECA são premiadas.

Assim como o Portal Pró-menino, a Fundação Abrinq também tem a missão de promover a defesa dos direitos e o exercício da cidadania da criança e do adolescente. Todo o trabalho da Fundação, que é uma organização “amiga da criança”, é pautado na Conveção Internacional dos Direitos da Criança (ONU, 1989), Constituição Federal Brasileira (1988) e Estatuto da Criança e do Adolescente. Atualmente, a Fundação Abrinq beneficia milhões de crianças e adolescentes por meio de seus programas, além da ajuda de muitos parceiros. Conheça melhor o trabalho da Fundação Abrinq na entrevista de Sandra Faria, Superintendente da Fundação.

Garantia de informação
Parceria entre organizações de comunicação que atuam na área, a ANDI, Agência de Notícias dos Direitos da Infância, surgiu em 2000 com o objetivo de investir na formação de uma cultura jornalística que investigue e priorize as questões relativas ao universo infanto-juvenil, sempre sob a ótica dos seus direitos. Em 2005, a Rede ANDI Brasil, em parceria com o Conanda e a Secretaria Especial de Direitos Humanos, realizou o projeto “Qualificando a mídia em favor dos direitos da criança e do adolescente”, com o intuito de expandir a sensibilidade e compreensão dos comunicadores e orientá-los na abordagem dos temas relacionados ao ECA e os Conselhos Tutelares.

Em 2006, a Rede concentrou sua atuação no projeto “Comunicação para o Desenvolvimento, que reuniu uma série de ações focadas na região do Semi-árido, uma das realidades de maior desafio para a garantia dos direitos da infância e da adolescência dos brasileiros.

Criada em 1996, a Rebidia, Rede Brasileira de Informação e Documentação sobre Infância e Adolescência, é um instrumento a serviço de todos os interessados no assunto, com ênfase especial nos conselheiros e formuladores de políticas públicas, operadores e gerentes de projeto para o setor. Trata-se de um sistema descentralizado de documentação e informação sobre infância e adolescência, gerenciado por uma rede de organizações não-governamentais. O objetivo é a criação de múltiplos canais de acesso à informação e documentação, bem como promover a capacitação, por meio de um processo de educação contínua, dos seus usuários.

Não bata, eduque!
Em 2005, a Rede Não Bata, Eduque foi criada no Brasil com o objetivo de erradicar a prática dos castigos físicos e humilhantes contra as crianças. Neste ano, o trabalho se intensificou e foi lançada uma Campanha Nacional, onde uma série de materiais de sensibilização e educativos como vídeos, anúncios, spots de rádio e folders serão veiculados para incentivar os pais e responsáveis a refletir sobre suas atitudes e mostrar as conseqüências que os castigos físicos e humilhantes trazem para as crianças, família e sociedade.

A campanha tem a apresentadora Xuxa Meneghel como sua porta-vez. A sua fundação, a Fundação Xuxa Meneghel, é uma das organizações sociais que integram a Rede Não Bata, Eduque. Além dela, a ANDI, a Comunicarte, o Fórum Nacional DCA, a Frente Parlamentar em Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente, a Fundação Abrinq, o Projeto Proteger, o Promundo e o Save the Children Suécia também fazem parte dessa iniciativa.» Entenda mais sobre Conselho Tutelar» Telefones e endereços úteis» O importante trabalho dos Conselhos Tutelares

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Os caminhos do dinheiro usado em iniciativas sociais

Rita Monte
Publicado pelo
Mapa do 3º Setor

“Hoje a única área de financiamento do ‘Terceiro Setor’ em franca expansão é a venda de produtos e serviços”. Se você é gestor de uma organização ou projeto social, já deve ter pensado nessa frase. Quem a diz é Fernando Rossetti, secretário-geral do Gife, ao falar sobre a origem do dinheiro que financia ações do campo social – de onde vem ou de onde deveria vir? Não sem crítica, Rossetti apresenta um cenário de mercado para a sociedade civil e o chamado “Terceiro Setor”, ao enxergar “um momento darwinista para o setor: as ONGs mais fortes sobreviverão, e elas necessariamente são as profissionalizadas. Para uma organização sem fins lucrativos sobreviver, ela é obrigada a ter um plano de negócios, se não ela vai quebrar. A sociedade civil transformou-se em um mercado – costumo dizer, ironicamente, que é um mercado do bem”, completa Rossetti.

O panorama colocado carrega o desenrolar da sociedade civil organizada no Brasil, trazendo um conceito cada vez mais presente entre dirigentes de organizações sociais e financiadores: a auto-sustentabilidade. Em um movimento de fragilização do modelo tradicional de financiamento do campo social, que colocava fora da organização as principais fontes de recursos, a criação de projetos de geração de renda parece surgir como “a” solução para a sobrevivência das organizações sem fins lucrativos – ou, como diz a lei civil, com fins não econômicos, como frisa Francisco Galdino, superintendente da organização mineira Fundação Projeto Sorria, “porque lucro temos que ter, para ser revertido para a própria organização”.

Fazendo um paralelo com o desenvolvimento do campo social no país desde a década de 90 – especialmente tocante às fontes de recursos –, Galdino conta a história da Fundação Projeto Sorria, organização que presta serviço gratuito de prevenção e ortodontia a crianças de zero a 7 anos, tendo atendido mais de 7 mil crianças e suas famílias e que, em 16 anos de existência na cidade de Ouro Preto, transformou sua visão sobre a dependência com relação a financiadores. Galdino começa:

“O maior financiador, por anos, foi o Poder Público local, que subvencionava a Fundação com um valor mensal destinado a cobrir não só o custo do Projeto Sorria, mas o próprio custeio institucional – temos a despesa mensal de R$ 60 mil para pagar o salário de 43 funcionários e manter 8 unidades de atendimento de boa qualidade. Com o tempo, avaliamos que a Prefeitura alterava a política de ‘doar’ de acordo com o ponto de vista do governante: ficamos dependentes dessa situação – a subvenção chegou a ser da ordem de 60% do nosso orçamento. E isso não podia mais continuar.
Em 2007, começamos a mudar o pensamento: conversamos com a Prefeitura, mostrando que a ONG presta serviço. Como a Fundação cumpre seu dever social realizando ações para a comunidade, nada mais justo que receber dinheiro por isso. Então, definimos valores para essas ações (valores, claro, abaixo dos praticados pelas iniciativas privadas) e fizemos um contrato administrativo de prestação de serviço. Prestamos um trabalho e recebemos por ele”, relata Galdino.

Fernando Rossetti expande esse cenário e atesta as mudanças nas relações sociedade civil/Estado no Brasil que, atualmente, permitem contratos desse tipo: “de 1990 para cá, essas relações se transformaram: hoje o Estado se relaciona financeiramente com a sociedade civil associando-se ao ‘Terceiro Setor’ na execução de políticas públicas, como o caso do Comunidade Solidária, do Fome Zero”, explica.

Além de ter oportunidade de mudar a qualidade da relação com seu principal financiador – a Prefeitura de Ouro Preto –, a Fundação Projeto Sorria investiu em um negócio próprio. Galdino continua:

“Quando detectamos que as empresas também mudaram sua política de financiamento – passaram de doações para aproveitamento dos incentivos fiscais destinados a projetos específicos –, ficamos alertas. No fim de 2005 começamos a pensar em algo que a Fundação pudesse fazer para ser auto-sustentável. Diante dessa situação de vulnerabilidade frente aos financiadores – estávamos sempre nas mãos de alguém para continuar nossas atividades –, fomos premiados por um empresário local com a idéia de montar um negócio: produção e venda de produtos de higiene pessoal e cosméticos. A idéia era boa: os sabonetes são produto de alto valor agregado, vendem bem em uma cidade turística, têm o potencial de levar o nome de Ouro Preto para fora, sem falar que quando o produto é feito por uma ONG, as portas se abrem.... Fizemos um plano de negócio que prevê tudo, até exportações para a Europa, realizamos campanha publicitária (desenvolvemos um selo para indivíduos e empresas consumidoras – chamamos nossos consumidores de “parceiros”) e mostramos para o comércio e para as indústrias locais que aquele produto não almeja o lucro para as pessoas da Fundação, mas que reverte para o sustento da própria organização. Na fábrica geramos 7 empregos diretos, mais 3 a 4 estágios em acordo de cooperação técnica com Universidade Federal de Ouro Preto – alunos e professores da faculdade de Farmácia são os responsáveis pelo controle de qualidade de nossos produtos. Em até 4 anos, a idéia é sermos auto-sustentáveis, embora não veja que apenas nosso projeto de geração de renda seja o responsável por nos manter – mas ele será a principal fonte”, finaliza Galdino.

A Fundação Projeto Sorria é um bom exemplo de organização que almeja e caminha para um lugar de maior auto-sustentabilidade. Mas o que implica ser uma organização auto-sustentável? Haveria sombras nessa condição? Daniela Nascimento Fainberg, fundadora do Instituto GerAção e coordenadora do Programa Nova Geração, voltado ao desenvolvimento pessoal e social de jovens privilegiados, traz alguns elementos que podem passar despercebidos no debate, e pondera:

“Não acredito que toda organização da sociedade civil deva ser auto-sustentável, se auto-sustentabilidade significar desnecessidade de recursos externos. Nesse sentido de gerar os próprios recursos, acredito que a organização deve depender de outros recursos, inclusive dos externos: se a organização existe na sociedade, se sua causa é de fato importante, então não só ela deve contribuir para que sua missão seja cumprida. Cabe à organização mostrar a relevância de seu trabalho para que a sociedade possa cobrá-la. A participação de diversos atores no orçamento da organização, além de ser financeiramente saudável e importante, é essencial para aproximar esses sujeitos da organização e viabilizar a própria participação desses atores na sociedade. Além do que, auto-sustentabilidade muitas vezes pode se tornar um isolamento. E aí surge uma outra questão: a não-colaboração entre as organizações sociais. Isso pode advir de uma ‘concorrência’ pelos mesmos recursos, mas uma organização social deveria pensar em qual sua relevância para aquilo que lhe é único, e não seguir a linha do ‘quanto mais organizações sociais no Brasil, melhor’: uma organização pode estar duplicando o trabalho de outra”, acredita Daniela.

Para a gestora, sustentabilidade e auto-sustentabilidade têm um significado mais amplo que o que tende a se colocar num contexto de mercado (concorrência por recursos, enxugamento de fontes, desenvolvimento de negócios próprios). Para ela, “sustentabilidade não diz respeito apenas à dimensão da sustentação financeira de uma organização, mas também à capacidade de desenvolvimento e revisão constante de seu projeto institucional. É uma combinação da capacidade da organização social de obter receitas ‘próprias’ com a de acessar fontes de financiamento públicas, privadas e não-governamentais nacionais e internacionais. Ao falar em auto-sustentabilidade, também, entramos em uma discussão anterior sobre qual é a função da organização: ao identificá-la, podemos enxergar se um negócio próprio cabe ou não”, comenta. Seguindo essa linha de raciocínio, Daniela inclui na construção da sustentabilidade o fator da qualidade das relações com financiadores externos e o que isso pode dizer sobre o potencial de transformação da realidade social. E muda o lugar de onde enxerga a sustentabilidade das organizações sociais, agora falando a partir de uma distância, promovida por ambos os lados, entre doador e organização beneficiária. Daniela pontua:

“Muitas vezes vejo no novo doador impaciência e até uma certa arrogância (por estar na lógica do mercado, com muito mais ferramentas, com modelos eficientes de gestão, querendo resultados rápidos etc). Mas, também, vejo uma certa desconfiança legítima. Afinal, quem acredita as organizações da sociedade civil? Há iniciativas isoladas e louváveis, como o Mapa do Terceiro Setor do CETS, o Prêmio Bem Eficiente, mas, em geral, falta credibilidade das ONGs frente à população – e por quê frente ao doador isso seria diferente? Por essa razão vejo nas organizações sociais um papel de educar esse doador, mas parece que esse lado ainda é frágil. Ouço muito a fala ‘quero uma relação mais duradoura com o financiador, para fazermos juntos’, mas o que a organização faz para isso? Pede recursos, apresenta relatórios e resultados e, de vez em quando, aparece no escritório do doador? “, provoca Daniela. E arremata:

“Esse lado de educar o doador é muito novo. Muitas vezes o doador não quer, mas também, muitas vezes, quem não quer esse papel é a própria organização beneficiada. Para mim, se quisermos realmente transformar algo, a grande chave está na relação da organização beneficiária com o doador, e vice-versa. Do lado do doador, se só pensar em resultados a curto prazo e quantitativos, não se muda o status quo de ninguém. E do lado da organização social, ela deve ter essa leitura: ‘o que eu dou em troca desse recurso? O doador faz isso porque é bonzinho?’. Se queremos que a realidade realmente mude, devem haver esforços conjuntos da organização com seus doadores e com outras organizações semelhantes tanto no sentido de gerar credibilidade para o trabalho realizado (pensando em modos de monitorar, em que tipos de resultados querem, em como o trabalho pode ser mais bem realizado) como no sentido de impactar melhor a realidade trabalhada. Por que se for para manter o que temos....”, finaliza, reticente.

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Universidades brasileiras investem no Second Life

Stela Campos
Publicado pelo
Valor Online em 23/07/07

Mais de 100 instituições de ensino já estão funcionando no Second Life, ambiente virtual tridimensional na internet onde as pessoas criam suas representações visuais e vivem simulações da vida real online. E não se trata apenas de escolas novatas, capitaneadas por jovens empreendedores acostumados ao convívio em 3D. Estão neste novo mundo de " faz de conta", que já recebe investimentos e promove negócios de verdade, nomes consagrados como Harvard, Berkeley, Oxford, Insead, entre muitas outras. Agora, as escolas brasileiras também começam a ingressar nessa aventura "high tech" com a ambição de recriar o modelo de aprendizagem tradicional.

As primeiras a fincarem suas bandeiras nesse universo virtual foram a Universidade Presbiteriana Mackenzie e a Universidade Anhembi Morumbi. O Senac entre em cena oferecendo seus primeiros cursos a partir do próximo dia 27. Já a Universidade de São Paulo e a PUC-SP anunciam para agosto um plano ousado. O lançamento do primeiro espaço público no Second Life. A Cidade do Conhecimento 2.0 reunirá projetos educacionais, ambientais, culturais e empreendimentos tecnológicos.

Há quem diga que ainda é cedo para prever a revolução que um ambiente em 3D como o Second Life pode ocasionar ao ensino. Mas, sem dúvida, algumas mudanças já estão em curso. Para Solange Giardino, coordenadora de informática na educação da Universidade Presbiteriana Mackenzie, o ensino em ambientes tridimencionais já representa um avanço em relação ao que é usualmente oferecido no ensino online. "O fato de você se ver presente na sala de aula com seu avatar (representação humana criada pelo usuário) e poder interagir com os colegas e professores, colabora para um maior envolvimento dos alunos", acredita. Como em outros cursos na internet, nas aulas no Second Life existe o bate-papo e a correção imediata dos exercícios. "A vantagem é que tudo pode ser gravado ou fotografado", diz Solange.

Mas as possibilidades de inovação no aprendizado em ambientes virtuais hoje ainda são limitadas. "No futuro, o aluno que quiser saber sobre a Primeira Guerra Mundial poderá se teletransportar para uma trincheira e interagir com os personagens da História", diz Cesar Taurion, gerente de novas tecnologias da IBM. "Por enquanto, os cursos ainda simulam a maneira tradicional de ensinar, pois o sistema não é tão sofisticado", diz. "Mas não devemos subestimar o que virá no longo prazo". Sua empresa foi uma das primeiras a comprar "terras" no Second Life na época de seu lançamento em 2003, mas hoje está reticente quanto ao progresso dos negócios nessa plataforma. "Estamos num processo de aprendizado sobre essas novas possibilidades. Quando a internet começou em 1994 também não sabíamos onde iríamos chegar."

Fazer uma réplica das salas de aula tradicionais no Second Life é perder a parte mais divertida do novo ambiente virtual. "É preciso transformar o conteúdo e a narrativa, não fazer uma mímica do mundo real", diz Gilson Schwartz, diretor da Cidade do Conhecimento da USP. "Imagine poder ensinar cidadania fazendo com que os alunos experimentem viver um dia como negros ou como outras minorias", diz. "É preciso explorar esse salto cognitivo que é a representação digital".


Para quem ainda não se aventurou pelo Second Life, a experiência se assemelha a uma participação em um jogo em 3D. Pode ser fascinante ou traumatizante, dependendo do grau de familiaridade do usuário com as ferramentas usadas em programas de relacionamento pela internet como Orkut ou MySpace. Tornar-se um avatar é bem simples para quem costuma jogar no computador. Os menos habituados a esse universo podem apanhar um bocado, principalmente para aprender a usar os comandos que o "teletransportarão" para os campi virtuais das universidades. Uma forma simples de acessá-los é clicar direto nos links localizados nos sites das próprias escolas.

Em muitas escolas do Second Life, como Harvard, o avatar tem a possibilidade de passear virtualmente pela réplica do prédio da universidade. Pelo campus, acessa quadros que o redirecionam para páginas específicas no site da escola. A possibilidade de frequentar ambientes muito próximos da realidade, intangíveis no dia-a-dia, acaba sendo um atrativo a mais para as mais de 8 milhões de pessoas que já ingressaram, pelo menos uma vez, no Second Life desde seu lançamento em 2003. Seu criador, o americano Philip Rosedale, hoje comanda a Linden Lab, empresa criada para administrar o site, que movimentou em junho, US$ 6,8 milhões. A versão em português do Second Life foi lançada no país há pouco mais de três meses e estima-se que já tenha sido utilizada por 300 mil pessoas.

A Universidade Mackenzie está apostando nesse fascínio dos brasileiros por sites de relacionamentos que se assemelham ao mundo real para atrair futuros alunos. Até o fim do ano, deve lançar uma réplica virtual do prédio da escola localizado no bairro de Higienópolis, em São Paulo. O projeto será dos próprios alunos. Desde que criou seus primeiros espaços no Second Life, em abril, nas chamadas ilhas Alpahville e Copacabana, a universidade já recebeu 15 mil visitantes. Num primeiro momento, ela disponibiliza para os usuários vídeos e displays com orientações sobre profissões e um painel onde ex-alunos são direcionados para uma página onde poderão encontrar antigos colegas.

No futuro, o Mackenzie pretende oferecer aulas, mas antes está investindo na preparação dos professores. Cerca de 200 dos 400 docentes da instituição deverão ser treinados nos próximos meses. "Não é um ambiente nativo para eles", lembra José Augusto Pereira Brito, gerente de TI do Mackenzie. O vice-reitor Pedro Ronzelli Jr. acredita que a investida no Second Life ajudará a escola no quesito inovação. "Buscamos a renovação da nossa marca", diz.

Para Yaccoff Sarkovas, diretor geral da Significa, agência de publicidade especializada em "atitude de marca", o Second Life deve contribuir para a renovação da imagem de instituições de ensino mais tradicionais. "Elas podem atingir um público novo, agregar valor de inovação à sua marca, mas se isso virar um default esse predicado se perderá", alerta o publicitário.

A Anhembi Morumbi investiu R$ 50 mil para ingressar no Second Life. Assim como o Mackenzie, aposta primeiro na divulgação de sua marca para depois começar a ministrar cursos. O campus virtual foi lançado em maio e já foi visitado por 18 mil avatares. No fim de agosto, a universidade deve começar uma nova fase, onde utilizará o espaço como plataforma de apoio para os alunos dos cursos de moda e design digital lançarem seus projetos. "Será uma espécie de incubadora virtual", explica Maysa Simões, diretora de marketing da Anhembi Morumbi. O próximo passo será disponibilizar os cursos de extensão de curta duração. "A ferramenta de ensino em 3D é sedutora e atraente, mas temos que desenvolver o lado pedagógico", diz Maysa. A universidade já oferece cursos online desde 2002.

O Senac também oferece ensino online desde 2001. Nesse tempo, teve 5 mil alunos. Diferente das outras universidades, a instituição já entrará no Second Life oferecendo três cursos: "Integração do photoshop ao Second Life", "Criação de objetos no Second Life básico" e "Criação de objetos no Second Life avançado". "Usaremos a mesma proposta pedagógica", explica Regina Helena Ribeiro, coordenadora do núcleo de educação à distância do Senac São Paulo. Para quem prefere se inteirar sobre o assunto no mundo real, o Senac também oferecerá os cursos presenciais: "Desvendando o Second Life" e "Criando interfaces 3D no Second Life". Até o fim do ano, está nos planos do Senac lançar também o Centro Universitário Senac, que oferecerá atividades para os estudantes no Second Life. "Nosso olhar é educacional e sabemos que se trata de um ambiente potencial de aprendizagem", diz Regina.

Na área de ensino executivo, uma adesão recente ao Second Life foi do renomado Instituto de Empresa, da Espanha, que ocupa sempre as primeiras colocações nos principais rankings de MBA globais. A intenção do IE é transferir para a nova plataforma, a habilidade desenvolvida nos cursos oferecidos a distância, nos últimos seis anos. Nesse período, o IE formou 1800 estudantes no seu programa de educação executiva online. No Second Life, disponibilizará o mestrado em telecomunicações e em negócios digitais. Ele não conta o investimento feito na empreitada, mas diz que uma ilha custa, em média, US$ 1,7 mil e o custo de manutenção mensal é de US$ 295. "A média de idade dos usuários está entre 18 a 30 anos de idade, um público bem interessante para nós", justifica Carlos Saldaña, diretor de a marketing da escola de negócios espanhola. "O Second Life é uma parte natural da evolução da nossa educação online".

"A primeira reforma agrária digital"

A Cidade do Conhecimento 2.0, cujo lançamento está previsto para o dia 28 de agosto, será uma espécie de "condomínio" público capitaneado pela Universidade de São Paulo (USP) dentro do Second Life. O objetivo é abrigar projetos inovadores na área educacional, social, ambiental e de empreendedorismo tecnológico.

A inciativa é dos mesmos criadores da Cidade do Conhecimento da USP, campus virtual criado há sete anos para aproximar o mundo acadêmico e escolar das empresas, ONGs e governo, através de cursos de capacitação e pesquisas. "Faremos a primeira reforma agrária digital privada do mundo", diz Gilson Schwartz, diretor da Cidade do Conhecimento da USP.

O espaço no Second Life foi cedido pelos administradores da plataforma no país, o IG e a Kaizen Games. A intenção é atrair instituições de ensino, ONGs e empresas privadas para esse território, livre de impostos. "Não existe limite para a formação dessa rede. O tamanho dependerá da mobilização, do impacto e da aceitação dessa grande parceria público privada".

A área educacional já conta com a USP e a PUC São Paulo. O objetivo é conseguir outras adesões de instituições até o lançamento. No novo espaço virtual serão oferecidas oficinas dirigidas ao ensino fundamental até especializações.

Na área de empreendedorismo tecnológico, a Cidade do Conhecimento 2.0 servirá como incubadora de pequenas e micro empresas. "A idéia é adaptar a tecnologia do venture capital, do financiamento à inovação, para a área sócio educacional ambiental", diz o diretor.

As empresas privadas que apoiarem o projeto, segundo Schwartz, se beneficiarão pela associação de sua imagem à inovação e à responsabilidade social. "Outro vantagem será poder contar no futuro com mais pessoas saindo da USP capacitadas no uso de mídias digitais", acredita. Isso será possível, segundo ele, porque o acesso à capacitação será mais simples do que o tradicional via vestibular. "É o capital social, intelectual e tecnológico se mobilizando para construir o intangível, uma cidadania feita de troca de conhecimento", diz.

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Vídeos de Argentina, Brasil, Colômbia, México e Peru vencem concurso de documentários do BID sobre exclusão social

Publicado pela Agência de Meios em 22/07/07

O Banco Interamericano de Desenvolvimento anunciou que cineastas da Argentina, do Brasil, da Colômbia, do México e do Peru venceram o concurso de documentários sobre exclusão social, tema do principal relatório do Departamento de Pesquisa do BID neste ano.

Os vídeos foram selecionados por um júri formado por especialistas do BID e cineastas independentes, entre mais de 120 obras de 15 países da América Latina e do Caribe inscritas no concurso “As Faces da Exclusão”.

Os documentários ajudarão a ilustrar vários aspectos da próxima edição do Relatório sobre Progresso Econômico e Social na América Latina e no Caribe (IPES 2008) do Departamento de Pesquisa do BID, que será apresentado em setembro próximo.


A cada ano o IPES se dedica a um tema específico relacionado com o desenvolvimento, buscando promover um debate mais profundo sobre o assunto em países membros do BID. Edições anteriores abordaram questões como dívida, competitividade, instituições e processos políticos e mercados de trabalho.

"O tema central do IPES 2008 será a exclusão, um fenômeno social, econômico e político que impede o acesso de milhões de pessoas e grupos inteiros a meios e oportunidades para progredir em uma economia de mercado”, declarou o coordenador do relatório, Gustavo Marquez Mosconi.
Para atingir um público mais diversificado do que aquele normalmente atraído por um relatório econômico tradicional, o Departamento de Pesquisa do BID solicitou aos cineastas que apresentassem vídeos sobre diferentes aspectos da exclusão na América Latina e no Caribe.

"Naturalmente, os pontos de vista apresentados nos filmes são os dos autores e não refletem a posição oficial do BID”, acrescentou Marquez Mosconi. "Mas os vídeos têm a virtude de mostrar os excluídos não como meras estatísticas, mas sim como agentes reais de ações para tentar modificar seus padrões de vida”.

Os prêmios nas diferentes categorias do concurso foram concedidos aos seguintes cineastas:

Falta de acesso a serviços essenciais
Vencedor: "Prestes Maia", de Bianca Suyama, Brasil
Menção Honrosa: "Saúde entre os Matsinguengas do Baixo Urubamba " de Henry Pilares Frisancho, Peru

Falta de acesso a instituições
Vencedor: "A miragem de uma redenção", de Carlos Andres Grisales Tabares, Colômbia
Menção Honrosa: "Posseiros", de Caio Chatagnier, Brasil

Falta de documentos de identificação
Vencedor: "Gaspar", de Caio Chatagnier, Brasil
Exclusão dos mercados de trabalho
Vencedor: "Circo Urbano, Cidade do México", de Jalil Rashid Graniel Espinosa, México
Menção Honrosa: "Jorge", de Pedro Jimenez, México

Sistemas alternativos de representação social e política
Vencedor: "Espelhos", de Lucrecia Mastrangelo, Argentina
Menção Honrosa: "Vamos pela Rua", de Ariana Chediak Roquim, Brasil

Substitutos da ordem social estabelecida
Vencedor: "Ladeira Abaixo", de Silvia Patricia Arispe Bazan, Peru
Menção Honrosa: "El Ceibo", de Andres Esteban Dunayevich, Argentina

Os prêmios serão entregues nos próximos meses, em cerimônias a serem realizadas nas Representações do BID nos países dos cineastas.

Os documentários podem ser vistos na página da Internet criada para o concurso “As Faces da Exclusão”.

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domingo, 22 de julho de 2007

Terceiro setor ganha certificado mundial de boas práticas

Publicado pelo Mapa do 3º Setor

O NGO Benchmarking foi desenvolvido pela SGS, multinacional líder em certificações, testes e inspeções, em sua matriz na Suíça, exclusivamente para suprir as necessidades de organizações do terceiro setor em ter uma norma que alinhe às práticas mundiais de confiabilidade, transparência e boa governança frente a órgãos financiadores e mantenedores internacionais, sociedade e poder público.

Com 33 organizações certificadas em todo mundo e mais de 50 que já passaram pelo processo, a certificação busca validar transparência, desempenhos éticos, operacionais e financeiros com base em Boas Práticas e Padrões Internacionais. “O NGO Benchmarking é também uma garantia de que objetivos e atividades são implementados de modo eficiente, sustentável e eficaz”, explica Sarah Duarte, analista da SGS do Brasil. Com validade mundial, o NGO Benchmarking fornece às organizações, além da certificação, um mapeamento de seus pontos fortes e fracos e um plano de ação para melhoria contínua.

O processo de avaliação do NGO Benchmarking engloba nove dimensões: conselho de administração; estrutura estratégica; administração de integridade; comunicação e imagem; recursos humanos; levantamento de fundos; alocação de recursos e controle financeiro; operações; e resultados e melhoria contínua. Os técnicos da SGS analisam também as expectativas do investidor, componentes gerenciais das organizações e melhorias contínuas.

“A certificação é fundamental porque sabemos como é difícil para as organizações construir uma imagem, conquistar espaço e ganhar confiança da sociedade e dos investidores. Dessa forma, o NGO Benchmarking serve como aliado, pois permite às organizações solidificar pontos fortes e ajustar pontos fracos para assim prevenir e reduzir fatores de risco que podem macular uma reputação conquistada em anos de trabalho idôneo”, explica Sarah.

Case Futurong
Em dezembro passado, a Futurong, entidade sem fins lucrativos que oferece assistência a jovens e crianças em situação de risco social da região sul da cidade de São Paulo, foi a primeira ONG do Brasil e da América Latina a conquistar a certificação NGO Benchmarking. “O certificado melhorou muito a organização do nosso trabalho. Contribuiu para o cumprimento de metas que nos ajudarão a alcançar a re-certificação” diz o diretor executivo da Futurong, Lucas Duarte.

A procura por informações sobre o NGO Benchmarking, no Brasil, tem crescido. No último mês, mais de 20 ONGs procuraram a SGS para obter mais informações. “Muitas organizações estão compreendendo que precisam avançar e aprofundar no processo de conhecimento, transparência e eficácia. Essas entidades perceberam que a certificação não é apenas uma ferramenta dos processos internos, mas também um instrumento de crescimento e boa gestão, o que as levará à ratificação de sua excelência, pioneirismo e da capacidade de gerar mais resultados de grande impacto e eficácia”, explica Sarah.

Para ler depoimentos de organizações certificadas e ter a possibilidade de fazer uma breve simulação do NGO Benchmarking acesse o link: http://www.ngobenchmarking.sgs.com/.

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Usuários publicam cada vez mais na Web e começam a mudar padrões informativos

Carlos Castilho
Publicado pelo
Observatório da Imprensa em 14/7/2007

O que antes era um exercício de imaginação de gurus e futurólogos da Web começa agora ganhar uma base real em números. Os últimos dados sobre o fenômeno UGC (User Generated Content – Conteúdo Produzido por Usuários) revelam que 136,5 milhões de pessoas em todo o mundo devem publicar, em 2007, textos, gravações, filmes ou fotos na Web.

No ano passado, a participação total de usuários era de 118 milhões e as projeções indicam que se este ritmo de crescimento for mantido, em 2011, já serão mais de 238 milhões de pessoas usando a Web como ferramenta para divulgação de conteúdos informativos produzidos por elas mesmas.

O número dos criadores online é 10% menor do que os usuários que só consomem conteúdos produzidos por amadores ou pessoas comuns. O total de internautas que apenas visitam sites de criadores online foi estimado em 147,5 milhões em 2007, com uma projeção de 253,6 milhões dentro de quatro anos.

Os números consolidam a tendência de aumento da participação dos usuários em todos os segmentos da Web, o que assinala um fenômeno capaz de mudar significativamente vários conceitos, rotinas e valores da comunicação contemporânea.

Os números recolhidos pela eMarketer, uma empresa norte-americana de pesquisas de mercado com muitos negócios na área de marketing, podem estar muito influenciados pelo chamado “wishfull thinking” (desejo de que algo aconteça). Também não se sabe até que ponto a pesquisa foi sugerida por algum cliente.

Mas mesmo que tudo isto seja verdadeiro, os dados mostram uma tendência irreversível à consolidação da Web 2.0 , cuja principal característica é a participação dos internautas na produção de conteúdos.

Metade, tanto dos que vêem como dos que produzem material produzido por pessoas comuns, vive nos Estados Unidos e a esmagadora maioria dos textos, fotos, desenhos, áudios e vídeos publicados na Web por pessoas comuns é formada por confidências, fofocas, fotos e vídeos de animais de estimação e de amigos.

Não há dados confiáveis sobre qual o percentual de usuários que publicam informações de interesse público na Web. O site Technorati, que monitora os weblogs na Internet chegou a estimar, há dois anos, em mais ou menos 15 milhões o total de páginas pessoais no mundo inteiro que publicam conteúdos que podem ser considerados informativos.

Os sites mais famosos e mais visitados no universo da Web 2.0 são o YouTube (publicação de vídeos amadores), o Flickr (fotos), MySpace e FaceBook (comunidades), usam conteúdos produzidos por amadores para atrair milhões de visitantes e com isto chegar a um faturamento global previsto para um bilhão de dólares até dezembro. A mesma eMarketer antecipa uma receita publicitária de US$ 4,3 bilhões em 2011.

É muito dinheiro com o trabalho dos outros. Mas não deixa de ser uma vitrine importantíssima, e além de tudo grátis, para quem deseja visibilidade por motivos profissionais ou simplesmente por egolatria.

O certo é que não dá mais para ocultar o fato de que a participação do público no processo da comunicação está ganhando dimensões inéditas na história da humanidade.

Estamos assistindo o início do fim de um sistema e a emergência de outro, o que vai implicar um período confusão e incerteza, como acontece em toda grande transição econômica e social.

Aos jornalistas e comunicadores caberá um papel crucial neste processo. Em vez de defender a velha ordem, eles podem usar seus conhecimentos e experiência para atuar como orientadores, treinadores ou consultores dos novos atores na arena informativa. O primeiro desafio seria desarmar os preconceitos mútuos entre profissionais e amadores em matéria de publicação de conteúdos online.

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Conquistas do Terceiro Setor

Luiz Carlos Merege*
Editorial da Revista IntegrAção de julho/07


Decorridos treze anos desde a publicação do já clássico “O Setor Emergente” (1994) de Lester Salamon as conquistas do terceiro setor podem ser consideradas admiráveis, considerando este curto espaço de tempo.

Vejamos algumas dessas conquistas:

Identidade: A grande batalha travada nos anos noventa foi à criação da identidade do setor. Assim como uma pessoa necessita de um documento que indique a sua nacionalidade e suas principais características, não tínhamos até o inicio dos anos 90 um conceito que distinguia o setor dos demais setores. Foi necessário um grande esforço conceitual para demonstrar que as organizações da sociedade civil possuíam características distintas das organizações estatais e das privadas. Substituir o paradigma de uma sociedade bi-setorial por um novo modelo tri-setorial foi uma tarefa executada principalmente por uma rede de pesquisadores da Europa, Estados Unidos e América Latina. Essa nova estruturação da sociedade passou a ser o referencial que orientou as pesquisas posteriores que passaram a estudar os problemas da sociedade contemporânea e as suas soluções partindo da possibilidade de uma sinergia inter-setorial. Desde então não se fala em política pública como uma atribuição exclusivamente do Estado, assim como não se concebe o setor privado tendo como único objetivo à geração de lucro.

Conhecimento: No Brasil não tínhamos praticamente nenhuma publicação específica sobre o terceiro setor até meados da década passada. Além da importantíssima publicação de Rubem César Fernandes, “Público porém privado: o terceiro setor na América Latina” de 1994 registrava-se as publicações do Instituto de Estudos da Religião – ISER em que apareciam o nome deste pesquisador e o de Leilah Landim. A partir da criação de centros de estudos do terceiro setor nas universidades os artigos acadêmicos assim como as dissertações e teses versando sobre o tema cresceram acentuadamente. Pesquisa recente na base de currículos Lattes indicava a existência de pelo menos dois mil pesquisadores trabalhando a temática do terceiro setor. Atualmente a bibliografia referente ao tema apresenta uma grande diversidade de assuntos abordados que cobrem os mais distintos campos do conhecimento. Pode-se facilmente listar cerca de 100 livros de autores nacionais que se constituem como principal referência bibliográfica existente hoje.

Reconhecimento: Apesar do grande volume de publicações que se acumulou em todo o mundo faltava ainda o reconhecimento oficial do setor por parte de autoridades internacionais que desse legitimidade ao novo modelo de estruturação da sociedade. Este reconhecimento finalmente chegou em março de 2002 quando o Departamento de Estatística da ONU publicou o “Handbook on Nonprofit Institutions in the System of National Accounts”. Este manual convoca as agências nacionais de estatística para que modifiquem o sistema de levantamento de informações econômicas e sociais que são realizadas tendo como referência a metodologia de Contas Nacionais que foi instituída pela ONU em 1948. Para nossa alegria o IBGE adotou o manual como uma referência para publicar as primeiras estatísticas oficiais sobre o setor no Brasil, o que foi feito por meio do documento intitulado “As fundações Privadas e as Associações sem Fins Lucrativos no Brasil.” Com essa publicação o nosso País se insere no grupo de outros 12 países que adotaram a nova metodologia e que seguem uma definição comum no que diz respeito ao conjunto de organizações que compõem o terceiro setor, assim como adotam uma mesma classificação das suas áreas de atuação. É claro que o manual da ONU deixa em aberto a discussão sobre a precisão do conceito de terceiro setor, instigando o debate sobre a natureza e papel do setor nas distintas realidades sociais. Entretanto, o referencial metodológico comum que se estabeleceu permitirá que os países, estados e municípios possam, brevemente, realizar estudos comparativos identificando similaridades e características peculiares do setor em cada realidade.

Neste editorial chamo a atenção para estas três conquistas fundamentais que contribuíram para o reconhecimento da existência e importância do setor. Voltarei ao tema para realçar outras importantes conquistas assim como comentar sobre a necessidade de construção de uma agenda que transforme o setor em um ativo protagonista estratégico para a solução dos graves problemas sociais em nosso País.


* Luiz Carlos Merege é professor titular, doutor pela Maxwell School of Citizenship and Public Affairs da Universidade de Syracuse, coordenador do Centro de Estudos do Terceiro Setor - CETS da FGV-EAESP, do curso de Administração para Organizações do Terceiro Setor e do Projeto Censo do Terceiro Setor do Pará . E-mail: merege@fgvsp.br

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Venezuela compra submarinos russos

Humberto Márquez
Publicado pela
IPS em 19/07/07

O anúncio de que a Venezuela comprará da Rússia cinco submarinos fez disparar alarmes de armamentismo convencional em um país que adota como doutrina de defesa a guerra assimétrica, ou de “todo o povo”.

Os submarinos custarão mais de US$ 1 bilhão, aos quais se somam os US$ 3 bilhões que o governo de Hugo Chávez destinou nos últimos dois anos para a compra também de armas russas. Além disso, adquiriu três radares da China e nesta semana foi informada a importação de aviões militares de transporte.

Os sistemas de armas incluem 24 caça-bombardeios Sukhoi-30, 55 helicópteros Mi-17 e Mi-35, 100 mil fuzis AK-103 e uma fábrica desses Kalashnikov e suas munições. Várias das aeronaves já sobrevoam território venezuelano. “Os Estados Unidos nos ameaçam constantemente. Temos de defender nossa revolução”, disse no final de junho durante visita a Moscou o presidehte Hugo Chávez, que mantém um aberto enfrentamento político com Washington. Chávez acusa os norte-americanos de negarem reposição de armamento e peças de reposição para os caças F-16 que a Venezuela comprou há um quarto de século, bem com para os aviões de transporte Hércules C-130, também fabricados nos Estados Unidos.

A agência russa Interfax informou sobre a venda dos submarinos movidos a diesel da classe Varshvyanka, conhecidos no Ocidente como Kilo 636, para operações anti-naves e equipados com seis tubos torpedeiros, 18 torpedos, 24 minas e oito mísseis superfície-ar. Uma versão melhorada, o submarino Amur 677, é mais silencioso e possui sistemas de lançamento vertical, para atingir alvos localizados a centenas de quilômetros.

“Por que submarinos?”, perguntou Chávez, dirigindo-se aos seus críticos. “Porque temos mar, para ajudar a proteger os campos de produção energética em mar aberto e porque o império norte-americano tem planos de agressão e fez tentativas desse tipo há anos, quando um porta-aviões entrou em águas territoriais da Venezuela”. Por sua vez, Rocio San Miguel, presidente da organização não-governamental Controle Cidadão para a Segurança e Defesa, entende que os submarinos “não atendem às necessidades de vigilância marítima da Venezuela, que são de superfície e de natureza aduaneira, ambiental, fiscal, sanitária e de luta contra o narcotráfico”.

A compra dos submarinos “é ruim para os vizinhos e pode alterar a geopolítica no Caribe”, começando pela vizinha Colômbia, que tem pendente com Caracas a delimitação de suas áreas marinhas e submarinas junto à fronteira norte, envolvendo águas do mar do Caribe e do Golfo da Venezuela, disse San Miguel à IPS. Durante décadas, as academias militares destes dois países incluíram em seus jogos de guerra hipóteses de conflito entre ambos.

O general da reserva Fernando Ochoa, ministro da defesa quando em 1992 Chávez liderou um cruento e falido golpe, disse que, “devido à deterioração de seu prestígio e ao fato de ninguém acreditar na invasão gringa, Chávez precisa recuperar popularidade à la Galtieri, criando tensão com um país vizinho”. Em 1982, o então ditador argentino Leopoldo Galtieri ordenou a ocupação militar das ilhas Malvinas, para deter a acelerada deterioração do regime imposto em 1976, com o resultado de uma guerra com a Grã-Bretanha e a conseqüente derrota diante da segunda maior força marítima do mundo.

Segundo Ochoa, isso explica o fato de “ter comprado material bélico pesado, embora seja contraditório com a teoria da guerra assimétrica, que demanda material leve em lugar de submarinos ou aviões de alta tecnologia para uma guerra regular na região”. A preparação “de todo o povo” para tarefas de defesa levou Chávez, há dois anos, a criar a Reserva, com dezenas de milhares de civis como quinto componente das Forças Armadas, junto com Exército, Marinha, Aeronáutica e Guarda Nacional, que é uma força militar com atribuições de polícia.

O até agora comandante dessa Reserva, general Gustavo Rangel, assumiu ontem como ministro da Defesa, “o que impulsionará a nova doutrina de segurança, de união cívico-militar e guerra de resistência”, afirmou o coronel da reserva Héctor Herrera, do grupo pró-oficialista Frente Cívico-Militar Bolivariano. Rangel substitui o general Isaías Baduel, artífice da devolução do governo a Chávez em abril de 2002, quando um golpe de Estado cívico-militar o tirou do poder por dois dias, e que passa à reserva com outros generais, como Alberto Muller, coordenador do Estado Maior Presidencial.

A imprensa informou que Baduel liderou dentro dos altos comandos a corrente “profissional” dos quadros militares com compra de armamento convencional, enquanto Muller, seguindo o discurso de Chávez, defendeu a “guerra de todo o povo”. Há “pressões nos comandos militares a respeito da mudança que possa significar o novo modelo de defesa, porque isso acaba com uma série de privilégios. Minha posição é contrária a profissionalizar a Força Armada’, disse o esquerdista Muller, que em 2005 foi chamado novamente às fileiras pelo mandatário, apesar de já ter 70 anos de idade e 20 na reserva. A Força Armada venezuelana “deve apontar para a defesa de todo o povo, para a guerra de resistência que faz o povo diante do invasor estrangeiro”, ressaltou Muller.

O especialista político Alberto Garrido disse à IPS que, “embora Chávez compartilha com Muller o julgamento de que o choque final com os Estados Unidos é assimétrico, a imprescindível situação geopolítica regional e a realidade militar racional o obrigam a ser cuidadoso”. O esquema do presidente seria “preparação para uma guerra combinada, convencional e assimétrica. A convencional não pode funcionar eficazmente contra os Estados Unidos, mas, tem validade diante de vizinhos, algo esboçado por Baduel quando formulou (há um ano) a hipótese de guerra em razão de conflitos em países fronteiriços”, segundo Garrido.

A guerra assimetria ou sem restrições, segundo os teóricos chineses Qiao Lyang e Wang Xiangsui, pressupõe a utilização de qualquer tipo de luta diante de uma potência esmagadoramente superior em força, tecnologia ou influência diplomática, combinando ações políticas e militares e envolvendo a população civil.San Miguel recordou que a Venezuela é signatária dos Convênios de Genebra de 1949 e seus protocolos adicionais de 1977, que protegem a população civil e vedam seu emprego em ações bélicas, “pois se assumem o papel de combatentes pode-se usar a força letal contra eles”.

A anunciada compra de submarinos não despertou maiores repercussões no resto da América. Washington se absteve de incluir o assunto quando, ainda com Chávez na Rússia, o presidente desse país, Vladimir Putin, visitou seu colega George W. Bush em sua residência de verão. Até deixar seu cargo há duas semanas, o embaixador de Washington em Caracas, William Brownfield, repetiu com freqüência em suas declarações públicas que “os Estados Unidos não invadiram nunca a Venezuela, não a está invadindo e jamais a invadirá”.

A Colômbia não fez nenhuma declaração sobre o assunto. Um pacto entre os presidentes Chávez e seu colega Álvaro Uribe mantém longe dos microfones diversos temas sensíveis. Diplomatas europeus e latino-americanos em Caracas reconhecem em particular que um crescimento do armamento venezuelano deve levar a Colômbia a fórmulas de equilíbrio. Segundo Ochoa, a hipótese de um conflito com a Colômbia exige a neutralidade dos Estados Unidos, “sem a qual uma aventura seria irresponsabilidade inaceitável”.

No Brasil, o almirante Julio Soares de Moura, comandante da Marinha, descartou qualquer preocupação. “Não diria que há uma corrida armamentista na Venezuela, creio que é um reequipamento ou renovação de arsenal. Não me parece que representam algum risco. Brasil e Venezuela mantêm relações cordiais”, disse Moura. San Miguel insistiu em que a Venezuela carece de um “livro branco” que defina as ameaças à sua segurança e a construção de políticas de defesa nacional. “Parece que o presidente se expressa e os demais atuam. Não há quem lhe diga não”.

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Grandes empresas dos EUA querem ação urgente

Jim Lobe
Publicado pela
IPS em 19/07/07

Representantes de 160 das principais empresas dos Estados Unidos reclamaram das autoridades ações urgentes para enfrentar a mudança climática. Os líderes empresariais alertaram que “as conseqüências do aquecimento global para a sociedade e o meio ambiente são potencialmente sérias e de longo alcance”, e acrescentaram que “o tempo para agir é agora”. A declaração, divulgada esta semana pela Mesa Redonda de Negócios (BRT), não promove a redução obrigatória da emissão de gases causadores do efeito estufa – apontados pela maioria dos cientistas como responsáveis pelo aquecimento -, mas pede “uma ação coletiva que a reduza em nível mundial”.

A intenção é “reduzir o aumento da concentração de gases que provocam o efeito estufa na atmosfera para, em última instância, estabilizá-los em um nível que permita evitar os riscos da mudança climática. É a primeira vez que líderes empresariais de todos os setores da economia norte-americana alcançam um consenso sobre as ameaças do aquecimento da Terra e a necessidade de tomar medidas a respeito”, disse o presidente da BRT, John J. Castellani. “Os membros da BRT estão prontos para trabalharem junto com os líderes políticos em soluções ativas para enfrentar o problema, ao mesmo tempo em que se mantém o crescimento econômico”, acrescentou. Castellani informou que a declaração foi aprovada pelo consenso de toda a Mesa Redonda.

Organizações ambientalistas destacaram o pronunciamento que, afirmaram, deveria estimular o Congresso dos Estados Unidos a tomar medidas. Com maioria do Partido Democrata nas duas Casas legislativas, os legisladores começaram a analisar projetos para limitar as emissões, ao que se opõe o presidente George W. Bush. “Basicamente, os líderes empresariais estão reconhecendo que haverá algum tipo de legislação de caráter obrigatório, o que não é pouco”, disse o diretor da área de mercados e negócios do Centro Pew sobre Mudança Climática, Truman Semans.

O Centro é uma organização não-governamental que trabalha em estreito contato com as maiores empresas norte-americanas em matéria de regulamentações e legislação para reduzir as emissões de gases que causam o efeito estufa. “Uma declaração desse tipo reflete o mínimo denominador comum”, disse Semans. “Indica a vontade de alguns dos membros em apoiar reduções obrigatórias, o que sugere que a visão média do grupo é mais progressista do que denota o texto da declaração”, acrescentou.

“É realmente notável que o establishment empresarial dos Estados Unidos tenha avançado, ainda que alguns passos, para assumir o problema e a necessidade de iniciar ações”, disse Christopher Flavin, presidente do centro de estudos sobre meio ambiente e desenvolvimento World Watch Institute. “É uma declaração tímida, mas mesmo assim é um sinal, entre outros, de que a comunidade empresarial se move bastante rápido em matéria de mudança climática, e que inclusive empresas com a petrolífera Exxon Móbil, uma das mais reticentes, pouco a pouco tira a cabeça da areia”, afirmou Flavin à IPS.

A BRT agrupa companhias que somam ganhos anuais no valor de US$ 4,5 bilhões e representam cerca de um terço do mercado de ações dos Estados Unidos. Entre seus membros estão presidentes de gigantes do setor energético com Exxon e Peabody Energy Company, o maior produtor de carvão do país. Até agora, combatiam energicamente todo projeto de lei ou iniciativa que implicasse reduzir o consumo de combustíveis fósseis ou as emissões de gases que causam o efeito estufa.

“É estimulante que empresas como Exxon e Peabody assinem a declaração”, disse Tony Kreindler, do Conselho para a Defesa dos Recursos Naturais (NRDC). “E é muito significativo que alguns membros da BRT, que sentem que a ciência ainda evolui, aceitem que é preciso tomar medidas já”, acrescentou. A campanha para que a BRT adotasse uma nova política sobre aquecimento global foi liderada por membros da instituição que participaram este ano do lançamento da Coalizão Norte-americana para a Ação sobre o Clima (Uscap). Esta associação incluiu em sua origem 10 empresas de primeira linha e várias organizações não-governamentais, como Centro Pew e o NRDC.

A Uscap reclamou do Congresso a aprovação de leis que estabeleçam reduções obrigatórias das emissões de gases que provocam o efeito estufa. As companhias, entre elas Caterpillar, DuPont e General Electric, reclamaram uma lei para reduzir as emissões em 70% de seu nível atual no prazo de 15 anos, e em 80% até 2050. Desde então, o número de empresas que aderiram à Uscap cresceu para mais de 20. As reduções deveriam ser alcançadas por meio de maior eficiência no uso de combustíveis e melhorias nas tecnologias de poupança de energia nos setores de transporte, construção e produção de eletricidade.

Um projeto de lei em que trabalham os senadores Joseph Lieberman (democrata) e John Warner (republicano) incorpora muitos dos objetivos e o contexto conceitual adotado pela Uscap. Semans, do Centro Pew, disse que a declaração da BRT está longe das metas da Uscap, mas propõe recomendações especificas semelhantes às propostas por essa coalizão, como a criação de um registro nacional para levar conta das emissões e a adoção de políticas governamentais que estimulem investimentos para reduzi-las.

A declaração da BRT não apóia nenhuma medida especifica entre as recomendadas pela Uscap para reduzir as emissões, mas, pede aos legisladores e funcionários que avaliem o valor potencial de cada uma delas em função de determinados critérios. Entre eles, se as medidas forem efetivas para reduzi-las, flexíveis e maximizarem a utilização dos mercados, fomentarem as soluções tecnológicas, minimizarem os custos de transação, oferecerem certeza e previsibilidade às empresas e promoverem a inovação.

O documento também reclama a realização de importantes investimentos, tanto públicos quanto privados, nas ciências do estudo do clima, para “entender melhor e prever a magnitude e velocidade do aquecimento global. Apesar da falta de certezas nesta área, “é prudente tomar medidas para enfrentar os riscos da mudança climática agora”, diz a declaração.

Os membro da BRT também afirmaram que o desafio apresentado pelo aquecimento global não pode ser enfrentado apenas pelos Estados Unidos e exige “uma resposta global. Uma resposta eqüitativa e efetiva deveria ser posta em prática, e os maiores emissores de gases causadores do efeito estufa, incluídos Brasil, China e Índia, teriam de se comprometer com as metas de redução estabelecidas”, afirmaram os empresários. “A liderança norte-americana para estabelecer este contexto global de referencia é essencial”, concluíram os empresários.

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sexta-feira, 20 de julho de 2007

Criação cultural sustentável

Por Jorge Felix
Publicado pelo
Valor Online em 20/07/07

Tolila: "Pode haver a co-existência de uma indústria e de uma criação artística. Até porque a criação artística é a base da indústria. A indústria funciona sobre a lógica do mercado, mas precisa da novidade"
Foto: divulgação

A cultura pode ser uma mercadoria valiosa e contribuir de forma significativa para o crescimento econômico de um país. É possível sustentar uma produção artística independente e, em paralelo, uma indústria de massa - sempre prejuízo à criação. O economista francês Paul Tolila viaja o mundo para defender essas teses tão polêmicas. Ou melhor, que provocaram muito debate no passado, mas hoje caminham na direção de um consenso.

Ex-diretor do Departamento de Estudos Socioeconômicos do Ministério da Cultura da França, Tolila é autor de "Cultura e Economia" (Iluminuras, 144 págs., R$ 26). Ele esteve no Brasil para o lançamento de seu livro a convite do Itaú Cultural, no qual participa do Observatório da Cultura. Na entrevista a seguir, ele recomenda um primeiro passo para o crescimento do PIB da cultura brasileira: avaliação mais rigorosa dos resultados das leis de incentivos fiscais.

Valor: As leis de incentivo fiscal são a melhor forma de fomentar a cultura?
Paul Tolila: É sempre dinheiro público. Nós temos na Europa um dispositivo idêntico. Mas a presença do Estado é forte. Há um bom orçamento e o governo pode investir diretamente. O modelo espanhol é um pouco diferente. É meio a meio. Globalmente falando, a grande questão que se coloca é qual é o montante de investimento que vai para a cultura? O que se faz de forma direta pelo governo e de forma indireta? Quais são as necessidades para o setor cultural se desenvolver economicamente? É por isso que a questão da economia desse setor é tão importante.

Valor: Como evitar que os recursos das leis de incentivo sejam destinados apenas aos artistas com um melhor retorno de marketing para as empresas?
Tolila: Essa é uma questão crucial da política pública. Há um risco de reduzir a ajuda do Estado à renovação cultural. É o problema de equilibrar a subvenção. Eu acho - veja bem, acho - que essa política de leis de incentivo carece de um dispositivo de avaliação permanente. Essa política é muito executada como um dispositivo administrativo, apenas. É concedida burocraticamente. Basta haver conformidade no dossiê dos documentos apresentados ao ministério. Falta objetivo. Falta saber qual é a visão que tem da cultura para não ficar apenas concedendo o benefício a todos e deixando os produtores disputar as verbas da iniciativa privada. É uma forma burocrática demais. Não quero fazer uma crítica abstrata. Mas, pelo que entendi, no Brasil ocorre assim. Talvez tenha entendido errado.

Valor: Falta um objetivo?
Tolila: Poderia dizer: 50% dos recursos vão para jovens artistas. Seria brutal. Mas seria mais claro. Poder-se-ia também dar condições para artistas jovens ou sem condições de montar seu projeto para apresentá-lo ao ministério e fazer depois uma avaliação. O problema é que essas políticas de incentivo nunca são avaliadas em seus resultados. Damos a autorização, as pessoas vão captar o patrocínio na iniciativa privada e há a renúncia fiscal. Todos ficam contentes. Mas qual é o efeito para o conjunto da sociedade? Para o processo cultural? Para a economia da cultura? Para os novos criadores? Ninguém sabe. Não se pode renunciar os impostos para uma política que é apenas a administração de processos, dossiês. E para avaliar é necessário ter, antes, um objetivo claro.

Valor: Na sua visão, o Estado cumpre apenas parte da missão?
Tolila: Esse é um perigo das leis de incentivo: o governo se vê cumprindo o seu papel. Ele dá a permissão para captar e não verifica o que ocorre depois. No entanto, o mais importante para a cultura é o que ocorre depois. A avaliação, é bom que se lembre, é uma premissa de todas as economias modernas, mesmo as mais liberais. Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha. A avaliação é uma "cultura de informação" válida para o governo, a iniciativa privada e os profissionais da cultura. É um feedback para a administração da política cultural e decisiva para a modernização do processo.

Valor: Em outros países, a estratégia das leis de incentivo tem um bom resultado?
Tolila: Em todos os países que adotam leis de incentivo há objetivo definido. E avaliação constante dos resultados. É bom dizer também que em todos há uma forma mista: leis de renúncia fiscal e recursos públicos diretos. Sem isso, os administradores públicos não poderiam ser cobrados quanto a resultados.

Valor: Como traçar uma estratégia de produzir cultura com a lógica mercantil e preservar a arte?
Tolila: Nós vivemos efetivamente numa espécie de contradição potencial entre o nível de mercado de massa e a criação cultural. Mas acredito que a verdadeira produção artística pode sobreviver, desde que a cultura se torne verdadeiramente uma preocupação do país. Não somente discurso. Uma verdadeira preocupação, insisto. Isso quer dizer que o governo, assim como a iniciativa privada, se preocupam com essa questão. Porque a indústria cultural, a grande, a grande mesmo, não tem necessidade de financiamento do Estado. Mas a criação cultural, sim. Ela precisa de financiamento porque ela não é rentável. Assim como a pesquisa. A pesquisa não é rentável agora, será em 5, 10, 15 anos. O ritmo do capital financeiro não suporta esse tempo. É a mesma coisa também da educação. Logo estamos falando de um processo longo, um investimento no qual o industrial capitalista exerce mal o seu papel. É essencial que as instituições sejam capazes de ver a questão a longo prazo, seja o governo ou o setor privado.

Valor: Assim teria espaço para as duas formas de produção?
Tolila: Pode haver a co-existência de uma indústria e de uma criação artística. Até porque a criação artística é a base da indústria. A indústria funciona sobre a lógica do mercado, evidentemente. Mas ela precisa da novidade. Veja os grandes grupos, como Sony, Warner, que são alimentados por pequenas empresas muito criativas. Empresas minúsculas sem a pujança financeira que, no entanto, têm criatividade, se interessam pela criação, trabalham em nichos de mercado e não para o mercado mundial. Então as grandes ficam olhando. Quando descobrem um talento, elas integram, compram a empresa pequena, etc. É assim que a grande, apesar de tudo, participa da diversificação cultural. Não é sempre um instrumento que desqualifica a produção artística. Ela também, muitas vezes, permite que o artista se exprima de maneira ampla, global.

Valor: Como fazer para políticos, governos e profissionais pensar a economia da cultura?
Tolila: O problema é que a economia da cultura carece sempre, em muitos países, de uma organização do setor - tanto administrativa quanto profissional. Falta também uma capacitação de infra-estrutura. Faltam economistas que analisem a cultura, faltam sociólogos. Isso impede enxergar a cultura de outra maneira.

Valor: No Brasil, governos costumam escolher artistas para administrar a cultura. Isso é bom?
Tolila: Freqüentemente, o empenho pessoal em uma atividade não é a certeza de uma boa gestão. É bom dizer que não é uma particularidade do Brasil. Há sucesso, mas há muito fracasso. Podemos nos questionar se não existe aí muita ilusão. Não diria demagogia. Mas ilusão mesmo de acreditar que por ser artista se torna capaz de administrar o setor. Não tem sido sempre o caso.

Valor: A arte tem um espaço nos investimentos do mundo capitalista de hoje?
Tolila: Há duas economias no setor cultural. Uma economia dos espetáculos, de dança, de teatro, da música, do patrimônio. As atividades clássicas. De outro lado, desenvolveu-se a indústria cultural, em que os mercados são atualmente mundiais. Destaca-se aí uma dominação americana. Essa economia tem todas as características da economia clássica, do business. Não só isso. Ela chegou a um nível de desenvolvimento tal que hoje conquistou um papel estratégico.

Valor: É um produto de exportação.
Tolila: Claro. É preciso saber que a exportação dos produtos culturais é o primeiro item da pauta dos Estados Unidos, antes de aviões, carros, agricultura e armas. Logo, a indústria cultural representa hoje um precioso papel no jogo de competição mundial. Nesse momento de dominação americana, há um jogo mais pesado para aqueles que querem defender sua cultura nacional. Como sobreviver e continuar a criar, quando a difusão massiva do modelo cultural é aquele difundido a partir dos Estados Unidos?

Valor: A indústria, então, pode competir, mas a arte é sempre obrigada a se adaptar...
Tolila: Conversei outro dia com estudantes africanos que me contavam a história de um cantor. Ele produzia de forma independente e foi contratado por uma gravadora, aí seus versos se tornaram mais curtos, o ritmo mudou. Os artistas são obrigados a se adaptar a uma formatação que a indústria impõe. É como o design dos carros. Muda ao mesmo tempo em todo o planeta. O desafio é fazer que, dentro dessa industrialização, exista uma política pública capaz de fazer uma produção cultural competitiva no mundo globalizado.

Valor: Como?
Tolila: No México, decidiram juntar pequenas empresas para receber aporte financeiro governamental. O cinema mexicano foi muito importante nos anos 1950 e estava morrendo porque os tratados de livre comércio assinados com os americanos provocaram uma invasão e o cinema americano passou como um rolo compressor sobre a produção nacional. Então, a questão se colocou: o que fazer para revitalizar o cinema mexicano? Não sei se ocorre o mesmo com o cinema brasileiro.

Valor: A cultura sofre mais nesse processo de resistência à globalização?
Tolila: Necessariamente se deve repensar a cultura, porque temos efetivamente uma dominação econômica por intermédio da economia da cultura. Não se pode é ver mecanicamente como apenas "é preciso resistir a". Mas a verdadeira questão, a mais conseqüente, é "como resistir a?". Com qual política? É preciso olhar as margens de manobra, examinar em qual setor é possível agir mais. Resistir não é uma tarefa fácil.

Valor: Quais seriam suas recomendações para o Brasil?
Tolila: Falta um pensamento estratégico, industrial, alianças que possam constituir uma indústria brasileira forte. Talvez européias, latino-americanas, mas em face da hegemonia americana é preciso pensar uma rede, uma articulação. Essa é uma reflexão rara no setor cultural. Deveria ser o princípio para a parceria público-privada. Se vale para outros setores, infra-estrutura, por exemplo, vale para a cultura. Eu defendo isso em meu livro: o trabalho de uma inteligência econômica para a questão cultural. Pode-se fazer uma ação conjunta dos Ministérios da Fazenda, da Cultura e das Relações Exteriores e o setor privado. É preciso que todos se sentem para refletir qual é a estratégia cultural capaz de colaborar para o crescimento econômico.

Valor: De que forma, nesta visita, sentiu os efeitos concretos da falta dessa estratégia?
Tolila: Não existe, por exemplo, um grande circuito de galerias de arte nas cidades brasileiras. São muito poucas. Isso é espantoso. Supreendente. É um problema da organização do mercado de arte. Isso me parece ter um efeito, às vezes, tanto econômico como na forma de criação. Isso é uma observação que fiz porque fui também ao Rio e tentei fazer um passeio por alguma área de galerias e não existe, não existe um bairro que as reúna. Você vai a Paris, à Cidade do México, a Londres, a Nova York e há um bairro inteiro especializado em arte. É extremamente importante para o turismo.

Valor: Como constituir um setor cultural rentável em um país com carências na educação?
Tolila: Se a educação não é prioridade, o país terá problema. Compromete a formação da cidadania e competitividade da pessoa no mercado de trabalho globalizado, porque a economia moderna é cada vez mais sustentada pela capacidade de inovação. São as soluções originais que valem mais. A educação e a cultura são os setores em que o retorno do investimento de um país na questão de inovação é certo, garantido. No México houve uma percepção estratégica. Não sei se existe essa percepção aqui.

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Usinas de SP buscam uma melhor gestão socioambiental

Mônica Scaramuzzo e Bettina Barros
Publicado pelo
Valor Online 20/07/2007

As usinas paulistas estão se estruturando para criar uma gestão socioambiental para o setor sucroalcooleiro. Coincidência ou não, o movimento ocorre num momento em que o mercado internacional amplia exigências e privilegia a aquisição de matérias-primas de empresas que adotam políticas de sustentabilidade.

O Valor ouviu quatro grandes grupos de alimentos e bebidas - Nestlé, Unilever, Coca Cola e Ambev - que estão entre os principais consumidores de açúcar do país. Consultadas, todos informaram que possuem políticas de sustentabilidade e que excluem fornecedores que não estão de acordo com o compromisso ético de suas matrizes. Juntas, essas quatro companhias consomem aproximadamente 2 milhões de toneladas de açúcar anualmente, cerca de 20% do volume total do consumo do país (em torno de 10 milhões).

Exceções no mercado, essas empresas fazem parte de um movimento que deverá crescer no país. E as usinas paulistas começam a se estruturar. Em 2001, a União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica) contratou a consultora Iza Barbosa para uma "mudança de gestão" para o setor inteiro, na qual a responsabilidade social e ambiental das usinas - que por décadas estiveram associadas a desrespeitos humanos e ambientais - ganhasse a mesma prioridade de outros assuntos das empresas. "Praticamente todas as usinas tinham projetos neste sentido, mas não havia como mensurá-los", diz. Até 2003, quase nenhuma das 102 empresas associadas à entidade fazia balanço social de suas empresas. "Hoje praticamente todas fazem [97 das 102]", afirma a consultora.

"Procuramos ter o retorno dessas ações. Não adianta dizer que a gente faz só porque é bonito", afirma Silvio Nicoletti, superintendente do centro de serviços administrativos da Usina São Manoel, instalada na cidade paulista de São Manoel e considerada referência em modelo socioambiental no setor. O grupo investe há quatro anos cerca de 400 mil em projetos nessa área. "Tomamos essa decisão imaginando que no futuro o mercado exigiria da gente um selo verde".

Na prática, já está acontecendo. Segundo Nicoletti, grandes clientes da empresa já vinculam contratos a essas normas. "A Coca-Cola, por exemplo, só compra com essa condição". Mas é uma condicionalidade restrita ainda às multinacionais, que seguem diretrizes impostas pela matriz no exterior . "Nenhuma empresa nacional já nos fez esse pedido".

"Ainda não há movimento nacional neste sentido. Há conversas", confirma Plinio Nastari, presidente da consultoria Datagro, especializada em açúcar e álcool.

É o sinal amarelo vindo de países importadores que já preocupa o setor. Aproximadamente dois terços da produção de açúcar do Brasil é exportada.

Após o primeiro passo de mapear a cadeia produtiva e realizar balanço social das empresas, a Unica, em parceria com o Banco Mundial e o Instituto Ethos, trabalha em um projeto que deverá abranger todos os quase 5 mil fornecedores das usinas, desde os de cana até os de insumos e equipamentos. "Precisamos conscientizar toda a cadeia", diz Iza. "Não adianta a usina seguir o programa e um dos seus fornecedores não se adequar. A usina responde por toda a cadeia".

No caso mais recente em São Paulo, o Ministério Público do Trabalho autuou a Usina Renascença, em Ibirarema, por manter trabalhadores em condições degradantes. Os cortadores de cana trabalhavam para um fornecedor terceirizado. A exemplo da Renascença, outras usinas paulistas e de outros Estados foram autuadas pelo mesmo motivo.

As ações da Unica, no entanto, deverão extrapolar os limites do Estado, na medida em que novas unidades de companhias paulistas são abertas sobretudo na região central do país. "Não temos interesse em transformar São Paulo em um nicho diferenciado de usinas. O comprador pensa em açúcar do Brasil, não em açúcar de São Paulo. Por isso, é importante que as demais regiões sigam o nosso exemplo", diz ela. Já iniciativas avançadas neste mesmo sentido no Nordeste.

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A vida começa aos 60

Danilo Fariello e Catherine Vieira
Publicado pelo
Valor Online 20/07/07

"No dia seguinte ninguém morreu." Assim começa o romance "Intermitências da Morte", de José Saramago, que trata da súbita ausência de óbitos em determinada cidade e das absurdas conseqüências do desaparecimento da Indesejada no cotidiano. No mundo real, a Malfadada não pendurou a foice, mas parece cada vez mais preguiçosa. A expectativa de vida mundial cresceu mais nos últimos 50 anos do que nos cinco milênios anteriores. Os centenários já não são raros nos países desenvolvidos e muitos chegam à terceira idade com saúde e dinheiro para continuar a fazer diferença no mundo. Assim como na fábula do Nobel de literatura, uma revolução acontece à medida que as pessoas passam mais tempo neste mundo. Do ponto de vista econômico, governos têm de lidar com novas questões na saúde, na previdência e nas relações de trabalho. Empresas ganham um novo nicho com um exército de idosos que se forma. E as pessoas, já com idade avançada ou jovens ainda, devem estar preparadas para viver cerca de 20 anos mais do que os seus avós.

Essa revolução se dá, agora, principalmente na Europa e nos Estados Unidos, onde a longevidade já atinge níveis mais elevados. Multiplicam-se consultorias de marketing e negócios que oferecem estudos sobre os mercados denominados 50+ ou 60+. Lemas como "transforme o grisalho em dourado" ou o irônico "viva até os cem, ou morra tentando" tomam conta da mídia nessas regiões. Os países mais desenvolvidos enfrentam o envelhecimento dos chamados baby boomers, pessoas que nasceram após o término da Segunda Guerra, em 1945, e agora chegam à terceira idade. Pululam produtos e serviços para esse público, como o cranky.com, um site de busca cuja relevância das respostas é a idade do internauta. Os mesmos executivos por trás do cranky, de Boston, criaram o eons.com, uma espécie de Orkut para cabeças brancas ou tingidas.

Segundo a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), a parcela da população acima de 65 anos crescerá em média 80% nas sete maiores economias industrializadas até 2050, quase 90% na Rússia, e ainda mais rápido no Brasil, China e Índia. Aqui, o número de pessoas com mais de 65 anos passaria de 5,4% no ano 2000 para 19,2% em 2050. Entre as grandes economias emergentes, apenas a Índia terá idade média abaixo de 40 anos nas próximas décadas, segundo estudo da OCDE produzido no ano passado.

Fatalmente, todos os setores econômicos são afetados pelo aumento da longevidade, inclusive o de entretenimento. Percebe-se essa influência, por exemplo, na produção de filmes cujo foco é o vigor das experiências na velhice, como nos casos de "Elsa e Fred", "Alguém Tem que Ceder" e o nacional "O Maior Amor do Mundo", descoberto por José Wilker na maturidade. Músicos sexagenários, como Bob Dylan e Paul McCartney, voltam com força às paradas de maior sucesso, inclusive no iPod. As novas tecnologias não assustam os mais velhos, como se poderia imaginar: nos Estados Unidos, nada menos que 94% dos boomers (aqueles que nasceram de 1945 a 1955) têm internet em casa.

Como nas culturas indígenas e orientais, o mercado passa a tratar a velhice como sinal de sabedoria, mas, notadamente, de bolso cheio. No ano passado, uma conferência do Hay Market que levou o nome de "Older, richer, wiser" (mais velhos, ricos e espertos) reuniu grupos de mídia, financeiros, de varejo e, principalmente, de lazer, para discutir como explorar melhor esse público representado por números bem estimulantes: 70% dos cruzeiros são freqüentados por pessoas com mais de 50 anos, a mesma faixa em que se vendem 60% dos carros de luxo e 55% dos cosméticos. "O desafio do século XXI é lidar com esse novo mercado", diz Richard Jones, diretor global de previdência complementar do HSBC, que participou do evento do Hay Market.

O lado negativo do envelhecimento da população recai, principalmente, nas costas dos governos. Até 2050, a Europa terá apenas dois trabalhadores para cada aposentado, proporção que hoje é de quatro para um, segundo o estudo "Can Europe afford to grow old?", elaborado pela Comissão Européia de Assuntos Econômicos e Financeiros, publicado no site do Fundo Monetário Internacional (FMI). O estudo aponta riscos para o crescimento econômico europeu no futuro por conta do encolhimento e envelhecimento da população.

Para os autores desse texto, os gastos relacionados à idade da população (incluindo previdência, entre outros) crescerão entre 3% e 4% do PIB até 2050 nos países europeus, o que equivaleria a um aumento de 10% no tamanho do setor governamental. Enquanto atualmente há 35 pessoas acima de 65 anos para cada 100 trabalhadores, em 2050 serão 72 pessoas. Não é necessário chegar perto de uma calculadora para imaginar que faltarão recursos para financiar a aposentadoria de tantos idosos no futuro, se todos se aposentarem aos 65 anos.

Chefe do programa de envelhecimento da Organização Mundial de Saúde (OMS), o brasileiro Alexandre Kalache alerta que está em curso uma enorme mudança de paradigmas, provocada pelo aumento da longevidade, acompanhado de uma redução das taxas de fecundidade. "Até o início dos anos 2000, esse quadro ainda não estava tão claro", lembra ele, apontando que o fenômeno é recente e vai exigir também uma mudança profunda nos costumes. "Tolstói disse que o envelhecimento foi a coisa mais súbita que lhe aconteceu, mas a verdade é que não existe nada mais previsível. Então, é preciso ter sabedoria para se preparar", diz.

Kalache lembra também que os dados de longevidade refletem a expectativa de vida média ao nascer, mas o detalhe mais importante é a expectativa de sobrevida, ou seja, o número estimado de anos excedentes em relação a uma certa média, que tem mudado com o passar do tempo. "Uma mulher, na França, com 60 anos, por exemplo, ainda deve viver mais 30", explica. Contudo, na época em que essa geração de sexagenários nasceu, chegar aos 90 era algo quase impensável. Hoje, esse é o nível médio. "As mulheres são mais longevas e, por essa lógica, o natural seria que se casassem com homens mais novos", brinca Kalache, ao contrário do que se imagina ser mais "normal".

Mas o que as francesas têm a ver com as brasileiras? É simples. Segundo os especialistas, as classes A e B no Brasil tendem a estar muito mais alinhadas com as projeções de longevidade dos países mais desenvolvidos do que a média dos brasileiros. O poder aquisitivo, portanto, também é um fator que tem efeitos sobre a expectativa de viver mais. Moradores de um prédio de luxo de São Paulo tendem a ter 14 anos mais de expectativa de vida do que os habitantes de uma favela do mesmo bairro. "É triste, inaceitável, que essa revolução da longevidade não alcance todos da mesma forma", lamenta Kalache. No Japão, por exemplo, a expectativa de vida ao nascer das mulheres já é superior a 85 anos. Em Serra Leoa, é 34 anos, evidência de que a pobreza é fator determinante da longevidade.

Nos Estados Unidos, o percentual do tempo da vida adulta que as pessoas passam aposentadas saltou de 18% em 1950 para cerca de 30% hoje em dia e a tendência é de crescimento ainda por muito tempo. "No mundo, o número total de pessoas com mais de 80 anos passará dos atuais 88 milhões para 404 milhões no ano 2050. É o subgrupo da população que mais rapidamente aumentará neste 45 anos", diz Kalache. Daí a importância de se conscientizar toda a sociedade para essa nova realidade.

De olho nesses muitos vovôs e vovós, empresas já se reestruturam para atender a uma nova demanda, avalia Robert W. Fogel, Nobel de Economia em 1993 e pesquisador de questões ligadas à longevidade (ver pág.9). Para os idosos conectados, por exemplo, a Vodafone deu início à moda dos telefones básicos, distribuindo o celular A101K, da Kyocera, um aparelho sem visor, sem internet e sem nenhum daqueles brinquedinhos que encantam tanta gente, mas que podem deixar os idosos perdidos. Além de não ter tela, os números do aparelho celular são grandes, para quem já tem a visão debilitada. A indústria automobilística tem adaptado os ângulos das portas, aumenta a potência dos faróis e faz bancos mais macios, entre outros pormenores pensados para corpos mais cansados. O mesmo ocorre com o design de mobiliário e eletrodomésticos.

Estudo encomendado pela Unilever, com abrangência internacional, Brasil incluído, mostrou no ano passado que nove entre dez mulheres acima dos 50 anos acreditam estar melhor do que suas mães na mesma idade e 89% delas se consideram "muito novas para se sentirem velhas". Além disso, 91% opinaram que anúncios publicitários deveriam representar a realidade etária das consumidoras de forma mais realista. Outras grandes empresas de produtos de higiene pessoal e cosméticos têm dirigido esforços constantes de marketing para jovens senhoras.

A comunicação está entre as fronteiras mais polêmicas no trato do aumento da longevidade e do envelhecimento da população. Atualmente, muitos temem, por exemplo, que ao anunciar que um automóvel é perfeitamente adaptado para um idoso sejam perdidas mais vendas do carro para jovens do que conquistados clientes da terceira idade. No entanto, atentos ao potencial de consumo desses consumidores, vários setores econômicos abandonaram preconceitos antigos, frente ao potencial de retorno ao focar os mais idosos. Uma revista, com o sugestivo nome de "Elixir", e um programa de televisão em rede de grande audiência foram lançados na Europa para falar exclusivamente aos boomers. Sinal de que há empresas suficientemente interessadas em ajudar a sustentar com patrocínios e anúncios publicitários esses veículos nos países mais ricos.

A boa notícia para as pessoas em conseqüência disso, diz Kalache, da OMS, é que nunca foi tão bom envelhecer nos países mais desenvolvidos. "Há novidades da medicina, mais serviços e uma nova consciência da sociedade", avalia ele. Segundo dados apresentados por Kalache, estima-se que o aumento da expectativa de vida tenha adicionado cerca de US$ 70 trilhões à economia americana desde 1970. Um setor que vem sendo fortemente impactado por essa avalanche de consumo é o de refeições fora de casa. Na Europa, pessoas com mais de 50 anos comem fora entre 4 e 5 vezes por semana.

O bairro de Copacabana, um dos que mais concentra idosos no mundo todo, acabou se tornando inspiração para o projeto Cidades Amigas dos Idosos, da OMS, que começou no bairro carioca. O objetivo é reunir informações úteis para uso de pessoas de mais idade. Os primeiros resultados serão publicados em 1 de outubro, Dia Internacional dos Idosos. O guia das cidades amigas dos idosos será lançado simultanemente em Londres e em Genebra. O lançamento da versão em português está previsto para 8 de outubro.

Assim como governos e empresas estão atentos à questão do envelhecimento, pessoas se preocupam com sua sobrevivência no futuro. Olhando para os sistemas públicos de previdência, muitos já percebem que a corda poderá se romper do lado mais fraco, ou seja, poderá faltar dinheiro para financiar o futuro de uma multidão de aposentados. Pesquisa do HSBC com clientes do banco em todo o mundo revelou que, no ano passado, 43% dos entrevistados acreditavam que os indivíduos devem arcar com a maior parte dos custos financeiros de sua aposentadoria, enquanto apenas 30% pensam que essa responsabilidade cabe ao governo.

No Brasil, o relativamente novo mercado de previdência privada dispara em velocidade impressionante. Atualmente, é investida em planos privados uma quantia superior a R$ 110 bilhões, valor que não chegava a R$ 30 bilhões há quatro anos. "Os brasileiros já tomaram consciência de que o sistema público não conseguirá oferecer todas as necessidades que terão na aposentadoria", diz Renato Russo, vice-presidente de Previdência da SulAmérica

Por enquanto, o INSS é a principal fonte de renda dos brasileiros de mais idade. Pesquisa recente com mais de 3,7 mil pessoas, sendo dois terços de idosos, da Fundação Perseu Abramo (FPA), patrocinada pelo Sesc, revelou que 22% dos idosos com mais de 60 anos ainda fazem parte da População Economicamente Ativa (PEA). Gustavo Venturi, coordenador do levantamento, diz que a maioria dos idosos tem como principal fonte de renda a aposentadoria e ajudam financeiramente as famílias. Segundo a pesquisa, 91% dos idosos contribuem de alguma forma para a renda familiar, sendo a aposentadoria ou pensão a fonte de renda mais freqüente.

Como as fontes de renda da maior parte dos idosos são a aposentadoria ou a pensão, as famílias se apóiam na certeza da virtual infinitude desses recursos. "Ocorre que, por conta do elevado índice de emprego informal ou desemprego, a aposentadoria acaba sendo a única renda certa de muitas famílias", diz Venturi.

Como a longevidade aumenta e os aposentados vivem mais, os recursos para a aposentadoria deveriam vir cada vez mais de poupanças individuais, afirma Indermit Gill, consultor econômico do Banco Mundial, em texto publicado no site da instituição. Contudo, a própria América Latina, alvo principal do estudo que Gill realizou, já viu nas últimas duas décadas doze países levarem do Estado para a iniciativa privada a responsabilidade pela previdência, com sucesso bastante questionável. Na região - onde o sistema público já entrou em colapso antes de a população envelhecer de forma mais crítica -, as estratégias privadas não serviram para incluir mais pessoas na cobertura de sistemas de previdência. Eram caras demais para muitos, especialmente os mais pobres, a contribuição destinada a contas particulares e as taxas cobradas pelas instituições. Além disso, os custos de transição eram elevados e os planos não se mostraram blindados contra problemas macroeconômicos que ocorreram.

Seja a poupança para a aposentadoria pública ou privada, compulsória ou não, o cenário atual indica algumas tendências praticamente inevitáveis. Os trabalhadores terão de começar a poupar mais cedo e por mais tempo e deverão trabalhar também por mais tempo, até a aposentadoria. A pesquisa do HSBC aponta que, com a vulgarização do debate a respeito dos déficits da previdência, muitos já adquiriram essa consciência. Segundo o levantamento, quase dois terços dos entrevistados em 2006 declararam a opção ou capacidade do indivíduo como primeiro critério a se observar quando chega a hora de decidir sobre a aposentadoria, inclusive pela impossibilidade física de continuar a trabalhar.

A pesquisa da Fundação Perseu Abramo/Sesc vai na mesma direção. "A maioria não se considera idosa", diz Venturi. Vê-se a terceira idade como um conjunto de problemas que ainda não se percebe na própria vida. Segundo a pesquisa, as pessoas levaram o conceito de terceira idade para além dos 71 anos, 11 além do comum até pouco tempo atrás. "Os idosos têm muitos desejos e planos, como hobbies, lazer, trabalho, até mesmo o estudo, já que metade deles, no Brasil, são analfabetos funcionais", diz Venturi. Então, trabalhar por mais tempo pode ser simplesmente um meio de se manter fisicamente ativo e saudável, como mostrou a pesquisa do HSBC.

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