domingo, 27 de julho de 2008

Jovem brasileiro sonha com emprego e casa própria

Foto João Wainer/Folha Imagem

O Datafolha traçou um perfil inédito do jovem brasileiro. Em um caderno especial da Folha, que está nas bancas neste domingo (íntegra disponível para assinantes do jornal e do UOL), sonhos, medos vontades, hábitos de consumo, dúvidas e certezas do jovem brasileiro são abordados por meio de 120 perguntas feitas para 1.541 jovens de todo o Brasil.

Os jovens entre 16 e 25 anos são hoje 35 milhões e representam 19% da população brasileira. Para 33% deles, o trabalho é o maior sonho da vida. Entre os de 16 e 17 anos, a porcentagem é ainda maior: 42%. O jovem rebelde e niilista de gerações passadas deu lugar àquele que busca acima de tudo a realização profissional e a independência financeira.

Para atingir esse objetivo, eles consideram o estudo importante. Ambiguamente, mais da metade deles (54%) já repetiu o ano. O índice é alto mesmo nas classes A e B (44%). E 32% deles não leu um livro sequer nos últimos seis meses.

Junto à ambição profissional, os tradicionais casar e constituir família mantêm-se em alta. No entanto, muitos jovens já são pais/mães (21%). Destes, em média, os garotos foram pais aos 19,3 anos, enquanto as meninas, aos 18 anos. A questão do aborto também é mencionada: apenas 4% das garotas admitiram ter feito aborto, e 33% "conhecem" alguma amiga que fez o procedimento.
A questão da vaidade também foi abordada. Perguntados como se sentiam em relação à própria aparência, 59% se declararam muito satisfeitos. Onze anos atrás, em pesquisa do mesmo Datafolha, o número era de 89%. O mesmo ocorreu em relação ao peso: 50% estão muito satisfeitos com seu peso contra 61% onze anos atrás. Em busca de atingir o inatingível padrão de beleza atual, 42% das jovens brasileiras querem fazer plástica. Entre os meninos, o valor é de 16%.

Inédita no Brasil, a pesquisa do Datafolha pode ser conferida no caderno especial [publicado na íntegra abaixo], que teve grande parte das reportagens elaborada por trainees da Folha, sob a orientação de Ivan Finotti e da editora de Treinamento, Ana Estela de Sousa Pinto.

Folha Online, 26/07/08


Sumário

Perfil é inédito no Brasil
Garoto da capa receia futuro e diz ser parte da maioria

Realidade: A economia soterrou o sonho
Três irmãos arrumam trampo no mesmo dia
Artigo: A adolescência acabou?

Inquietações: Maiores medos são a morte e violência
Artigo:É preciso ser generoso

Família: Mãe é a mais amada
Nana e Naiara "contam tudo", menos detalhes

Má educação: Repetência deixa de ser exceção
Celular é usado na classe até para colar em provas

Gravidez: Aborto - só as amigas fazem...

Sociedade: Jovem se organiza na igreja

Valores: Mini adultos
Jovem era careta nos loucos anos 60

Pátria: 42% sairiam do país

Aparência: Cada vez mais feios e gordos
Artigo: Angústia grátis
Elas só pensam em plástica

Sexo: Virgem depois dos 20 anos
Laís, 15, olhou para os pêlos loiros de Lucas, 14. Então...

Consumo: Ah, como gastam

Conexão: Internet persegue TV
Rodolfo - "Acessar na LAN house é mais zoeira"
Artigo: Armas adultas

Vícios: 43% dos pais sabem do uso de drogas
Da cerveja à produção de crack
20% já dirigiram depois de beber
Sulistas se drogam mais que os outros

Música: O Brasil do forró!
Artigo: Nota errada


Apresentação
Perfil é inédito no Brasil
Foram feitas 120 perguntas para 1.541 jovens em 168 cidades do país. O resultado é a mais completa pesquisa do século

Bayeux, Careiro e Riachão das Neves. Goianésia do Pará, Breves e Parauapebas. Zé Doca, Crateús e São Domingos do Azeitão. Os nomes podem soar estranhos, mas são apenas algumas das 168 cidades visitadas pelo Datafolha para realizar o mais completo perfil do jovem brasileiro neste século 21.

"Não há outro estudo com essa abrangência, cobertura e diversidade de temas", afirma Alessandro Janoni, diretor de pesquisas do Datafolha. A abrangência se refere à pesquisa em todas as classes sociais. A cobertura é nacional, incluindo capitais e cidades do interior de todos os Estados.

Já a diversidade de temas pode ser conferida em cada uma das páginas deste caderno especial, que traz desde participação política até a sexualidade do jovem, passando por valores, sonhos, medos e hábitos de consumo. A primeira constatação da pesquisa é simples: cai por terra o clássico imaginário do jovem contestador, rebelde, engajado, participativo etc. O jovem brasileiro quer emprego.

Seus maiores sonhos são materiais: realização profissional, comprar imóvel e veículo e ficar rico. Seus principais valores são família, saúde, trabalho e estudo. E nem em temas polêmicos como descriminalização da maconha ou liberação do aborto eles se descolam do resto da população brasileira.

"É um jovem que ainda não conseguiu superar as barreiras das necessidades básicas. Só a partir daí ele abrirá a agenda para outras demandas. Revelar esse universo é extremamente importante", resume Janoni.

Há outros dados surpreendentes: o papel da igreja, o número de jovens que admitiram o uso de drogas, a taxa de meninas que disseram não serem mais virgens e a porcentagem declarada de abortos também chamaram a atenção do diretor de pesquisas do Datafolha.

"A principal razão para que esses números sejam mais altos do que os que aparecem em pesquisas semelhantes é que o Datafolha elaborou dois questionários", explica Janoni.
O primeiro, com 90 perguntas, era aplicado normalmente pelo pesquisador. O segundo, com 30 questões sobre sexo e drogas, era preenchido sozinho pelo próprio entrevistado, que não precisava se identificar. Além de não se constranger com perguntas íntimas, o jovem colocava o questionário numa bolsa lacrada, que só era aberta no instituto Datafolha, em São Paulo.
Foram entrevistados 1.541 brasileiros entre 16 e 25 anos. A margem de erro é de três pontos percentuais, para mais ou para menos.

Jovens trainees
A maioria das reportagens do caderno "Jovem Século 21" foi feita pelos integrantes da 45ª turma do programa de treinamento da Folha. O curso durou 14 semanas e tem como objetivo selecionar jovens talentosos e ensiná-los, na prática, a trabalhar em jornal diário (leia mais em www.folha.com.br/treinamento). Nesta edição, eles foram orientados pelo editor do Folhateen, Ivan Finotti, e pela editora de Treinamento, Ana Estela de Sousa Pinto, e tiveram o trabalho coordenado por repórteres experientes, como Laura Capriglione e Antônio Gois. A 45ª turma foi patrocinada pela Philip Morris Brasil e pela Odebrecht.

Ivan Finotti, editor do Folhateen


Garoto da capa receia futuro e diz ser parte da maioria
Ricardo estuda e trabalha

"O jovem brasileiro é um sonhador", diz Ricardo dos Reis Ferreira, 20, o rosto que estampa a capa deste caderno. Talvez por acreditar nisso, tenha trocado a cidade de Conceição da Barra, litoral norte do Espírito Santo, pelo centro econômico do país. Ele veio para São Paulo em março de 2006 para "trampar" no mundo da moda.

Tendo estudado em escola pública e em busca da realização profissional, Ricardo foi abordado pela Folha em um restaurante paulistano e convidado a ser o retrato da juventude brasileira no século 21. "Faço parte da grande maioria", analisa.

Ele personifica o jovem médio cujo perfil é traçado nas próximas páginas pelos resultados da pesquisa do Datafolha.

Ricardo não pôde realizar a sua vontade inicial, mas resolveu continuar em São Paulo, ajustando seus objetivos à realidade que encontrou. No momento, trabalha e estuda relações internacionais. "O objetivo agora é terminar a faculdade."

Na posição de quem saiu do interior em direção a uma grande capital, Ricardo ainda destaca a já conhecida situação de violência "absurda" com que o jovem se depara.

A obstinação demonstrada em relação ao futuro revela a necessidade de reagir a um outro sentimento que, segundo ele, aflige a juventude no Brasil: a insegurança, resultado de uma condição econômica que torna a juventude o grupo social mais vulnerável ao desemprego. Dá "um pouco de medo em relação ao futuro", diz.

Amaro Grassi, colaboração para a Folha


A economia soterrou o sonho
Jovens buscam atender necessidades básicas, como emprego, estudo e casa própria

Com o que sonha um jovem brasileiro? As respostas que moças e rapazes deram ao Datafolha dão a impressão de que a palavra "sonho" suscita neles mais o desejo de tratar de inquietações cotidianas, imediatas e previsíveis para cada faixa de idade. Ou de que talvez ainda seja mesmo um sonho, um devaneio esperançoso, tornar-se um profissional formado num país em que é muito minoritário o número de pessoas que se formam em faculdades.

O "maior sonho" dos jovens ouvidos pelo Datafolha é "trabalhar/formar-se" numa profissão (18%). Ter uma casa, terminar os estudos e fazer família são as outras aspirações maiores.
"Sucesso profissional/na carreira" ou apenas ter um bom emprego (fixo, com carteira, numa boa empresa, com bom salário) ocupam o segundo lugar dos maiores sonhos dos brasileiros entre 16 e 25 anos, com 15% das respostas. Para 7%, o sonho maior é fazer faculdade.

Em suma, pois, para 40% dos jovens, o sonho maior é resolver uma ansiedade compreensível e convencional para a idade -e, provavelmente, não só para essa idade: cuidar da vida, encontrar um lugar ao sol, ter um emprego decente e definir sua identidade por meio do trabalho de que gosta.

Os mais jovens, de 16 e 17, previsivelmente, sonham em se formar em determinada profissão: é o "maior sonho" para 34% deles. Para os mais adultos, de 22 a 25 anos, a resposta deriva mais para a realização profissional, "sonho maior" para 17% dos entrevistados.

Porém, para a faixa de 22 a 25 anos, a resposta mais freqüente é "ter casa/uma boa casa" (22%). No caso das moças de 22 a 25, esse é o sonho maior para 28% (16% no caso dos rapazes); para quem tem filhos, é o sonho maior de 30%. Constituir uma família e cuidar bem dela é o maior sonho para 10% dos entrevistados.

As moças mais jovens se preocupam muito mais com a educação de si próprias que os rapazes. "Fazer faculdade/terminar os estudos" é o maior sonho de 20% das meninas de 16, 17 anos e para 9% dos meninos.

A diferença de prioridades parece refletida em outra parte da pesquisa, na qual se registra a impressionante e deprimente estatística sobre o desempenho escolar: 54% dos jovens já repetiram o ano (dos que ainda estão no ensino fundamental, 76% já foram reprovados). E os números são ainda piores para os rapazes -63% deles repetiram o ano ao menos uma vez, contra 46% das mulheres.

Como contraponto, "ficar rico/ter dinheiro/comprar coisas" é o sonho maior para 13% dos rapazes, mas para apenas 5% das moças.

Os sonhos variam pouco entre as classes de renda, educação ou região onde moram os entrevistados. Os mais pobres sonham um pouco mais em ter casa; os mais instruídos sonham um pouco mais com realização profissional.

Vinicius Torres Freire, colunista da Folha


Três irmãos arrumam trampo no mesmo dia
Os gêmeos Cleuton e Cleiton Souza, de 19 anos, lutam para ser diferentes -dos colegas que viram cair na droga e no crime

Estudantes do segundo ano do ensino médio, eles vinham buscando emprego há meses. Depois de rodarem São Paulo e se acostumarem a enfrentar filas, sua busca chegou ao fim: foram chamados para trabalhar em uma obra em frente à casa em que moram, na favela Morro Doce, a 32 km do centro. No mesmo dia, o irmão mais velho, Elton, 21, foi chamado para trabalhar em uma metalúrgica.

Agora, os gêmeos são ajudantes de pedreiro na construção de uma escola pública que vai ter o que a deles nunca ofereceu: aulas de computação. A falta de conhecimentos de informática foi o que barrou a contratação em mais de uma entrevista de emprego que fizeram.

Para juntar os R$ 4,60 do ônibus para procurar emprego, eles ajudavam o pai em uma quitanda. As viagens terminavam quase sempre em uma porta. "O segurança mandava deixar lá mesmo o currículo", diz Cleiton. "Um deles rasgou o papel assim que eu me virei", conta o irmão.

Apesar das barreiras, Cleiton havia sido chamado para oito processos de seleção neste ano. Só tinha conseguido um trabalho: empacotador em um supermercado por quatro meses.
Cada um deles ganhará R$ 754 mensais, que planejam poupar. Eles querem terminar o ensino médio e, após algum tempo de trabalho, fazer outros cursos.

Iago Bolívar, colaboração para a Folha


Artigo: A adolescência acabou?
A pesquisa de hoje mostra a mesma coisa que, aparentemente, descobrimos a cada vez que sondamos os adolescentes: eles são tão caretas quanto a gente, se não mais.
Eles se preocupam sobretudo com família, saúde, trabalho e estudo. Seu maior sonho é a realização profissional -não empreendimentos fantasiosos, mas o devaneio de qualquer mãe de classe média: ser médico, advogado ou encontrar um bom emprego que lhes garanta casa própria e carro.

Em matéria de política, a maioria se posiciona à direita ou ao centro e não tem interesse em participar de movimentos sociais. Eles têm opiniões parecidas com as da média nacional: são contra a legalização do aborto, contra a descriminalização da maconha e a favor da diminuição da maioridade penal. Sobre a pena de morte, estão divididos meio a meio.

Não são aventurosos: têm pouca vontade de viajar e estão preocupados com a violência. Na hora do sexo, têm muito medo da Aids.

Quanto às drogas, espantalho dos pais, eles preferem a que os adultos se permitem, o álcool.
Cúmulo para quem imagina que os adolescentes sejam contestatórios: em sua maioria, eles acham que o que aprendem na escola é de grande utilidade para o futuro.

Em suma, a surpresa da pesquisa de hoje não está nos resultados, mas no nosso susto ao lê-los: ainda acreditávamos numa visão cinematográfico literária da adolescência. Ou seja, supúnhamos que os adolescentes fossem insubordinados e visionários. Será que já foram e desistiram? Ou será que nunca foram, como sugere a comparação com a pesquisa Datafolha de 1998 e com outra, da revista "Realidade", de 1967?

A adolescência como época separada e específica da vida foi inventada nos anos 1950 e 1960. É nessa época que o cinema e a literatura (narrativas inventadas pelos adultos) criaram a figura do adolescente revoltado, ao qual foi confiada a tarefa de encenar as rebeldias inconfessáveis e frustradas dos adultos.

Uma explicação materialista para esse fenômeno diz que, no quase pleno emprego do pós-guerra europeu e americano, era bom que os jovens levassem mais tempo antes de chegar ao mercado de trabalho; ou, então, que um tempo maior de preparação e estudo era exigido por um mercado de trabalho cada vez mais especializado.

Outra explicação, menos materialista, diz que os adultos, na pequena prosperidade do pós-guerra, achavam sua vida um pouco chata (e era, de fato, mais do que nunca, massificada). Os adultos, portanto, sonhavam com aventuras às quais pareciam ter renunciado em troca de uma casa, um liquidificador, dois carros e uma TV. E eles inventaram a adolescência como encarnação de sua vontade de uma vida menos enlatada.

A invenção cultural da adolescência nem sequer transformou a maioria dos adolescentes em rebeldes. Mas produziu um clima suficiente para que, aos 20 anos, alguns membros da geração nascida logo após a guerra chutassem o balde que os adultos queriam, mas não sabiam chutar: contracultura, aspirações sociais, revolução sexual etc. O mundo ficou melhor para todos.
Mas foi um momento especial, em que a insatisfação reprimida dos adultos do pós-guerra delegou aos jovens uma missão quase revolucionária. Desde então, é como se a adolescência tivesse perdido sua razão de ser.

Resta, aos adultos, a expectativa de que os adolescentes corram os riscos que a gente não quer mais correr ou nunca quis, de que eles sejam nossa face audaciosa, sedenta de experiências e de terras incógnitas, generosamente preocupada com um mundo melhor. Mas é uma expectativa vaga, que se confunde com nossa vontade periódica de tirar férias.

Hoje, quais são nossas aspirações extraordinárias e escondidas? Quais os sonhos que os adolescentes defenderiam e encenariam para nós? São apenas visões de nós mesmos, um pouco mais bem-sucedidos.

O tempo da adolescência acabou. O que sobrou dele? Talvez apenas uma trilha sonora.

Contardo Calligaris, 59
Psicanalista, colunista da Folha e autor de livros como "O Conto do Amor" (Companhia das Letras) e "A Adolescência" (Publifolha)


Inquietações
Maiores medos são a morte e violência

60% dos jovens temem sair de casa; 30% do total e 49% dos mais ricos já foram vítimas de assalto

"Atenção para o refrão/É preciso estar atento e forte/ Não temos tempo de temer a morte", cantava a desgrenhada e hippie Gal Costa, 23, pouco antes da decretação do Ato Institucional número 5, o decreto liberticida da ditadura militar baixado no interminável ano de 1968. Era o refrão de "Divino Maravilhoso", canção com a qual Gal e Caetano Veloso disputavam o Festival da Record daquele ano, auge do tropicalismo e da rebelião de uma minoria dos jovens.

Quarenta anos depois, o Instituto Datafolha perguntou aos brasileiros de 16 a 25 anos sobre seus medos, sonhos, gostos, pessoas que admiram e opiniões sobre questões sociais controversas como pena de morte, aborto e drogas. Em mais uma ironia da história das ilusões sobre os jovens, de 1968 ou de 2008, moças e rapazes disseram que seu maior medo é mesmo o da morte.

Morte
Em geral, as respostas da pesquisa nem sugerem muita fantasia nem idéias divergentes. Os jovens ouvidos têm a mesma opinião do que o total da população sobre a proibição do aborto, fumar maconha e também sobre a pena de morte.
Somado ao medo da perda final de parentes e outras pessoas próximas, o medo da morte representou 40% das respostas ao Datafolha.

"Atenção para o sangue sobre o chão/Atenção/Tudo é perigoso/Tudo é divino maravilhoso", cantavam Gal e Veloso, tratando, no entanto, de perigos e maravilhas na visão existencialista pop avacalhada do tropicalismo. Os perigos e o sangue muito concretos da realidade de 2008, porém, não parecem afetar tanto os jovens ouvidos pelo Datafolha.

"Violência" é o terceiro maior medo, mas foi citado por apenas 13%.

Assalto
O número impressiona mais porque quase um de cada três jovens diz já ter sido assaltado. Diz ter sido vítima do mesmo crime a metade dos jovens das famílias com renda superior a R$ 4.150 por mês -dez salários mínimos.

Quando o Datafolha indaga sobre o medo de sair de casa, o quadro muda um pouco: 26% dos jovens dizem ter "muito medo" de sair de casa (18% no caso dos rapazes, 33% no caso das moças).

Mesmo assim, e obviamente, 74% dizem não ter "muito medo": 40% "não têm medo" e 34% têm "algum medo", o que dá a impressão de razoável tranqüilidade, dados os riscos de fato e a experiência real de violência dos jovens.

"Muito medo" de sair de casa é mais freqüente entre os casados (34%) e com filhos (33%) do que entre os solteiros (23%) e sem fi lhos (24%). De mais intrigante, os jovens nordestinos são muito mais temerosos (33% de "muito medo") que os do Sudeste (18%).

"Desemprego" é apontado como o maior temor de apenas 7% dos jovens; o medo de não encontrar trabalho é maior entre os que têm curso superior, o que parece compreensível, dadas as ansiedades dos recém-formados.

Vinicius Torres Freire, colunista da Folha


Artigo: É preciso ser generoso
Ao longo de minhas décadas, formei um conceito sobre a juventude. Fiz-me otimista. A base do meu olhar sobre esse extraordinário segmento da aventura humana é colhida da convivência com jovens nas salas de aula e no consultório. A amostragem é pequena, pouco heterogênea, portanto não faz ciência, até porque são complexos os vetores de uma produção cultural. Mesmo assim, eu me fio nela e não me filio ao partido dos apocalípticos.

Juventude é o tempo da mais extraordinária revolução por que passa o ser humano. No corpo, na consciência, no campo sociofamiliar. "Não pode confiar em ninguém com mais de 30 anos." Metáfora, obviamente, que dá o que pensar.

É o segmento da vida humana de que se fala com uma acentuação quase sempre desaprovadora e pejorativa. "Avançando para trás", ouço os rótulos que marcaram as épocas por que passei, "juventude transviada, rebelde e opositiva, psicodélica, maconheira, festiva, riponga, revoltada, subversiva, drogada, alienada, geração perdida, careta" etc. Nunca se usaram jargões análogos para crianças e adultos.

Cedo aprendi a buscar uma compreensão desse momento glorioso e sofrido da alma juvenil. Dão sempre o seu recado, não sendo as gerações piores, iguais ou melhores que as outras, e sim diferentes. O que me interessa é a reviravolta que "as ondas da vez" trazem para a comunidade humana, sobretudo a partir das novas formas de linguagem e comportamento. Costumam deixar o "mundo de pernas para o ar". Há mais ganhos do que perdas.

O que há de novo na economia interna da juventude de hoje?

Pragmática, não pensa em aposentadoria, na estabilidade do emprego. Graduar-se é bom, mas não para a garantia certa da felicidade certa. Conjuga os verbos no tempo presente. Aspira a ser rica, mas não vai consumir todas as energias nisso. A fruição não pode ser adiada. A droga é normalmente usada ou para o relaxamento (maconha) ou para aumentar as energias (ecstasy). Os acontecimentos são "acontecências", ou seja, no instante mesmo em que aparecem se desvanecem.

Vinculativa, acredita em aliança amorosa que só se parte com a morte do amor ou que seja "eterna enquanto dure". Internauta, vive on-line com o mundo, por meio da inteligência que acontece na ponta dos dedos e na logística dos games. Caseira, onde mais mora do que vive com a família, sem autoritarismos.

Comprometida, cuida do corpo por razões de estética, sem preconceitos, e de saúde; sensibiliza- se com a natureza e é partidária da ecologia. Política não lhe faz a cabeça. A idéia de ruptura, criança versus adulto, dependência versus independência, submissão versus liberdade, continua como sempre existiu, mas faz-se de forma singular, não é violenta nem ideológica.

Inventiva, na linguagem, na música, na vida profissional. Cresce o número de "jovens empresários". No mercado financeiro, são imbatíveis. Inquieta, a inquietação é geral, sem um foco determinado, "o sonho acabou", "a promessa é vazia", "o mundo não está nada potável", portanto "eu que cuide de mim".

Inteligente, vai surgindo uma nova forma de coleta da informação, visitando a internet mais que as bibliotecas, lendo sínteses mais do que compêndios. Ser culto é um conceito vago. Avaliar essa inteligência, impossível fazê-lo agora. Ver-se-á depois.

Generosa, o outro existe, se comparecer. Sem culpa, nem sempre acata limites, o que deságua perigosamente no "tudo posso". Revolucionária, como toda juventude, dá o passo seguinte do próximo pedaço da história. Algumas reviravoltas extraordinárias, conquistadas por movimentos jovens anteriores, encampadas pela geração atual, como a questão da mulher, do negro, da religião, dos costumes, da sexualidade, do casamento, habitam o universo juvenil.

Enfim, com todos os cabíveis reparos, a juventude, com "som e fúria", com dor e amor, com medo e paixão, vai dando o seu recado. Um olhar generoso é capaz de perceber que, com todos os cacoetes, o recado é bom.

Ganhamos todos...

João Batista Ferreira, 70
Psicanalista


Família
Mãe é a mais amada
Pai fica atrás de avós e irmãos nos quesitos amor e confiança

Não tem pra ninguém. Nada contra pais, avós ou irmãos, mas, quando o assunto é confiança ou amor, é mesmo a mãe a figura mais lembrada.

Ao pedir que jovens tentassem traduzir, numa escala de zero a dez, o amor que sentem por cada um dos familiares, o Datafolha verificou que as mães receberam média 9,7.
No quesito confiança, a média é 9,4. As médias para pais, irmãos e avós também foram altas, mas sempre abaixo da das mães.

Para Maria Aparecida Vilhena, da Sociedade Brasileira de Psicologia Analítica, é natural que a mãe apareça como figura de referência do jovem quando ele é questionado sobre o amor que sente. "Sobretudo nos primeiros anos de vida, a figura que a criança elege como de apego central tende a ser a mãe", diz.

A psicóloga clínica especializada em relações familiares Ana Cláudia Oliveira afirma que tanto afeto quanto confiança estão relacionados à presença: "Nossa constituição familiar é muito mais matriarcal. A mulher é quem organiza a casa, leva ao médico, ajuda na lição da escola".
Adriana Wagner, professora de psicologia da PUC-RS, lembra que essa situação independe de a mulher estar no mercado de trabalho -pesquisas comprovam que isso não diminui o trabalho feminino em casa.

Esse novo posicionamento da mulher, apesar de ainda não se traduzir numa divisão mais justa das tarefas domésticas, coloca em xeque o modelo tradicional paterno. Vilhena identifica três modelos de pais: um tradicional, outro ausente e um terceiro que, mesmo presente, tem dificuldade para achar seu lugar.

Para Oliveira, é preciso lembrar que o estudo foi feito com jovens de 16 a 25 anos. "Temos que olhar para 20 anos atrás." Se a pesquisa voltar a ser feita daqui a 15 anos, ela prevê outro resultado. "A confiança paterna deve aumentar."

Antônio Gois, da Sucursal do Rio, e Patrícia Gomes, Colaboração para a Folha


Nana e Naiara "contam tudo", menos detalhes
Quando Nana Terra, 22, reatou com o namorado, a mãe foi a primeira a saber. Na casa dos Terra é assim: tanto Nana quanto sua irmã, Naiara, 20, recorrem a Kátia, 40, quando têm alguma novidade, dúvida ou problema.

As irmãs são um exemplo dos 37% de jovens que disseram concordar totalmente com a afirmação "minha mãe é minha melhor amiga e eu conto tudo para ela" na pesquisa.
Mas será que contam tudo mesmo? Nana diz que o que ela chama de "contar tudo" é ter a liberdade para falar de qualquer assunto, mas também respeito ao abordar temas delicados, como detalhes sobre um namoro.

Fátima Padin, coordenadora do ambulatório de adolescentes da Uniad/Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), diz que a preocupação em não contar tudo é saudável: "A filha tem que ter os seus segredinhos".

Para a professora da PUC-RS Adriana Wagner, ter diálogo não significa falar sobre qualquer assunto: "Quando chega uma cliente dizendo que é a melhor amiga da filha, eu pergunto: "Então quem é a mãe?'".

E essa é uma via de mão dupla, diz: "Nem os filhos devem dar detalhes de sua sexualidade nem os pais devem dividir questões conjugais íntimas".

Carla Nastari, 17, é um exemplo disso. "Minha mãe me orienta, eu converso com ela, mas ela não sabe de todos detalhes da minha vida." Elizabeth Nastari, 53, mãe de Carla e de Camila, 22, e Carolina, 25, é uma referência de confiança, e as filhas são unânimes ao falarem sobre o amor que sentem pela mãe. Carla, por exemplo, deu 11 para a pergunta "de zero a dez, quanto você ama sua mãe?" -1,3 ponto a mais do que a média apresentada pelo Datafolha.

PG


Má educação
Repetência deixa de ser exceção
Mais da metade dos jovens brasileiros já repetiu o ano; índice de reprovação é alto mesmo nas classes A e B

Um país que ostenta uma das maiores taxas de reprovação do mundo não poderia produzir outro resultado que não o revelado pelo Datafolha: mais da metade (54%) dos jovens brasileiros já repetiu o ano na escola.

Esse percentual é maior entre homens, nordestinos e mais pobres.

O problema, porém, não é restrito a esses grupos. Quase metade (44%) dos jovens das classes A ou B, por exemplo, já repetiu.

Índices tão altos talvez tivessem justificativa caso isso melhorasse a qualidade da educação brasileira. Não é o que acontece, como lembra Ruben Klein, da Fundação Cesgranrio. "Se repetência funcionasse, o Brasil teria indicadores maravilhosos na educação. A escola tem que funcionar para que todos aprendam e não sejam reprovados."

Para a professora da Faculdade de Educação da USP (Universidade de São Paulo) Sílvia Colello, os altos índices de repetência resultam da falta de diálogo entre o jovem e a escola. "De um lado, há um jovem que não valoriza o saber. Do outro, escolas que dialogam pouco com a realidade do aluno. O saber tem de ter sabor. Um desafio dos professores é recriar esse sabor."

Giovanna Cappellano de Carvalho, 16, que repetiu o primeiro ano do ensino médio em um colégio privado de São Paulo em 2006, diz que a relação com os professores influencia muito no seu desempenho. "Se o professor dá uma aula que me envolve, presto atenção e faço o que ele pede."
Ela conta que brigava muito com a professora da disciplina em que reprovou. Mas assume sua responsabilidade. "Vi que estava perdendo tempo e amadureci."

O pai de Giovanna, Marcelo de Carvalho, 41, diz que, após a reprovação, decidiu mudar a filha de escola e matriculá-la em cursos técnicos. "Ela desenha bem, gosta de arte, de moda."

Para ele, a reprovação também teve efeitos positivos. "Você joga uma grana fora e expõe falhas no relacionamento com os filhos. Mas foi uma ruptura. Ela percebeu que a própria irresponsabilidade causou coisas ruins."

Apesar de concordarem que a reprovação deve ser combatida, diretores de escolas particulares de São Paulo afirmam que, em alguns casos, reter um estudante pode ser positivo.

"Uma reprovação não cai de pára-quedas", diz Fátima Trindade, diretora-geral do Colégio Pio XII. Ela considera que muitas vezes a reprovação faz o aluno rever decisões e escolhas.

Para o diretor-geral pedagógico do Colégio Dante Alighieri, Lauro Spaggiari, o aluno pode ganhar segurança e passar a render mais. "Quando a família e a escola apóiam, ele se sente mais forte e percebe que era necessário."

Coisa de menino
Os números do Datafolha mostram que os meninos repetem mais do que as meninas: enquanto 63% deles já reprovaram, entre elas o índice cai para 46%. "Temos uma cultura de escola primária que é mais feminina, que valoriza o asseio, o comportamento, enquanto o menino é mais beligerante, mais ativo", diz o coordenador do programa de pós-graduação em educação da USP, Romualdo Portela.

Sílvia Colello também vê influência cultural. "A mulher é mais incentivada a ser dócil e a lidar com as regras do jogo. Mas isso não signifi ca que aprenda mais", afirma a professora.

Antônio Gois, da Sucursal do Rio, e Gustavo Hennemann, Colaboração para a Folha


Celular é usado na classe até para colar em provas
O celular já chegou à maioria (73%) dos jovens brasileiros e, com eles, às salas de aula -17% afirmam utilizá-lo nesse ambiente e 9%, para colar nas provas. O uso em sala é mais comum nas classes A e B (23% dos que possuem o aparelho) do que nas classes D e E (13%).

Escolas tiveram que criar regras para impedir que os aparelhos atrapalhassem as aulas. O Colégio Bandeirantes, de São Paulo, por exemplo, permite o uso no pátio e nos intervalos, mas o restringe em dias de prova. "Se o aluno estiver com o aparelho no bolso, já pode ter a prova anulada", diz o coordenador pedagógico, Onofre Rosa.

Ele conta que os professores tiveram de aprender a lidar com problemas envolvendo aparelhos eletrônicos.

Já o Colégio Piaget chegou a proibir o uso em qualquer local. "Eles recebiam ligações na sala e corriam ao banheiro para atender", diz a diretora pedagógica, Silvana Rodrigues. Hoje, porém, a escola permite que o aluno utilize o celular no pátio.

Segundo Regina Fleuss, do Colégio Notre Dame, do Rio, foi preciso adotar uma "tolerância zero". Ela diz que alunos e pais já entenderam que, caso precisem entrar em contato, devem usar o telefone da escola.

Querido mestre
Os jovens brasileiros fazem uma boa avaliação de seus professores e dão a eles, de zero a dez, uma nota média 8,1. Para a maioria (71%), o que se aprende na escola tem muita utilidade em suas vidas.

O percentual é ainda mais alto entre jovens das classes D e E. Eliane Ribeiro, professora da UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), diz que a população pobre valoriza muito a escola porque sua rede de oportunidades é mais restrita. "Um garoto de classe média tem uma rede de amigos e familiares que o ajudará a encontrar um emprego. Para um jovem mais pobre, isso é mais difícil."

AG E GH


Gravidez
Aborto - só as amigas fazem...
Um terço das mulheres conhece alguém que abortou, mas apenas 4% admitem ter feito o procedimento


Trinta e três em cada cem jovens brasileiras conhecem alguém que fez aborto, mas só 4% admitem ter recorrido ao procedimento.

Essa diferença mostra, para Rebeca Silva, professora da Unifesp, que pode haver subnotificação nos dados: "É difícil falar sobre aborto, as pessoas omitem".

No Brasil, o aborto só é permitido em caso de estupro e de risco de vida para a mãe, mas, mesmo em países onde o procedimento não é crime, a subnotificação chega a 50%.

Pelas contas de Silva, se 30% das jovens disseram ter uma amiga que fez aborto, esse valor deveria corresponder também às que abortaram -já que, numa amostra grande, a superposição de dados (pessoas que conhecem a mesma jovem que abortou) não faz diferença.

Segundo a pesquisa, o percentual de mulheres que admitem ter abortado pula para 7% na faixa etária dos 22 aos 25 anos. Para a professora Greice Menezes, da UFBA (Universidade Federal da Bahia), uma explicação é que é geralmente nessa idade que a mulher tem uma atividade sexual mais intensa e, portanto, está mais suscetível a engravidar. Outra explicação seria o fato de pessoas mais novas terem mais dificuldade em admitir o aborto.

Também chama a atenção o percentual maior de abortos entre mulheres com renda familiar superior a dez salários mínimos: 9%. Segundo Menezes, apesar de essas moças engravidarem menos, elas recorrem mais ao aborto em caso de gravidez não planejada.

Silva diz que os dados confirmam o perfil da mulher que opta pelo aborto: "São jovens, que estão no meio de um projeto de vida, como a faculdade ou o início da carreira".

Patrícia Gomes, Colaboração para a Folha


Sociedade
Jovem se organiza na igreja
Participação em organizações religiosas bate de longe a reunião em grupos políticos

O som ensurdecedor dos acordes da guitarra era acompanhado pelas cabeças que balançavam ao mesmo ritmo das batidas do baterista e de uma letra que não se entendia muito bem. A cada intervalo da música, uma mensagem de amor a Jesus Cristo. A noite se estenderia madrugada adentro, com poucas variações entre os shows do Crash Social Concert, organizado por membros da Crash Church.

Talita Floriano, 18, não estava lá por causa da música -ela prefere hard rock dos anos 1980-, mas porque se sente bem no meio daquela galera. Ela faz parte dos 39% de jovens que declararam se organizarem em igrejas, segundo a pesquisa Datafolha.

Na "Crash", Talita pode se vestir como gosta. Filha de fundadores de uma igreja batista, ela está cada vez mais próxima do ministério underground e tem o sonho de ter uma loja na Galeria do Rock. Uma loja evangélica.

Diferentemente dos membros da Crash Church, que acreditam que Jesus era underground e se vestem, em sua maioria, com roupas pretas e soturnas, na Bola de Neve Church os meninos aparecem de bermuda florida, as meninas com vestidinhos e o pastor de topete. No templo, fotografias de surfistas num tubo não fazem parte de um conceito religioso: é apenas questão estética.

A adesão é tanta que a fila na porta da sede da "Bola", em Perdizes, São Paulo, chega à rua no intervalo entre cultos aos domingos. Ao entrar no templo, vê-se um auditório para cerca de 2.000 pessoas e uma prancha de surfe no lugar do altar -uma alusão ao início dessa congregação religiosa, que começou dentro de uma loja de "surfwear".

Depois de uma oração fervorosa, com rostos apertados, olhos de sofrimento e uma salva de palmas -para Jesus-, luzes são diminuídas e um set de cinco músicas, com direito a performance de dança, inicia o culto. As músicas têm melodia fácil e as letras de louvor a Cristo aparecem no telão para que até quem está lá pela primeira vez possa cantar junto.

A Bola de Neve Church, segundo o pastor do culto do domingo, começou como uma igreja 100% jovem e hoje é "só 70%". Muitos jovens acabaram levando os pais.

Talita Floriano, meio batista renovada, meio underground, vê a diversidade de cultos com bons olhos. "É necessário que haja essa diversificação para que cada um se sinta bem." Manuel Rodrigues de Souza Jr., professor de crisma na paróquia de São Judas, percebe que os jovens vão à igreja com mais vontade.

Segundo o professor, na época em que começou a formar crismandos, a procura era maior. Mas quase todos iam para cumprir uma obrigação. Hoje, ele diz notar menos jovens que estão ali por determinação dos pais.

Em um retiro dominical na chácara da própria paróquia, a maioria estava lá por determinação familiar, mas todos pareciam bem à vontade com os amigos que encontraram ali, com as paqueras que começavam e os temas discutidos.
É o caso de Guilherme Fiorentini, 16. Por sugestão dos pais, ele entrou junto com sua irmã, Mariana, 13, para as aulas que os preparariam para a crisma. Falante e combativo, Guilherme sempre coloca seu ponto de vista nas conversas.

Seu maior sonho é ter uma ONG que ajude as pessoas que não têm educação. Fã de Raul Seixas, tem medo de que o mundo se transforme em um grande parque de concreto, sem áreas naturais. Nada de muito diferente da maioria dos jovens -por mais que ele não acredite nisso.

O padre Darcy Augusto, que foi ao festival de música eletrônica Skol Beats em 2006 a convite da Folha e declarou que Deus estava lá, afi rma que a Igreja Católica já consegue manter os jovens fiéis. O desafio, acredita ele, é fazer com que eles venham até ela. Falta inventar a igreja do eletrônico?

Juliana Lugão, Colaboração para a Folha


Valores
Mini adultos
Jovens têm as mesmas opiniões que o resto da população em relação a temas polêmicos

O jovem brasileiro de hoje dá mais valor a religião, estudo, trabalho e família do que há dez anos e pensa de forma muito parecida com o restante da população sobre a descriminalização da maconha, a redução da maioridade penal, a pena de morte e a lei do aborto.

Para especialistas, ele tem poucos conflitos com a geração anterior, gosta de se divertir e se preocupa com a inserção social pelo trabalho. Ana Paula Oliveira, 22, diz que a família é a coisa mais importante de sua vida; depois, o trabalho, que paga sua faculdade. É madrugada em uma rave em Guapimirim (RJ) e ela dança segurando uma bandeira do Brasil. Como 72% da juventude brasileira, ela acha que a maconha não deveria ser descriminalizada.

A poucos metros dela, Jennifer, 21, mãe de um bebê de um ano, diz-se a favor da manutenção da lei do aborto. Ela acha, porém, que sua amiga Suelen Crisostomo, 20, não deveria ser presa caso recorra ao método. Para Suelen, a lei deveria ser revista: "É decisão de cada um".

Danielle, 24, diz já ter usado várias drogas e, por "saber o mal que fazem", é contra a descriminalização de todas, com exceção da maconha, que parou de fumar por ter ficado "viciada".

Universitários, Guilherme Souza, 22, e Bruno dos Santos, 25, discordam quanto à redução da maioridade penal. Guilherme é "totalmente a favor", embora não saiba qual seria a idade ideal. Bruno acha "um absurdo", pois "não resolve".

Longe da rave, em São Paulo, Fernanda Lima, 18, é contra a descriminalização do aborto e a pena de morte e a favor da redução da maioridade penal. Ela faz curso de produção cultural na Cufa (Central Única das Favelas). "Esse mundo já está muito perdido, muita liberação vai acabar estragando", acredita.

Politizados
Apesar de ter opinião semelhante ao restante da população sobre temas polêmicos, a juventude brasileira é mais escolarizada e politizada. Quase metade (47%) dela diz acompanhar o noticiário político e 37% se diz de direita, contra 28% de esquerda.

O jovem Marcus Vinícius Santos, 20, afirma que é de direita e que ser de esquerda é ser "do contra". Ele se diz politicamente ativo e considera Lula um ídolo.

Segundo Gustavo Ventura, cientista político da USP (Universidade de São Paulo), a população brasileira é "tradicionalmente conservadora" e com pouco histórico de associativismo. Ele afirma que a "juventude está buscando novas formas de organização" e que os movimentos culturais são uma opção.

André Lobato, colaboração para a Folha


Jovem era careta nos loucos anos 60
Quase se estava entrando no ano mítico de 1968 -era setembro de 1967- e a também mítica revista "Realidade", hoje extinta, publicou um perfi l inédito da juventude brasileira. Foi uma ótima oportunidade para mostrar que aqueles tempos fabulosos, de heróis revolucionários com suas mocinhas emancipadas, eram isso mesmo: tempos fabulosos. A pesquisa, feita com mil brasileiros entre 15 e 24 anos, mostrou que a juventude real estava a anos-luz daquela que queria tomar o poder.

Foi pedido que os entrevistados completassem a frase "você considera a virgindade de sua futura esposa ou marido...."; 44% disseram ser "essencial". Outros 21%, desejável. Só 13% a consideraram "desnecessária". Mas os defensores do amor livre estavam lá: para 4%, a virgindade era "prejudicial".

O Brasil vivia sob uma ditadura. Mesmo assim, 44% dos entrevistados se consideravam "a favor" do governo. E, se você acha que todo "brotinho" era "moderno", saiba que 3 em cada 4 entrevistados achavam que a mulher não deveria trabalhar.

Em 1968, durante um festival, Caetano Veloso e Gilberto Gil apresentaram a música "É Proibido Proibir". Vaiado, Caetano reagiu perguntando: "Mas é isso que é a juventude que diz que quer tomar o poder?" Não era, como mostrou a pesquisa da "Realidade".

Laura Capriglione, da reportagem local


Pátria
42% sairiam do país
Mesmo com a ameaça do subemprego, jovens brasileiros têm esperança de vencer em países do primeiro mundo

As longas esperas, muitas vezes em vão, para conseguir um visto para os EUA e a nova lei contra a imigração ilegal aprovada pelo Parlamento europeu comprovam: sair do Brasil e morar no exterior parece cada vez mais difícil.

Segundo o texto da nova lei européia, um imigrante ilegal pode ser detido por até 18 meses e proibido de voltar a qualquer país do bloco por até cinco anos.

Mas nada disso parece assustar os 42% de jovens brasileiros que, segundo o Datafolha, querem sair do país -e ficar para sempre fora das fronteiras tupiniquins.

Para Bruna Nunes, 27, que faz mestrado em Bilbao, na Espanha, muitos dos brasileiros que querem deixar o país têm a ilusão de que a vida no exterior será fácil. A jovem, que já lavou pratos e foi camareira em Barcelona, diz que as condições sociais não são tão igualitárias quanto se imagina no Brasil, mesmo para quem está em situação legal.

Além do problema da inclusão social, há as questões financeiras e a dificuldade de encontrar um trabalho fora do subemprego para quem não tem cidadania européia.

A brasileira Marcela Canavarro, 25, que mora em Nova York, compartilha da opinião de Bruna. Segundo a jornalista, os nova-iorquinos falam do Brasil como o "país pobre que deu certo", e ela própria se surpreendeu ao ouvi-los dizer que deve ser o melhor país do mundo para morar. Marcela afirma ter mudado sua perspectiva sobre o Brasil.

Subemprego
Quando, em 2001, Isabella Bolfarini, 29, formou-se em direito, resolveu se especializar em direitos humanos, área ainda incipiente no Brasil, e acabou fazendo mestrado na Bélgica e doutorado em Paris. Para se sustentar, fazia faxina. A flexibilidade do subemprego era, para a jovem, a melhor forma de poder estudar.

Nina Serebrenick, 23, também saiu do país em busca de um tipo de educação diferente da brasileira. Ela, que considera "a educação de arte no Brasil muito tradicional", foi em 2006 estudar em Londres numa academia de arte. "É para você ser um artista, e não um especialista em arte." Hoje em Amsterdam, Nina já trabalhou numa padaria e começou há pouco tempo numa loja de relógios.

Diferentemente dos jovens ouvidos pela pesquisa Datafolha, Nina e Isabella saíram do país com o objetivo de voltar. "Se eu tivesse certeza de que no Brasil existe uma escola de arte tão boa quanto as daqui, nem teria saído", diz Nina.

Juliana Lugão, Colaboração para a Folha


Aparência
Cada vez mais feios e gordos
Em comparação com a última década, insatisfação com aparência e peso aumentou consideravelmente

Poderia ser uma boa notícia o fato de que 6 em cada 10 jovens brasileiros estão muito satisfeitos com a própria aparência. Mas não é.

Há 11 anos, o Datafolha perguntou aos jovens brasileiros se eles se sentiam felizes com a aparência e registrou que 82% estavam muito satisfeitos com o que viam diante do espelho. A mesma pergunta foi feita agora e o grupo dos que se consideram muito satisfeitos caiu 23 pontos percentuais.

O descontentamento é maior entre as garotas -44% se dizem pouco satisfeitas e 6%, nada satisfeitas com a aparência. As meninas de 16 e 17 anos representam o auge do dissabor: 7% delas estão totalmente insatisfeitas.

Como não é provável que a feiúra tenha se tornado uma epidemia ao longo dos anos, por que os jovens estão se sentindo mais infelizes com a própria aparência? Segundo especialistas, trata-se de uma questão social.

Padrão de beleza Para a psicóloga Joana Novaes, coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza da PUC Rio, o padrão de beleza atual impõe que o jovem seja magro, "sarado" e bronzeado. "Tantas exigências geram uma relação infeliz com o próprio corpo", diz ela, que é autora do livro "O Intolerável Peso da Feiúra".

Segundo a psicóloga, a infelicidade se agrava devido à diferença de tratamento que a sociedade impõe ao "feio" e ao "bonito". Enquanto a beleza é um meio de ascensão social no Brasil, quem é considerado feio se torna vítima de um preconceito socialmente aceito, pois é permitido que se recrimine a aparência do outro.

Já a antropóloga Mirian Goldenberg -autora de "O Corpo Como Capital" e professora do departamento de antropologia social da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro)- não acredita que o jovem esteja se sentindo mais feio, mas, sim, inadequado em relação ao padrão de corpo valorizado pela sociedade.

Contudo, segundo Goldenberg, a juventude atual é a primeira geração que cresceu sabendo que há meios para se adequar ao padrão: vestir-se de acordo com a moda, investir em tratamentos estéticos, recorrer a cirurgias plásticas etc.

E mais gordo também Colocar os pés em uma balança pode ser um sacrifício para metade dos jovens brasileiros. Foi esse o percentual de entrevistados que disseram ao Datafolha que não estão satisfeitos com o próprio peso.

Comparando os resultados com 11 anos atrás, o número de jovens muito satisfeitos com o peso caiu de 61% para 50%. . Outra vez, a maior insatisfação se verifica entre as garotas, com o ápice do descontentamento entre as que têm de 22 a 25 anos: 26% estão insatisfeitas com o peso.

Para a Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica, a insatisfação com o peso reflete uma realidade preocupante. A entidade mapeou a obesidade no Brasil em 2007 e concluiu que, entre os jovens de 18 a 25 anos pesquisados, dois terços estão acima do peso e 5% são obesos.
Porém, outro fenômeno preocupa os especialistas: o descontentamento com a balança ultrapassa o universo dos jovens que realmente têm problema de sobrepeso.

Essa foi uma das conclusões de uma pesquisa recém-realizada por alunos de pós-graduação em psicologia hospitalar do Hospital das Clínicas de São Paulo com 757 universitários da área de saúde com idades entre 17 e 26 anos.

Dos entrevistados, 44% afirmaram já terem utilizado algum método para emagrecer, 20,5% já tomaram alguma fórmula para emagrecimento e 14% usaram laxantes ou diuréticos para perder peso. Além disso, 8% disseram já ter provocado vômitos após as refeições com o intuito de emagrecer.

Para o psicólogo Niraldo de Oliveira Santos, coordenador do estudo, os números surpreendem porque 8 em cada 10 estudantes consultados eram magros ou tinham peso normal em relação à altura e à idade.

Surpreendem ainda mais porque, em teoria, os estudantes da área de saúde deveriam ser bem informados sobre cuidados com o corpo. "O que se teme é que, se considerado um universo maior de jovens, o panorama possa ser ainda mais preocupante", diz Santos.

Carolina Araújo, colaboração para a Folha


Artigo
Uma garota precisa ser incrivelmente magra para caber naquele vestido da nova coleção da Triton. Precisa ser incrivelmente magra para estar aos pés das celebridades bem-sucedidas do momento. Mesmo que sejam celebridades famosas justamente por não fazerem nada.
Celebridades que representam a imagem da mulher e do homem glamourosos do século 21.

Aqueles que estão por dentro das tendências que mudam de forma e de cor segundo as estações.
O boom da tecnologia no fi nal dos anos 1990 não fez somente com que a informação pertencesse a todos, mas também com que houvesse informações demais, rápido demais. As pessoas se acostumaram com as soluções instantâneas e se tornaram mais imediatistas e incapazes de lidar com as frustrações.

Passaram a se sentir mais insatisfeitas. Seja com os relacionamentos amorosos, seja com a auto-estima, seja com as peças no armário. Isso certamente as tornou mais receptivas ao sistema ditatorial imposto pelas indústrias de moda e de estética.

Sistema que promove suprimentos de angústia que não realizam suas promessas. Para as insatisfações físicas, há sempre a cirurgia plástica.

Para ter os seios da Scarlett Johansson, a barriga da Gisele Bündchen ou o nariz e a boca da Angelina Jolie. Mesmo possuindo belos corpos, muitos se submetem à faca para se igualarem a padrões estabelecidos em revistas ou na TV. Preferem reclamar ou se mutilar a se exercitar, pois sabem que o resultado virá com mais rapidez. Não há como lidar com o longo prazo.

Dia após dia, convivemos com a idéia de que certas compras são verdadeiros investimentos e, ao realizá-las, tornaremo-nos seres humanos mais completos. Deixamos nos enganar pelas abordagens inteligentes que mexem com nossas inseguranças. Caímos de boca no anzol e nos sentimos cada vez menos felizes.

Por não termos aquela quantidade de dinheiro, aquele corpo invejável, aquela fama toda. Não que isso seja necessário para o ser humano. É somente imposto pela sociedade moderna.

Segundo o filósofo alemão Schopenhauer, o prazer nada mais é do que o momento fugaz de ausência de dor. Não há satisfação durável. É desse princípio pessimista que se alimenta a indústria do consumo. O que importa não é encher uma casa de bens, mas jogá-los fora quando deixarem de trazer emoções novinhas em folha.

A mesma idéia pode ser ilustrada com um shopping center, criado para proporcionar sensações excitantes que existem somente durante a estadia do comprador no estabelecimento.

Mesmo quando o consumidor adquire um celular que servirá para conectá-lo em movimento, está fazendo uma compra datada. O aparelho logo sairá de linha e será trocado por outro com a mesma utilidade e algumas funcionalidades banais a mais. Só o visual será diferente.

É a obsolescência planejada, ou, em outras palavras, tática de marketing. É preciso fazer com que os renegados da sociedade de consumo sintam-se como fracassados. Só assim permanecerão sensíveis o suficiente para acreditar em tantas falsas promessas.

Mayra Dias Gomes, 20
Autora do romance "Fugalaça" (Record)


Elas só pensam em plástica
42% das mulheres e 16% dos homens querem aumentar um pouquinho aqui ou diminuir um tantinho ali

Elas têm muitas coisas em comum. Além da idade -20-, de estudarem direito juntas e de terem nomes que rimam, as amigas Veridiana e Mariana dividem uma outra coisa: o cirurgião plástico.
Em julho de 2006, Mariana Martines colocou uma prótese de 260 ml de silicone nos seios.

"Nunca fui paranóica, mas já tinha 18 anos e meu peito não crescia", lembra. Um ano depois, acompanhou a amiga ao mesmo médico.

Veridiana Machado, então com 19, submeteu-se a uma lipoaspiração na barriga, no culote, nas costas e nas pernas, apesar de amigos e familiares acharem que ela não precisava.

E, em breve, elas vão ter ainda mais coisas em comum: Mariana quer fazer uma lipo, inspirada no resultado da cirurgia da amiga. Já Veridiana, adivinhe? Quer colocar prótese de silicone nos seios, como Mariana, e fazer outra lipo. "Mas não sei se o médico vai concordar", desconfia.

Satisfeitas com o resultado, as garotas não se incomodam em contar que fizeram plástica. "Quase não existe beleza natural hoje. Para que esconder?", pergunta Veridiana. "Acho ridículo quem esconde que fez. É uma coisa comum, todo mundo faz", diz Mariana.

Não é bem assim. Apesar de 42% das jovens brasileiras quererem fazer plástica, só 2% delas já entraram na faca. Entre os meninos, o número de operados é igual, mas bem menos gostariam de se operar: 16%.

O segmento que mais quer fazer a cirurgia é o das mulheres entre 22 e 25 anos: 48%. Os resultados da pesquisa são notados nos consultórios. A insatisfação com o próprio corpo e a preocupação em se aproximar do padrão de beleza ideal têm levado um número significativo de jovens a recorrer ao bisturi.

Segundo a SBPC (Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica), 13% das mais de 616 mil plásticas realizadas no Brasil em 2004 foram feitas em adolescentes de 14 a 18 anos. A entidade repetirá a pesquisa em 2008 e acredita que esse percentual terá aumentado.

Para o presidente da SBCP, José Yoshikazu Tariki, o número crescente de plásticas é resultado da maior divulgação sobre a cirurgia e da vaidade típica da juventude.

Já o cirurgião plástico Dov Goldenberg acredita que o desejo pela plástica é resultado da hiperindicação e de uma simplificação de seus riscos. O problema, para a cirurgiã plástica Alessandra Grassi Salles, é que grande parte dos jovens não tem maturidade emocional para encarar mudanças no próprio corpo.

"A cirurgia plástica parece ser um caminho fácil, mas é uma solução imediatista", diz. Para ela, o que os pais e os médicos devem procurar saber é por que o jovem está insatisfeito com seu corpo.

Carolina Araújo, colaboração para a Folha


Sexo
Virgem depois dos 20 anos
22% das mulheres entre 16 e 25 dizem nunca ter transado; é o caso de Camile, 20, que abastece as amigas com e-mails contando sua "saga"

"A mulherada está atacada hoje em dia! Acho que é falta do que fazer", gargalha Camile Liguori, santista de 20 anos e última virgem da turma. "Comecei a 'ficar' aos 13. Nunca fui santa nem quero casar virgem, mas sempre exigi que, na primeira vez, fosse fazer amor, e não sexo", diz a estudante de jornalismo.

Camile faz parte dos 22% de meninas brasileiras que nunca transaram. Mas por pouco tempo, espera ela. Há quatro meses, numa micareta da Universidade Mackenzie, encontrou o mítico "cara certo". Espera ele.

"Durmo na casa dele quatro dias por semana e ele sabe que, quando eu estiver preparada, vai ser ele. Agora é uma questão de tempo." Camile narra para as amigas sua preparação por e-mails, sempre intitulados, de forma bem-humorada, "A Saga de uma Virgem".

"O que vim contar hoje é: comecei a tomar pílula! Essa notícia é muito importante, já que eu só daria inicio à coisa toda quando estivesse prevenida. Um passo, de gigante, foi dado. No próximo e-mail conto como foi minha ida ao ginecologista", diz uma das mensagens.

Conforme o Datafolha, 11% dos rapazes são virgens -a metade da porcentagem entre moças. Se, aos 16 e 17 anos, eles são 32%, o número cai para 1% quando passam dos 22 anos. Ederson Vertuan, 24, ou Poeta, como é conhecido o mestrando em letras da Universidade Estadual de Londrina, está entre essa minoria. E não é que falte oportunidade.

"Duas meninas começaram a freqüentar minha casa para me persuadir a um contato mais íntimo. Deixei claro que não estava a fi m", diz o rapaz, que é guitarrista da banda de death-doom metal Feretro.

Acostumado aos gritos da platéia, o cabeludo evita olhar diretamente para as fãs. "Não quero mostrar fraqueza, que preciso [de sexo]. Por trás disso, há um medo meu de amar." Três meses de aquecimento Seja como for, o tempo entre começar o namoro e transar está diminuindo, na opinião de Albertina Duarte, coordenadora do Programa de Saúde do Adolescente da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo.

"Se, nos anos 90, as jovens perdiam a virgindade depois de um ano de namoro, em 2000 esse tempo caiu para menos de quatro meses e, em 2007, para menos de três", diz. Um terço dos virgens afirma guardar-se para o casamento. Essa é a intenção de 20% dos meninos e de 40% das moças virgens -assim como a de metade dos evangélicos e de um quarto dos católicos.
Poeta está entre os católicos. "Quero achar alguém com planos de construir uma vida juntos. Nessa parte, assumo minha fé católica", afirma o singular roqueiro.

Ele diz não sentir falta do sexo. "É algo que não conheço. Mais falta sinto de uma companhia. A pessoa só terá a chave do meu corpo se abrir o meu emocional. Senão, como diz Machado de Assis, o orgasmo será apenas uma dor bastarda", conclui o Poeta. Poeticamente.

Maurício Horta, Colaboração para a Folha


Laís, 15, olhou para os pêlos loiros de Lucas, 14. Então...
Lucas (nomes fictícios), na época com 14 anos, começou a ver com outros olhos sua vizinha Laís, 15, desde que ela comentara, depois da natação, sobre os pêlos loiros que cresciam abaixo do umbigo dele.

Era verão e a tensão sexual entre os dois adolescentes crescia até um dia em que foram ver o filme "Mudança de Hábito" na casa dela. "Imagina ser uma freira! Não podem fazer sexo!", disse Laís. "Mas sentiria falta? Você nunca fez!", retrucou o garoto. "Nem você. Mas, no dia em que fizer, acho que vou gostar", respondeu a amiga.

Em seguida, estavam deitados na cama dela -"filme chato", concordaram. Entre ursinhos de pelúcia e com o coração disparado, Lucas deu-lhe um beijo. Desajeitado, sem usar camisinha nem chegar ao orgasmo -ela sentia muita dor-, o garoto entrou para as estatísticas brasileiras.

Segundo o Datafolha, meninos perdem a virgindade aos 14,7 anos; já as jovens, aos 16,3. "Eu não tinha a menor técnica. Achei até um pouco nojento", diz Lucas. Ele está longe dos 67% dos homens e dos 51% das mulheres que consideram a primeira vez boa ou ótima.

Para o ginecologista Alexandre Pupo, do Hospital Sírio-Libanês, mulheres tendem a ter a primeira relação com um namorado por buscarem estabilidade e se apegarem emocionalmente. "Às vezes, ela acha que está namorando, ainda que tenha sido um relacionamento de uma semana. Já o menino vai dizer aos colegas que 'pegou essa aí'."

A corretora de café Milena, 23, que hoje já transou com mais de 200 homens, estreou com um "fi cante", aos 14. "Imaginava que a primeira vez fosse mágica, que as roupas deslizassem sozinhas. Mas não foi. Detestei."

Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, acredita que o "ficar" passa por uma mudança. Antes, embora esse hábito aumentasse a quantidade de relacionamentos, chegava- se menos à consumação sexual. Porém, hoje esse limite foi derrubado.

Para a psiquiatra, o comportamento sexual do jovem é resultado da inserção profissional das mulheres. "Com o casamento retardado, não há mais como aguardar a iniciação sexual. As meninas tiveram uma queda de até cinco anos, contra um ano entre meninos. Agora, os dois começam quase juntos."

MH


Consumo
Ah, como gastam
69% dos jovens admitem ser consumistas; moda é importante para 70% deles

Os pais já perceberam e reclamam. Os especialistas em comportamento listam vários motivos para o fenômeno -desde falta de autoestima até gosto por novidades. Mas agora é a vez de os próprios jovens admitirem: "Somos consumistas mesmo!".

Para economizar sem abdicar das compras, a estudante carioca Camila Florez, 18, chegou a trabalhar, por alguns meses, em uma loja de um shopping no Rio de Janeiro, onde podia comprar modelos com desconto.

O guarda-roupa cheio motivou Camila e a amiga Roberta Moulin, 18, a criarem o blog "Reciclando Moda", onde vendem peças que compraram e nunca foram usadas. "Já vendemos muita coisa", comemora Camila, que gasta parte do dinheiro recebido em... roupas.

Para Guilherme Lemes, 19, as compras se tornaram um problema. Ele gastava todo o dinheiro dado pela mãe em compras. Tinha até camisetas iguais compradas em ocasiões diferentes.
"Sinto prazer em comprar, mas, quando percebi, tinha 40 calças jeans e só usava quatro", conta. Hoje, ele faz terapia para tratar o que diz ser consumismo compulsivo. Algumas calças jeans inativas já foram herdadas pelos primos ou vendidas.

Segundo a publicitária Rita Almeida, especialista na área, existem dois padrões de consumo dos jovens. O consumo entre os teens é impulsionado pela necessidade de adequação ao modelo de comportamento imposto pela turma de amigos. Mas a faculdade e a entrada no mercado de trabalho tornam o jovem mais preocupado em se tornar adulto.

Não há uma ruptura entre os dois momentos, diz Rita, mas a mudança nos interesses e no padrão de consumo é visível. "A idade os torna mais conscientes em relação ao consumo. A entrada na faculdade é um marco fundamental, pois os conflitos internos mudam completamente", afirma.

Carolina Araújo, colaboração para a Folha



Conexão
Internet persegue TV
Meninos mais novos já preferem a rede à televisão

A TV ainda é a principal fonte de informação para o jovem brasileiro, mas ele se tornou multimídia.

Essa é a opinião de Maria Regina Mota, doutora em comunicação e semiótica pela PUC-SP, após analisar dados do Datafolha.

A pesquisa revela que 98% dos jovens assistem à TV 3,4 horas por dia, embora esse veículo venha caindo na preferência dos jovens e a internet esteja subindo. "Esse número não me impressiona, pois não significa que o jovem passe todo esse tempo na frente da televisão sem fazer outra coisa. Ele pode deixar a TV ligada enquanto navega na internet. O que acontece é que, com a disponibilidade dos meios, o jovem se tornou multimídia", diz Mota.

A comparação com dados do Datafolha colhidos em São Paulo em 2000 mostra que, enquanto na época 45% dos jovens disseram ter a TV como veículo de comunicação preferido para se informarem, hoje 33% afirmaram o mesmo. Já com a internet nota-se um processo inverso.
O número dos que disseram ter a rede mundial como principal veículo subiu de 11% para 26%. A média de tempo gasto na web diariamente é de 2,5 horas.

Mas já há faixas e classes sociais em que a internet lidera. Os meninos com idade entre 16 e 17, assim como os de 18 a 21, disseram preferir a internet. No primeiro grupo, a rede ganhou por 33% a 30%. No segundo, por 35% a 31%.

Para os jovens das classes A e B, a internet é o meio de comunicação mais importante, com larga vantagem em relação à TV (43% a 26%).

Na classe C, a realidade é outra: a TV tem 33% da preferência contra 21%. Nas classes D e E, são 42% para a TV e só 10% para a rede.

Juliano Marques, 18, classe A, é um dos que ratificam os números acima. Ele diz acessar a web todos os dias em busca de informação. Para Juliano, a TV é sinônimo de entretenimento. "A diferença é que, na internet, eu posso pesquisar na hora em que eu quiser. Na TV, não dá para mudar o horário da programação", diz.

Cristiano Nabuco de Abreu, doutor em psicologia, argumenta que, além de permitir que o jovem vasculhe várias coisas ao mesmo tempo, a internet seduz pela perspectiva do controle. "Os que passam a ver a programação da TV no computador têm a sensação de manipular o que lhes interessa e de não serem reféns da mídia."

Jornais lideram no meio impresso
Entre os veículos impressos, os jornais deram um banho nas revistas: foram citados como meio preferido de informação por 19% dos jovens brasileiros, enquanto as revistas tiveram apenas 3% das respostas. O rádio é o principal meio informativo para 16% e a TV paga, para 2%.

Giulliana Bianconi, Colaboração para a Folha


Rodolfo - "Acessar na LAN house é mais zoeira"
Quando voltou da escola e soube que o microônibus no qual trabalha como cobrador estava quebrado, Rodolfo Rocha, 16, almoçou e correu para a LAN house que costuma freqüentar no Capão Redondo, bairro de periferia da zona sul de São Paulo.

O ambiente "descolado", com porta grafitada, paredes laranja e computadores pretos, já estava cheio. Todos os dez clientes eram jovens e estavam conectados à internet. Pela hora navegada, pagavam R$ 1,50.

Na pesquisa Datafolha, esses jovens fazem parte dos 57% que disseram acessar a internet fora de casa. Dos meninos de 16 e 17 anos, como Rodolfo, 76% afirmaram o mesmo. Em casa, Rodolfo possui computador, mas sem internet.

Afirma, porém, que, mesmo que tivesse, não deixaria de freqüentar a LAN house. "É bem melhor aqui, que é a maior zoeira. Em casa, eu ia ficar sozinho. Não teria graça." Pseudo-socialização A alguns metros dali, em outra LAN house, o atendente João Cairo, 20, diz que conhece jovens que vão ao local mesmo tendo acesso domiciliar à internet.

Apesar da afirmativa de Cairo, ainda são minoria, nas classes D e E, os que se conectam à internet em casa (2%). Entre os jovens da classe A, o índice é de 67%.

Isso não quer dizer, porém, que os jovens ricos não freqüentem LAN houses, mas que têm mais possibilidade de escolha, pois 56% deles afirmaram que se conectam fora de casa (o número não inclui ambiente de trabalho).

Para a psicóloga Dora Sampaio, do Ambulatório de Transtornos do Impulso do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (SP), a presença constante em LAN houses favorece uma pseudosocialização. "A pessoa busca um outro espaço de convivência, mas continua imersa no mundo virtual."

Sampaio, que integra um projeto voltado a pessoas viciadas em internet, nota que o tema LAN house vem se tornando mais freqüente entre os jovens que chegam buscando ajuda.

GB


Artigo: Armas adultas
O jovem brasileiro quer saúde. Quer estudar e ganhar dinheiro. Quer ser feliz no trabalho e no amor e quer ir para o céu quando morrer. Parece bom e parece pouco. Nosso acomodamento adulto exige um jovem todo idealismo e rebelião, que roube dos deuses as chamas da utopia e incendeie tudo que há de velho e podre. Contanto que não seja nosso fi lho, claro.

Nesses valores pragmáticos se igualam classes de A a E, brancos e mulatos, manos e minas. A pesquisa Datafolha dá voz a uma geração pé-no-chão. Mas mais sofisticada do que parece à primeira vista.

Fácil dispensar esse conjunto de valores como mera lavagem cerebral da sociedade do hiperconsumo. Mas a cartilha emplacou por duas razões. Primeiro porque a garotada, já miserável, tem justificado pavor de mais miséria. É pobre de dar dó: 73% têm renda familiar abaixo de cinco salários mínimos. Esse valor inclui o salário do próprio jovem -60% trabalham, dos quais 77% ganham até dois salários mínimos. O que sobra (?!) vai para roupa, sapato, sanduba, xampu, a conta do celular e uma cerveja no sábado.

Esses são os felizes. Porque um em cada cinco está desempregado. Em 2005, quase metade dos desempregados do Brasil tinha entre 15 e 24 anos. A quantidade de jovens desempregados subiu 107% entre 1995 e 2005. A segunda razão por que o jovem acredita que se dar bem só depende de você é que ele é muito bem informado. E não só porque 74% acessam a internet. Esta geração absorveu organicamente o que o mundo nos ensina todo dia.

Para sobreviver, é preciso jogar o jogo. Complemento fundamental: as regras que valem para os outros não necessariamente valem para mim.

Por exemplo: 81% acham a religião importante, mas eles só seguem os mandamentos do Senhor quando querem. São 28% a favor do aborto e 50% a favor da pena de morte; 35% admitem a tortura. E 80% acham importante o sexo, arquiinimigo de padres e pastores.

Esse padrão se repete com freqüência: 78% são sexualmente ativos, 87% têm medo da Aids e 72% temem uma gravidez indesejada. Mas só 45% usam camisinha sempre.

Outro caso: a maioria dos jovens diz que o que se aprende na escola é muito útil. Mas só 51% estudam, 54% já repetiram o ano e 32% não lêem livros. Na prática, estão dizendo que o estudo só é importante como passaporte para um salário menos ruim. Acertaram na mosca.

Nosso jovem é surpreendentemente sofisticado em sua ambigüidade. Não tem ideais nem heróis. É realista nos seus objetivos -fantasias de ser modelo ou craque de futebol é coisa de uma minoria. Pretende atingir suas metas gastando o mínimo de energia.

Respeita leis do homem e de Deus só até que elas se transformem em obstáculos. A referência das meninas são mulheres-corporação como Ivete Sangalo, Xuxa e Gisele Bundchen -belas coxas conquistando belas contas bancárias. As boas pontuações de Lula nos quesitos "honestidade" e "inteligência" são reveladoras. Ele só atingiu a meta de sua vida quando finalmente jogou para ganhar, custe o que custar -como seus opositores sempre fizeram.

É uma geração que bate ponto na moralidade convencional, mas, na prática, atua segundo seus interesses. A plebe moleque enfim luta com as armas da elite adulta. Melhor assim.

André Forastieri, 42
Diretor editorial da Tambor, foi o primeiro editor do Folhateen


Vícios
43% dos pais sabem do uso de drogas
22% dos meninos e 11% das meninas admitem já terem se drogado

Cena 1: Toca o telefone na casa de Lúcio, 57, em Alphaville, reduto de classe média alta na Grande São Paulo. É o pai de um dos amigos do fi lho de Lúcio, André, 14. "Seu fi lho está fumando maconha." Passados três anos, Lúcio já desembolsou cerca de R$ 25 mil em testes antidrogas para controlar os hábitos de André. A checagem é semanal. Sessões de psiquiatria entraram no pacote. Sem muita regularidade, André, hoje com 17, continua usando maconha.
Cena 2: Luciano, 19, encontra com o irmão, de 22, um pacote de baseado na pasta do pai, um empresário de Belo Horizonte. Durante dois anos, fumavam três vezes por semana. Ora o pai comprava, ora os filhos. Reuniam-se na varanda, especialmente antes de irem a jogos do Atlético Mineiro. A mãe nada sabia.

Os nomes são fictícios, mas as situações, reais. São exemplos de um dos dados apontados pelo Datafolha que mais surpreenderam especialistas ouvidos pela reportagem. Segundo os fi lhos, quase metade (43%) dos pais sabe que eles usam ou já usaram drogas.
Embora as duas cenas ilustrem o conhecimento dos pais sobre os hábitos dos filhos, elas mostram duas formas diferentes de reagir ao problema, ambas reprovadas pelos estudiosos. O comportamento mais liberal é visto, de forma geral, como herança geracional da época em que o proibido era proibir.

"Os pais desses adolescentes estão parados na década de 1960, achando que seus filhos usam droga e tudo bem. É um horror", diz a pesquisadora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) Ana Cecília Marques.

Na outra ponta, o uso de testes de drogas aponta para uma relação de ausência de diálogo e confiança entre pai e filho, segundo o psicanalista Luciano Chati, que faz trabalhos de prevenção ao uso de drogas em escolas e faculdades de São Paulo.

Segundo o laboratório Sapiens Vita, que atua na área de testes de drogas, 89% das compras de testes no último mês foram feitas por famílias.

"Um controle muito rígido gera um distanciamento total da relação pai e fi lho e, eventualmente, pode acarretar outras complicações", afirma Chati. De acordo com a pesquisadora Sandra Scivoletto, coordenadora do Grea (Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas), o comportamento dos pais é majoritariamente liberal, especialmente em relação à maconha. A perspectiva para as próximas gerações, diz, não é das melhores.

"A juventude de hoje está assim por ser reflexo da postura dos adultos. A formação dela já está comprometida."

O uso de drogas no período de formação dos jovens é corroborado por um dos dados revelados pela pesquisa Datafolha. Um em cada três jovens com menos de 18 anos diz que já presenciou o uso de drogas na escola.

Breno Costa, Colaboração para a Folha


Da cerveja à produção de crack
O primeiro bar onde Júlio César (nome fictício) se sentou para beber cerveja foi em Vinhedo, interior de São Paulo. Ele tinha 12 anos. Desde então, nove anos se passaram. Os últimos 50 dias foram o período mais longo que Júlio, hoje com 21, conseguiu ficar longe de um copo. Ele não tinha alternativa: estava internado em uma clínica de reabilitação para dependentes químicos em Mairiporã (SP).

O cigarro que tragava quando a reportagem o visitou era, além de "um alívio", o que restou da coleção de vícios que incluiu maconha, cocaína, solventes, ecstasy, LSD e crack, além do álcool. O início da relação com as drogas, na esteira da bebida, foi aos 14. Diz ter provado de tudo. "Eu me sentia bem, ficava mais solto com as gatinhas", afirma. O salto na relação com as meninas foi acompanhado pela derrocada na escola. Júlio colecionou oito expulsões de colégios. Repetiu o ano três vezes.

Foi morar na Bahia e lá chegou ao ápice dos vícios. Um amigo dependente vendeu para um traficante um terreno avaliado em R$ 60 mil. O pagamento foi digno de uma cena de "Scarface": seis quilos de pó branco. "Eu mesmo fazia o crack, com cocaína, amoníaco e bicarbonato."

A rotina era sem imprevistos. Júlio dormia às 6h, acordava às 15h e jogava bola, "para dar uma limpada no corpo". Em seguida, a droga o chamava. Sempre com uma companhia, cheirava cocaína, produzia o crack e bebia. Ia nesse ritmo até as 6h, para depois recomeçar. O tratamento na clínica deve terminar em dois meses. O custo do spa antidrogas chega a R$ 5.000 mensais.

BC


20% já dirigiram depois de beber
A relação entre jovens, bebida e trânsito é trágica: 1 em cada 5 já dirigiu após beber. Entre os jovens com renda familiar mensal maior do que dez salários mínimos -com mais chance de ter carro-, a relação sobe para 2 em cada 5.

Outro dado preocupante é que até jovens com 16 e 17 anos, impedidos pela lei de dirigir, admitiram ter pegado no volante após beber. A prática foi admitida por 7% deles. Segundo dados do Denatran de 2007, diariamente 12 motoristas menores de idade se envolvem em acidentes com vítimas no Brasil.

A maioria dos jovens costuma beber: são 59%, sendo que 1 em cada 3 deu os primeiros goles antes dos 15 anos.

É o caso da estudante de medicina Viviane Nunes, 23, que está sem beber há um ano e meio. Ela começou aos 13 e chegou a ter queda de cabelo e inchaço no corpo em decorrência da bebida. "Percebi que tinha algo anormal porque meus amigos tinham controle. Para mim, só tinha sentido beber para me embriagar", diz.

BC


Sulistas se drogam mais que os outros
Os jovens sulistas bebem, fumam e se drogam mais do que o restante dos brasileiros. A diferença, que já havia sido notada em outras pesquisas, volta a aparecer na consulta do Datafolha.

Não há estudos explicando o fenômeno. A explicação mais recorrente entre os especialistas é o poder aquisitivo: os sulistas têm mais dinheiro e, assim, consomem mais. Outra envolve a influência das colonizações alemã e italiana no hábito de beber álcool.

Segundo o pesquisador Flávio Pechansky, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, "existe, sim, um oferecimento grande de drogas aos jovens da região", motivado, em parte, pela "instalação de rotas de narcotráfico e laboratórios clandestinos de refino de drogas no local".

BC


Música
O Brasil do forró!
Gênero é o preferido de um quarto dos jovens

Imagens de sumidades do forró, como Dominguinhos e Luiz Gonzaga, preenchem a parede sem reboco. No teto, bandeirinhas de São João. São 23h40 e a noite numa tradicional casa de forró no largo da Batata, em Pinheiros apenas começa. Morna, mas vai esquentar.

Só 15 casais dançam o chamado forró pé-de-serra na pista principal. Alguns jovens bebem a xiboquinha -aperitivo tradicional, com gengibre, pinga, limão e especiarias.

Ana Cláudia Serrano, 20, é uma das forrozeiras à espera de um par. Ela está vestida a caráter: sandálias rasteirinhas, vestido leve, cabelo meio preso. Além de fazer aulas de dança, vai aos bailes duas vezes por semana. A "turma do forró" não gera ciúmes no namorado roqueiro, que prefere não ir.

A espera de Ana dura menos de cinco minutos: ela é tirada para dançar num ritual sem complicações. Geralmente, é só na pista que descobrem o nome um do outro -quando descobrem. Se um dos dois não dança bem, é abandonado sem muita cerimônia: beijo na bochecha, obrigado, tchau.

À 0h15, é anunciada a primeira banda. A pista não demora a encher: mesmo em noite de dois jogos importantes de futebol, cerca de 250 vestidos, saiões e calças se esbarram, dançando.
É um consenso entre os forrozeiros que o maior objetivo ali é a dança. Mas e as paqueras? Contidas: só à 0h30 deu para fl agrar um beijo na pista. À 1h20, a atração da noite: o pernambucano Trio Virgulino toca xote, xaxado, baião e outras variáveis do forró.

Às 3h, quando a festa acabou, a noite era fria lá fora. Mas, na casa do forró, todos os sete ventiladores continuavam ligados.

Cristina Moreno de Castro, Colaboração para a Folha


Artigo: Nota errada
Passei dois dias analisando os dados sobre os gêneros musicais prediletos dos jovens. Queria encontrar um que fosse positivo.

Que me fizesse parar com essa minha mania de reclamar do Brasil. Perdi tempo.

O primeiro dado negativo está no líder da pesquisa: o forró. No Nordeste, a adesão é ainda maior. As chances de o Nordeste evoluir cessam nesse dado. Pois, por mais preconceituoso que isso possa parecer, o Nordeste só evoluirá quando abandonar suas arcaicas raízes culturais.
O pagode aparece em segundo lugar, com 23% de masoquistas, mesmo índice de quem ainda não desistiu do rock.

É difícil entender essa relação de amor entre os brasileiros e o batuque. O samba, variante do pagode com letras mais chateadas, foi lembrado por 11% dos jovens. O axé, patrocinado por cantoras que só sabem gritar "sai do chão", tem a atenção de 15%.

A MPB ficou em sexto lugar: 40% dos ouvintes estão no mais alto nível de escolaridade. O gênero cresce no público que, em tese, deveria reparar na inaptidão musical de nossos artistas.
E é aqui que constatamos uma nuance do Brasil: independentemente do nível de escolaridade, sempre a música mais tosca, mais atolada de frases de duplo sentido, será a predileta.

Com o tempo, a educação passou a elitizar nossas asneiras. O efeito disso é que os jovens e o Brasil vão regredir ano após ano. O lado bom é que podemos escolher o batuque que será a trilha da derrota tupiniquim.

Leandro Sarubo, 20
Estudante de jornalismo em Sorocaba/SP


Folha de São Paulo, 21/07/08

Mais...

sábado, 26 de julho de 2008

Governo amplia programa Bolsa Família a 1 mês da eleição; beneficiários serão qualificados

Um mês antes das eleições municipais, 1,4 milhão de famílias do Bolsa Família irão receber em suas casas uma carta do governo federal com a boa notícia de que, sem o risco de perder o benefício mensal, poderão disputar uma vaga num plano de qualificação profissional na área da construção civil.

Essas famílias estão localizadas em cerca de 280 municípios, de 20 regiões metropolitanas do país. Em cada um deles, gestores do Bolsa Família irão além do conteúdo da carta.

Informarão às famílias sobre a possibilidade de, em meio às aulas teóricas de qualificação, alguns dos beneficiários seguirem com carteira assinada para canteiros de obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).

Esse beneficiário receberá o piso salarial da categoria e terá a chance de ser efetivado pela empresa. Em São Paulo, por exemplo, o piso de um servente de pedreiro é de R$ 712.

Apenas um integrante de cada família poderá concorrer a uma vaga no programa de qualificação. A condição é que tenha entre 18 e 60 anos e ao menos a quarta série completa. Quanto mais pobre a família e mais instruído o candidato, maiores as chances de seleção.

Ao final do processo, 200 mil candidatos serão selecionados pelo Ministério do Trabalho. Serão quatro meses de treinamento, a partir de novembro. O número de vagas com carteira assinada dependerá dos empresários, que devem receber uma espécie de "selo inserção" pela participação no plano.

Mesmo contratado pela empresa, o beneficiário não deixará de receber o Bolsa Família. Isso porque a verificação da renda familiar mensal, que não pode ultrapassar R$ 120 por pessoa, ocorre apenas a cada dois anos. Hoje o programa paga entre R$ 20 e R$ 182 para cerca de 11 milhões de famílias.

Recebe o teto uma família extremamente pobre, com três filhos de até 15 anos e ao menos dois adolescentes de 16 e 17 anos, sendo R$ 62 de benefício básico, R$ 20 por filho (num limite de três) e R$ 30 por adolescente (limite de dois).

Na semana passada, Lula pediu que, durante o período eleitoral, os ministros da área social dêem "mais publicidade" às realizações do governo para que, segundo ele, a população esteja "bem informada" em meio aos debates municipais.

Para o governo, o envio da carta às vésperas das eleições não configura um eventual auxílio a candidaturas apoiadas pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "A questão eleitoral não pode impedir essa perspectiva de promoção e de emancipação dessas famílias", diz Arlete Sampaio, secretária-executiva do Ministério do Desenvolvimento Social. "Eles [beneficiários do programa] vão participar de um processo de qualificação profissional e provavelmente só vão ser admitidos [pelas empresas] depois do período eleitoral", completa.


Eduardo Scolese
Folha Online, 26/07/08

Mais...

Miss Universo é a nova madrinha da Comissão Latina Contra Aids

A Comissão Latina Contra Aids aprovou nesta sexta a Miss Universo Dayana Mendoza como a nova madrinha da organização, já que a modelo, durante seu reinado, levará a mensagem sobre a prevenção para evitar o contágio da doença. A organização Miss Universo tem como incumbência de cada uma das rainhas levar a mensagem contra a Aids.

A venezuelana, que em 13 de julho conquistou o título de mulher mais bela do mundo, visitou na quinta-feira a sede da Comissão Latina Contra Aids em Manhattan.

No local, ela se reuniu com o presidente da organização, Dennis de León, e o diretor-executivo, Guillermo Chacón, que informaram do impacto do HIV nas comunidades hispânicas nos Estados Unidos.

"É importante para mim e para a organização Miss Universo demonstrar nosso compromisso e solidariedade para com aquelas pessoas impactadas pelo HIV", disse Dayana.


Folha Online, 26/07/08

Mais...

Programa contra Aids do Brasil é modelo mas tem lacunas, diz Bird

O programa brasileiro de prevenção contra a Aids e o vírus HIV "atingiu a maioridade", mas ainda conta com "lacunas" em áreas como gerenciamento e campanhas de informação.

É essa a opinião de Joana Godinho, especialista-sênior na área de Saúde do Banco Mundial (Bird, na sigla em inglês), que deu entrevista à BBC Brasil, por telefone, a partir de Washington, na sede da instituição.

O Bird tem desde 1988 uma parceria com o governo brasileiro na área de prevençao à Aids e já investiu um total de US$ 400 milhões em diferentes programas ligados ao combate da epidemia.

No começo dos anos 90, a epidemia de Aids vinha crescendo no Brasil e os índices de pessoas que viviam com HIV eram semelhantes aos da África. Atualmente, a taxa de soropositivos caiu para 0,6% da população adulta e o número de mortes causadas pela Aids caiu para metade.

As estimativas iniciais do Bird eram de que o Brasil teria 1,2 milhões de pessoas com o vírus da Aids até o ano 2000, mas atualmente o índice de infectados é de 620 mil.

Futuro da parceria
Os avanços feitos pelo Brasil levam a especialista até a dizer que a parceria com o banco pode até estar caminhando para o fim, já que o país "começa a deixar de precisar do auxílio técnico e financeiro do Bird".

Mas ela vê a necessidade de progressos em diferentes setores, como o de informações relativas aos grupos considerados mais vulneráveis: homens que fazem sexo com homens, profissionais do sexo, usuários de drogas injetáveis e mulheres grávidas.

Godinho afirma que o mais recente programa aprovado pelo Bird, chamado Aids-SUS, quer contornar esse problema, trabalhando mais de perto com o Sistema Único de Saúde (SUS) e procurando obter dados mais específicos a respeito destes grupos.

"Como a epidemia está a avançar para o interior do país, entre grupos mais pobres e entre as mulheres, é preciso atuar muito mais com o SUS para alcançar pessoas em comunidades mais remotas, por exemplo, no Norte e no Nordeste. Essa seria uma importante área de trabalho, garantir o acesso à cobertura dos novos grupos atingidos pela doença."

Gerenciamento
A especialista acredita ainda que seria preciso progredir no sistema de gerenciamento dos programas de combate à Aids. "Outros setores da sociedade brasileira têm avançado para a gestão de resultados", através dos quais "municípios e Estados recebem financiamentos baseados em programas de monitoramento e avaliação".

Godinho acredita que o programa brasileiro é um sucesso porque há uma sintonia entre os diversos participantes envolvidos com o combate e a prevenção da doença.

"Temos no Brasil uma parceria entre todos os vários envolvidos. As pessoas com HIV estão muito ativas e organizadas e defendem os seus interesses. Há hoje mais de mil organizações da sociedade civil que trabalham na questão dos direitos, prevenção e aconselhamento e o governo exerce suas responsabilidades nas áreas de tratamento e prevenção".

Conferência
A especialista do Bird acredita que a experiência brasileira servirá de modelo durante a 27ª Conferência Internacional sobre Aids, a ser realizada entre os dias 3 e 8 de agosto, na cidade do México.

O evento contará com a participação de representantes de diversos países, entre eles o Brasil, além da presença do secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, e do ex-presidente americano Bill Clinton, atualmente à frente de uma fundação que financia programas de combate à Aids.

"O Brasil está desenvolvendo muitas parcerias no âmbito sul-americano, além de exportar medicamentos retrovirais para países como Bolívia e Paraguai, e para nações africanas de língua portuguesa, como Moçambique, Angola, Guiné-Bissau, São Tomé e Cabo Verde", afirma.

"O Brasil tem um grande manancial de conhecimento nessa área, que já está sendo exportado. E pode fazer ainda muito mais", conclui Godinho.


Bruno Garcez, da BBC Brasil, em Londres
Folha Online, 26/07/08

Mais...

CNS patrocina Orquestra Sinfônica de Israel

A Orquestra Sinfônica de Israel, que se apresentará no Teatro Municipal carioca no dia 14 de agosto, faz sua estréia no Brasil com o patrocínio da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e apoio máster da Klabin.

A apresentação tem caráter beneficente e é uma iniciativa do Beit Lubavitch. A renda arrecadada será revertida às obras assistenciais da Associação e ao Lar de Esperança, que assiste mensalmente cerca de 250 famílias no Rio.

Natan , CHL, CSC Brasil, e Real Assets também apóiam a iniciativa. A Federação Israelita do Estado do Rio de Janeiro (Fierj) parceira institucional do evento.


Meio & Mensagem, 25/07/08

Mais...

Search Marketing Expo chega ao Brasil em agosto

Depois de levar as mais recentes informações a respeito da comunicação da internet para diversos países, em mais de 50 edições, a Search Marketing Expo chega ao Brasil

Nos próximos dias 7 e 8, a cidade de São Paulo receberá o evento sobre marketing de buscas, que trará especialistas europeus, norte-americanos e brasileiros das áreas de publicidade e tecnologia para mostrar como a web pode ser utilizada na divulgação e apresentação de marcas.

Links patrocinados, buscadores, integração digital e as várias possibilidades de utilização da internet serão alguns dos temas discutidos durante o evento, que conta com o apoio do International Advertising Bureau (IAB-Brasil) e é produzido pelo Online Marketing Espanha (OME) e pelo portal SEM Brasil.

O encontro acontecerá no Hotel Unique, em São Paulo. Outras informações podem ser obtidas no site do evento.


Meio & Mensagem, 25/07/08

Mais...

O compromisso com o ensino do Novo Telecurso

O Brasil tem 52,96 milhões de estudantes matriculados na Educação Infantil e no Ensino Fundamental, Médio e Técnico. São 46,61 milhões em estabelecimentos públicos e 6,35 milhões em instituições privadas

Os dados, revelados pelo "Censo Escolar da Educação Básica 2007", são expressivos e apontam avanços na meta da universalidade do acesso à escola. Entretanto, ainda estão aquém desse objetivo imprescindível para o desenvolvimento, considerando que 800 mil crianças com idade para o ensino fundamental não estão estudando, assim como 18% dos adolescentes entre 15 e 17 anos, conforme mostram, respectivamente, estudos da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e da Fundação Getulio Vargas.

O número ainda elevado dos "sem-escola" não se deve à falta de vagas no ensino público, mas às suas condições inadequadas, favorecendo a evasão e repetência. Professores mal pagos, segurança precária, baixa qualidade e os problemas sociais e familiares são as principais causas. Além de cercear o direito ao estudo, as deficiências da educação geram alto prejuízo socioeconômico, como demonstra o Banco Mundial (Bird), no recente relatório "Jovens em Situação de Risco no Brasil": nossa economia deixa de crescer meio ponto percentual por ano em decorrência de um grande contingente de indivíduos não terminar a escola. Isto significa que, a cada quatro décadas, o País desperdiça R$ 300 bilhões, o equivalente a cerca de 16% do PIB de 2007.

O cenário é muito atenuado pela intervenção da sociedade. Nesse sentido, não há dúvida de que o Telecurso 2000 seja o mais amplo projeto educacional do Terceiro Setor no País. Além de sua abrangência, foca exatamente o principal problema da educação brasileira, que é a evasão, oferecendo oportunidade concreta às pessoas, de recuperarem o tempo perdido, resgatarem a escolaridade básica e se credenciarem à universidade ou a uma carreira qualificada.

São 27 mil telessalas, 5 milhões de alunos beneficiados, 30 mil professores capacitados, 24 milhões de livros e 1,8 milhão de fitas distribuídas. Há, ainda, 1.500 instituições parceiras. Estes são os números da iniciativa conjunta da Fundação Roberto Marinho e da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), por meio do Sesi-SP e do Senai-SP.

O primeiro, presente em 123 municípios paulistas, com 210 unidades e mais de 190 mil matrículas por ano, ministra Educação Infantil, Ensino Fundamental e, desde 2007, Médio. Agora, também abrimos a possibilidade dos estudantes cursarem de modo integrado o Ensino Médio do Sesi-SP e os cursos técnicos do Senai-SP. Esta instituição, com 152 unidades, atende a mais de 30 segmentos industriais, alcançando quase um milhão de matrículas anuais. Oferece cursos de Aprendizagem Industrial, Técnicos e Superiores (Mecatrônica, Meio Ambiente, Vestuário e Gráfica), incluindo pós-graduação latu sensu nessas mesmas áreas.

Ante a dimensão dos desafios persistentes, surge o Novo Telecurso, incorporando as disciplinas de Filosofia, Artes Plásticas, Música, Teatro e Sociologia, 110 novas aulas, mais 48 livros para alunos e professores, criação de um banco de dados único para promover a formação continuada dos docentes e a comunicação entre estudantes e inclusão de portadores de deficiência auditiva, a partir da criação de legendas na Linguagem Brasileira de Sinais (Libras).

Com os avanços, o Novo Telecurso, que está sendo lançado em março, passa a cumprir ainda melhor a função de permitir que milhões de brasileiros continuem estudando. Seu conteúdo é o currículo básico do Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja), do Ministério da Educação. As aulas dos ensinos Fundamental e Médio irão ao ar na Rede Globo, Canal Futura, TV Cultura, Rede Minas e Globo Internacional, com audiência semanal estimada em 7 milhões de pessoas. O acesso é garantido, ainda, nas telessalas, que contam com mediação de um professor, recursos audiovisuais, livros e a vivência de atividades complementares.

Com certeza, o Novo Telecurso inclui-se entre os fatores capazes de melhorar o acesso à educação. E isto é decisivo, pois o ingresso do Brasil no Primeiro Mundo e a solução efetiva do déficit social estão condicionados à sua capacidade de prover ensino universal de qualidade. Desse modo, o desafio do conhecimento é prioridade absoluta. Vencê-lo, porém, não é responsabilidade apenas do Estado. Cabe às organizações do setor privado um papel relevante, como demonstra a atitude dos parceiros do Novo Telecurso.


Paulo Skaf
Presidente da Federação e Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp/Ciesp)
Gazeta Mercantil, 25/07/08

Mais...

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Rede de solidariedade

Assista à animação sobre a rede de voluntariado V2V - idealizada pelo Portal do Voluntário em colaboração com Fundación Chandra (Espanha) - e veja como funciona esta rede de solidariedade.




Se quiser saber mais sobre o Portal do Voluntário, sobre o V2V, sobre voluntariado ou se simplesmente quiser encontrar uma oportunidade para ser voluntário, visite www.portaldovoluntario.org.br/

Mais...

Cidade de Minas Gerais promove "Inverno Orgânico" até domingo

Cappelletti brodo orgânico é uma das receitas servidas no festival que termina no domingo


Termina no próximo domingo (27), o festival "Inverno Orgânico" na cidade de Gonçalves há 220 km de São Paulo.

Conhecida como a cidade dos orgânicos graças a produção de frutas, legumes, verduras, cachaça, café e pinhão sem o uso de agrotóxicos e pelas características do solo e plantação.

Até o fim de julho, a cidade que registra uma altitude média de 1.300 metros e possui aproximadamente 35 cachoeiras, promove um festival gastronômico nos finais de semana.

Entre as atrações está a apresentação do chef de cozinha Sérgio Peres, do restaurante Nó de Pinho, de Gonçalves que vai apresentar receitas preparadas com produtos orgânicos. Os pratos poderão ser provados pelo público presente na "Feira dos Orgânicos" no centro da cidade.

Mais informações podem ser obtidas no site: www.invernoorganico.com.br



Folha Online, 25/07/08

Mais...

Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência indica mudança de paradigma

“Estamos passando por um processo de mudança. Já conquistamos muitas coisas. O Brasil ter ratificado a Convenção da Organização das Nações Unidas (ONU) sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (PcDs) foi um marco, uma conquista histórica, um compromisso da sociedade brasileira”.

A afirmação é do professor Carlos Ferrari, deficiente visual, vice-presidente da Associação para Valorização e Promoção de Excepcionais (AVAPE), instituição que busca a inclusão de pessoas com deficiência e integra o Conselho Nacional de Assistência Social, do Ministério do Desenvolvimento Social e Assistência Social.

Segundo o professor, a ratificação marca uma mudança de paradigma nas atitudes e abordagens em relação à questão. “A sociedade passa a ter um novo olhar. O Brasil fala para o mundo e entra no hall dos países que assinaram a convenção”, explica.

A convenção foi estabelecida em Nova Iorque em 30 de março de 2007 e a ratificação brasileira ocorreu no início do mês de julho de 2008. “Sem dúvida, veio numa boa hora. O debate já está amadurecido, o assunto foi muito discutido por diversos setores da sociedade e segmentos de lutas. As pessoas conseguiram chegar num ponto de maturação sobre a questão e convergir diferentes visões da sociedade. O Brasil precisava do debate, pois sem a discussão teríamos ratificado a convenção, mas ela funcionaria apenas em âmbito legal, e na prática mesmo poucas coisas mudariam”, diz Ferrari.

A convenção foi definida como um documento histórico, porque é o primeiro tratado internacional com status constitucional da história do Brasil. O presidente do Senado, Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN), promulgou o decreto legislativo com a ratificação do texto no dia 9 de julho de 2008. Ele beneficiará 14,5% dos brasileiros, aproximadamente 25 milhões de pessoas que têm algum tipo de limitação funcional.

Construída com a participação de organizações de deficientes de todo o mundo, o texto da convenção estabelece obrigações para assegurar igualdade de oportunidades e adaptações necessárias ao livre acesso a bens, serviços e direitos, conferindo reconhecimento universal à dignidade das pessoas com deficiência.

Situação das pessoas com deficiência
Segundo Ferrari, o Brasil vem evoluindo no sentido de respeitar os direitos das pessoas com deficiência. “A lei de cotas nas empresas, por exemplo, foi um grande avanço. Os estabelecimentos comerciais evoluíram, colocando sinalização e rampas de acesso. As calçadas apropriadas nas ruas e nos metrôs também já fazem parte da cidade. As próprias empresas estão mais conscientizadas e mais preparadas para receber as pessoas com deficiência”.

Neste contexto, o trabalho do Terceiro Setor é de grande importância. “O Terceiro Setor vem fazendo um ótimo trabalho, se manifestando com muita propriedade, mobilizando a sociedade civil e chamando atenção para o assunto. As pessoas estão se conscientizando. Não queremos ser vistos como pessoas que precisam de proteção social, mas como cidadãos com direitos e plena capacidade para exigi-los e tomar suas próprias decisões como membros ativos da sociedade”.

Ferrari também explica que para a inclusão obter sucesso é necessário realizar um trabalho de sensibilização junto às empresas. “Não basta você contratar pessoas com deficiência para apenas cumprir cotas estipuladas pelo governo. A empresa tem que ter consciência que está contratando alguém que tem capacidade e total competência para exercer aquela função”, ressalta.


Vivian Lobato, do Aprendiz
Envolverde, 24/07/08
© Copyleft - É livre a reprodução exclusivamente para
fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam citados e esta nota seja incluída.

Mais...

Microcrédito não atinge 50% dos pobres

Serviços financeiros e oferta de crédito a juro baixo, com menos burocracia, beneficiam 47,8% das famílias de baixa renda do planeta

As microfinanças — oferta de crédito e de outros serviços bancários a juros baixos, com menos burocracia e prazos de pagamento flexíveis — atingem menos da metade das famílias pobres do mundo. Das 193,6 milhões de famílias que recebem menos de US$ 1 por dia, 47,8% têm acesso a esse tipo de serviço, de acordo com números citados num estudo do Centro Internacional de Pobreza, uma instituição de pesquisa do PNUD em parceria com o IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

A Ásia é a única região em desenvolvimento em que mais da metade (68%) dos domicílios pobres são beneficiados por microcrédito. A proporção é menor na Europa Oriental e na Ásia Central (28,8%) e na América Latina (20,2%). A região em que as microfinanças têm menor penetração é África e Oriente Médio (11,4%).

“O acesso aos serviços financeiros traz inúmeros benefícios. Mas menos da metade dos domicílios nos países em desenvolvimento têm acesso a serviços financeiros, comparados com mais de 70% no mundo desenvolvido”, afirma Degol Hailu, do Centro Internacional de Pobreza, autor do paper Equitable Access to Financial Services: Is Microfinancing Sufficient?.

Em 2006, de acordo com o estudo, havia 3.316 instituições de microfinanças no mundo, que atendiam a 133 milhões de famílias pobres — desse total, quase 70% estava abaixo da linha da miséria e 85% eram mulheres.

Hailu destaca que o microcrédito é bastante importante para promover o acesso da população rural e de famílias pobres de centros urbanos às principais vantagens oferecidas pelos serviços financeiros. Servem de alternativa aos bancos, que freqüentemente não têm unidades em locais próximos a concentração de famílias de baixa renda. "Os pobres podem não ter o mínimo de dinheiro requerido pelo banco para abrir as contas. A falta de familiaridade com os complexos processos e as documentações envolvidas no depósito e retirada de dinheiro podem também constranger o acesso", diz o texto.

As microfinanças ainda não estão suficientemente disseminadas entre os pobres porque ainda se concentram em zonas urbanas e são “excessivamente dependentes de fundos internacionais”, afirma Hailu no artigo.

Para reverter a situação, diz o autor, freqüentemente a sugestão é ligar as instituições de microfinanças aos bancos comerciais — uma rede que traria benefícios tantos às instituições de microfinanças quanto para as bancárias. "Isso daria aos bancos uma maior base de clientes de pequenos negócios", afirma o texto, acrescentando que esse fenômeno pode ser chamado de "formalização da economia informal". Esse processo, ressalva, não garante que um número suficiente de pobres seja beneficiado, pois há carência de bancos comerciais, principalmente na zona rural.

Nesse sentido, defende Hailu, é preciso que as políticas públicas incluam financiamento direto aos pobres — como é feito na China, por meio de cooperativas de crédito rural, e no Vietnã, por meio de um banco público. Nesses dois países, “a política pública buscou o desenvolvimento rural por meio de programas de crédito em setores intensivos de mão-de-obra”, destaca. Não por acaso, nas duas nações asiáticas a pobreza tem caído rapidamente.


Redação do Pnud
Envolverde, 25/07/08
© Copyleft - É livre a reprodução exclusivamente para fins não comerciais, desde que o autor e a fonte sejam citados e esta nota seja incluída.

Mais...

Todo mundo quer saber

Olívio Guedes, diretor do Museu Brasileiro da Escultura, ministra aula no Universo do Conhecimento, uma das novas casas de cultura no bairro dos Jardins
Foto Sergio Zacchi/Valor


Logo no hall de entrada da Escola São Paulo, uma das muitas casas de cultura abertas nos últimos anos no refinado bairro dos Jardins, na esteira do sucesso da Casa do Saber, lê-se a placa: "Cultura é saúde". De fato, desde que trocou as aulas semanais de natação por cursos de literatura e arte, o advogado Marcio Silveira, de 37 anos, se sente melhor e mais produtivo. Diretor-jurídico da Oracle do Brasil, gigante no ramo de software empresarial, Silveira conseguiu convencer outros colegas de trabalho a trocarem atividades esportivas ou de lazer por algumas horas por semana ouvindo contos de Jorge Luis Borges.

Silveira desembolsa cerca de R$ 300 por mês para freqüentar vários tipos de cursos, um pouco mais do que gastaria na academia de ginástica e na natação. Não se arrepende. Hoje, mesmo com alguns quilos a mais, é capaz de citar de cor trechos do livro "Cidades Invisíveis", de Italo Calvino, um de seus favoritos, cujo diálogo entre os personagens Marco Pólo e Kublai Khan virou uma espécie de mantra diário. "Esse texto tocou-me profundamente e levo-o comigo no meu dia-a-dia, inclusive na empresa, pois é por meio da aprendizagem contínua que se garante a renovação do olhar e conseqüentemente a busca de alternativas viáveis", diz Silveira, animadíssimo com a próximo curso que freqüentará por três dias - A Arte de Colecionar: Paixão e Determinação.

Silveira não pode mais ser considerado um advogado excêntrico. Buscar aperfeiçoamento intelectual de todos os tipos virou uma tendência forte entre a classe média de São Paulo e de outras capitais brasileiras. Só na região dos Jardins há pelo menos uma dúzia de casas que oferecem todos os tipos de cursos possíveis, dos mais tradicionais, como História da Filosofia, aos mais curiosos, como A Arte de Contar Histórias para Crianças.


A Casa do Saber, por exemplo, a mais conhecida de todas, que pelo número de alunos de bom poder aquisitivo chegou a ser apelidada de "Daslup" (combinação de Daslu, a megaloja de luxo paulistana, com a Universidade de São Paulo, a USP, berço da intelectualidade paulistana) acaba de fazer mais um investimento de peso. Além das duas sedes em São Paulo - uma nos Jardins, outra em Higienópolis - e uma filial carioca, no bairro da Lagoa, a casa também mantém, desde o dia 20, uma unidade no luxuoso Shopping Cidade Jardim. O valor do empreendimento não é revelado, mas pelo preço do metro quadrado do shopping, um dos mais caros da cidade (cerca de R$ 10 mil), e o amplo espaço da nova unidade (200 m²), é possível ter uma idéia de como a Casa do Saber virou uma âncora poderosa e lucrativa dessa modalidade de negócios.

Para muitos, a força desses cursos é parte do ciclo de bonança econômica, que favorece o surgimento de uma nova classe média, sempre ávida por legitimação social por meio da cultura. Esse fenômeno, entretanto, tem lá seu lado positivo. "Todo mundo deseja o saber. A classe média alta também quer saber além dos horizontes da Daslu, e é bom que existam espaços para ela", justifica Daysi Bregantini, diretora do Espaço Cult. "O simples contato com alguns pensadores, mesmo que superficial, pode contribuir para melhorar o repertório", avalia.

Renato Janine Ribeiro, professor de filosofia política da USP está alinhado com Daysi. Para ele, não há nenhum mal em verificar o anseio dos emergentes por cultura. "A ignorância leva a um constrangimento social, que acaba obrigando o sujeito a procurar por conhecimento", afirma Ribeiro. "E esse tipo de pressão é ótimo, leva a pessoa a avançar na vida."

O aumento do número de casas de cultura foi acompanhado por uma mudança do perfil dos freqüentadores. A classe média alta, representada por empresários, profissionais e socialites, ainda forma a base de sustentação dos cursos, mas, nos últimos anos, tem dividido o espaço nas salas com estudantes de pós-graduação, à procura de aulas complementares, e com profissionais das mais variadas áreas e classes sociais, bancados por suas respectivas empresas. Na maioria dos casos, o funcionário é levado ao curso para aprofundar o conhecimento na sua área. "As empresas que pagam cursos para seus funcionários exigem aplicação prática", explica Daysi. "Por exemplo, no curso A Arte de Editar um Livro, aqui da Casa Cult, grande parte dos alunos era de profissionais ligados a editoras."

No entanto, há casos cada vez mais comuns de a empresa se dispor a bancar o curso de um funcionário mesmo que não haja nenhuma ligação do conteúdo da aula com a atividade profissional. A socióloga Marina Bedran, curadora da Casa do Saber, acredita que essa tendência é reflexo imediato da crescente segmentação do mercado. "O profissional fica tão preso ao seu universo, ao seu saber, que acaba sendo necessário o conhecimento em outras áreas para que ele ganhe mais produtividade", comenta.

Na Casa do Saber, há bancários fazendo curso de literatura, com bolsas de estudo oferecidas por suas companhias. Para Marina, o resultado nem sempre é satisfatório. "Por um lado, é muito bom abrir a cabeça de um profissional para outras culturas, para outros conhecimentos, enfim, humanizar sua formação, mas as empresas, tão afeitas a padrões, a normas, podem criar, meio sem querer, funcionários mais contestadores, mais idealistas", alerta.

No Espaço É Realizações, localizado na Vila Mariana, a porta está aberta para alunos de todas as idades e classes sociais. Há cursos sobre tudo, seja para os que se interessam apenas superficialmente por um assunto e desejam cursos rápidos, de duas horas, seja para alunos de pós-graduação com lacunas na formação. Dona de casas entediadas e aposentados também são bem-vindos. O curso A Arte de Contar Histórias faz sucesso com senhoras voluntárias que querem aprender a narrar histórias para crianças doentes em hospital. Executivos têm preferência por cursos de filosofia e arte contemporânea. "Nosso público é muito variado, mas a motivação é a mesma: todos querem aprender a consumir cultura de qualidade", diz Edson Filho, diretor-geral da Espaço É Realizações.

Considerada uma das pioneiras do ramo, a da Augôsto Augusta, no mercado há dez anos, é a mais ortodoxa das casas de cultura. Localizada na rua Augusta, também nos Jardins, nasceu como uma extensão da galeria e livraria inaugurada em 1968 por Regina Berjuhy e Lúcia Bertizlian. Em 1998, assumiu-se como um núcleo de reflexão sobre cultura e arte, com cursos de música, teatro, literatura, cinema e filosofia. A escola recusa-se a ministrar cursos rápidos e não faz questão de atrair todos os perfis de alunos. "Temos aqui desde alunos jovens até senhores de 84 anos, mas todos, com níveis intelectuais altíssimos, tem o mesmo objetivo: aprofundar o conhecimento", informa Regina. "Ninguém vem aqui para fazer hora, para aparecer ou por modismo: quem vier com essa proposta certamente vai se sentir constrangido."

Regina revela certo incômodo com a proliferação de escolas que ministram cursos de conhecimento na região, a maioria, segundo ela, com a clara intenção de aproveitar apenas um novo filão do mercado. "Elas tentam copiar o nosso esquema, mas não conseguem", diz, sem citar nomes. Mas o alvo, certamente, é a Casa do Saber, a mais badalada casa de conhecimento de São Paulo - a abundância de socialites freqüentando os cursos chegou a provocar a oposição de alguns intelectuais, que não aceitaram dar aulas no local.


Segundo a curadora da Casa do Saber, o perfil dos freqüentadores hoje é muito mais heterogêneo. Os cursos se diversificaram ao longo do tempo e atraíram um público diferente e diferenciado. Marina não concorda com o estereótipo criado em torno da casa, de ser apenas mais um ponto de encontro dos bem-nascidos - ou novos-ricos - da cidade. "Temos de tudo aqui, de estudantes de classe média a profissionais de pós-graduação e também não temos absolutamente nada contra o aluno que não tenha uma ligação profissional, diretamente produtiva, com as aulas", afirma.

Ela conta que atualmente é muito comum a procura por temas contemporâneos, tanto por estudantes, que querem se aprofundar no tema, quanto por empresários, profissionais liberais e socialites que desejam "estar por dentro do que acontece no mundo". "Os nossos cursos sobre a eleição nos Estados Unidos ou sobre os Brics [expressão criada pelo economista Jim O'Neill para denominar os principais mercados emergentes do mundo, Brasil, Rússia, Índia e China] fazem muito sucesso."

O músico e compositor Luiz Tatit, professor titular do Departamento de Lingüística da USP, vê com bons olhos o aumento do número de casas que ministram cursos de humanidades. Na sua opinião, eles podem - e devem - ser uma ótima alternativa ao academicismo. "É preciso louvar qualquer instituição que tem como objetivo vender cultura, mesmo que não tenha a pretensão de se aprofundar no tema", diz Tatit.

Ele já foi convidado para dar aulas no Espaço Cult e ficou impressionado com o clima informal das aulas. "O lugar era agradável, as poltronas dos alunos eram muito confortáveis e havia um interesse genuíno do público pelo que eu dizia - como posso ser contra isso?", indaga Tatit. "Era um curso ministrado à noite, freqüentado basicamente por estudantes. Mas eu não teria problema nenhum em dar aula para mulheres 'desocupadas'. Seria puro preconceito da minha parte."

A Universo do Conhecimento, inaugurada recentemente, segue o script da maioria das outras escolas. Localizada num casarão tombado nos Jardins (na alameda Ministro Rocha Azevedo) mantém o clima de sala de visitas. Os alunos são recebidos ao som de música clássica por uma espécie de hostess, que anota seus nomes e os encaminha até a sala de aula. Tudo planejado pela empresária Luciene Miranda de Paula, ex-sócia da Universidade São Marcos, fundada por sua família. Há quatro anos, Luciene coordenava cursos livres da Livraria Cultura, na região da avenida Paulista. A demanda aumentou e ela decidiu investir entre R$ 1,5 milhão e R$ 2 milhões na fundação da Universo do Conhecimento, que integra um espaço maior, dedicado à cursos de especialização e pós-graduação. "Se há melhora no poder aquisitivo, as pessoas procuram mais qualificação", observa Luciene.

A reportagem assistiu a um dos encontros culturais da noite na Universo do Conhecimento - A Arte como Valor: Simbólico, Emocional e Mercadológico -, ministrado por Olívio Guedes, diretor do Museu Brasileiro da Escultura (Mube). O curso tinha como objetivo "organizar o conhecimento, através da historia dos objetos de arte". Seu público-alvo: "interessados em geral que buscam ampliar o conhecimento em relação ao conceito de arte, suas mudanças ao longo do tempo e sua transformação em mercadoria".

Dos 14 alunos da sala, Adriana Teixeira de Lima, de 41 anos, foi a primeira a chegar. Formada em economia e em artes plásticas, Adriana viu no curso uma rara oportunidade de unir os dois universos, artes e economia, sempre conflitantes. "Nos cursos de artes, os professores sempre destacaram o lado intuitivo da arte e nunca a questão mercadológica; nos cursos de economia, aprendi a deixar a intuição de lado e a lidar apenas com a razão." Adriana desembolsou R$ 180 na esperança de, finalmente, conseguiu transformar seu conhecimento nas duas áreas em algo lucrativo. "Estou aqui para isso, para aprender a lucrar com a minha intuição", diz, determinada.

A tradutora e intérprete Ezir de Paiva, de 44, não tem grandes pretensões profissionais. Está ali por conhecer o professor e acha que de alguma forma deixará o curso com mais conhecimentos e prestígio. "Eu dou aula particular de inglês e a partir do momento que comentei com os alunos que estava fazendo um curso de arte passei a ser vista com outros olhos, com mais respeito e admiração", conta.

O sociólogo Dario Caldas, curador da Universo do Conhecimento, não escondia certa preocupação com a forte concorrência, mas esperava se diferenciar de outros espaços apostando em cursos mais longos, de maior profundidade. "Não faço a mínima questão de renegar o nosso perfil acadêmico, não sou partidário daqueles que acham que a academia tem cheiro de mofo", diz Caldas. A Universo do Conhecimento, debutando no segmento, terá concorrentes dos mais duros: a alguns metros dali, na avenida Paulista, a Livraria Cultura oferece cursos de graça, no mesmo horário. "A nossa estratégia está definida: queremos que o espaço sirva para que o aluno aprofunde o conhecimento que já tem."

Renato Janine Ribeiro acredita que a procura da classe média por cursos de conhecimento é um reflexo direto da falência da educação de base. "Como temos uma educação formal muito limitada, com grandes lacunas, é natural que as pessoas, mesmo na fase adulta, sintam a necessidade de buscar conhecimentos." Mas o professor também alerta para outro fenômeno: o anseio da sociedade por um aprendizado menos tradicional. Até há pouco tempo, segundo Janine Ribeiro, era importante e necessário apenas que o sujeito tivesse um completo domínio de sua atividade profissional, deixando o resto de lado. "Hoje, não. O conhecimento em outras áreas é muito bem-vindo e começa a ter uma ligação direta com a produtividade desse profissional. As pessoas estão acordando para isso, o que é muito bom."


Tom Cardoso de São Paulo
Valor Online, 25/07/08

Mais...

Montadoras dobram verba de marketing para atingir jovens

Herlander Zola, gerente de propaganda da Volks: montadora quer deixar de ser a fabricante do "carro do papai"
Foto Anna Carolina Negri / Valor

Se as montadoras fizessem uma grande campanha online para vender automóveis usando só os seus sites oficiais, atingiriam cerca de dois milhões de usuários na internet. Mas se os integrantes das comunidades virtuais que tratam do tema carros decidissem disparar uma campanha contra ou a favor de alguma marca na web, envolveriam um bilhão de internautas, ou seja, provocariam um impacto 500 vezes maior, segundo pesquisa do Ibope NetRatings realizada este ano sobre as redes sociais. Detalhe: nas comunidades relacionadas a veículos, mais de 90% dos membros têm até 24 anos de idade.

Não por acaso, as montadoras estão cada vez mais interessadas nos motoristas que carregam há menos de dez anos a carteira de habilitação. Para isso investem mais em ações na web e também no mundo "real", voltadas especificamente para este público.

Duas montadoras anunciaram esta semana estratégias pioneiras para atingir os motoristas com menos de 30. A Volkswagen patrocina com exclusividade a partir de hoje, sexta-feira, o download do novo álbum da banda Cansei de Ser Sexy, em uma parceria fechada com a gravadora Trama. Por meio da ação, qualquer internauta pode baixar o álbum completo, como parte da campanha de lançamento do novo Gol, capitaneada pela agência Almap BBDO. Já a Fiat acaba de levar ao ar o primeiro site brasileiro para usuários do iPhone. Os donos do aparelho da Apple, um misto de celular e tocador de música digital, poderão conhecer detalhes do Palio Adventure, lançamento da montadora.

Tanto na Volkswagen, quanto na Fiat, os investimentos voltados ao público jovem irão consumir entre 25% e 30% da verba total de marketing deste ano. Na Volks, esse montante estava em 15% em 2003, quando a empresa decidiu intensificar as ações de comunicação com os novos consumidores, a partir do lançamento do Fox. "O online é o principal meio para se comunicar com esse público, tanto que nossa aposta nessa área mais do que dobrou nos últimos cinco anos - de 3% para 7% da verba de mídia", diz o gerente de propaganda e estratégias de marketing da Volks, Herlander Zola.

O investimento está acima da média aplicada pelo mercado em comunicação online, que foi de 2,8% da verba de mídia no ano passado, segundo a pesquisa Inter-Meios. Fiat e Volks aplicaram juntas, de acordo com o levantamento, R$ 170 milhões e R$ 130 milhões, respectivamente. Na Fiat, a aposta em web vai muito além e deve fechar entre 10% e 12% do total investido em marketing este ano, de acordo com o diretor de marketing, João Batista Ciaco.

O curioso é que a estratégia de marketing das duas, centrada no online para chegar aos jovens, vai na contramão das estatísticas do Denatran: há cada vez menos motoristas jovens (de 18 a 25 anos) nas ruas, enquanto cresce o número de condutores com mais de 50. Ciaco explica. "É importante falar com os jovens não necessariamente para vender carro, mas para influenciá-los como formadores de opinião", afirma. De acordo com o diretor, a aquisição do veículo está cada vez menos solitária e mais compartilhada, daí a necessidade de estar presente nas redes sociais. O próprio executivo está aprendendo isso pessoalmente: criou há dois anos um blog pessoal.

"A influência começa dentro de casa, opinando sobre a marca que o pai ou a mãe podem comprar", afirma Herlander. "E mesmo que os mais jovens não tenham dinheiro para andar de quatro rodas agora, podem ser fiéis à marca amanhã".

Mas não é qualquer ação virtual que tem peso junto a esse público, diz Sérgio Mugnani, da Almap. "Só ganha espaço uma ação relevante, como a entrega de música digital de qualidade e de graça", afirma. Na Volks, porém, os esforços vão além do virtual. Fez uma parceria com a MTV (promoção Pimp my Fox) e criou um concurso (o Fox Route) para universitários. A alemã quer aposentar de vez aquela imagem de "carro do papai", sério e comportado, para adotar uma postura mais arrojada.


Daniele Madureira, de São Paulo
Valor Online, 25/07/08

Mais...



Acesse esta Agenda

Clicando no botão ao lado você pode se inscrever nesta Agenda e receber as novidades em seu email:
BlogBlogs.Com.Br