sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Empresa verde é quase sempre um mito

Ben Elgin, BusinessWeek
Publicado pelo
Valor Online em 16/11/07

Planta da Dow Chemical: empresa investiu US$ 1 bi na redução de 19% de emissões de 1994 a 2005, mas custos tecnológicos impossibilitam mais reduções até 2025
Foto Bloomberg

Auden Schendler teve aulas de ambientalismo empresarial diretamente da boca do profeta do movimento. No fim da década de 90, Schendler trabalhava como pesquisador no Rocky Mountain Institute, entidade de pesquisas e estudos em Aspen, Colorado, dirigida por Amory Lovins, lendário autor da idéia de que "abraçando a ecologia" as companhias podem ampliar seus lucros e, simultaneamente, salvar o planeta. Como Lovins dizia a Schendler, elevar a eficiência energética e reduzir emissões é não só um "almoço grátis", mas "um almoço que você é pago para comer".

Inspirado nessa promessa, em 1999 Schendler foi trabalhar na Aspen Skiing, tornando-se pioneiro de uma nova classe de executivos: o da "sustentabilidade empresarial". Oito anos depois, a empresa exibe seus feitos ambientais em seu marketing e decorou sua sede com troféus e placas comemorativas de sua postura ambientalista. No ano passado, a revista "Time" deu a Schendler, de 37 anos, o título de Defensor do Clima.

Mas Schendler não se sente triunfante. Ele pára o carro da empresa no acostamento de uma estrada de terra e desliga o motor. "Quem estamos enganando?" Apesar de seus esforços, a emissão de gases que causam o efeito estufa pela operadora de resorts continua a subir ano a ano. Mais gente de férias implica acomodações que consomem mais energia. Invernos mais quentes demandam toneladas de neve artificial, e mais energia. "Consegui viabilizar muitos projetos atraentes, mas fracassei no que me propus a fazer", diz ele. "Como tornar uma companhia verde? É quase impossível."

Praticamente não passa um dia sem que uma companhia importante anuncie ruidosamente seu mais recentes feitos ecológicos: varejistas reformando suas lojas para reduzir o consumo de energia; companhias de eletricidade desenvolvendo imaculados projetos de energia eólica; grandes bancos investindo bilhões de energia limpa. Não importa o que possam dizer os críticos de Al Gore, não há como negar que a mensagem do ganhador do Nobel da Paz foi ouvida. Com a crescente preocupação dos consumidores, as empresas querem mostrar que fazem parte da solução, diz Chris Hunter, ex-administrador de energia na Johnson & Johnson, que trabalha para a GreenOrder, uma consultoria ambiental. "Dez anos atrás, as companhias queriam de nós uma estratégia digital. Agora, querem uma estratégia ecológica."

Gestão ambiental tornou-se peça fundamental da construção de imagem empresarial. A General Electric diz estar gastando quase todo o seu orçamento multimilionário de publicidade institucional no "Ecomagination", seu elenco de produtos não agressivos ao meio ambiente, apesar de representar apenas 8% das vendas do conglomerado. Yahoo! e Google proclamaram que em 2008 seus escritórios e centros computacionais emitirão "zero carbono". O que alimenta o frenesi de relações públicas é a noção de que preservar o clima é melhor que ser economicamente viável. Mas Schendler, que até há poucos anos considerava-se um destacado defensor dessa teoria, agora refuta penosamente a crença em que práticas empresariais verdes produzem as "verdinhas", do tipo pecuniário.

Contrariando a sedutora tese de Lovins, muitas iniciativas simplesmente não economizam dinheiro. Elas implicam custos que minam a convicção de que a salvação ambiental pode ser barata.

Schendler range os dentes diante do fracasso de propostas modestas, como seu plano, no ano passado, de reformar uma das acomodações mais antigas do resort para consumir menos energia. Ele estimou que um projeto de US$ 100 mil iria pagar-se em sete anos mediante economia de eletricidade. Mas o dinheiro foi para novos teleféricos, snowmobiles e outras compras convencionais.

Freqüentemente vencido nas decisões, o executivo ambientalista admite ter cometido um erro, no ano passado, quando insistiu em que o marketing do resort fizesse ousadas "afirmações verdes" apoiadas na compra de "créditos de energia renovável". Os CER são um tipo de esquema financeiro ao qual as companhias vêm recorrendo cada vez mais para justificar afirmações de terem reduzido sua contribuição líquida para o aquecimento mundial. Mas a maioria dos CERs comumente empregados, que em tese resultam em que um terceiro desenvolva energia não poluente, acaba revelando-se extremamente duvidosa. A Aspen Skiing baseou-se em CERs para declarar ter "contrabalançado 100% de nosso consumo de eletricidade". Schendler agora admite que a afirmação era descabida.

A Aspen Skiing não é a única a fazer afirmações suspeitas sobre sua virtude ecológica. A desconsideração de créditos discutíveis de energia renovável esvaziaria as afirmações de benefícios climáticos por dezenas de importantes companhias celebradas por sua liderança ambiental. A Johnson & Johnson proclamou uma redução de 17% nas emissões de carbono desde 1990, predominantemente baseada em CERs. Descontados os créditos, a gigante farmacêutica teria registrado um aumento de 24% em suas emissões.

Em meio a afirmações inflamadas, algumas companhias têm registrado avanços ambientais legítimos. Dow Chemical e DuPont reduziram seus níveis de emissões. Mas ainda há razões para nos preocuparmos sobre comprometimento de longo prazo. A Dow diz ter investido US$ 1 bilhão para conseguir reduções de 19% de 1994 a 2005. Mas devido a dificuldades e custos tecnológicos, a Dow prevê que reduções adicionais não ocorrerão até 2025, daqui a 18 anos.

Grande parte do ambientalismo empresarial não passa de estatísticas e hipérboles enganosas. Para aferições confiáveis, os feitos genuínos precisam ser separados de gestos inócuos que visam apenas pacificar as consciências. Schendler já não considera o setor privado capaz das mudanças impactantes que considerava possíveis há oito anos, o tipo de mudanças que as companhias acostumaram-se a alardear. Seu próprio empregador é "um exemplo perfeito de porque isso não funcionará", diz ele.

Schendler conseguiu um trabalho, em 1997, no Rocky Mountain Institute (RMI), nas imediações de Aspen, do qual Lovins havia sido um dos fundadores 15 anos antes. Lovins, formado em física, estava trabalhando com sua mulher, L. Hunter Lovins, e o empresário Paul Hawken num livro denominado "Natural Capitalism", que tornou-se um best-seller. Ao repensar suas operações e selecionar sabiamente suas materiais, argumentava o livro, as companhias poderiam gerar menos poluição e lucrar mais.

Em 1999, Auden ficou sabendo que o Aspen Skiing, um complexo de hotéis e pistas de esqui freqüentadíssimo por gente rica em férias, estava buscando um diretor ambiental. O cargo parecia se encaixar perfeitamente. O setor de serviços a esquiadores, que consome enormes quantidades de energia para criar uma fantasia de permanentes montanhas de neve fofa e acolhedores refúgios alpinos, proporcionava um lugar ideal para pôr essas abstrações em prática.

A Aspen Skiing, uma companhia limitada de propriedade da família Crown, de Chicago - que faturou bilhões de dólares por sua participação no grupo General Dynamics, fornecedora de equipamentos ao Exército -, transpira genuína preocupação com a natureza, inclusive porque seus negócios derreteriam se as temperaturas subissem apenas alguns graus.

Seu primeiro alvo foi o Little Nell Hotel, com 90 quartos. A luxuosa infra-estrutura de hospedagem aninhada na base da montanha Aspen devora tanta eletricidade, que Schendler estava convencido de que seria fácil melhorar a eficiência. Ele disse ao então gerente, Eric Calderon, que queria instalar lâmpadas fluorescentes em todos os quartos de hóspedes. As novas lâmpadas durariam dez vezes mais tempo, consumiriam 75% menos potência e se pagariam em apenas dois anos. A resposta foi negativa. Calderon preocupava-se com que uma lâmpada fluorescente sugeriria um ambiente de sala de espera, pondo em risco a classificação cinco estrelas do estabelecimento. "Sempre há uma necessidade de equilibrar preocupações ambientais e a satisfação das expectativas da clientela", diz ele.

Schendler voltou sua atenção para a garagem subterrânea do Little Nell. Os hóspedes nunca a viam, porque manobristas estacionavam todos os carros. Schendler disse que, por US$ 20 mil, poderia substituir luminárias fluorescentes de 175 watt por lâmpadas, e economizar US$ 10 mil por ano. Sem se deixar impressionar, Calderon novamente rejeitou a proposta. Se ele dispusesse de US$ 20 mil para gastar, preferiria usá-lo em coisas que os hóspedes notariam: suntuoso mobiliário em couro ou novas louças para os banheiros.

Na reunião seguinte da alta administração da companhia, Schendler trouxe um cartaz para a apresentação de seus argumentos defendendo a nova iluminação para a garagem. Mas Donald Schuster, o diretor de infra-estrutura, não acreditava que o esquema proposto pouparia dinheiro. "Eu estava cético sobre os cálculos de retorno sobre o investimento de Auden referentes à mudança na iluminação", relembra Schuster. "Uma das preocupações foi de que estaríamos investindo em mudanças com base em retornos teóricos, sem nenhuma oportunidade real para aferir os retornos reais."

Foram precisos dois anos para que Schendler superasse a resistência à substituição da iluminação da garagem, e apenas depois que ele obteve uma dotação de US$ 5 mil de uma organização local sem fins lucrativos. Ele reconhece ser estranho que uma companhia com uma receita anual em torno de US$ 200 milhões, segundo gente do setor (a companhia nega-se a fornecer seus números), recorra a uma ONG para reduzir seu consumo de eletricidade.

--------------------------------------------------------------------------------
"Quem estamos enganando? ... Como tornar uma companhia verde? É quase impossível."
--------------------------------------------------------------------------------

Versões em maior escala dessa briga sobre luminárias estão acontecendo em diversas outras companhias. Elogiada por seu pioneirismo ambiental, a FedEx diz em seu website estar "comprometida com a adesão a inovações e tecnologias para minimizar a geração de gases causadores do efeito estufa". Com 70 mil carros e caminhões e 670 aviões torrando combustível, a maior transportadora de encomendas do mundo é uma enorme produtora de gases que aprisionam calor. Em 2003, a FedEx anunciou que em breve começaria a utilizar caminhões híbridos "limpos" ao ritmo de 3 mil por ano, chegando ao ponto de evitar o lançamento de 250 mil toneladas de gases de efeito estufa anualmente na atmosfera por seus veículos de motores a diesel. "Esse programa poderá substituir os 30 mil caminhões de médio porte da companhia nos próximos dez anos", anunciou a FedEx à época. A Agência de Proteção Ambiental (EPA, na sigla em inglês) deu à iniciativa um prêmio de "Clean Air Excellence".

Quatro anos depois, a FedEx tinha comprado menos de cem caminhões híbridos, ou seja, menos de um terço de 1% de sua frota. Com preços a partir de US$ 70 mil, os híbridos custam pelo menos 75% mais do que os caminhões convencionais, embora a economia de combustível deva cobrir a diferença durante os dez anos de vida útil dos veículos. A FedEx, que registrou lucro recorde de US$ 2 bilhões para o ano fiscal findo em 31 maio, decidiu que equilibrar os custos com a economia de uma década não representava a o melhor emprego de capital pela companhia. "Nós temos uma responsabilidade fiduciária para com nossos acionistas", diz Mitch Jackson, diretor ambiental da FedEx. "Não podemos subsidiar o desenvolvimento dessa tecnologia em benefício de nossos concorrentes."

Schendler tem de enfrentar a questão do retorno sobre investimentos de quase todas as propostas que defende. Hierarquicamente, ele está abaixo da alta administração da Aspen Skiing, mas participa da maioria de suas reuniões importantes. Schendler nunca sossega, metendo o nariz em tudo.

Um das vitórias de que Schendler mais se orgulha é a pequena usina hidrelétrica que, para ser instalada em uma das encostas usadas pelos esquiadores, custou US$ 150 mil à companhia em 2003. Ela é acionada durante dois meses do ano por um córrego caudaloso quando a neve derrete. A despeito do empenho, Schendler começa a sentir mais frustração. Somados, os projetos de energia hídrica e solar poderão chegar a gerar menos de 1% da necessidades energéticas da companhia. Empenhado em promover uma iniciativa inédita no setor, em 2005 decidiu explorar os créditos de energia renovável.

Lançados no início da década, os CERs visavam canalizar as forças de mercado em apoio às energias eólica e solar. Os desenvolvedores de energia limpa vendem CERs, geralmente quantificados em megawatt-horas de eletricidade, para compradores que desejem contrabalançar a poluição que geram investindo em energia não agressiva ao meio ambiente.

Schendler sabia que os CERs e transações financeiras similares estavam conquistando rápida popularidade, à medida que mais companhias buscavam credibilidade ambientalista e proliferavam os corretores de CERs. Em 2006, ele convenceu seus superiores a gastar US$ 42 mil por ano, ou seja, um ágio de 2% sobre os custos energéticos da companhia, para comprar CERs por aproximadamente US$ 2 o megawatt-hora. De acordo com princípios comumente aceitos, esse investimento, menos de um terço do necessário para construir a usina hidrelétrica, permitiu que a Aspen Skiing afirmasse ter contrabalançado todo o seu uso de energia da queima de carvão.

Colegas não pouparam elogios a Schendler. Em comunicado à imprensa, Pat O´Donnell, então CEO da companhia, disse: "Esta compra representa nosso princípio norteador em ação". Elogios chegaram da EPA; jornais noticiaram o feito.

Ele gastou horas ponderando sobre como descrever, para fins de marketing, a compra dos CERs. Segundo a formulação que concebeu, a Aspen Skiing tinha contrabalançado "100% de nosso emprego de eletricidade com créditos de energia eólica, evitando o lançamento de 455 toneladas de poluição na atmosfera". Essa mensagem foi afixada nos teleféricos, impressa em livretos promocionais e repetida em incontáveis e-mails enviados pela companhia.

Mas, mesmo enquanto participava do lançamento dessa campanha, uma sensação constrangedora apossou-se de Schendler. Ele suspeitava de que os créditos de carbono não implicava a construção de fazendas eólicas. Literalmente, eles não estavam contrabalançando coisa alguma. Ele se sentiu angustiado. "Sei claramente o que é certo e o que funciona e o que importa", diz ele. "Também tenho consciência do posicionamento de marca. Parte do meu trabalho é manter a liderança [da Aspen Skiing]. O setor vai assumir essa postura em grande estilo. Um pequeno resort na Califórnia já tinha inaugurado a tendência e precisávamos avançar. Meu consolo era o valor educacional da iniciativa. As discussões que provocariam seriam valiosas, mesmo se os CERs não tivessem repercussão real."

Sua previsão foi correta. No ano e meio após a compra de CERs, mais de 50 outras operadoras de resorts para esquiadores também adquiriram os certificados. Nada menos que 28 delas alegaram usar "100% de energia eólica". Seduzidas por um esquema barato que permite propagandear-se como responsáveis em relação ao meio ambiente, companhias em outros setores têm se mostrado igualmente entusiasmadas.

Em vez de desfrutar seu papel como pioneiro no esquema dos CERs, Schendler sentiu-se cada vez mais preocupado. Reservadamente, ele pressionou os corretores de CERs a fornecer evidências concretas da construção de capacidade de geração eólica. A reação evasiva deles o atormentava. O problema decorre da equação econômica básica dos CERs. É lógico que créditos comprados a US$ 2 por megawatt-hora, o preço pago pela Aspen Skiing e por muitas outras companhias, não podem produzir grandes conseqüências. As geradoras de eletricidade eólica recebem cerca de US$ 51 por megawatt-hora pela eletricidade que vendem para as companhias distribuidoras de eletricidade. Elas recebem outros US$ 20 em incentivos tributários federais, e o equivalente a até outros US$ 20 na forma de depreciação acelerada de seu capital em equipamentos. Até mesmo muitos desenvolvedores de equipamentos para conversão da energia eólica potencialmente beneficiários dos CERs admitem que as geradoras que ganham US$ 91 por megawatt-hora não irão expandir a produção por outros US$ 2.

Algumas companhias empregam métodos mais diretos, por exemplo, construindo sua própria capacidade adicional de geração de energia limpa. Em agosto, o Jiminy Peak Mountain Resort, em Hancock, Massachussets, pôs em funcionamento uma nova turbina eólica com altura de 120 metros e capacidade para suprir 50% da demanda de eletricidade do resort. O projeto levou três anos para ser concluído e custou US$ 4 milhões.

Mas muitas companhias de maior porte defendem sua política de custo mais baixo. Mark Buckley, vice-presidente da Staples para questões ambientais, defende os CERs, dizendo que eles "indiscutivelmente mandaram o recado correto ao mercado".

No primeiro semestre deste ano, Schendler concluiu que tinha de reverter seu curso, convencer seu empregador a distanciar-se dos créditos de energia renovável que endossara apenas meses antes - e defender projetos verdes mais significativos. Seus colegas reagiram com perplexidade e irritação. A companhia continuará a comprar CERs pelo menos até 2008, quando caduca seu atual contrato. Seus executivos dizem-se relutantes em interromper as compras de CERs antes desse prazo, porque não querem passar uma imagem de indiferença diante dos problemas ambientais, quando concorrentes afirmam ser movidos exclusivamente por energia eólica.

Schendler, em contrapartida, tornou-se um destacado crítico das CERs, uma posição potencialmente confusa, pois seu empregador as compra. Em abril, em carta ao Center for Resource Solutions, uma organização sem fins lucrativos em San Francisco que certifica créditos, ele disse que os CERs têm igual efeito sobre o desenvolvimento de novos projetos de energia renovável quanto teria o comércio de "pedras, notas promissórias ou abobrinhas".

Hoje, simultaneamente dentro e fora de círculos ambientalistas empresariais, Schendler delicia-se com sua notoriedade. "A idéia de que posturas ecológicas são divertidas, fáceis e baratas é perigosa. Ser verde implica trabalho duro. A coisa toda é complexa. Nem sempre lucrativa. E as companhias precisam inaugurar o placar e passar efetivamente a fazer algo."

(Tradução de Sergio Blum)

Mais...

O marco legal do cooperativismo

Mauro Scheer Luís*
Publicado pelo
Valor Online em 16/11/07

Muito se discute sobre a flexibilização da legislação trabalhista. No meio da discussão, temos o seguinte embate público: de um lado, os firmes e no mais das vezes irredutíveis defensores dos direitos adquiridos dos trabalhadores, sobretudo aqueles obtidos desde a época do governo de Getúlio Vargas. Estamos falando de direitos como férias, décimo-terceiro salário, Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), entre outros. Do outro lado, estão os defensores da flexibilização como forma de criação de novos postos de trabalho.

A flexibilização, entretanto, não pode ser entendida como a supressão de direitos já conquistados pelos trabalhadores. A compreensão deve ser ampla, e neste aspecto, é mais factível discutirmos a flexibilização das relações de trabalho, e não apenas da legislação já existente. Novas formas de trabalho devem ser criadas e melhoradas, de forma a satisfazer não só as necessidades dos trabalhadores, mas também a realidade do mercado atual. É com pesar que o brasileiro recebe notícias como as que hoje estão sendo divulgadas pela mídia, de que o Brasil perde bilhões em exportações em função da falta de competitividade em relação à China. Com efeito, em países como a China, a mão-de-obra, além de precarizada (em alguns casos ela é escrava ou semi-escrava), não sofre a incidência dos onerosos encargos trabalhistas e previdenciários que por aqui existem.

O cooperativismo do trabalho, por exemplo, é uma relação de trabalho que vem crescendo cada vez mais na Europa, nos Estados Unidos e também no Brasil. Em nosso país, contudo, em parte pelo desconhecimento de empresários, governantes e até de advogados e magistrados, e em parte pela ação fraudulenta de algumas cooperativas, o ramo "trabalho" do cooperativismo é crucificado e condenado de forma constante. De fato muitas cooperativas de trabalho atuam de forma fraudulenta, evidenciando a precarização da mão-de-obra e a instituição de verdadeiros "donos" de cooperativas, figuras que jamais poderiam existir dentro do sistema cooperativista.

Entretanto, são muitos os benefícios da associação de um trabalhador a uma cooperativa de trabalho que atue de forma congruente como o sistema cooperativista. O objetivo da cooperativa de trabalho não é locar nem intermediar mão-de-obra. Temos muitos exemplos positivos que podem ser citados. Na cidade de São Paulo, por exemplo, existem dezenas de cooperativas de reciclagem de lixo, que ora agem como cooperativas de trabalho, ora como cooperativas de produção. São associações de profissionais autônomos que catam lixo reciclável nas ruas e fazem o trabalho de prensagem, preparação e venda do material a empresas que, posteriormente, usarão esse material na fabricação de novos produtos. O que chama a atenção, entretanto, é a remuneração mensal que esses cooperados recebem em decorrência do seu trabalho: cerca de 30% a 50% a mais do que catadores de lixo que não se agrupam para um objetivo comum. Além disso, estão segurados e protegidos pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), além de comprovarem de forma legal sua renda.

-------------------------------------------------------
Estamos muito próximos de definir o marco regulatório do cooperativismo de trabalho no país
-------------------------------------------------------

Por que as cooperativas são tão massacradas pela sociedade? É evidente que falta um marco regulatório. O parágrafo único do artigo 442 da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) determina que não há vínculo de emprego entre os cooperados, cooperativas e tomadores de serviço. Por outro lado, o artigo 9º do mesmo diploma legal sentencia que, havendo manobras do empresário que objetivem fraudar a relação de emprego (ou seja, tentar transformar uma relação de emprego em algo que ela não é), o juiz pode decretar a nulidade do ato fraudulento, fazendo prevalecer a relação de emprego.

Estamos muito próximos de definir o marco regulatório. Trata-se do Projeto de Lei nº 7.009, de 2006, de iniciativa do Poder Executivo, e atualmente relatado pelo deputado Tarcísio Zimmermann. Ao citado projeto foram apensados outros, com o mesmo objetivo. Embora esse projeto, sem dúvida alguma, desvirtue alguns princípios cooperativistas em vigência na Europa e nos Estados Unidos - locais onde o número de cooperativas é extremamente grande -, o projeto, se aprovado, regulamentaria uma série de situações, tais como a questão dos direitos fundamentais, como jornada de trabalho, piso salarial, normas de saúde e segurança do trabalho, entre outras, estabelecendo melhores condições de trabalho.

Todavia, não bastará a aprovação de um projeto de lei para que as cooperativas passem a trabalhar de forma mais organizada e com maior respaldo legal. Será essencial a organização destas instituições e a formação de centros de treinamento, para a conscientização do cooperado e da população em geral sobre os princípios cooperativistas. Em outras palavras, é preciso que os trabalhadores "sejam" cooperados, e não apenas "estejam" cooperados por força do número crescente de falta de postos de trabalho. A diferença entre esses dois tipos de cooperados reside justamente na compreensão do verdadeiro cooperativismo pelos trabalhadores: a união de pessoas com um objetivo comum. Resta saber se o marco regulatório será finalmente aprovado. Façam suas apostas.

*Mauro Scheer Luís é advogado atuante na área do cooperativismo e direito do trabalho e sócio do escritório Scheer e Dias Advogados

Este artigo reflete as opiniões do autor, e não do jornal Valor Econômico. O jornal não se responsabiliza e nem pode ser responsabilizado pelas informações acima ou por prejuízos de qualquer natureza em decorrência do uso dessas informações

Mais...

Programa do BID incentiva 'energia verde'

Mauro Zanatta, de Washington
Publicado pelo
Valor Online em 16/11/07

O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) está prestes a lançar um programa de US$ 300 milhões para incentivar investimentos de menor escala no campo da chamada "energia verde" em países da América Latina e do Caribe. Podem ser contemplados na iniciativa da instituição energias renováveis, biocombustíveis e projetos de eficiência energética.

O foco do novo programa, que deverá ser anunciado oficialmente ainda em novembro, serão os países menos desenvolvidos dessas regiões. O programa, que terá duração de cinco anos, prevê a concessão de empréstimos, garantias, assistência técnica e serviços para facilitar a aproximação com investidores interessados em operações de participações acionários, no modelo conhecido como "equity".

Pelas regras do BID, os empréstimos ficarão entre US$ 5 milhões e US$ 25 milhões. Os projetos selecionados terão um limite máximo por país de até US$ 120 milhões. Como a intenção do banco é desconcentrar a concessão desses empréstimos, um fatia de pelo menos 65% dos US$ 300 milhões serão destinados aos países menos desenvolvidos.

"Nossa idéia é levar essas iniciativas de 'energia verde' aos países menores", afirma o brasileiro Arnaldo Vieira de Carvalho, especialista en Energia Sustentável da Divisão de Finanças e Infra-Estrutura Básica do BID.

Sob o comando do colombiano Luis Alberto Moreno, entusiasta do incentivo aos biocombustíveis, o BID tem passado a atuar de forma mais sistemática no segmento. A carteira de investimentos na área soma US$ 1 bilhões em operações de financiamento estruturado nos segmentos de açúcar, etanol e co-geração de energia do bagaço da cana-de-açúcar. São três grupos dos Estados Unidos e um do Brasil.

"Mas nossa carteira pode chegar a cerca de US$ 3 bilhões no curto prazo", estima a peruana Sylvia Larrea, especialista do Departamento de Finanças Estruturadas e Corporativas do BID.

Em recente operação, o banco fechou o refinanciamento de US$ 120 milhões em dívidas de curto prazo da usina paulista Moema, que processa 4,5 milhões de toneladas de cana por ano, em conjunto com Itaú e o holandês Rabobank. A ação permitiu o alongamento, de cinco para até dez anos, no prazo de vencimento dos débitos. No início do mês, o BID fechou com o banco Indusval a primeira transação de comércio de biocombustíveis via garantia para cobrir nota promissória de financiamento à exportação de etanol brasileiro para a Inglaterra.

Outro foco importante do BID está na criação de um fundo para o setor privado com US$ 40 milhões para auxiliar no financiamento de estudos de viabilidade econômica em biocombustíveis e eficiência energética na Guatemala, Honduras, Paraguai, Peru, Colômbia, Panamá, República Dominicana, El Salvador, México e Chile.

O programa, que está aberto para a candidatura de novas projetos, inclui doação aos setores públicos desses países. "O BID também apóia uma rede de pesquisadores na América Central e oferecerá recursos para plantas piloto de produção de etanol de celulose", afirma Arnaldo Vieira de Carvalho.

O jornalista viajou a convite do Departamento de Estado dos EUA

Mais...

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Pesquisa: 79% dos brasileiros estão muito preocupados com segurança

Ralphe Manzoni Jr.
Publicada pelo
IDG Now! em 12/11/07

Roubo de identidade é o que mais tira o sono das pessoas, de acordo com estudo realizado pela Independent Communications Research.

Um estudo encomendado pela Unisys mostra que 79% dos brasileiros estão muito ou extremamente preocupados com o acesso ilegal e uso inadequado de informações pessoais.

Em uma escala de zero a 300, em que o zero representa nenhuma preocupação pessoal e 300 extrema preocupação, a média da classificação brasileira é de 198, segundo a Independent Communications Research (ICR).Segundo o levantamento, 41% dos brasileiros estão “extremamente preocupados” com o problema do roubo de identidade, enquanto 38% estão “muito preocupados” e apenas 6% não estão “nada preocupados” com essa ameaça.

A preocupação com o tema é maior entre os consumidores que possuem ensino médio ou superior e mais intensa no Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre do que nas demais cidades pesquisadas.

O “Índice de Segurança Unisys para o Brasil”, como foi batizado o estudo, se baseia em uma pesquisa realizada por telefone com 1,5 mil pessoas, na faixa etária de 18 a 60 anos, selecionadas aleatoriamente nas principais regiões metropolitanas do País.As entrevistas foram feitas em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre, Curitiba, Salvador, Recife e Fortaleza. O levantamento incluiu domicílios das classes A, B e C.


Série Segurança Digital:







Mais...

Bradesco cria o Banco do Planeta

Altamiro Silva Júnio
Publicado pelo Valor Online em 13/11/07

Luca Cavalcanti, diretor de marketing do Bradesco: "Banco quer mostrar que tem ações concretas no segmento"
Foto Marisa Cauduro / Valor

O Bradesco anuncia hoje a criação do Banco do Planeta. Apresentado como um "banco dentro do maior banco privado brasileiro", será uma área dedicada a centralizar os projetos e ações socioambientais da instituição.

O Banco do Planeta terá logotipo próprio e pessoas trabalhando exclusivamente para ele. Segundo Luca Cavalcanti, diretor de marketing do Bradesco, o principal cliente do banco será o planeta, ou seja, a idéia é promover ações que ajudem, por exemplo, a reduzir o aquecimento global. O banco promete anunciar uma série de empreendimentos neste sentido nas próximas semanas. "O Banco do Planeta vai ampliar as ações do Bradesco nesta área", afirma.

A idéia de criar o Banco do Planeta nasceu da percepção que as ações socioambientais e de sustentabilidade do Bradesco estavam dispersas pela instituição, o que não gerava "a devida percepção sobre a profundidade do envolvimento do Bradesco com o tema", destaca Alexandre Gama, da agência NeoGama/BBH, que idealizou o novo posicionamento do Bradesco para a área.
Só em 2006, o Bradesco investiu R$ 168 milhões em projetos socioambientais. Cavalcanti destaca, porém, que o banco vem fazendo esse tipo de investimento há mais de 50 anos. Exemplo disso é a Fundação Bradesco, pela qual já passaram 107 mil alunos e com orçamento de R$ 200 milhões.

Outro exemplo é o apoio à Fundação SOS Mata Atlântica, que já viabilizou o plantio de 21,5 milhões de árvores. "Não queremos mostrar a visão de que a empresa é boazinha, mas que tem ações concretas na área", afirma o diretor do Bradesco.

Para divulgar o novo posicionamento do banco na área, uma campanha começa a ser divulgada hoje nos jornais para apresentar o Banco do Planeta e tudo que o Bradesco já fez no segmento. Um dos anúncios vai mostrar 18 ações, que inclui desde o apoio a SOS Mata Atlântica até fundos de investimento socialmente responsáveis e um cartão de afinidade que repassa parte das receitas para projetos sociais e ambientais. Anúncios na televisão é rádio vão ocorrer a partir desta quarta-feira.

O banco não divulga os gastos na nova estratégia de posicionamento. Segundo Cavalcanti, as despesas estão dentro do orçamento previsto para marketing em 2007, que somam R$ 300 milhões. No final do ano passado, o banco já havia veiculado uma campanha publicitária destacando a preocupação com o aquecimento global.

Mais...

Sem metas claras, Projeto Tietê não limpa o rio

Samantha Maia e Daniela Chiaretti
Publicado pelo
Valor Online em 13/11/07

Urbanistas dizem que uma cidade se conhece pelo seu rio. Por esta premissa, São Paulo é tão sombria quanto as águas do Tietê e seus afluentes, Pinheiros e Tamanduateí. Desde os anos 90, a cidade tenta limpar a região do Alto Tietê, num esforço alardeado como o maior projeto ambiental da história de São Paulo e o maior financiamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento, o BID. De maior, por enquanto, só o engodo da população levada a crer que em 15 anos poderia usar o Tietê "como os americanos usam o Potomac". Ficou no bordão a promessa dos políticos de 1992, referindo-se ao rio de Washington onde no verão se vêem lanchas, caiaques e jet skis. Aqui se investiu mais de US$ 1,5 bilhão em estações de tratamento e redes de coleta, mas o Tietê continua a cruzar metrópole e arredores tão morto quanto antes.

Em 1992, na largada do Projeto Tietê, 75% dos moradores da Região Metropolitana de São Paulo tinham coleta e tratamento de esgoto, segundo cálculos do economista Marcelo Neri, com base na Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílios, a PNA. Mesmo com todos os recursos gastos no saneamento do rio, a Grande São Paulo perdeu a primeira colocação no ranking de melhor área atendida por rede de esgoto entre as dez maiores regiões metropolitanas do país. Outras fizeram mais. Em 2006, os paulistas alcançaram um índice de 79%, caindo para o 3º lugar empatados com Salvador. Belo Horizonte ficou à frente (83%, tendo saído de 68% em 1992), seguida pelo Distrito Federal (80% hoje, 73% em 1992).

A coisa andou no Alto Tietê, mas a passos muito lentos e sem acompanhar o crescimento da população. O objetivo inicial -limpar 50% do rio em dois anos - ficou na bravata. Se o logo-ícone do projeto era um obstinado jacaré que apareceu no rio em 1990, agora seria melhor adotar uma tartaruga. De 1992 a 1997, a RMSP tratava 4 m3/s de esgoto, o resto, lançava in natura ao Tietê. Em 1998, fim da primeira fase do plano, o tratamento chegou a 8 m3/s. Em 2008, com a segunda fase em operação, serão tratados 16 m3/s, espera a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, a Sabesp. Saber ao certo quanto isto representa do total é um problema.

Na agência ambiental do Estado, a Cetesb, acredita-se que a RMSP produza cerca de 50 m3/s de esgoto, dos quais 81% são coletados e 37% tratados. Na Sabesp, os números são outros. Levam em conta sua produção de água e as perdas, e chegam a 57 m3/s. Aí os engenheiros aplicam um parâmetro clássico, que diz que 80% da água produzida transforma-se em esgoto. Descontam o que não é coletado e chegam a mais ou menos 33 m3/s. São 33 mil litros de esgoto que desaguam, por segundo, no rio, numa estimativa grosseira.

Se hoje não se sabe bem quanto de esgoto tem no Tietê, o início do projeto foi ainda mais nebuloso. Não havia - e ainda não há - metas ambientais claras a serem perseguidas. Hoje nem mesmo o Comitê de Bacia do Alto Tietê, uma instituição que reúne prefeituras, órgãos estaduais e sociedade civil e elabora o plano de gestão dos recursos hídricos da região, detalha metas para ressuscitar o rio. Mas um consenso é o êxito obtido com a queda da poluição industrial. Foram 1250 empresas monitoradas, as maiores poluidoras da região. Lançavam 4,7 toneladas por dia de metais pesados no rio, índice que caiu para 0,14 ton/dia já em 1995.

A fiscalização foi mantida, mas a menor poluição também ocorre porque das 1250 empresas, só 607 continuam na RMSP - a metade fechou ou mudou. Para a segunda fase do projeto, outras 290 indústrias deveriam ser monitoradas, com US$ 5 milhões do BID. Não aconteceu. "A lista das 290 empresas apresentada pela Sabesp tinha shoppings e supermercados, que não monitoramos", diz Richard Hiroshi, da diretoria de controle de poluição ambiental da Cetesb. "Virou uma discussão de anos e em dezembro de 2006 resolvemos não participar do Tietê 2."

Os recursos foram destinados a outras obras do projeto. Mas, segundo a Sabesp, o BID continua insistindo para que o trabalho com as empresas seja ampliado. "A Cetesb também tem responsabilidade", diz Marcelo Salles de Freitas, diretor de empreendimentos e meio ambiente da Sabesp. "Vamos continuar discutindo este ponto."

"Na parte industrial já chegamos aonde queríamos", rebate Hiroshi. "Como podemos exigir que as indústrias façam mais investimentos? E o esgoto doméstico?" O volume gigantesco de descargas orgânicas continua sendo o algoz do Tietê. "São raros os momentos na RMSP em que o oxigênio dissolvido no rio sobe acima de 0,5 mg/l", diz Eduardo Mazzolenis, gerente da Cetesb que lida com a qualidade das águas. "Para ter vida, o rio tinha que ter no mínimo 4 mg/l." A medida da poluição orgânica é a demanda bioquímica de oxigênio, a DBO. Quanto mais alta a DBO, mais poluído o rio. "DBO é a fotografia do esgoto não tratado", compara Mazzolenis.

Em 1992, em Pirapora do Bom Jesus, a DBO era 38 mg/l. Foi caindo e chegou a 21 mg/l em 2005, mas em 2006 saltou para 28 mg/l. "Ficamos invocados com a subida da DBO", diz o técnico. O efluente despejado pelas estações de tratamento da Sabesp, as ETEs, está sendo investigado. Há suspeitas de que a ETE Parque Novo Mundo estaria fora dos padrões de qualidade estabelecidos pela legislação. O fato de em 2006 ter chovido menos também pode ter influenciado a piora da qualidade da água.

O Tietê nasce em Salesópolis e percorre 1100 km até desaguar no rio Paraná. Basta distanciar-se umas dezenas de quilômetros da nascente para que peixes e plantas sumam. "Leva o primeiro golpe em Suzano", diz Mazzolenis. Em Itaquaquecetuba já é um rio morto. Assim segue por Guarulhos, passa pela capital e prossegue até Salto, onde começa a se recuperar. É no recuo desta mancha marrom que está um trunfo do projeto. Em 1992, estimava-se em 300 km o cobertor de poluição; hoje são 180 km, garante a Sabesp. Para o paulistano, contudo, nada mudou.

O que se sabe, 15 anos depois, é que a poluição do Tietê é bem maior que o esforço já feito. Nas contas de Hiroshi, da Cetesb, com todo o investimento em tratamento e coleta, chegou-se a apenas 1/3 do que se deveria para limpar o rio. A Sabesp admite que os trabalhos estão muito aquém do necessário para se notar alguma melhora. "Mas cumprimos o que queríamos fazer em termos de obras", diz Freitas. A engenharia prevista na 1ª e 2ª fase aconteceu, mas com 10 anos de atraso. "A despoluição do rio vai levar mais uns oito anos para avançar um pouco. A limpeza completa levará décadas", reconhece.

O ímpeto da primeira fase, que contou com US$ 1,1 bilhão, não se manteve na segunda. Ingressaram US$ 400 milhões frente a uma expectativa de US$ 1,2 bilhão. "Foi uma hora ruim. Teve a crise asiática, a desvalorização cambial", lembra Freitas. Dessa forma, a segunda fase serviu para ampliar a rede e aproveitar a estrutura de tratamento erguida no primeiro período, de 16 m3/s, e não para puxar a capacidade para 28 m3/s, como foi idealizado no começo. A estratégia rebateu as críticas à primeira fase - dizia-se que se fizeram grandes estações de tratamento mas não se levou o esgoto até elas.

Outro nó que só agora começa a desatar é a relação da Sabesp com as cidades que têm serviços de saneamento próprio. Dos 34 municípios da região, seis não estão sob o regime da Sabesp e acabaram não participando do projeto. Guarulhos, o maior deles, com 1,2 milhão de pessoas, não trata uma gota de esgoto e joga tudo no rio.

Depois de muita negociação com o Ministério Público, em dezembro de 2006 a prefeitura de Guarulhos assinou um acordo onde se comprometia a universalizar coleta e tratamento em 30 anos. "É um abuso este prazo", diz o geógrafo Gustavo Veronesi, da Fundação SOS Mata Atlântica. "Não temos tempo a perder, tinha que começar ontem." A prefeitura explica o prazo dizendo que não tem dinheiro. O Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC, pode encurtar este horizonte, cobrindo a metade dos R$ 550 milhões necessários ao saneamento de Guarulhos. "A expectativa agora é concluir as obras em cinco anos", diz João Roberto Morais, superintendente do Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Guarulhos.

Também entre os municípios sob o regime da Sabesp há problemas. Sem investimentos, Itaquaquecetuba apelou ao Ministério Público para obter com a Sabesp um plano focado na cidade. São 350 mil habitantes e só 5% de tratamento de esgoto. O acordo, a ser assinado ainda em 2007, prevê 11 anos e R$ 176 milhões em coleta e encaminhamento dos efluentes para as estações de São Miguel e Suzano. Também serão instaladas estações provisórias em áreas mais populosas e onde já existe rede, conta João Antônio Campos, Secretário de Planejamento do município. Por seu lado, o gerente de departamento de planejamento integrado da unidade leste da Sabesp, Marcio de Oliveira, diz que os interceptores que permitirão a conexão entre Itaquaquecetuba e a estação de tratamento de São Miguel chegarão à cidade em 2008.

Esse é um exemplo do quebra-cabeças montado pela Sabesp dentro da RMSP, baseado na condução do esgoto a cinco grandes estações de tratamento, o que pode ser eficiente, mas também produz distorções. Barueri abriga a maior estação de tratamento de esgoto da America Latina, mas não é atendida por ela e despeja tudo onde? Bingo. "O esgoto da Billings será levado para Barueri, a 60 km de distância, sendo que a estação de tratamento do ABC é subutilizada", aponta Veronesi, da SOS Mata Atlântica. Ele acredita que um sistema baseado em pequenas e médias estações pode funcionar e ser menos oneroso.

É o que aconteceu na pequena Biritiba-Mirim (29 mil habitantes), que em 2005 atingiu um dos melhores índices de saneamento do país. Com 95% do esgoto coletado e tratado, Biritiba reduziu a mortalidade infantil de 60 por mil nascidos vivos, em 1990, para 11 em 2005. A saída foi uma ação localizada. Com R$ 7 milhões, 90% financiados pela Caixa Econômica Federal, a cidade construiu a rede coletora e uma estação com capacidade para tratar 55 litros por segundo. "Para uma cidade com R$ 20 milhões de orçamento, é uma obra faraônica", diz o prefeito Roberto Pereira da Silva (PSDB).

Para a terceira fase do Projeto Tietê, já em negociação com o BID, fala-se em outro US$ 1 bilhão. "Estamos formatando o plano", diz Freitas. A idéia é que a terceira etapa comece em 2009 e a quarta, em 2018. A intenção é ampliar as ETEs existentes e expandir a rede. Ao final da terceira fase a Sabesp espera coletar 92% dos esgotos e tratar 82%. Não se fala mais em ver o rio limpo, porém. "Isso não vai acontecer nem ao fim da quarta fase", diz o diretor da Sabesp.

Mais...

Programa constrói no Nordeste só 20% das cisternas pretendidas

Carolina Mandl
Publicado pelo
Valor Online em 13/11/07

Miram Cavalcante Ferreira, primeira moradora da Paraíba a receber uma cisterna: cisterna para o filho que vai casar
Foto Carolina Mandl/Valor


Miram Cavalcante Ferreira, moradora de 51 anos da área rural de Soledade (PB), vai casar o filho. Zelosa, quer tornar a vida dele de casado tão confortável quanto aquela que ele tem hoje. Mas no rol de preocupações dela não está a mobília da casa nova, a viagem de lua-de-mel ou a festa. Ela está é atrás de um bem que nunca figura nas tradicionais listas de presentes de casamento: uma cisterna.

O filho de Miram é apenas um dos 4 milhões de moradores do semi-árido brasileiro que ainda vivem sem a garantia de ter água para beber. A mãe não quer que o filho passe pelas mesmo dificuldades que pouco mais de uma década atrás ela passou até ter uma cisterna instalada em sua casa. "A gente usava água em que bicho mijava e acabava pegando doença de toda qualidade", lembra-se. Por isso, a agricultora quer que o programa Um Milhão de Cisternas (P1MC) construa um reservatório no quintal da casa dele.

O projeto, criado em julho de 2003 pela Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA) e que tem como maior financiador o governo federal, se propõe a construir 1 milhão de cisternas em cinco anos, levando água de beber a cerca de 5 milhões de moradores.

Entretanto, faltando menos de um ano para o fim desse prazo, foram instaladas apenas 220 mil cisternas, que levam água a 1 milhão de habitantes do semi-árido. Ou seja, pouco mais de 20% da meta traçada foi cumprida até agora.

De acordo com as entidades que estão envolvidas no projeto ou já fizeram parte dele, não existe uma explicação única para o descumprimento da meta. Mas todos os agentes são unânimes em afirmar que o P1MC não é a simples construção de cisternas e, por isso, ele está sujeito a percalços.

"O programa ensina as pessoas a conviver com o semi-árido. As cisternas são entregues cheias de conhecimento. Portanto, não pode só ser avaliado só pela construção dos reservatórios. Se fosse assim, era só chamar uma empreiteira que seria mais rápido e até mais barato", afirma Fabio Atanasio, coordenador do escritório de Belém do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), que ajudou na elaboração do projeto e chegou a colaborar com ele.

A cada cisterna entregue, a ASA precisa treinar os pedreiros da comunidade para construí-la e ensinar a população a lidar com o reservatório: como armazenar a água, evitar a contaminação e até em que casos usá-la. Até o momento, cerca de 5.600 pedreiros foram capacitados pela ASA. Para tornar o aprendizado mais fácil, até cordéis são usados no processo. "Superdimensionamos a capacidade da sociedade civil", avalia o coordenador do Unicef.

Para a ASA, gestora do projeto, a resposta para o atraso está tanto no próprio modelo de construção das cisternas quanto no apoio do governo federal, que até hoje financiou cerca de 85% dos R$ 289 milhões empregados no P1MC.

Os recursos do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome são desembolsados aos poucos para a ASA, por meio de contratos. Ao término de cada um deles, o período de prestação de contas, auditoria e liberação de mais dinheiro leva, segundo Aldo dos Santos, coordenador da ASA, cerca de dois meses. Ao todo, desde 2003, o P1MC ficou parado por cerca de seis meses.

"A cada vez que se desmobiliza os grupos, leva-se um tempo para organizá-los de novo." Em outubro, venceu um contrato com o governo federal. Desde então, não se constrói mais nenhuma cisterna no semi-árido até o término da fiscalização. Hoje, 5 mil pessoas devem participar de um evento em Feira de Santana (BA) para pedir uma maior continuidade na liberação da verba. "Quando se olha o número é só um quarto do programa cumprido, mas, se comparado a outros projetos, o P1MC está sendo exitoso", diz Santos.

A agricultora Severina Nascimento Gomes, 34 anos, lembra-se dos tempos em que tinha de andar a cada dois dias 30 minutos para chegar a uma cisterna comunitária em Caiçara, distrito de Soledade, cidade do Cariri paraibano a 70 quilômetros de Campina Grande. "A gente chegava lá e não tinha mais uma gota d´água. Agora, todo mundo é milionário", diz Bil, como é conhecida. Hoje, a sua propriedade tem duas cisternas com capacidade para 16 mil litros d´água mais um tanque de pedra, um reservatório que se faz aproveitando as formações rochosas do solo.

A Federação Brasileira de Bancos (Febraban), que apóia o Um Milhão de Cisternas desde o início, está agora fazendo uma pesquisa de campo para detectar tanto os benefícios sócio-econômicos quanto possíveis falhas do programa. O estudo também ajudará a entidade a definir se continuará financiando o projeto ou não. "A partir disso conseguiremos detectar o que pode ser melhorado. Mas consideramos que o fato de não se atingir a meta inicialmente traçada não seja um demérito", diz Sônia Favaretto, diretora de responsabilidade social da Febraban.

Na avaliação de alguns agentes, a construção de cisternas só será acelerada com o envolvimento dos municípios. "Sozinha, a ASA não tem como construir tudo. Os municípios também deveriam deveriam participar do processo. Não compete à sociedade civil substituir o Estado. O papel dela é exercer a democracia, fiscalizar a atuação dele. Enquanto se discute se o programa deve ou não contar com o apoio das prefeituras, tem gente precisando da água", afirma Atanasio, do Unicef.

O tema, entretanto, ainda é bastante polêmico dentro da ASA. "Concordo que o programa ainda precisa melhorar o relacionamento com as prefeituras, mas a lógica do governo ainda é bastante ligada ao clientelismo", explica o pastor Arnulfo Barbosa, diretor-executivo da Diaconia, entidade religiosa responsável pela construção de cisternas em Pernambuco e no Rio Grande do Norte. Ele relembra um passado nada distante, em que caminhões-pipas e cisternas eram usados como moedas de troca por políticos.

Procurado pela reportagem por três semanas, o Ministério do Desenvolvimento Social não atendeu aos pedidos de entrevista sobre o atraso no P1MC.

Mais...

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Discovery, sob novo comando, investe em conteúdo "verde"

Tainã Bispo
Publicado pelo
Valor Online em em 12/11/07

Ações da holding da Discovery sobem 61% no ano, impulsionadas pelas decisões do novo CEO, David Zaslav
Foto Divulgação


Silver Spring, no Estado americano de Maryland, está longe de oferecer aventuras como as apresentadas nos canais de TV paga da Discovery Channel e do Animal Planet. Mas é justamente essa cidade pacata e suburbana, a 30 minutos de Washington DC, que abriga o ritmo frenético de mudanças da Discovery Communications, um dos principais grupo de entretenimento dos Estados Unidos, cuja sede localiza-se em um dos maiores prédios da pequena Silver Spring.

Desde o início deste ano, o grupo trocou de CEO, fechou o braço varejista, com mais de 100 lojas físicas em shopping dos EUA, anunciou um investimento de US$ 50 milhões para lançar um canal novo, voltado exclusivamente ao meio ambiente. O grupo tenta modernizar-se, ser mais "contemporâneo", como adjetivou David Zaslav, presidente e CEO da Discovery Communications desde janeiro deste ano. Ele é ex-executivo do grupo americano NBC, um dos mais assistidos canais dos EUA. Por mais "contemporâneo", entenda-se uma tendência que vem sendo objeto de discussão de toda a indústria de entretenimento, seja cinematográfica, fonográfica ou editorial: tratar do conteúdo, independentemente da mídia.

O mercado parece ter aprovado a dinâmica da empresa nas mãos de Zaslav e de sua equipe - ele fez questão de trocar vários executivos. Entre janeiro deste ano e sexta-feira passada, as ações da Discovery Holding Company valorizaram-se 61,6%, chegando a US$ 26.

"Decidimos investir em áreas em que teremos um forte retorno econômico. Por isso, estamos investindo em conteúdo e comprando ativos de mídia", afirma o executivo. O foco, porém, continua o mesmo de quando a Discovery foi criada, em 1985, por John Hendricks, que hipotecou a casa para lançar o canal: satisfazer a curiosidade das pessoas. "Nós queremos estar em todos os lugares em que há pessoas procurando satisfazer suas próprias curiosidades. Pode ser pela TV, pelo DVD, pelo celular ou pela internet", diz.

Uma das principais diretrizes do grupo, para o ano que vem, é criar uma estrutura para atender novas mídias. Há cerca de três semanas, a empresa comprou o site How Stuff Works (em uma tradução livre, Como as Coisas Funcionam), por US$ 250 milhões - a maior aquisição da história do grupo. No Brasil, os internautas têm acesso a uma versão em português do site há cerca de quatro meses, através do portal UOL. Este ano, a Discovery já havia comprado o site TreeHugger.com, um dos endereços virtuais líderes nos EUA sobre meio ambiente.

Através de sites e outras tecnologias, a empresa planeja ampliar sua penetração em todo o mundo. Conteúdo é o que não falta. A Discovery tem uma "biblioteca" com mais de 100 mil horas de filmagens. "O mais importante é que o nosso maior ativo, os vídeos, podem ser explorados em qualquer plataforma", explica Bruce Campbell, presidente de mídia digital, redes emergentes e desenvolvimento corporativo.

A percepção do grupo em relação a esse novo formato de vender conteúdo, no entanto, só passou a ter mais atenção este ano. Até então, os sites dos canais, por exemplo, eram utilizado como uma ferramenta principalmente promocional. Ou seja, os sites criados ofereciam basicamente informação sobre a programação. "A idéia era fazer com que os espectadores voltassem para a TV. Ainda há esse tipo de conteúdo dentro do grupo, mas hoje, ainda mais essas aquisições, nossa idéia é ir além", afirma Mark Hollinger, presidente de negócios globais e de operações.

Sob essa nova perspectiva, a empresa não tem medido esforços para oferecer ao espectador e ao anunciante uma programação de qualidade. O custo de um episódio pode variar de US$ 750 mil a US$ 3 milhões. Por ano, o grupo investe cerca de US$ 500 milhões em conteúdo. "Estamos apostando em qualidade, porque é isso que realmente traz resultado. É isso o que os anunciantes estão procurando: uma experiência única, que não se encontra em nenhum outro lugar", afirma Jane Root, presidente e diretora geral dos canais Discovery Channel e Science Channel.

O investimento no Planet Green, um canal 24 horas dedicado totalmente ao tema do meio-ambiente, faz parte desse projeto. O Planet Green deve ir ao ar ainda este ano nos EUA. Nos outros países, inclusive no Brasil, os programas "verdes" do canal serão veiculados em alguns canais do grupo, a partir de 2008. "Muitas empresas têm um orçamento de publicidade voltado especificamente para o meio ambiente e estão procurando lugares para anunciar", diz Zaslav.

O olhar voltado para novas mídias e para uma programação "verde", no entanto, teve seu preço. Para tornar a empresa "mais eficiente", Zaslav fechou o braço varejista da empresa: mais de 100 lojas que vendiam produtos da Discovery, localizadas em shoppings nos EUA. Junto, foram demitidos cerca de 1 mil funcionários, ou 20% da força de trabalho.

Os produtos - desde DVDs a brinquedos e roupas - são vendidos, atualmente, na loja virtual da empresa e nas prateleiras de outros varejistas, como a loja especializada em brinquedos Toys 'R' Us. "Foi uma decisão difícil. Mas nosso foco é claro: transformar a Discovery de uma empresa de TV a cabo para um provedor de conteúdo."

(A repórter viajou a convite da Discovery Communications)

Mais...

A conta é do produtor ou do consumidor?

Jane Spencer
Publicado pelo
Valor Online em em 12/11/07

Para entender o impasse no debate sobre mudanças climáticas, dê uma olhada no seu aparelho de MP3. A grande maioria desses aparelhos é fabricada na China, onde a principal fonte de eletricidade é o carvão. A fabricação de um só iPod joga na atmosfera oito quilos de dióxido de carbono, um dos gases responsáveis pelo aumento da temperatura no planeta.

Aparelhos de MP3, assim como outros produtos feitos na China, de brinquedos a aço laminado, trazem à tona um questionamento que está se tornando importante no debate sobre o efeito estufa. Se algo é fabricado na China por uma empresa americana e exportado para consumidores em São Paulo, o governo chinês deve ser responsabilizado pelo carbono emitido na sua fabricação?

No mês que vem, líderes mundiais vão se reunir em Bali para começar a estruturar um sucessor para o Protocolo de Kyoto, o tratado internacional para combater o aquecimento global que acaba em 2012. A China e os Estados Unidos, os dois maiores emissores de carbono do mundo, enfrentam pressão internacional cada vez maior para participar de um novo tratado, porque nenhum dos dois ratificou o protocolo. Mas enquanto surge a conta das emissões descontroladas, cresce uma batalha sobre quem deve pagá-la.

Tratados anteriores, como o de Kyoto, avaliavam as emissões de cada país e exigiam que as nações participantes reduzissem os gases do efeito estufa emitidos dentro de suas fronteiras. Em outras palavras, o país que fabrica é o que paga pela poluição. Mas numa mudança que pode aumentar a pressão sobre países industrializados como os EUA, acadêmicos, ambientalistas e alguns políticos argumentam que o próximo tratado internacional contra o efeito estufa deve levar em conta o "consumo" de emissões num país. Eles afirmam que as emissões ficam embutidas em produtos que viajam o mundo através do comércio - então, se os EUA importam iPods da China, os americanos devem dividir parte da responsabilidade pela poluição emitida quando eles foram fabricados.

"Enquanto crescem as emissões na China, todo mundo põe a culpa no país", diz Andrew Simms, diretor da New Economics Foundation, um centro de pesquisas e grupo de defesa ambiental de Londres. "A verdadeira responsabilidade pelo crescimento das emissões deveria ser dos consumidores finais na Europa, América do Norte e no resto do mundo."

O argumento agrada aos líderes da China, que, de acordo com algumas contas, já passou os EUA como maior emissor de dióxido de carbono do mundo. No início do ano, Qin Gang, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, lembrou aos repórteres dos países ricos que "muitas das coisas que vocês usam, suas roupas, seus alimentos, são produzidos na China". Por um lado, as empresas dos países ricos produzem cada vez mais na China, "mas, por outro, vocês criticam a China sobre a redução das emissões", acrescentou. Grosso modo, 23% das emissões chinesas vêm da fabricação de produtos que serão exportados para outros países, segundo relatório do Tyndall Centre for Climate Change Research, no Reino Unido.

Alguns economistas refutam o argumento e notam que a China se beneficia do arranjo. "A China adora ser exportadora, então é irônico eles culparem os EUA por suas exportações", diz Robert Stavins, professor de negócios e administração pública na Universidade Harvard.

No momento, a abordagem que aponta o consumidor como culpado é mais uma tática de negociação do que uma proposta séria para redesenhar o mapa mundial das emissões de gases do efeito estufa. Mas à medida que surgem novos dados e estudos para catalogar as emissões contidas nos produtos, as informações podem influenciar a discussão sobre qual é o tipo de redução das emissões que vários países devem tomar.

Defensores da abordagem baseada no consumidor final argumentam que ela resolve um dos problemas mais importantes em relação ao Protocolo de Kyoto, conhecido como "vazamento de carbono". É a idéia de que os países podem reduzir suas emissões transferindo indústrias poluentes para outros lugares. Os mesmos países ainda podem importar os produtos fabricados no mundo em desenvolvimento, o que cria uma situação em que as emissões mundiais de gases do efeito estufa continuam aumentando, até mesmo quando os países alcançam individualmente suas metas. "Se você precisa restringir as emissões, é bastante atraente realocar a produção poluente para países pobres, ou importar do mundo em desenvolvimento", diz Glen Peters, pesquisador da Universidade Norueguesa de Ciência e Tecnologia. "Você importa produtos prontos e deixa a poluição na China."

Tecnicamente, as emissões de gases do efeito estufa diminuíram nos EUA nos últimos anos, fato geralmente propagandeado pelo presidente George W. Bush. As emissões de carbono do país caíram 1,3% em 2006. Mas um estudo recente conduzido por pesquisadores da Universidade Carnegie Mellon indica que os EUA podem estar reduzindo suas próprias emissões por meio da terceirização de cada vez mais fábricas.

Com a expansão do comércio internacional nos últimos dez anos, os EUA começaram a importar de seus parceiros comerciais muito mais produtos cuja produção emite altos níveis de carbono, segundo os pesquisadores. O estudo descobriu que as chamadas emissões embutidas nas importações americanas praticamente dobraram entre 1997 e 2004. Em 2004, os EUA importaram até 1,8 bilhão de toneladas de CO2 embutido nos produtos, o que equivale a 30% da emissão de gases do efeito estufa naquele ano. Muitos desses produtos têm origem na China.

Autoridades americanas reconhecem que as indústrias poluentes viajam o mundo em busca dos lugares mais tolerantes, por causa das restrições ambientais. É por isso que países ricos como os EUA e a Austrália se negaram terminantemente a participar de um acordo sobre o clima que não incluísse países em desenvolvimento como China e Índia. Eles argumentam que forçar países desenvolvidos a cortar as emissões, quando os países pobres não são limitados por restrições semelhantes, poderia tornar suas indústrias menos competitivas. Eles afirma que esse sistema pode enfraquecer qualquer tratado ao empurrar as fábricas poluentes para o exterior, em áreas onde há menor fiscalização.

Há várias propostas dentro do conceito de "carbono embutido" que envolvem tarifas. Os países que se comprometessem com os problemas climáticos poderiam punir os países que não participam dos tratados, com a imposição de tarifas extras para importados que consomem muita energia em sua fabricação, como aço, alumínio ou vidro. Este ano, a França propôs que a União Européia imponha tarifas para os importados americanos, a não ser que Washington aceite participar de um tratado sobre o efeito estufa. Várias leis relacionadas a mudanças climáticas que já tramitam no Congresso dos EUA também podem aumentar as tarifas para a importação de produtos poluentes de países em desenvolvimento.

Qualquer que seja a abordagem adotada pela comunidade internacional para pôr um preço nas emissões, os compradores de iPods e outros eletrônicos de consumo é que vão acabar pagando a conta no fim da história.

"Se o governo chinês for responsabilizado pelas suas emissões, vai aumentar o custo de produzir por lá", diz Joseph Aldy, economista da Resources for the Future, um centro de pesquisas ambientais sediado em Washington. "Quando alguém impõe uma tarifa, o custo geralmente é repassado para o consumidor."

Mais...

Como ganhar diploma de otário

Gilberto Dimenstein
Publicado pela
Folha Online em 11/11/07

Infelizmente não causou escândalo relatório divulgado pelo governo federal que informa que, apesar do gigantesco desemprego, sobram centenas de milhares de vagas para funções qualificadas. Daria, na minha opinião, uma CPI.

O escândalo é o seguinte: gastam-se bilhões de reais, saídos dos cofres públicos, para manter programas de formação profissional de sindicatos patronais e de trabalhadores, sem contar os cursos mantidos pelos governados estaduais e municipais. A sobra de emprego revela que se deveria fazer uma profunda investigação nesses programas.

Enquanto isso se estimulam, com dinheiro público, bolsas para jovens cursarem faculdade, cujos alunos, uma vez formados, ficam longe do mercado. Será que precisamos de mais alunos em direito ou administração? Ou precisamos de técnicos em informática, logística ou exploração mineral?

O que o mercado está dizendo claramente é que o jovem teria mais chance de ganhar um emprego se fizesse um curso técnico ou tecnológico. Fazer um curso superior pode significar, em muitos casos, apenas o diploma de otário.

Preparei um material em meu site (www.dimenstein.com.br) sobre tendências e novos cursos profissionais. São Paulo começa a oferecer, dentro das escolas públicas, por exemplo, cursos técnicos à distância.

Mais...

sábado, 10 de novembro de 2007

Jogo na web arrecada arroz para alimentar milhares, diz ONU

Publicado pela BBC Brasil

O jogo já arrecadou 1 bilhão de grãos de arroz

Um jogo de internet arrecadou uma quantidade de arroz suficiente para alimentar 50 mil pessoas por um dia, informou a FAO (a agência das Nações Unidas para a agricultura e a alimentação).
O jogo, que ganhou o nome de FreeRice (Arroz de graça), testa o vocabulário dos participantes.

Para cada resposta certa, o site gera dinheiro suficiente para comprar dez grãos de arroz. A verba é fornecida pelos anunciantes do site à FAO, que fica responsável pela compra e distribuição do alimento.

O jogo está disponível na internet pelo site www.freerice.com desde o início de outubro e desde então arrecadou 1 bilhão de grãos de arroz.

A diretora da FAO, Josette Sheeranz, disse que o FreeRice demonstra como a “internet pode ser usada para conscientizar as pessoas e levantar fundos para a primeira necessidade do mundo”.

Ela disse que o jogo foi amplamente divulgado com a ajuda de pessoas que mantêm blogs e de sites como o de relacionamentos Facebook e o de vídeos YouTube.

O jogo foi criado pelo americano John Breen, pioneiro na criação de ações para levantamento de fundos pela internet.

Antes do FreeRice, Breen já havia criado o The Hunger Site (O site da fome).

Mais...

Eles usam black-tie

Maria Cristina Fernandes
Publicado pelo
Valor Online em 09/11/07

Edson Bazílio: depois de ser dispensado do programa de estágio firmado entre a Unipalmares e um banco, usou a indenização de R$ 5 mil para abrir empresa de comércio virtual voltada para o mercado afro
Foto Davilym Dourado

Vai ser a maior festa de formatura que já se viu. O número de formandos até que é modesto, 126. Grande é a platéia. Para a colação de grau em março foi reservado o Ginásio do Ibirapuera, com capacidade para 12 mil pessoas. A maioria deles levará para casa o primeiro diploma universitário de suas famílias. "Minha filha disse que tem um limite de dez convites, mas na nossa família tem pelo menos 50 parentes que querem muito ir", diz a auxiliar de enfermagem Marilena Duarte, de 46 anos, mãe de Elaine Duarte Damião, de 23, uma das integrantes da primeira turma de formandos da Universidade Zumbi dos Palmares.

Criada em 2003 com a reserva de metade de suas vagas para estudantes que se declarem negros, a universidade tem hoje entre seus 1,5 mil alunos 87% de afrodescendentes. Oferece cursos de Administração de Empresas e Direito e, a partir do próximo ano, terão início Comunicação Social e Informática, somando 2 mil alunos.

A impressão de que os portões da antiga fábrica que abriga a universidade, na Barra Funda (centro de São Paulo), dão acesso a um gueto, se desfaz à entrada da sala de aula da turma do último ano de Administração. Um grupo de alunos cerca o professor de Finanças Internacionais, Jorge Max Lucki, branco até o último fio de cabelo. Discutem os últimos IPOs, sigla em inglês da oferta inicial de ações, com a animação de quem conversa sobre a rodada do Brasileirão do fim de semana.

"Vocês querem passar o resto da vida ganhando dinheiro para os outros?", provoca o professor, ao perceber que desconheciam detalhes das últimas operações do mercado. O grupo desfaz-se e toma seus lugares nas carteiras, onde não se vê aluno falando ao celular, folheando revistas, jogando truco ou entrando e saindo da sala. "Além de demonstrarem interesse acima da média em sala de aula, eles também são mais afetuosos e nos tratam com muito mais respeito", comenta, ao fim da aula, o professor, que, assim como a maioria dos outros 73 da universidade (60% de brancos), dá aulas em outras escolas particulares de São Paulo.

Na turma de formandos, mais de um terço dos alunos é estagiário em bancos por meio de convênios firmados entre a universidade e instituições financeiras. Daí que se avistem mais terno e tailleur do que chinelo de dedo ou bata indiana nas salas de aula.

Ao contrário de colegas de universidades públicas ou particulares que estabeleceram políticas de cotas minoritárias, não são submetidos a pichações racistas nos banheiros. A lei ali é deles. É antes no estágio, que na universidade, que eles se sentem participantes de uma experiência de política de cotas.

O reitor José Vicente atribui a esmagadora maioria de negros da faculdade à mensalidade módica e à publicidade que, inicialmente, foi mais dirigida ao público das escolas de samba e dos bailes funk. A mensalidade é de R$ 260, 50% do custo. A outra metade é bancada por parceiros da escola. Além dos bancos, a lista de colaboradores inclui empresas como a Nestlé e instituições de ensino privadas, como a Universidade Metodista e a Unip, de João Carlos di Genio, que chegou a custear a folha de funcionários da escola no início do projeto.

"Vimos que trabalhar para colocar negros na USP e na Unicamp era como enxugar gelo", diz o reitor sobre a origem da Unipalmares, um curso preparatório de vestibular dirigido a afrodescendentes. No fim da década de 1990, haviam conseguido colocar 520 negros bolsistas em 12 faculdades particulares, que ofereciam vagas em troca de perdão de débitos fiscais.

Filho de bóia-fria e lavadeira, nascido em Marília (SP), casado e pai de três filhos, Vicente chegou a São Paulo pelos quadros da Polícia Militar. Fez Direito em Guarulhos, mas foi na Escola de Sociologia e Política de São Paulo que reuniu o grupo de 30 colegas que fundaria a Unipalmares.

De gravata e camisa social branca de manga curta, dois celulares na cintura, José Vicente explica por que a escola teve início pelo curso de Administração de Empresas. Afirma haver um grande mercado de produtos voltado para negros que é comandado por brancos. Dos 77 mil periódicos em circulação no país, conta, há um único dirigido para a comunidade negra, a revista "Raça", que é de uma descendente de coreanos, Joana Woo - "até galinha preta, farofa e todos os paramentos do candomblé são produzidos por brancos".

Vem de um aluno excluído da mais vistosa parceria empresarial da escola - os convênios com os bancos - uma das principais iniciativas na conquista desse mercado. Filho de um encanador industrial e de uma diarista e primeiro de seis irmãos a se formar, Edson Bazílio, 29 anos revelados a contragosto, era estagiário de um banco até agosto. A experiência, que durou um ano e um mês, começou pela área de Recursos Humanos do banco. Era o único negro num setor de 40 pessoas. Um dia, ao voltar do almoço, ouviu de um gerente: "Edson é negro, por isso fede que nem merda." Ficou mudo. "Em outra situação teria reagido, mas aprendi aqui a importância da inteligência emocional", conta, com voz baixa e pausada, em uma mesa de canto da biblioteca da faculdade.

Relatou o acontecimento à sua chefe e depois ao chefe da chefe. O gerente explicou a todos eles que tinha sido uma brincadeira. Os chefes disseram a Edson que ele receberia um pedido de desculpas e, em seguida, aceitaram sua transferência para outra área do banco. "Saía para a balada com a turma do banco, mas depois disso minha auto-estima ficou abalada e me isolei", relembra. "Eles faziam palestra sobre diversidade para os estagiários da Unipalmares, mas quem tinha que estar na platéia era a maioria branca do banco."

Três meses depois da transferência, foi chamado pelo chefe. Achou que receberia a notícia de sua efetivação por ter fechado dez contratos no período. Acabou demitido. Foi até a mesa do gerente agressor se despedir. Nem assim ouviu o prometido pedido de desculpas. Com os R$ 5 mil da indenização, montou uma loja virtual. Quer focar no mercado afro oferecendo cosméticos, roupas, ingressos para shows, eventos e treinamento.

O insucesso de Edson é uma exceção no programa de estagiários, mas todos têm histórias de dificuldades na adaptação aos bancos. Para Flávio Batista, de 35 anos, filho de sapateiro e cabeleireira, a maior dificuldade do início do estágio no setor de auditorias do Citibank foi o inglês: "Os outros estagiários são de universidades top de linha e estudam inglês desde os 8 anos de idade. A defasagem é muito grande".

Denise dos Santos, de 29, estagiária no marketing estratégico do Itaú, queixa-se das resistências ao que os colegas chamam de privilégios dos cotistas, como, por exemplo, a semana a que têm direito, uma vez por mês, para se dedicar ao curso de formação de jovens executivos na Unicamp. Filha de um motorista aposentado e de uma costureira, diz que todos ali são contra a perpetuação do benefício - "A cota é para resolver uma situação emergencial de exclusão."

Todos têm respostas na ponta da língua para contestar os adversários da iniciativa. Ao argumento de que o país estaria sendo apresentado a uma divisão por raças até então inexistente, Maira Barbosa, de 27 anos, dois filhos, colega de Denise no Itaú, afirma que a racialização já existe, não são as cotas que a estão criando: "Ainda me choca muito quando vejo as pessoas no banco comentarem um crime cometido por um dentista, por exemplo. Dizem logo que o cara deve ter algum problema psicológico. Se for um negro, é porque não presta mesmo."

À alegação de que a política de cotas é inconstitucional, porque afronta o princípio da igualdade, Kátia Botelho, de 22 anos, estagiária do Bradesco, responde que a desigualdade no acesso à educação de qualidade é que não está prevista na Carta: "Somos parte de um problema social que engloba a cor da pele, mas não se restringe a ela." Quando defronta com colegas que questionam sua presença no banco pela cota afro, conta que antes de entrar no estágio do banco tentou colocar seu currículo numa empresa de recrutamento pela internet. Procurou a lista de faculdades relacionadas e não encontrou a Zumbi dos Palmares.

A resistência interna às cotas não é suficiente para reverter os programas das instituições financeiras. Depois que o Ministério Público do Trabalho ajuizou ações contra os cinco maiores bancos privados brasileiros pela reduzida presença de negros entre seus funcionários, foram firmados termos de compromisso para garantir sua ampliação no quadro funcional. Nessas ações, os procuradores citaram dados do IBGE em que constatam que a maior presença de negros nas instituições financeiras se dá na manutenção (65%) ou nas funções de contínuos (57%) e copeiros (50%). Nas atividades que permitem ascensão funcional na carreira, a presença é mais reduzida: há 5% de escriturários, 13% de caixas e 15% de gerentes.

O quadro alastra-se em outros setores da economia. Pesquisa do Instituto Ethos/Valor, com as 500 maiores empresas do país, constatou 26,4% de negros em seu quadro funcional. Entre os executivos, essa participação reduz-se para 3,4% .

Hoje, oito bancos já oferecem estágios para alunos da Unipalmares: Itaú, Bradesco, Safra, Citibank, HSBC, Real, Santander e Unibanco. O Itaú, pioneiro nos convênios, começou com 20 alunos em 2005 e hoje já tem 91 ou 20% do total de seus estagiários. Metade dos 20 que estão na turma de formandos já passou no certificado da Associação Nacional dos Bancos de Investimento (Anbid) e 5 já foram efetivados. Começam com uma remuneração de R$ 842 e chegam a R$ 1,1 mil, além dos benefícios assistenciais. No Itaú, não há queixas formalizadas. Atribuem-se suas dificuldades à "cultura distinta do mundo corporativo", que inclui desde o vestuário ao comportamento no restaurante. "Eles chegaram com defasagem muito grande em relação aos demais estagiários, mas tiveram uma evolução brilhante nesses três anos", diz Valéria Riccomini, responsável pela gestão do projeto no Itaú.

O Bradesco tampouco registra queixas dos alunos da Unipalmares. "Não haveria por quê. Todos estão indo muito bem e é ampla a perspectiva de efetivação", informa José Luiz Bueno, diretor de Recursos Humanos do banco. Atribui-se a facilidade de adaptação à chamada carreira fechada da instituição, política de ingresso que prevê a ascensão de escriturários ao topo da carreira. Dos 30 iniciais, 4 desistiram. Hoje somam 76, 17% do total de estagiários do banco. A remuneração é de R$ 1,2 mil, além dos benefícios. Tanto o Itaú quanto o Bradesco investem em formação suplementar dos estagiários com cursos de formação de executivo, respectivamente, na Unicamp e na USP.

Luiz Henrique Ferreira diz nunca ter se sentido hostilizado no Bradesco, mas atribui o ambiente de trabalho antes ao respeito à hierarquia das políticas do banco: "Sabe-se que se é algo que as diretorias do banco e da faculdade assinaram é porque precisa ser cumprido. Tem gente que não tem preparo para conviver com a diversidade, mas é levada a aceitá-la."

Maira Barbosa atribui sua adaptação no Itaú ao desempenho de seu gestor no campo minado do debate das cotas: "Ele me disse que eu deveria me sentir como qualquer outro estagiário ali porque minha efetivação não dependeria da cota, mas de meu desempenho."

No Citibank, a diretora de Recrutamento e Seleção, Fernanda Pacheco, tampouco registra dificuldades de adaptação dos estagiários. São 40 alunos da Unipalmares de um total de 600 estagiários do banco. "Como a aceitação foi muito grande, já ficou mais fácil ampliar o programa", conta. Atribui a adaptação aos cursos oferecidos pelo banco, como o de resolução de conflitos ou de "postura em ambiente de trabalho", que ensina desde como atender ao telefone até como escrever uma mensagem eletrônica profissional. O índice de contratação dos alunos da Unipalmares já se igualou ao do programa regular de estagiários do banco, 50%.

Edinilson Nascimento, de 32 anos, estagiário do Citibank, relata que uma das perguntas que mais lhe faziam no banco era por que a Universidade se chamava Zumbi dos Palmares. "'Vocês querem se segregar?', me perguntavam." Diz ter um bom ambiente de trabalho e bons colegas, "mas amizade de olhar no olho é difícil porque não há comunhão de idéias". Ele acha que os mundos são muito distintos. "O padrão é de branquinhos, lourinhos, sem filhos, com carro e com a idéia fixa de que os dados do IBGE são manipulados e o o país é movido pela meritocracia". A maioria de seus amigos de banco é de outros estagiários da Unipalmares.

Todos sonham em ser efetivados. Mas não é apenas por isso que evitam formalizar queixas nas instituições. A maioria considera as resistências pessoais que encontram nos bancos apenas mais um capítulo das adversidades que costumam enfrentar.

"Eles se agarram com unhas e dentes a essa oportunidade", diz o professor de Economia Edmilson Costa. Egresso do grupo de professores que fundou a Unipalmares, Edmilson acompanha a turma desde o primeiro ano. Diz que eles chegaram com muita deficiência de formação básica, combatida com aulas aos sábados de português e matemática, além do curso de inglês oferecido pela Alumni. "Não queríamos que eles adquirissem a mentalidade 'Quem mexeu no meu queijo'", diz, numa referência a uma das bíblias do senso comum da Administração de Empresas. "Fomos muito exigentes com eles desde o início. Não tínhamos a intenção de formar agitadores, mas queremos que eles tenham espírito crítico."

Eles praticamente não conversam em sua aula. Um aluno desvia a atenção do quadro-negro para consultar o livro "A Dialética Radical do Brasil Negro", de Clóvis Moura, e o fecha cinco minutos depois. Fazem muitas perguntas. O professor exemplifica como se chega à média do PIB per capita: "Imaginem um cara com os pés enfiados no freezer e a cabeça no fogão. Ele teria a temperatura média do seu umbigo, mas, na verdade, está morto. O PIB per capita é assim. Mede pouco quando a renda é muito desigual. É o mesmo que tirar uma média entre a renda de Alphaville e a de uma favela vizinha em Barueri", exemplifica.

Os alunos falam de seus professores preferidos como brancos com alma de negro. Um deles é o professor de filosofia Hudson Marcelo da Silva. "Ele dizia que estávamos aqui para escapar dessa sina de curso técnico. Que a periferia tinha que contestar essa coisa de todo negro pobre ter que fazer um curso técnico", conta Luiz Henrique. "Eles são muito politizados. Carregam a sina da humilhação. Mas nunca lhes demos moleza. Debatíamos a política de cotas. Dizia a eles que alguma coisa tinha que ser feita para se reparar a injustiça histórica com os negros, mas que não se devia perder de vista o princípio constitucional da igualdade", relembra.

A questão divide os alunos. Celso Falcini Santos, de 40 anos, funcionário público municipal e um dos poucos brancos da turma, é contrário à política de cotas: "Eles já carregam o rótulo de negros. Não precisam carregar mais um, o de cotista. Não merecem isso." Mas entre os que concordaram com Celso no questionário elaborado pelo Valor, há pelo menos dez negros. Um deles é Ivone Lopes, de 25 anos, auxiliar administrativa. "Nós negros, às vezes, nos fazemos de coitados." Marta Rufino, de 27, estagiária do Itaú, diz que, apesar de beneficiária da política, não tem opinião formada sobre as cotas: "Mas desejo, sinceramente, que meus filhos não precisem delas." Na maioria que é favorável às cotas, grande parte se manifesta pela necessidade de não perpetuá-la. "A alternativa às cotas é igual à alternativa para o Brasil. Quem ganha menos paga menos", resume Edinilson, num grupo de sete colegas, sem ser contestado.

A enquete foi conduzida pelo Valor com 34 dos 126 formandos. A maioria afirma que os preconceitos racial e social são igualmente difíceis de ser enfrentados. Um dos nove alunos que responderam ser a discriminação racial a mais difícil, resumiu numa frase sua resposta: "Cor não se muda." O estudante não quis se identificar.

O perfil característico do militante esquerdista do movimento negro está longe de ser dominante na universidade. Assemelham-se à maioria da população brasileira na identificação dos maiores problemas do país - educação e desigualdade. Um único aluno menciona o racismo entre os maiores problemas.

Na lista de livros dominam os manuais de administração e os textos utilizados para o trabalho de conclusão de curso. Mas surpreende que, numa turma que não vai para a cama antes da meia-noite e dificilmente acorda depois das 5 horas e gaste, em média, quase quatro horas de deslocamento em transporte público, haja quem encontre tempo para atravessar Dante Alighieri e disposição para encarar as memórias políticas do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

O professor Hudson teme pelo futuro de seus ex-alunos. Diz que basta consultar as estatísticas para concluir que um negro com má formação no ensino superior tem chances menores de conseguir emprego do que aquele que tenha apenas o ensino médio.

Tem recebido em seu escritório de advocacia alunos como João Bosco, militante do movimento negro e dono de uma pequena empresa de recrutamento de mão-de-obra. Um dos inadimplentes da turma, ele está impedido de freqüentar as aulas e corre o risco de não se formar. A turma está fazendo rifas e organizando festas na tentativa de arrecadar dinheiro suficiente para regularizar a situação dos colegas inadimplentes. Dos 200 alunos que iniciaram o curso, 74 o abandonaram ao longo dos quatro anos.

Hudson foi demitido no ano passado depois de um confronto com a reitoria, a quem acusou de associar a instituição com o grupo político do ex-governador de São Paulo e ex-candidato à Presidência da República Geraldo Alckmin.

"O governador Alckmin apoiou nosso projeto antes mesmo que se tornasse uma iniciativa vencedora. Já esteve na nossa escola pelo menos umas dez vezes. Numa dessas oportunidades, antes de deixar o mandato para disputar a Presidência, disse que gostaria de nos visitar. Fomos mal compreendidos pelos petistas, mas não queremos partidarizar a escola", defende-se o reitor, que cita a deputada Luiza Erundina (PSB-SP), a ex-senadora Heloísa Helena (Psol) e o senador Paulo Paim (PT-RS) como políticos engajados no projeto da universidade. "Minha gestão é contestada por movimentos que não aceitam que o cargo seja ocupado por quem não freqüentou os porões da ditadura", defende-se.

Na enquete do Valor, a turma aparece dividida entre aqueles que votaram no presidente Luiz Inácio Lula da Silva e em Alckmin. Nas conversas com os alunos, freqüentemente se colhem depoimentos de decepção com o governo e revolta com a corrupção, mas o presidente da República é um dos poucos políticos a aparecer na lista das pessoas que os alunos mais admiram.

Presidente da Comissão de Formatura, Sônia Maria da Silva, de 47 anos, afirma já ter confirmada a presença de Lula como patrono da turma e de Alckmin e do governador de São Paulo José Serra como paraninfos. A lista de convidados inclui Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul, e a secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice. Quer fazer da festa de formatura um tributo à negritude. "Um mini-Pan da cultura negra", resume. O orçamento é de R$ 2 milhões. A empresa de formaturas Dorana Forte Real está captando patrocínios, mas já teve vetada pela comissão de formatura a oferta de uma cervejaria. "Não queremos a formatura associada a bebida ou carnaval", comenta Sônia, funcionária da Caixa Econômica Federal há 26 anos.

Filha de um pequeno empreiteiro de obras e de uma dona-de-casa e fã da apresentadora bilionária da TV americana Oprah Winfrey, é uma das poucas alunas do curso com nítido perfil de classe média. Garante nunca ter sofrido discriminação racial na vida. "Acho que porque sempre fui muito impetuosa", admite. Prestes a se aposentar, quer, como a maioria da turma, fazer pós-graduação. E dedicar-se ao ramo de hotelaria.

Na festa que fizeram no Moinho Santo Antonio, na zona leste de São Paulo, para divulgar a festa de formatura entre possíveis patrocinadores, emocionou-se com o brilho nos olhos dos colegas. Foram servidos prosecco e uísque 12 anos a noite toda.

O sentimento é resumido pelo artista plástico Tom Ruthz, ao relatar as dificuldades no combate ao complexo de penetra da turma. Organizador das exposições de arte, festivais de cinema e desfiles de moda da faculdade, conta que os colegas se aproximavam acanhados e perguntavam: "Tenho que comprar um quadro para entrar?"

A turma de ex-acanhados rejeitou a oferta do Jockey Club de São Paulo para o baile de formatura porque as corridas de cavalo começam cedo e a festa teria que terminar às 4 horas. Optou-se pelo World Trade Center, o complexo empresarial mais sofisticado de São Paulo, na zona sul da cidade, cujo espaço de eventos, com capacidade para 5 mil pessoas, será inaugurado pela formatura da Unipalmares.

Raquel Celestino Leite, de 35 anos, funcionária pública da Secretaria da Educação, onde recebe menos de dois salários mínimos, fez poupança desde o primeiro dia da faculdade para poder participar da festa de formatura. "Vou ser a heroína da família com esse diploma", revela, numa referência ao sonho da mãe, morta há oito anos, em vê-la formada. Ao saber que a festa seria patrocinada, comemorou. Poderia encomendar seu vestido. Vai ser azul, como o de todas as colegas, explica, sem esconder o espanto com o desconhecimento, àquela altura dos acontecimentos, de que o azul é a cor da Administração de Empresas: "Quero três peças, um bolero de renda, uma regata e uma saia evasê, num tecido brocado, azul acinzentado."

Mais...

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Brasil defende na ONU os direitos dos homossexuais

Publicado pela Folha Online em 08/11/07

Brasil, Argentina e Uruguai promoveram nesta quarta-feira na sede da ONU (Organização das Nações Unidas) um ato para defender diante da comunidade internacional os Princípios de Yogyakarta, um código que há um ano reúne os direitos fundamentais dos homossexuais.

"Pedimos a todos os países que usem este documento como referência legal e como padrão para poder melhorar as vidas daqueles que a cada dia são vítimas da discriminação", reivindicou Boris Dittrich, diretor do programa de direitos dos homossexuais da Human Rights Watch (HRW), uma das ONGs que organizaram o ato ao lado das três missões diplomáticas.

A organização de direitos humanos lembrou que as relações homossexuais ainda são consideradas ilegais em 77 países. Em sete deles, a homossexualidade pode ser punida com a pena de morte. Além disso, a minoria sofre humilhações, agressões, discriminações trabalhistas e sociais, mesmo nos países onde seus direitos são reconhecidos, apontaram os participantes.

Os 29 princípios foram redigidos e assinados por 30 especialistas em direitos humanos de 25 países, em novembro de 2006, durante uma reunião na cidade indonésia de Yogyakarta.

Mary Robinson, ex-presidente da Irlanda e ex-Alta Comissária da ONU para os Direitos Humanos, ressaltou ao abrir o ato a importância do documento. Para ela, o texto deve servir de instrumento para zerar o déficit na proteção dos direitos humanos na área da orientação sexual.

"Este é um assunto central na defesa dos direitos humanos, e é muito apropriado que seja apresentado aqui, na sede da ONU", disse.

O diretor para Direitos Humanos do Ministério de Relações Exteriores da Argentina, Federico Villegas Beltrán, disse que boa parte dos princípios já está incluída no plano contra a discriminação que seu país aprovou em 2005.

"Desta maneira, reconhecemos o direito de cada pessoa viver segundo a sua identidade sexual, sem ser discriminada por isso e com o gozo pleno de todos os direitos", afirmou.

Ele defendeu a inclusão da discriminação por orientação sexual como um das situações examinadas pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU. Mas o órgão ainda tem reservas a incorporar plenamente o tema.

Philip Dayle, membro da Comissão Internacional de Juristas, defendeu a necessidade de promover os Princípios de Yogyakarta. "É preciso reforçar na comunidade internacional os mecanismos de proteção dos direitos humanos nos casos de orientação sexual", disse.

O jurista destacou avanços na área, mencionando como exemplo o maior reconhecimento em alguns países latino-americanos dos direitos dos casais de gays e lésbicas a pensões e benefícios sociais.

Apesar disso, acrescentou, há retrocessos, como a tentativa em Trinidad e Tobago de excluir a orientação sexual dos direitos humanos que a lei deve proteger.

Mais...

Catálogo elenca produtos gastronômicos ameaçados de desaparecer

Janaina Fidalgo
Publicado pela
Folha Online em 08/11/07

Dos mais de 750 produtos "em extinção" listados, 23 são do Brasil, como o babaçu
Foto Divulgação

Quando Noé construiu sua arca, protegeu do dilúvio casais de animais. Fosse hoje, talvez o personagem bíblico incluísse também alimentos tradicionais ameaçados de extinção. E eles não seriam poucos, conforme revela um catálogo mundial feito pela associação Slow Food que identifica e divulga produtos em risco de desaparecer. Dos mais de 750 produtos listados na Arca do Gosto - uma alusão à embarcação de Noé -, 23 são do Brasil, entre eles o feijão canapu, o babaçu, o pirarucu e a castanha-de-baru.

"A Arca reúne produtos de pequenos agricultores, extrativistas e indígenas", diz Roberta de Sá, coordenadora dos projetos do Slow Food no Brasil. "Para entrar na lista, o produto deve ter excelência gastronômica, ser ligado à história da comunidade, ter produção artesanal com ênfase na sustentabilidade e estar em risco de extinção."

A ameaça de desaparecimento, segundo Roberta, pode ser justificada de inúmeras maneiras, como a perda da tradição do modo de fazer - caso da marmelada de Santa Luzia -, ou pela localização do alimento em uma área devastada.

A partir do catálogo, a fundação, que prega a combinação do prazer à alimentação consciente e responsável, partiu para a captação de recursos financeiros para bancar as Fortalezas, projetos que visam a melhoria da qualidade dos produtos ameaçados. No Brasil, elas são sete e muitas participaram no último mês, em Brasília, do Terra Madre Brasil, um encontro nacional de ecogastronomia.

Não existe um padrão para as Fortalezas. As iniciativas variam de acordo com a realidade e as necessidades de cada comunidade, mas objetivam: 1) promover os produtos artesanais; 2) criar padrões de produção; 3) e garantir a viabilidade futura dos produtos.

Na Fortaleza do palmito-juçara, planta nativa da mata Atlântica que há 12 anos está sendo plantada pelos guaranis da aldeia Ribeirão Silveira (litoral norte de São Paulo), a próxima etapa é conseguir um selo que permita aos índios comercializarem o caule comestível.

"Estamos inventariando as palmeiras nativas para criar um plano de manejo, provar que somos produtores e conseguirmos a autorização para vendê-lo", diz o cacique Adolfo Timótio Verá Mirim.

Na Fortaleza do umbu, que reúne os municípios baianos de Uauá, Curaçá e Canudos, por exemplo, foram construídas minifábricas onde o fruto é transformado em doces, geléia e polpa pasteurizada. Da produção total, 55% é destinada à merenda de escolas do sertão do Estado, 30% vai para países como França e Áustria, 10% é vendida em feiras e exposições e 5% fica no mercado regional.

"É mais fácil exportar que vender aqui dentro", diz Jussara Dantas de Souza, da Fortaleza do umbu. "Lá fora, a Associação Comércio Justo deposita 50% do valor antes de começarmos a produção. Aqui, você investe, entrega o produto e só recebe 60 dias depois."

Mas, para quem acredita que, para preservar, é preciso fazer a população conhecer os produtos, ainda há um importante passo a ser dado, que é o da distribuição dentro do Brasil. Como se faz hoje para comprar os produtos da Arca? "Há realmente uma dificuldade muito grande que é a parte do transporte. [A distribuição] É o nosso maior desafio", diz Roberta.

Mais...

Fraudes no leite expõem fragilidades na fiscalização

Publicado pelo Valor Online em 08/11/07

Para Stephanes, problemas têm origem na falta de capacidade operacional
Foto Davilyn Dourado/Valor

O retrato do sistema de fiscalização do leite no Brasil, revelado ontem em audiência pública no Senado, rendeu críticas dos parlamentares e culminou em apelo pela demissão do responsável pela inspeção desses produtos no Ministério da Agricultura.

Dados oficiais apresentados aos senadores mostram que o governo tem apenas 212 fiscais para auditar 1.686 indústrias de produtos lácteos com registro no Serviço de Inspeção Federal (SIF) em 25 Estados - em 2006, o governo condenou somente 0,08% dos 25,7 bilhões de litros produzidos no país.

E, até a Polícia Federal estourar o esquema de fraudes em duas cooperativas mineiras, os testes laboratoriais não pesquisavam adição de soda cáustica no leite, embora o produto químico esteja disponível nas usinas e seja usado na limpeza de dutos e tubulações por onde passa o leite. De 2003 a 2006, foram analisadas 920 amostras anuais para fraude - ou 3.679 no total, 75,6% na região Sudeste. Mais: a multa máxima para a infrações desse tipo está limitada a irrisórios R$ 16 mil e a lei de melhoria da qualidade do leite não prevê outras medidas punitivas.

Para complementar o quadro, Reinhold Stephanes, ministro da Agricultura, declarou que os problemas da defesa agropecuária têm origem na "falta de planejamento e capacidade operacional", e não na alegada escassez de fiscais ou orçamento para as atividades.

"O problema do Ministério da Agricultura não é falta de recursos nem de pessoal. O governo tomou a decisão política de que não faltariam recursos [para a defesa]", afirmou Stephanes. "São outros tipos de problema. É falta de planejamento e capacidade operacional". E emendou: "O caso do leite não foi por falta de fiscal porque ele estava lá 24 horas por dia. Foi outra coisa".

A reação dos poucos senadores presentes à audiência foi imediata. "Há uma herança maldita de cinco anos de fraudes. Em qualquer lugar do mundo, o chefe do Dipoa [responsável pela fiscalização] não estaria onde está", disse a senadora Kátia Abreu (DEM-TO), vice-presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária.

Segundo ela, as ações de fiscalização contra fraude e clandestinidade de produtos de origem agropecuária, cujo orçamento para 2007 soma R$ 2,64 milhões, registrou gastos efetivos de R$ 1,25 milhão até outubro pelos dados do sistema de acompanhamento de gastos federais (Siafi). Mais grave, segundo Kátia Abreu, é que a proposta de orçamento para 2008 enviada pelo governo ao Congresso não reserva recursos para esta ação específica.

Mesmo com a negativa do ministro em relação a eventuais problemas causados pela falta de pessoal, a associação dos fiscais federais (Anffa) afirma que a situação atual é preocupante. "Falta pessoal, sim. Precisamos, no mínimo, de mais 1 mil fiscais para dar conta de tanta obrigação", diz o presidente da Anffa, Luiz Fernando Carvalho. "O governo prometeu abrir 390 vagas, mas só devem ser contratados 280 até 2008", afirma o dirigente.

O diretor do Departamento de Proteção ao Direito do Consumidor (DPDC) do Ministério da Justiça, Ricardo Morishita, informou que, um convênio com o Dipoa para fiscalizar produtos no varejo, indicou problemas com 18 das 57 amostras coletadas.

Em sete delas, o problema estava relacionada a divergência de informação nos rótulos dos produtos. Mesmo com uma regra da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que permite variação de 20% nos valores informados nos rótulos, as empresas ultrapassaram os índices tolerados. De acordo com Morishita, houve problemas com leite longa vida das marcas Cedrense (SC), Marajoara (GO e TO), Big Leite, Parmalat e Total (PB), além do leite em pó Le Bon (PB).

Mais...

Na USP, posições do Brasil sobre clima são chamadas de "frágeis e atrasadas"

Daniela Chiaretti
Publicado pelo
Valor Online em 08/11/07

Eduardo Viola, da Universidade de Brasília: " O Brasil só perdeu tempo"
Foto Davilym Dourado/Valor


As posições defendidas pelo Brasil nas negociações internacionais sobre mudanças climáticas são frágeis e beiram o ridículo. As críticas, agora, não vêm de ambientalistas mas de dois acadêmicos, os professores José Eli da Veiga, titular do departamento de economia da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo, a FEA-USP, e Eduardo Viola, da cátedra de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, a UNB. "O Brasil, nestes últimos dez anos, só perdeu tempo", diz Viola. "Tínhamos que assumir uma postura muito mais pró-ativa e liderar o Bric", emendou Veiga, referindo-se ao bloco de nações emergentes formado pelo Brasil, China, Índia e Rússia.

Veiga e Viola participaram ontem do seminário "Meio Ambiente e Desenvolvimento do Brasil", no prédio da FEA, em São Paulo. Os dois contestam a argumentação-base das posições brasileiras nas negociações internacionais de combate ao aquecimento global - a citação, repetida incansavelmente pelo governo brasileiro, do princípio das responsabilidades históricas, que consta da Convenção sobre Mudanças Climáticas da ONU e reconhece que os grandes responsáveis pelo problema são as nações desenvolvidas. Nada contra a idéia, claro, mas as farpas são por conta de este ponto ser a base da argumentação brasileira há anos, sem avanços nem novidades. "Não dá para recuar assim, só voltar atrás na história, a posição se torna ridícula. Ficar repetindo a doutrina das responsabilidades históricas é muito pouco convincente, é ficar culpando pais, avós. Esta é a fórmula da guerra perpétua", disse Viola.

A posição defensiva brasileira produziu o que o professor chama de "paranóia da soberania", que estava por trás da defesa do território amazônico pelos governos militares e que tem uma nova versão nas justificativas do governo Lula. É por essas posturas que o Brasil, na avaliação dos professores, vai ao próximo encontro internacional sobre mudanças climáticas, em dezembro, em Bali, muito fragilizado. Veiga desconfia até da marca eterna das emissões de CO2 que o Brasil emitiria - especificamente dos 75% sempre atribuídos ao desmatamento da Amazônia. Ele lembra que este dado vem do anuário das emissões de carbono brasileiras, que se tornou público em 2000, mas que se refere ao período 1990-1994. "O que é o Brasil hoje comparado ao de 1992?", diz, pontuando por exemplo que há 15 anos a matriz energética brasileira não tinha a força que as térmicas a carvão começam a assumir agora. E que o conceito de "uso da terra", onde se enquadram as emissões por desmatamento, é vago. "Talvez não englobe sequer as queimadas feitas nas lavouras de cana", diz.

Também o Protocolo de Kyoto, o tratado internacional pelo qual os países desenvolvidos têm que reduzir suas emissões de CO2 (e que Estados Unidos e Austrália não ratificaram), levou suas bordoadas. "Os resultados de Kyoto nem se aproximarão dos sonhados pelos seus articuladores", registrou Veiga. Apesar de as metas atribuídas a cada nação serem tímidas - emissões de carbono 8% menores, em 2010, em relação a 1990 - só a Alemanha e o Reino Unido, entre os grandes emissores, poderão apresentar resultados positivos.

A Alemanha conseguiu obter um corte de quase 19% e o Reino Unido, praticamente 16%, considerando-se as emissões no período 1990-2005. Neste ranking, a Itália aumentou suas emissões em mais de 12%, a França reduziu menos de 2% e a Espanha cresceu 52%. "Isto mostra o fracasso de Kyoto", disse Veiga.

Para Viola, o encontro de Bali, a chamada Cop 13, "é um teatro" e o que importa são "os bastidores". Segundo ele, "a reunião multilateral tem pouca importância. O decisivo está no G8+5, que reúne os países que respondem por 90% das emissões de carbono", referindo-se ao grupo das sete nações mais ricas do mundo e a Rússia, e os cinco emergentes (o Bric mais a África do Sul). "O fundamental não virá de Bali, nem remotamente, mas da eleição do novo presidente dos EUA", continua Viola. "Isto é chave: teremos que ficar no 'pause' até 2009. Não se faz um acordo desta magnitude sem a adesão americana."

Mais...



Acesse esta Agenda

Clicando no botão ao lado você pode se inscrever nesta Agenda e receber as novidades em seu email:
BlogBlogs.Com.Br