Era uma vez... uma história que não existe em nenhum livro. Ou melhor, uma não, inúmeras histórias, com infinitas possibilidades de início, meio e fim, existentes apenas na imaginação das crianças que vão contá-las. É essa a proposta do jogo "Eu Conto", criado pela Associação Viva e Deixe Viver, entidade sem fins lucrativos que reúne voluntários que contam histórias para crianças e adolescentes hospitalizados.O jogo traz um baralho com 104 cartas, divididas em cinco temas: personagens, objetos, ações, qualidades e lugares. A idéia é que os participantes contem uma história em conjunto a partir das palavras escritas nas cartas que forem sendo desviradas (por exemplo: "montanha", "príncipe", "anel", "triste", "escorregar").
O final não poderia ser mais feliz: não há um vencedor. Todos os participantes ganham. "No início, pensamos em criar duas regras: uma competitiva e outra cooperativa. Mas, na hora dos testes com as crianças, a parte competitiva não teve vez. Elas foram nos dizendo como o jogo teria que ser na prática", conta Valdir Cimino, fundador da Viva e Deixe Viver. Em quase 11 anos de atividades, a associação reúne 1.144 contadores, que atuam em 70 hospitais de 20 cidades brasileiras.
Cimino conta que a idéia de produzir um jogo para ajudar na dinâmica de contar histórias vem de muito tempo e envolveu vários colaboradores do grupo. Por cerca de dez anos, os protótipos iniciais, complexos e cheios de peças, foram sendo refinados até chegar ao modelo atual, mais simplificado.
O jogo é inédito. "Dois especialistas na área nos disseram que não há outro com esse caráter", diz Cimino.
Com a parceria da Bovespa Social, foram produzidas 15 mil unidades, das quais 9.000 serão utilizadas nos projetos da associação e 6.000, vendidas ao preço de R$ 22 (vendas e informações no site www.vivaedeixeviver.org.br). Toda a verba será revertida para a entidade.
Após testes com os filhos de seus contadores, a entidade levou o jogo para ser usado com crianças com transtornos psiquiátricos, atendidas no Hospital Dia Infanto-Juvenil do Serviço de Psiquiatria da Infância e da Adolescência do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo.
Segundo a pediatra Marisol Sendin, do IPQ, foi possível observar uma nítida mudança nos pacientes que passaram por atividades lúdicas em geral e pela contação de histórias em particular. "Há uma intensa melhora no relacionamento com as pessoas, na escola, nos sintomas. E isso porque atendemos casos bastante graves."
Ela diz que o jogo ajuda os pequenos a se expressarem. "Ao contar as histórias, eles acabam falando de questões que mexem com a cabeça deles." O grupo desenvolve um estudo para avaliar cientificamente o impacto da contação de histórias e do brincar no quadro clínico dos pacientes.
Valdir Cimino afirma que, apesar de o trabalho da associação Viva e Deixe Viver focar em crianças hospitalizadas, o jogo foi feito para ser utilizado também fora do ambiente hospitalar. "É indicado para qualquer criança ou adolescente e pode ser usado por toda a família. É interessante para ser levado à sala de aula também. Ele aumenta o repertório de palavras, estimula a criatividade e a atenção e ajuda a introduzir o hábito da leitura."
Flávia Manotvani
Folha Online, 01/08/08
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